O humor francês [os autores são belgas, avisam-me... cai o edifício do que está escrito?, posso falar de um humor francófono?, de uma zona que compreenda a Valónia?; as minhas desculpas] tem uma história longa de atravessar linhas que noutras paragens, inclusive em Portugal, são vistas como intransponíveis. E esse humor sempre teve expressão gráfica, desde a pornografia com praticamente todas as figuras políticas que se possam pensar aos salões da ilustração/caricatura de imprensa, do rei Luís Filipe visto como pêra por Philipon ou Gargântua por Daumier ao Sarko-“voyou”, e com toda a bateria de publicações - clandestinas, perseguidas ou legais - , da Lanterne e L‘Assiette Au Beurre e Crapouillot às revistas mais modernas e mais consensualmente de banda desenhada, como a Pilote, Hara-Kiri e Fluide Glacial. É verdade que o tipo de humor destas últimas revistas não é tão vincado, mordaz ou brutal como outras publicações anteriores (razão de novos modos de censura e circulação, sem dúvida), ou de outros círculos mais contemporâneos, e são bem diversas entre si, mas ao mesmo tempo essa modelação mais clara permite ao mesmo tempo uma maior visibilidade e acessibilidade junto a um público alargado. [Essas revistas terão outros tipo de criações mais fortes, como Fred na Pilote, e Goosens na Fluide Glacial, de que falaremos em breve]
Quando João Paulo II morreu, o jornal Charlie Hebdo publicou nas suas páginas toda uma série de caricaturas do Papa que fariam estremecer mesmo os mais críticos das suas políticas. Ver ganhar figuração e forma algumas situações que até poderiam correr, e correm, em muitas anedotas orais não tem jamais o mesmo efeito… O Comando Torquemada também envolve o Papa João Paulo II, mas não nos parece que seja assim tão forte na sua virulência.
A propósito do catálogo da retrospectiva de Leal da Câmara, falámos de alguns episódios ou facetas da atitude portuguesa para com a caricatura, e muito mais haveria a discutir, tivéssemos nós o conhecimento de poder fazer associar a essa mesma história vertentes outras tais como a separação ainda existente do ataque político ou ideológico da vida mais pessoal dos visados, as relações da imprensa portuguesa com a censura, a pós-censura e a cultura entretanto herdada de 48 anos de um regime opressivo, etc. O trabalho pessoal de Álvaro Matos, director da Hemeroteca de Lisboa, e a base de dados desta instituição, por exemplo, é um excelente ponto de partida para isso. Por outro lado, também seria importante debater os 500 anos de cada vez maior abertura em relação a questões de religião, que permitem fazer certos trabalhos de caricatura impensáveis noutras épocas históricas, e que deveriam estar nas nossas consciências quando nos deparamos com caricaturas sobre outras culturas e modos de ver o mundo que não partilham essa “abertura” eurocêntrica.
Toda esta introdução não serve para amansar os propósitos marcados desta obra de Lemmens e Nihoul, mas temos de compreender que este tipo de jogos de referências e humor já não se reveste do mesmo tipo de mandíbulas que teriam noutras circunstâncias. A premissa é bem simples. A Inquisição (tal como ela é entendida de um modo geral e caricatural) ainda existe, controlada por um jesuíta (perdoe Deus aos autores por alterar as ordens responsáveis), Juan Carlos Albuferque, ou Anaconda, e, dependendo do tipo de missões que há a resolver, dispõe de uma mão-cheia de comandos de acção. O pior de todos é o Torquemada, composto por uma freira sensual, a irmã Sarah (mas puríssima nas suas acções, com a excepção do estranho prazer que tem em se fustigar pensando nas chagas de Cristo) um frade especialista em venenos, Malachie (com um fortíssimo pendor para deixar um rasto atrás de si de ataques psicadélicos) e o ex-agente do IRA, o padre Feargal, expert em toda a espécie de armas e técnicas de torturas.
A partir daí, cada um dos álbuns apresenta, na sua tipicidade de “aventuras”, uma missão específica: a recuperação de documentos proibidos, a recuperação da lança de Longino, a destruição da carreira de uma freira cantora toxicodependente e lésbica que passou os limites do admissível pela Igreja, e o evangelho perdido de Judas, que prova a homossexualidade de Jesus (de que vemos aqui um “fragmento”…).
Estes dois elementos, as personagens por um lado e as missões por outro, permitem então aos autores salpicarem as páginas deste livro (trata-se da versão integral) com inúmeras referências que os leitores compreenderão, dos Monty Python (veja-se a vinheta com o comando) aos variadíssimos Códigos Secretos, a outras esferas de humor mais adolescente mas não menos eficiente (como a piscina do Papa, os seus ataques de raiva recorrentes, os seus apetites menos espirituais…).
Quer em termos de narrativa quer em termos de arte, esta obra é simples, linear e directa nos seus objectivos, e cumpre-os. Não se procuram estruturas narrativas demasiado complexas, mas integrando várias acções paralelas e desordens temporais que a tornam mais densa; o desenho é quase transformado num exercício de apontamento, suficiente para percebermos as acções e emoções das personagens, sem necessidade de distrair desse fito através do virtuosismo. Estamos longe de preocupações estéticas maiores, e antes numa mais simples abordagem comunicativa, o que não quer dizer que não existam modos de exploração interessante daquelas especificidades estruturais permitidas pela banda desenhada. O jogo de interesse está precisamente na rede de referências, de piadas curtas, de momentos em que se pisca o olho a ideias neo-colonialistas, racistas e machistas, explorando-as de tal maneira até que são devolvidas pelo frágeis que são. É daquele tipo de ironia que, junto àqueles que não a reconhecem, pode fazer-se passar por coincidente com o que tentam desmontar.
Muito provavelmente, o maior divertimento e proveito na leitura de Commando Torquemada estará mesmo em tentar perceber de que lado está mesmo o sentido da história…
Nota: agradecimentos à editora, pela oferta do livro.




