16 de junho de 2009

Army@Love. Rick Veitch e Gary Erskine (Vertigo).

De acordo com os dicionários de citações, a ideia de que a realidade é mais estranha que a ficção parte de Mark Twain com esta frase: “Não nos surpreende que a verdade seja mais estranha que a ficção. A ficção tem de fazer sentido”. Veitch tem explorado sempre os outros lados do sentido, quer através do seu trabalho de diários oníricos quer através da sua excelente trilogia de super-heróis, que em muito serviu para a recalibração desse género nos anos 80 e 90 e não é tão apreciada, estudada ou lida como o deveria ser (The One, Bratpack, The Maximortal). Desta feita, numa América pós-11 de Setembro mas entalada entre o pesadelo já demasiado visível de Bush/Cheney/Rumsfeld e o sonho de Obama, mas na qual o pulsar de Hannah Montana/ Miley Cyrus se mantém constante (sobretudo no que diz respeito ao cashflow), e tanto informado pelos documentários de Michael Moore et al. como pela propaganda do exército (“Army of One”, que curiosamente surge nas mesmas páginas de muitos comics do mainstream norte-americano), Veitch vira as suas armas para o potencial, próximo futuro da vida militar norte-americana.
Army@Love coloca-nos na senda de um grupo restrito de soldados, e da rede de relações que tecem, num novo programa militar, o qual incorpora a essa vida de acção na linha da frente de um país chamado Afbaghistan toda uma série de regalias, desde acesso a telemóveis nas zonas de combate a retiros que são verdadeiras orgias típicas de filmes como Porky’s ou mesmo como collegefuckfest.com. Tudo graças à integração nas estratégias militares do sector empresarial, agregando gestores, especialistas de marketing, de psicologia do consumidor, etc. Há naturalmente toda uma panóplia de mecha/maquinaria inventada para este ambiente, como é típico desta classe de escritores (nos quais acrescentaria Morrison, Ellis, Millar, Moore). O que serve para explorar as tensões entre os ardis subliminares e o que se escapa para a percepção pública, entre os segredos de estado e os escândalos, entre a descriminação positiva no papel e as atitudes reais no terreno, entre ideias criativas genuínas e o seu subsequente aproveitamento pelo mercado. Mas o mais importante, como sempre para Veitch, é a análise e atenção à forma como a dimensão humana, sobretudo a mais primordial, brutal, se não mesmo viral, pode vir ao de cima mesmo no maior dos confortos materiais...
No entanto, no fundo Army@Love acaba por não se tornar uma ideia propriamente original. Em primeiro lugar, precisamente pelo facto de a realidade ser mais estranha. Quando o exército tira fotos a prisioneiros como se de animais de estimação se tratassem ou o que se passa nas bases e prisões pudesse ser tratado na forma de instantâneos de férias, quando o exército recruta através de um jogo de computador (“America’s Army”), quando existem há muito pequenos aviões-robôs para missões de reconhecimento e quem sabe de outras coisas (como os Astrea), quando os satélites-espiões-assassinos não são mais apanágio ficcional dos 007, e quando as dendrites da maquinaria financeiro-industrial é tão complexa que já não tem centro (menos o Big Brother do que uma hidra, ou a Skynet), percebemos, mesmo, que a realidade é bem mais estranha. Na revista Pública, um artigo de João Pedro Pereira apontava precisamente para as novas incursões do exército moderno em territórios que até agora eram apenas parte das fantasias da banda desenhada de super-heróis (Capitão América e Homem de Ferro à frente do pelotão; os espectadores dos últimos filmes da Marvel ou os leitores de Civil War, também dessa companhia, perceberão melhor o que esta dicotomia poderá significar).
É mesmo curioso que o trocadilho do nome do país onde este exército se encontra, “num futuro próximo”, não jogue com o nome do Iraque, onde ainda se encontra o exército norte-americano em força num dos maiores imbróglios da história militar recente, mas com o daquele país que o actual presidente dos E.U.A. já prometeu vir a tornar-se o palco da “próxima guerra” (se não for sempre a mesma, em torno de líquidos e pós que fazem girar a machina mundi). Outros trocadilhos fazem-se com nomes quer próprios quer de empresas, de uma forma algo similar àquela discutida em Démoniak: mas se os autores desse livro encontram no seu caos criativo linhas de força bem mais activas e frementes para responder ao caos da realidade (“mais estranha”), Rick Veitch utiliza-a para “criar/fazer sentido”, sendo esse sentido um olhar crítico e humorado da realidade militar desta nova era.
Por outro lado, Veitch não faz mais do que fazer uma actualização das fantasias semi-futuristas (isto é, que sendo futuristas, apenas apontam para alguns anos à frente e incorporando na realidade tecnologias e ideias – memes – que já são moeda-corrente no tempo presente) aliadas à vida e fantasia militares veiculadas pelos comics. Ainda que seja possível, eventualmente, procurar raízes mais difusas ou anteriores, encontramos no Capitão América o início dessa fantasia com o soro do Doutor Reinstein/Erskine (sim, o mesmo nome do arte-finalista desta mesma série) injectado nas veias do magrela Steve Rogers, depois transformado no grande soldado. Seguir-se-iam muitas imitações, passando pela excelente obra de revisionismo e crítica histórica-social mascarada de acção, Truth: Red, White & Black, de Robert Morales e Kyle Baker, mas é pelas páginas do Homem de Ferro, de Nick Fury, Agent of S.H.I.E.L.D., e, mais recentemente, em toda a série The Ultimates e Ultimate Fantastic Four, para ficarmos pela Marvel, que tal dimensão se explora. Inteligentemente, e fazendo parte de todo o processo de revisionismo possível nesta companhia, procurou-se uma união entre todas estas histórias da busca por um soldado perfeito naquilo que se deu início com Grant Morrison na sua contribuição para os X-Men, transformando Logan/Wolverine, o famoso “Arma X”, em “Arma 10”, sendo essa a 10ª experiência dessa busca (de que o Capitão América negro de Morales e Baker seria uma das cobaias, o Ultimate Hulk um acidente de percurso, e assim sucessivamente).
Unindo estas ideias, e procurando outra, o caso torna-se ainda mais complicado e até assustador. Nas páginas de The Authority, Mark Millar (e Frank Quitely) imaginam a situação em que um génio louco (como não?) utiliza uma tecnologia incrível para transformar gente aparentemente normal em super-seres selvagens e prontos a acatar ordens para black-ops de um governo/exército sombrio... Esse génio louco foi recrutado do mundo da banda desenhada, e chama-se Jacob Kriegstein (trocadilho duplo perfeitamente inteligível por amadores dos comics). E é aqui que a ideia mais estranha surge, aliada a Army@Love. E se este livro não for um título alternativo, verdadeiramente crítico da conjuntura económica, social e militar dos Estados Unidos e seus aliados (como o são os trabalhos da World War III, editados por Peter Kuper, que assina o prólogo do primeiro volume), mas antes uma caixa de Petri para experimentar ideias que possam depois se aproveitadas pelo exército real?
Depois de smart bombs, bastará esperar pelo “futuro próximo” para ver o quão estranha pode ser a realidade que siga as pisadas da ficção.

3 comentários:

refemdabd disse...

Mais uma vez, excelente texto. Excelente review aos aspectos inerentes à actual sociedade Norte Americana.
O título desta série (e a própria série)será uma "charge" ao antigo título "Our Army at War"? O que é que achas?
O Erskine está particularmente bem nesta série.

Pedro Moura disse...

Obrigado.
Tendo em conta todo o historial (horrendo, diga-se de passagem) dos "war comics" americanos do pós-II Grande Guerra, em que os títulos de super-heróis entraram em declínio para benefício de outros géneros, inclusive esse, e ainda para mais tendo em conta o progressivo aumento da sua violência dada a influência das "proxy wars" suas contemporâneas, o que não falta para Rick Veitch é material de trabalho...
Quanto ao trabalho do Erskine, é melhor arte-finalista do que desenhador, sendo os seus "Dan Dare" e "Jack Cross" sofríveis e o "City of Silence" bem horroroso.
O Veitch tem um trabalho de linha muito sinuoso e dado a representar muitas coisas como líquidos lentos, e isso talvez se perca com a arte-final. Mas "dá p'ró gasto".
Até breve,
Pedro

refemdabd disse...

De facto, são gostos. É preciso situá-los no tempo, no entanto. A escola do Kubert lá vai fazendo história. Eu, pessoalmente, isto é, ainda hoje gosto de revisitar esses títulos "cheesy" da WWII. Obviamente dou-lhes o disconto merecido para a cena "America Hurrah"...para a qual hoje não tenho muito estômago.
O Erskine não convence como desenhador, é verdade. Vale-lhe a simpatia, que pelos vistos dá frutos ao ter convites para desenhar quando existirão outros muito mais competentes.