30 de abril de 2014

Demeter. Becky Cloonan (auto-edição)

Em termos superficiais, Demeter coordena-se com os dois outros títulos que a artista auto-publicou nos últimos anos, a saber, Wolves e The Mire. Há mesmo quem fale de uma trilogia, apesar de não existirem elos directos, pelo menos diegéticos, entre estas narrativas. Existirá, decerto, uma certa ambiência, que bebe de ideias, sempre vagas e não exploradas em termos de contextualização histórica específica, de uma Europa do norte medieval, prestes a sair das “Trevas”, mas onde ainda resistem elementos provindos dos contos tradicionais, das religiões antigas pagãs, da magia da terra e de sombras menos benfazejas que habitam a noite. E sempre para se concentrar em contos curtos centrados em relações amorosas e destinadas à tragédia, ou pelo menos a estranhas felicidades. A autora parece interessada em explorar toda uma série de ideias feitas e imagens pré-fabricadas, não tanto para as subverter, mas para criar pequenos relatos sobre uma emoção. Nesse sentido, em nada difere da tradição que parece mimar, precisamente. (mais)

27 de abril de 2014

Dans ma maison de papier. Pierre Duba e Philippe Dorin (Six pieds sous terre).

Este livro é uma cadeia de diálogos entre linguagens artísticas, de forma a fazer emergir um objecto tão heterogéneo nos elementos que o compõem como na coesão que os unem. O ponto de partida é uma peça teatral para três personagens escrita por Dorin, cujo título completo é Dans ma maison de papier, j'ai de poèmes sur le feu. E de facto, há um incêndio no seu interior. (mais)

26 de abril de 2014

Exposição "Succedâneo" na Moagem (Fundão).

Serve o presente post para divulgar mais alargadamente um texto que escrevemos para a folha de sala referente à exposição "Succedâneo", n'A Moagem - Cidade do Engenho e das Artes. Trata-se de uma mostra das produções fanzinísticas de João Bragança, do famoso Succedâneo e outros fanzines-objecto. Esta exposição estará patente entre 12 de Abril e 18 de Maio, e é merecedora de uma visita, uma vez que estes objectos, apesar de terem já estado expostos noutras ocasiões, como por exemplo no Tinta nos Nervos, encontra-se aqui apresentada não apenas de forma exclusiva, o que permite sublinhar a sua importância, o seu lugar único na produção nacional, mas também internacional, mas além disso abrindo um caminho para, de uma forma especial e exclusiva, pensar estes objectos e território sem pedir favores a outras áreas artísticas de maior consolidação social. O texto procurou responder às várias solicitações necessárias a uma folha de sala para uma exposição desta natureza, de uma forma o mais sucinta possível (o que é uma qualidade, como sabem, desconhecida para este escrevinhador). Ficam aqui os agradecimentos a João Bragança e a Pedro Novo pelo convite, e os parabéns pelos 10 anos de estranhezas.(mais)

23 de abril de 2014

Les Schtroumpfs noirs (version bleu)

Serve o presente para dar conta de um texto que publicámos, em exclusivo, e somente em inglês e tradução francesa, no site du9. Trata-se de mais um exercício de détournement artístico, do mesmo autor de Katz, e sobre o primeiro álbum publicado dos Estrumpfes por Peyo, em 1963, em que aparentemente os fotolitos da quadricromia original passaram todos a cyan, criando assim uma espécie de "pasta" homogénea cromática, mas ao mesmo tempo levantando questões, a nosso ver interessantes, sobre representação, apropriação, transformação, apagamento e acentuação, etc.
Podem encontrar o texto aqui.

22 de abril de 2014

Astronauta. Magnetar. Danilo Beyruth (MSP/Panini)

Tal como havíamos discutido em relação a Laços, não podemos tintar, a partir da perspectiva criada pela obra hodierna, a produção anterior. Por isso discordamos profundamente com a ideia de que as histórias do Astronauta seriam aquelas mais “adultas” da produção MSP, mesmo no seio dos gibis. Isto não significa que não aceitemos existirem, entre as histórias, diferenças que insuflem vários graus de maturidade, complexidade, continuidade entre as histórias, camadas de intertextualidade que enriqueçam a experiência da leitura, etc. E o facto de os adultos poderem tirar prazer de uma obra infanto-juvenil não é um argumento em si mesmo, pois tudo depende do tipo de prazer que se retira. Haverá seguramente uma diferença fundamental entre compreender as camadas intertextuais “adultas” presentes em Astérix, perceber a subversão dos propósitos superficiais em The Magic Roundabout (versão inglesa) ou Ren & Stimpy, ou aproveitar o embalo de entretenimento e humor simples de uma BD/HQ infantil. Pensamos ser este último o caso da MSP, e não outra configuração.(mais)

21 de abril de 2014

Piteco, Ingá. Shiko.

Num quadro de discussão atreito a estes livros produzidos pela MSP, será algo inevitável criar uma apertada rede de relações, se bem que nada nos pode impedir de necessariamente fazer outro tipo de ligações, ora com outras obras dos mesmos autores, ora num plano nacional, ora de género, etc. Mas se nos ativermos a estes grupos, diríamos que Ingá está mais próximo de PavorEspaciar, tal como Laços cria uma dupla com Magnetar. A razão destes “pares” deve-se ao facto de que neste livro, tal como no caso do de Gustavo Duarte, estarmos perante uma história dinâmica mas de trama necessariamente linear. Quer dizer, não poderemos olhar para Ingá na expectativa de vermos um exercício de sofisticação no que diz respeito a metalinguagens, jogos pós-modernos, reinvenções “não-naturais” da narrativa e por aí fora... Bem pelo contrário, a narrativa parece criada precisamente para que se possam atravessar vários espaços, cada qual revelando mais uma personagem, sobretudo todas aquelas que compõem a “matéria” da “Turma do Piteco”, e as quais vão sendo introduzidas à la deus ex machina. Mas essa estrutura clássica é perseguida com grande mestria. No interior dessa circunferência, Shiko assegura-se que os ingredientes estão nos sítios certos, nos momentos certos e de forma a que a trama seja necessária em si mesma, jamais parecendo uma lista a ser garantida.(mais)

20 de abril de 2014

Turma da Mônica. Laços. Vitor Cafaggi e Lu Cafaggi (MSP/Panini).

Das versões vindas a lume neste projecto, Laços é aquele que tem angariado mais reacções emocionais da parte dos seus leitores. De certa forma, a conquista deste livro está menos do lado da sua estrutura narrativa, ou até mesmo da sua capacidade em reinventar estas personagens, do que na integração delas num esquema emocional relativamente diferente, talvez mais complexo, do que o usual, mas sobretudo importante pela sua relevância histórica, uma vez que se vem prender a mecanismos nostálgicos da geração dos seus criadores e leitores “principais”, que serão adultos que leram a Mônica nas suas infâncias, hoje distantes, mas que ressoam nos filhos, por exemplo. (mais)

18 de abril de 2014

Chico Bento, Pavor espaciar. Gustavo Duarte.

Dos quatro primeiros títulos desta série, Pavor espaciar parece ser aquele que melhor se coaduna com a típica estrutura narrativa das mais costumeiras aventuras dos gibis. Seria preciso um estudo mais aturado, mas a grande esmagadora maioria da produção das narrativas da Mônica e títulos companheiros são de histórias curtas, que raramente ultrapassam as dez páginas. É claro que com mais de 6 décadas de produção, a nova linha Jovem e adaptações de histórias tradicionais,, literárias ou cinematográficas em monografias especiais, existem narrativas mais longas, e mesmo no interior dos gibis será possível descobrir histórias por volta de 20 páginas, o que é raro mas não inédito: Mas o ponto forte são as curtas. Fazer histórias curtas, porém, num género como o habitual da MSP, significa que é necessário encontrar um bom equilíbrio entre brincar com expectativas e as características típicas das personagens, assim como com o humor ou a possibilidade de citações e variações de temas. (mais)

17 de abril de 2014

Antologias MSP.

Em quatro publicações com centenas de gestos diferentes entre si, é algo difícil fazer um juízo global, e inevitável que se sintam diferentes intensidades a nível narrativo e/ou visual, que fazem imaginar a possibilidade de um crivo mais rigoroso. No entanto, o objectivo de todas as antologias era duplo: por um lado, permitir um novo “fôlego” a estas personagens através do seu uso por autores alheios à política de estúdio da MSP, e por outro servirem também de uma espécie de embaixada da cultura contemporânea dos quadrinhos brasileiros, tudo isto sob o signo, ou desculpa, de uma homenagem às personagens e ao seu autor, por altura das comemorações. Estamos a falar aqui dos três títulos MSP por 50 artistas, MSP por + 50 artistas e MSP por 50 novos artistas, já que Ouro da casa trabalha exclusivamente com os artistas que trabalham no estúdio MSP, mas dando-lhes a oportunidade de “assumirem” uma linguagem própria, fora do “estilo” oficial (house style).(mais)

15 de abril de 2014

Edições especiais MSP. Introdução 2.

Parte 2. (parte anterior) 
É importante recontextualizar os passos de Maurício de Sousa no seu tempo, na medida em que batalhava num mercado ocupado sobremaneira por publicações com material estrangeiro, quer para públicos adolescentes (os livros de super-heróis da DC) quer para os mais jovens (com as revistas da Disney), mas cuja conjuntura cultural e política era marcada por um rejuvenescimento do Brasil - a nova capital, Brasília, é fundada em 1960 - e um crescimento económico e industrial indesmentível. Waldomiro Guerreiro e Nadilson Manoel da Silva, em dois artigos no primeiríssimo número do IJOCA (o de Guerreiro precisamente sobre o surgimento da obra de Maurício no contexto dos quadrinhos infantis do Brasil, o de Silva sobre banda desenhada  adulta), colocam o pai da Turma num palco cultural brasileiro onde se encontra o Cinema Novo de um Glauber Rocha, a poesia concreta e a bossa nova. (mais)

14 de abril de 2014

Edições especiais MSP. Introdução.


Parte 1.
Nos próximos dias, deixaremos alguns apontamentos sobre toda uma série de livros produzidos pelos estúdios da Maurício de Sousa Produções, nos últimos anos, no quadro das comemorações sucessivas dos aniversários das várias personagens criadas por Maurício de Sousa, e as publicações - tiras, revistas, etc. - que lhes estão associadas. Começando por Bidu, rapidamente se chegaria a Cebolinha, Chico Bento e depois a Mônica, que acabaria por se tornar a personagem principal, ou eixo representativo, desse universo de referências. Os 50 anos da Mônica levaram a toda uma série de publicações comemorativas, num ritmo de produção pujante, desde a reedição das tiras “clássicas”, ao relançamento dos números de todas as revistas principais em caixas coordenadas, já para não falar de edições especiais, como aquela “de luxo” produzida pela Levoir e distribuída por dois diários portugueses. (Mais)

11 de abril de 2014

The Visual Language of Comics. Neil Cohn (Bloomsbury)


À medida que se publicam cada vez mais livros, e decisivos, de estudos dedicados à banda desenhada, não é de surpreender que surjam gestos que tentam, de uma forma ou outra, criar um edifício teórico que pretende ser algo "universal" ou, se não isso, pelo menos de grande "aplicabilidade". O livro de Cohn integra-se nessa categoria, se bem que tenhamos de distinguir intenções de conauistas efectivas. O sub-título, Introduction to the Structure and Cognition of Sequential Images, é bastante explícito sobre o seu propósito, se bem que Cohn apresenta aqui uma teoria de grande sofisticação que vai bem para além de um nível “introdutório”, e, de uma forma sumária, podemos dizer que procura ancorar-se em lições advindas de vários campos específicos da linguísticas com contributos de outros campos, inclusive a psicologia cognitiva e algum grau da semiótica social. (Mais)

7 de abril de 2014

"Articulações" 1, no Bandas # 3.

Ainda para falar de colaborações, poderão encontrar um podcast do programa "Bandas", no blog de Nuno Pereira de Sousa, onde dei início a uma espécie de crónica ensaística, que será algo irregular, e que terá por nome Articulações.
Procurem aqui.

Colaboração no aCalopsia. "Vida de Zíngaro".

Dando continuidade às colaborações com outros espaços, aponto aqui uma conversa (não entrevista) com Carlos Zíngaro, algo datada, mas sempre merecedora de alguma atenção, sobretudo o trabalho daquele autor.
Aqui.

4 de abril de 2014

Colaboração no du9. 978, de Pascal Matthey.

Serve o presente post para indicar que demos início a uma colaboração que esperamos regular com o site francófono du9, um dos sites com alguns dos melhores textos críticos sobre banda desenhada em língua francesa que conhecemos, e onde se procura de facto pensar os textos.
Esta primeira colaboração - acessível aqui - não é senão a tradução (eventualmente com algumas adaptações) do texto sobre 978 de Pascal Matthey, de que falámos aqui. Porém, podemos desde já indicar que as próximas colaborações serão exclusivas, "transitando" alguns dos livros de que falaríamos aqui, sobretudo internacionais, para o du9.

Uma história no The Lisbon Studio Mag # 6

Mais uma vez, colaborámos na The Lisbon Studio Mag, desta feita com uma história curta co-criada e desenhada por Amanda Baeza. Além disso, naturalmente, encontrarão muitas outras coisas excelentes, desde uma história com alguns anos do Pedro Brito e que é óptimo revisitar, uma estranha paródia mas ainda assim algo emotiva do Capitão Saraiva, uma intrigante galeria de retratos de Ricardo Cabral, e muitas outras descobertas dos suspeitos do costume.
Acesso directo aqui.
Mais uma vez agradecemos aos editores do TLSMag, e a Amanda Baeza, por tudo.