14 de março de 2018

Fearless Colors. Samplerman (Mmmnnnrrrg et al.)


Na contracapa deste volume antológico, que colecciona grande parte da produção do autor francês nesta sua vertente de bandas não desenhadas mas coladas, encontramos uma mulher, numa espécie de função de Atlas, a segurar um globo terrestre. Calcorreando a sua circunferência, encontramos várias personagens retiradas de variados territórios da banda desenhada, que apesar de se encontrarem num putativo intervalo limitado – diríamos a banda desenhada de género(s) e comercial das décadas de 1930 a 1950, sobretudo americana –, representariam vários registos: a aventura, o policial, a comédia, o biográfico-histórico, o fantástico, etc. Há femme fatales, um vilão, um hillbilly, um cientista ao microscópio, bebés nadadores, uma tribo de mulheres-gato, a mão de um pescador, uma pomba e uma manivela. Talvez estas personagens avulsas e diversas não tenham aqui um valor narrativo propriamente dito, mas em relação à expressão feliz e celebratória da cariátide do mundo poderão cumprir o papel de signos de um arquivo maior: aquele que está disponível e é empregue pelo artista, para a sua prática transformativa e criativa. (Mais)

2 de março de 2018

Pentângulo 01. AAVV (Ar.Co/Chili Com Carne)

Serve o presente post para indicar que já está em circulação e venda o primeiro volume da Pentângulo. Trata-se de um projecto nascido no seio dos cursos de banda desenhada e ilustração (e afins) do Ar.Co, em colaboração com a editora Chili Com Carne, e pretende ser um gesto anual.

Estes livros agregarão quer trabalhos desenvolvidos no decurso do próprio processo de ensino-aprendizagem, destacando-se os melhores "T.P.C.s", quer projectos pessoais dos alunos, que se integrarão no ensejo central do título. É o caso das produções de Sara Boiça, Mathieu Fleury, Simão Simões ou Stéphane Galtier. Em princípio, existirá uma linha temática que conduzirá uma das partes dos volumes, que é depois explorada da forma mais variada possível. Neste primeiro gesto, o tema foram as mulheres artistas dos vários movimentos das vanguardas estéticas do início do século XX, sobretudo russas. 

Mas haverá igualmente oportunidade para envolver ainda, como é o caso, os professores ou antigos alunos, que poderão ir conquistando maior ou menor espaço na paisagem editorial destes campos. Com efeito, encontrarão aqui trabalhos de autores como Rodolfo Mariano, Cecília Silveira (com uma peça a um só tempo divertidíssima e politicamente forte), Vasco Ruivo, Dileydi Florez (uma peça visualmente soberba), o colectivo Triciclo, Martina Manyà, Gonçalo Duarte e Igor Baptista, cujos nomes têm já lugar nos circuitos de fanzines ou da edição independente, e conhecidos dos leitores mais atentos. Francisco Sousa Lobo, antigo aluno, dispensará apresentações, dada a sua fortíssima presença e produção na "cena" nacional. Daniel Lima (na capa) e Amanda Baeza também participam, na qualidade de formadores da casa.


Também na qualidade de docente daquela instituição há uns anos, e como aspirante a argumentista, participo no volume duplamente. Em primeiro lugar, com um brevíssimo ensaio sobre o plágio na banda desenhada. Em segundo lugar, com uma história de dezassete pranchas (mais título), que respeita o tema indicado acima mas através de uma ficção, e com desenhos de Carolina "Zarolina" Moreira, Vasco Ruivo, Cecília Silveira e Martina Manyà, cada uma destas assinaturas tomando uma das camadas de Estratigrafias (a imagem que mostro é uma montagem de cortes).

Procurem!

1 de março de 2018

Participação em Mesa-redonda: 7 de Março, FLUL


Por ocasião do Dia Internacional da Mulher, a 8 de Março, terá lugar uma mesa-redonda na Faculdade de Letras de Lisboa, organizada com a American Corners, dedicada à personagem Mulher-Maravilha. O painel será composto pelas Professoras Lisa Botshon e Diana Ramos, e este vosso servente. 

Terá lugar na Quarta-feira, dia 7, pelas 17h00, no Anfiteatro III, da Faculdade de Letras de Lisboa (à Cidade Universtária).

Enquadrado num contexto da representação feminina na banda desenhada e no entretenimento popular, na história e desenvolvimento múltiplo desta personagem criada em 1941 por William Marston e as sucessivas revisões, entre as quais a mais recente versão cinematográfica, de enorme impacto para além dos fãs usuais, e questões mais abrangentes como o feminismo contemporâneo e o papel da fantasia (depreendendo-se aqui um termo específico de laivos psicanalíticos e políticos), da minha parte apenas tentarei não abusar do mansplaining (mas não prometo, nem desejo, abster-me dele!).

19 de fevereiro de 2018

Ar.Co: Workshops de Argumento


Serve o presente post para anunciar que começará esta semana uma série de workshops de argumento para banda desenhada na escola Ar.Co, em Xabregas, Lisboa, que está abertos a inscrições externas, servindo de cursos curtos. O formador é este vosso criado e amigo. As sessões são sempre às Quartas, entre as 18h30 e as 20h30. 

O público-alvo são todos aqueles que desejem aprender os primeiros passos em termos de planificação de uma história a ser contada visualmente ou artistas que pretendam melhorar os seus processos de trabalho. 

A primeira sessão, "autónoma", é já esta Quarta-feira, que funcionará como uma espécie de masterclass sobre o papel do argumentista na história da banda desenhada, mas também alguns dos desenvolvimentos contemporâneos, e uma breve panorâmica sobre alguns dos métodos empregues nas várias indústrias.  

Seguir-se-ão depois três cursos de três sessões de duas horas cada, dedicadas à escrita e desenvolvimento de argumento para banda desenhada (ou outros territórios contíguos) nas seguintes frentes: adaptação de contos, adaptação de poesia, criação a partir de imagens encontradas. Poderão inscrever-se em todos ou apenas em um, havendo conteúdos independentes. 


Para mais informações, visitem o site do Ar.Co [em «Formação» - «Ilustração/Banda Desenhada» - «Formação pontual»] ou telefonem para o 218801010. 

2 de fevereiro de 2018

Gravidez. Júlia Barata (Tigre de Papel)

De tempos a tempos, vemos a abertura de novos territórios na banda desenhada em Portugal. Gravidez, não sendo propriamente uma novidade em termos genéricos ou estilísticos, é-o todavia no seio da nossa própria cena, que ainda continua, apesar da sua mais recente saúde, arreigada a abordagens relativamente convencionais e expectáveis. Este livro, para além de ser a primeira experiência de fôlego da artista e ilustradora portuguesa radicada na Argentina, é também a primeira incursão neste campo criativo pela livraria-editora Tigre de Papel, tornando-se portanto duplamente uma “nova voz”. (Mais) 

24 de janeiro de 2018

Desenhos efémeros. António Jorge Gonçalves (Orfeu Negro)

Serve o present post para indicar que já está disponível o volume Desenhos efémeros, de António Jorge Gonçalves. Trata-se de um tomo considerável, com mais de 300 páginas, que reúne material fotográfico e documental das experiências em levar o acto de desenhar para os palcos preconizado pelo artista. Seja sob a forma de uma banda desenhada “explodida”, com a cenografia, figurinos, cenários, etc. de O que diz Molero, em 1994, sejam os primeiros “diálogos” de improviso com músicos a solo ou aos variadíssimos projectos de espectáculos de desenho ao vivo que tem vindo a desenvolver nos últimos anos, nos mais variados contextos, e em âmbitos distintos em termos de público, género, grau de interacção com os espaços, e as relações interartes implicadas, temos aqui um passeio cronológico dessa dimensão do seu trabalho.



O volume é sobretudo imagético, e é fruto de um aturado trabalho de arquivo, pesquisa e, necessariamente, uma espécie de longo gesto de agregação das colaborações de Gonçalves, vistas não apenas como momentos de aprendizagem, encontro, experimentação, interrogação, desenvolvimento do próprio artista e da sua lavra, como dos estímulos mútuos que permitiu tanto aos seus interlocutores criativos como aos públicos. Como modo de reforçar os conceitos que subjazem estes actos e ajudando à consolidação da história, o autor convidou várias pessoas para escreverem sobre esta dimensão, sobretudo junto a colaboradores de longa data. É assim que se arrola a presença de Rui Eduardo Paes, Carlos Pimenta e, claro, Nuno Artur Silva, com quem Gonçalves criou a série Filipe Seems, trazendo uma nova exigência à banda desenhada contemporânea portuguesa. Além dos ensaios desses três colaboradores, conta-se ainda com uma entrevista com Anabela Mota Ribeiro, deslidando o percurso e os desdobramentos sucessivos da linha, associando esses espectáculos à banda desenhada e ilustração, aos famosos desenhos no metro, a outras vertentes. Conta-se ainda com um breve texto deste vosso criado, numa tentativa breve de pensar as implicações específicas do desenho em performance, intitulado “Da efemeridade da retina”.

4 de dezembro de 2017

Colaboração em "Guimarães. Cidade visível".

Serve a presente mensagem para indicar que, no quadro da Bienal de Ilustração de Guimarães (a BIG), foi publicado na revista do município, a Guimarães. Cidade Visível no. 5 (Julho-Dezembro 2017), um pequeno texto meu que debate algumas ideias em torno da ilustração, suscitada pela própria bienal, as suas exposições e a oportunidade de coordenar o seu pequeno ciclo de palestras, A Teia da Ilustração.

Esse texto, "Ler com olhos de ver", repesca muitas das questões que fomos debatendo ao longo de anos neste mesmo espaço, ou na nossa actividade crítica e de docência, procurando um foco e concentração neste contexto mais específico. A revista é gratuita, mas a sua distribuição está limitada ao próprio município daquela cidade. Este número tem ainda o texto de comissariado e apresentação elaborado por Jorge Silva em torno do veterano da ilustração homenageado nesta primeira edição da BIG, Luís Filipe de Abreu, com algumas reproduções do seu magnífico trabalho.

[O editor, Paulo Pinto, disponibilizou o link para acesso digital à revista, aqui. Agradecido.]


Aproveitamos a oportunidade para recordar que no próximo Sábado, dia 9, pelas 15h, no Centro Internacional das Artes José de Guimarães, terá lugar a terceira e final palestra do ciclo, com o professor e artista Paul Hardman, em que discutiremos os contextos da criação e a flexibilidade de responder aos desafios múltiplos da ilustração. 

22 de novembro de 2017

Fernando Relvas: 1956-2017.


Morreu-nos o Fernando Relvas.

Esta expressão – acrescentando o pronome reflexo àquele verbo que, de tão intransigentemente intransitivo assinala uma transição derradeira – é egoísta. Mas é também apropriada, como se uma morte fosse uma afronta pessoal para quem fica vivo e sente, de uma maneira ou outra, que lhe fizeram uma desfeita. Uma promessa incumprida, uma conversa inacabada, uma pergunta por fazer.

Este não é o local de fazer panegíricos. Os artistas não precisam de elogios, mas de serem lidos, e vistos, e pensados, e tivemos a oportunidade, quando da exposição Horizonte, Azul-Tranquilo, de escrever (pouco) aquilo que tínhamos a dizer da vida e obra de Fernando Relvas, que a Bedeteca nos permitiu, e o próprio Relvas, sempre disponível. Chamámos-lhe "sismógrafo" e "hápax", dois "insultos" a que o "urso" responderia com um encolher de ombros, indiferente, como deve ser, aos discursos ao quadrado. Ao revisitar algumas fotografias da montagem da exposição, deparámo-nos com esta, que então estava cheia de promessa, e agora se reveste de um sentimento de perda. Ainda assim, ainda assim, a paisagem está prestes a ser preenchida, a saída de emergência convida ao salto, o balão a que escutemos com atenção...

O Relvas foi, a nosso ver, um “artista de artistas”, naquele sentido em que a sua lavra e obra teve mais impacto sobre toda uma (ou mais) geração de artistas que se seguiram do que propriamente junto a um público mais massificado. Em parte, isso terá a ver com o facto de que a sua produção foi seguindo as variadíssimas circunstâncias em que as possibilidades de fazer e publicar banda desenhada em Portugal, por um português, se estendiam e haver, sobretudo nos dias de hoje, uma atenção mais vincada para com o objecto-livro (e não nos abstemos de incorrer nessa cegueira genérica, aqui, neste espaço) do que para com outras plataformas. E Relvas foi um mestre da banda desenhada de imprensa (semanário, revista, pasquim), em que a respiração era feita a cada momento, mais do que de projectos de longo curso e com estruturas literárias. E foi também um mestre do desenho, a pulso, quilómetros infindáveis de linhas de grafite e tinta e pixéis e frames percorridas por tantos, tantos projectos díspares em termos de estilos e géneros e vontades e fortunas, muitos dos quais inacabados, mas não por isso menos visitáveis. Arriscar-nos-íamos a afirmar que Relvas estava menos preocupado em “contar histórias” do que dar corpo à sua necessidade de expressar o desenho, mas um desenho naquele permanente desequilíbrio de enraizar mundos, mais ou menos ficcionais, e de se aproximar, numa qualquer ideia de comunidade, ao leitor e leitora.


Tivemos o raro privilégio de conhecer o artista de mais perto e podemos afirmar, com toda a segurança, que ainda há muito para aprender sobre Relvas, muito para ler, para descortinar, apreciar, desvendar e tentar compreender. Talvez nunca se chegue ao fim ou se atinja essa compreensão, mas isso é talvez um benefício ao leitor. Por isso, leia-se.

Até breve, Relvas.  

15 de novembro de 2017

Peek a Boo: A Masmorra dos Coalas. Psonha (Plot)

Na esteira de No caderno da Tangerina, este outro volume é também endereçado a um público jovem, se bem que no caso deste livro brasileiro, pretende-se chegar a um público ainda mais jovem, diríamos abaixo dos 10 anos de idade. Com esse fim, é natural que se abracem de forma mais aberta alguns princípios ou mesmo fórmulas que, tendo servido de base, são abandonadas por Rita Alfaiate na direcção de outras complexidades. No caso de Psonha, pelo contrário, há toda uma aceitação pela ideia de aventura linear, sem pejo nem demais, para demonstrar as dinâmicas relacionais entre as personagens que melhor comporão uma lição. (Mais) 

13 de novembro de 2017

No caderno da Tangerina. Rita Alfaiate (Escorpião Azul)

Dividido em quatro breves mas concentrados capítulos, esta curta narrativa de umas 80 pranchas recupera alguma da candura do ambiente da infância e as fantasias que se criam em torno do desconhecido e da aventura. Passado numa pequena escola de província, à qual chega uma nova estudante, Tangerina, que parece guardar um segredo, o jovem Spike tenta ultrapassar as claras defesas sociais montadas pela rapariga, para poder compreender um “monstro” que ela desenha obsessivamente no seu caderno, e que ela diz ter escapado de um sonho e precisa de ser re-capturado. (Mais)