15 de maio de 2017

Martha & Alan. Emmanuel Guibert (L’Association).

Esta autobiografia tecida por um outro é um projecto notável. Uma vez que havíamos dedicado algum tempo ao debate do que significa em termos culturais este gesto de Guibert, o de criar vários livros “d'aprés les souvenirs d'Alan Ingram Cope”, em que a voz está na primeira pessoa mas toda a sua estruturação e mediação é feita por um “terceiro” (uma das palavras associadas à ideia de “testemunha” em termos etimológicos), remetemos às notas sobre o último volume de La guerre d'Alan e L'enfance d'Alan para compreender o pasto de onde emerge este novo livro. Todavia, Martha & Alan é uma criatura bem distinta, por questões formais, textuais e estilísticas. (Mais) 

13 de maio de 2017

Sticks Angelica, Folk Hero. Michael DeForge (Koyama)

Pensamos que este é o projecto narrativo mais longo do autor, se bem que ele não se apresente com uma estrutura tipificada de livro. Afinal de contas, trata-se de uma tira semanal (irregular, porém) publicada online ao longo de quase um ano (e ainda disponível aqui). E se existe uma história central unificada e quase-coerente, ao mesmo tempo existem consideráveis desvios, ”excreções” ou alterações do ponto de vista que permitem expandir a perspectiva sobre as situações graças a outras personagens que não a protagonista, Sticks Angelica, ou desarrumar a organização temporal. Seja como for, a forma como a “história” é fechada, com uma prolepse já depois da morte da personagem, torna todo o material numa unidade fechada e coesa. (Mais)

12 de maio de 2017

Les têtards. Pascal Matthey (L’employé du moi)

Ao olharmos agora para o conjunto de alguns dos seus livros, compreendemos que Pascal Matthey tem na autobiografia uma das suas preocupações centrais. Este pequeno volume vem na sequência de Le verre de lait, Pascal est enfoncé, do qual falámos largamente aqui, de Du shimmy dans la vision, e de outras pequenas peças espalhadas pelas mais diversas antologias. Conforme o que já havíamos discutido a propósito desse livro anterior, a equação entre autobiografia, auto-ficção, desvio autobiográfico, versão, etc. é algo elástica, e é tão necessária na sua categorização ou análise quanto supérflua na sua leitura. Depende, portanto, da escala de atenção. (Mais) 

3 de maio de 2017

Heavy Metal, l'autre Métal Hurlant. Nicolas Labarre (Presses Universitaires de Bordeaux) & entrevista no The Comics Alternative.

Por ocasião da leitura deste livro, entrevistámos o seu autor, na nossa colaboração com The Comics Alternative. A entrevista está disponível aqui. Uma vez que nesse outro texto tecemos outras considerações e a própria entrevista sublinha aspectos do livro de Labarre, ficam aqui apenas alguns outros apontamentos complementares. O foco deste livro são os primeiros anos da revista norte-americana Heavy Metal (HM), no quadro da sua relação directa com a influente publicação francesa Métal Hurlant (MH). Com efeito, a HM nasceu como um projecto editorial afecto à plataforma que publicava a National Lampoon, até certo ponto uma herdeira mas igualmente desvio da Mad magazine, e que tinha como objectivo a divulgação desse material europeu nos Estados Unidos. Todavia, até hoje a HM é vista como uma versão deslavada, necessariamente inferior, da Métal Hurlant: menos experimental, menos influente, mais atreita a géneros de pouca intensidade criativa (ficção científica e high fantasy “clássicas”) e um claríssimo propósito machista, com as suas capas de pinups. Não é que essa imagem seja totalmente injusta, mas o grande objectivo de Labarre neste volume é corrigir a exatidão histórica das relações entre as revistas e uma mediascape mais alargada e, de certa forma, matizar o juízo sobre a revista americana, a qual criou “uma forma inédita nos Estados Unidos de negociar a articulação entre o underground e a banda desenhada de grande público” (207). (Mais)

30 de abril de 2017

RIP. François Henninger (auto-edição)

A presença da colagem como um dos possíveis instrumentos da banda desenhada não é de forma alguma uma novidade. Num artigo presentemente no prelo, num livro colectivo dedicado à abstração em banda desenhada, regressámos ao livro 978 de Pascal Matthey e à obra de diceindustries para tentar compreender não apenas esta “tendência” como também quais os contornos precisos da técnica e as suas potencialidades expressivas, políticas e de representação. Se podemos falar de Jack Kirby num campo estrito da banda desenhada, também poderíamos arrolar Max Ernst, Jess e Cátia Serrão em práticas mais expandidas e contaminadas da banda desenhada ou nas suas margens confundidas com as artes visuais. O alcance deste pequeno zine de François Henninger – com que nos havíamos cruzado em algumas publicações alternativas, e de quem lêramos Lutte des corps et chutes de classes – leva muitas das revisitações do material mortificado pela tesoura a atingir paroxismos maximais, que poderão devolver alguma urgência à banda desenhada que serviu de “matéria-prima”. (Mais) 

27 de abril de 2017

Três títulos da Avery Hill. AAVV.


Três passeios por paisagens inconstantes. A Avery Hill é uma recente e pequena editora londrina que parece disposta a fazer apostas numa certa diversidade de linguagens da banda desenhada, que tanto poderá compreender gestos algo experimentais como outras abordagens mais convencionais, mas ainda assim informadas por sensibilidades e estilos contemporâneos, abertos a um diálogo entre vários géneros, e sempre sob o signo da tranquilidade. Dos que nos foi dado a ler, vimos precisamente como constante a exploração dos mais distintos mundos ficcionais, que podem compreender a ficção científica, a fantasia, o fantástico, o mundano e até o horror, mas sempre numa pausada e certeira caminhada. Os três livros que trazemos aqui à colação, de uma forma ou outra, dão-nos a impressão de estarem unidos por “passeios” idênticos, sejam eles mais próximos da ficção ou da autobiografia, e procurando vários graus de experimentação gráfica, narrativa ou de composição. (Mais) 

24 de abril de 2017

Colaboração no The Comics Alternative: It's No Longer I That Liveth, Francisco Sousa Lobo.

O último livro de Francisco Sousa Lobo inscreve-se de uma maneira intensa no seu projecto contínuo de auto-ficção. As afinidades com aquilo a que chamámos o "Poema Contínuo" de Baudoin é por demais assinalado na obra de Lobo, um pouco como, se bem que com instrumentos distintos, dos de Marco Mendes no seu Diário rasgado. Este último título traz para primeiro plano a relação complexa coma fé, a sexualidade e a difícil comunicação com os outros seres humanos, no cadinho mais tumultuoso da vida de uma pessoa na sociedade ocidental: a adolescência. Menos do que um Bildungsroman, It's No Longer That I Liveth é uma demolição da personalidade, uma mortificação, para nela tentar ver se existe alguma fagulha ainda sobrevivente... O texto maior sobre este livro foi escrito em inglês para The Comics Alternative, deixando aqui o link directo.

15 de abril de 2017

Gaïa. Thierry Cheyrol (La Cinquième Couche)

Se tivermos em conta alguns dos exemplos incluídos em Abstract Comics, e experiências quer narrativas como algumas das peças incluídas em A Graphic  Cosmogony ou mais experimentais como 978, apercebermo-nos-emos de que tem surgido uma espécie de tendência em explorar formas de representação das transformações e devires em tempos dilatados, através das potencialidades expressivas da banda desenhada, para criar quadros de compreensão à escala humana. Noutras palavras, transformar a banda desenhada numa espécie de filtro, gráfico neste caso, que permita “dar a ver” fenómenos usualmente for do campo da visibilidade ou experiência humanas, de uma forma a poder criar um qualquer grau de relacionabilidade. (Mais) 

9 de abril de 2017

Torrente de ilustração (várias editoras).


Permitam-nos iniciar este texto com uma nota pessoal e um pedido de desculpas. A nota pessoal prende-se com uma justificação de termos estado “em silêncio” em relação a toda uma série de livros ilustrados para a infância que têm sido publicados nos últimos meses em Portugal, não por falta de atenção e menos ainda por falta de interesse, mas devido a vários compromissos profissionais e académicos que nos têm impedido de poder fazer uma recepção crítica mais atempada, individualizada e específica a cada um desses projectos. O pedido de desculpas deve-se às editoras, que têm sido generosas em deixar-nos a par das suas novidades e apostas editoriais, que não acarreta de forma alguma a obrigatoriedade de escrever sobre elas mas parte de um pressuposto de atenção, dada a (ainda) desequilibrada recepção crítica desta produção nos meios de comunicação mais massificados, e mesmo nos mais especializados reduzidos muitas vezes a discursos impressionistas. Porém, esse pedido de desculpas deve ainda dizer respeito ao presente texto, pois ao abordar mais de trinta títulos de um só fôlego, é mais do que natural que incorramos numa profunda injustiça, já que nem poderemos entrar numa leitura formal pormenorizada que cada título mereceria nem poderemos dar conta de um juízo de valor mais argumentado e claro. (Mais)

3 de abril de 2017

Trump Card. Rudolfo (Chili Com Carne/Ruru Comix)

Já em ocasiões anteriores havíamos falado dos projectos do artista conhecido por Rudolfo, inclusive aqueles em que a personagem Musclechoo aparecia nas suas estranhas aventuras. “Estranhas” aqui deverá ser lido como sinónimo de híbrido, não apenas no que o seu nome revela, mas igualmente em termos de géneros de banda desenhada, que não escondem as suas clássicas características, que o autor revisita, misturando-os. (Mais)