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9 de outubro de 2019

Cortázar. Marc Torices e Jesús Marchamalo (Presque Lune/Nórdica)



É naturalmente discutível quando se utilizam hipérboles a declarar este ou aquele escritor, esta ou aquela obra, como “uma das maiores de sempre”, quando não existem qualificativos, contextos ou pelo menos uma qualquer inflexão que explicite a emergência dessa hierarquização imediata. Se se utiliza esse termo comparativo, quais os outros termos contra os quais ele mesmo se estabelece? As mais das vezes, e é esse um movimento perigoso, a ideia está em que essas declarações, desprovidas desse mesmo contexto, apontam a uma espécie de consenso cultural, em relação aos quais aqueles que não o partilham são vistos como desmerecedores sequer de consideração. (Mais) 

1 de fevereiro de 2019

Estamos todas bien. Ana Penyas (Salamandra)


Vivemos num tempo em que, afortunadamente, se discutem muitas questões de representação e sub-representação sócio-cultural, em todas as dimensões da esfera pública, na qual se destaca, por razões óbvias, textos de cariz artístico e produções da cultural popular. Mas se existem cada vez mais discursos permeáveis e reequilibrados em relação a toda uma série de categorias e sub-culturas, a velhice continua a ser uma espécie de tabu.

Velhos são os trapos, como se costuma dizer, e parece que passado um determinado limita, as pessoas deixam de ter préstimo, como se a acumulação das suas experiências não fossem, só por si, uma muito provável fonte frutífera de aprendizagem aos que se seguem, sejam essas experiências felizes ou infelizes, de glória ou infortúnio, boas ou más. A falta de diálogo intergeracional é, na verdade, uma das dimensões que caracteriza o ensimesmamento actual nas identidades, estas reduzidas aos seus mais superficiais traços, sem quaisquer auto-interrogações, dúvidas ou gestos de aproximação a outras esferas. (Mais)

17 de agosto de 2017

A casa. Paco Roca (Levoir)

Graças aos esforços da Levoir, a entrada de vários títulos da banda desenhada espanhola contemporânea no mercado português é uma realidade. Ainda que não haja, aparentemente, uma política concertada e ritmada dessa mesma entrada, a colecção das Novelas Gráficas, que vai na sua terceira fornada (à qual voltaremos), e volumes soltos, como é este caso, assegura essa oferta (corroborada, pelo menos, pela Arte de Autor; mais, o mesmo se poderia dizer da banda desenhada brasileira, pelas mãos da Polvo, por exemplo, e de nenhuma outra editora, maior ou menor que estas). Seria, mais uma vez, discutível qual o espectro dessa mesma oferta dada a pluralidade de produção do nosso país vizinho, que neste caso não se pode chamar irmão dado o largo desconhecimento do público geral do que tem surgido em Espanha (e nem encetaremos a relação contrária), mas estamos em crer que o foco da Levoir é, em si mesmo, coerente: autores interessados em discursos contemporâneos, autorais, muits vezes de narrativas pessoais e quotidianas, e menos interessados em géneros clássicos ou mesmo espectaculares, e atreitos a formas narrativas convencionais e acessíveis a um público alargado, não necessariamente fãs de “bd de género”, mas de toda uma sorte de literatura (o que incluirá outras formas mediáticas). (Mais)

21 de dezembro de 2016

Como viaja a água. Juan Díaz Canales (Arte de Autor)

Este projecto a solo do argumentista da famosa série Blacksad é, a um só tempo, talvez estranhamente sem paradoxo, uma obra niilista e uma esperança positiva. Apesar de podermos falar de um protagonista, o velho Aniceto, de 83 anos, a verdade é que as acções estão concertadas numa geometria de afectos muito particular, numa primeira escala entre os compinchas de Aniceto, e em segundo lugar, em círculos complexos de distância e proximidade, o seu filho e o seu neto, e a mulher grávida deste. Com efeito, a uma primeira visão, a acção dirá respeito às acções levadas a cabo por Aniceto, Longinos, Urbano, Godofredo e Teodoro (nomes que numa pincelada quererão revelar um outro momento da história de Espanha) e que os colocará numa senda algo perigosa. Noutra escala, tratar-se-á das relações que Aniceto estabelece com os seus familiares, alimentadas de tensões, incompreensão, boa vontade, pequenos erros e todos aqueles pequenos desastres que alimentam a vida de todas as famílias. Mas é o coração de Aniceto que informa toda a trama, no fundo. (Mais) 

6 de outubro de 2016

Colecção Novela Gráfica II. AAVV (Levoir)

Nota de intenções: tendo traduzido dois volumes desta colecção, assim como escrito o prólogo de dois outros, temos uma associação profissional a esta colecção.
Tendo terminado esta colecção, e não tendo tido oportunidade antes de falar sobre ela, esperamos que ainda sejam pertinentes estes comentários, uma vez que a colecção continuará disponível quer através da rede do Público quer, mais tarde, no mercado livreiro. As ideias apresentadas a propósito da primeira colecção são ainda válidas para esta segunda. Compreendendo-se que o mundo editorial em Portugal, no que diz respeito à banda desenhada, ainda não se encontra num estado óptimo, sobretudo no que diz respeito à sua recepção e circulação, a aposta em apresentar de rompão toda uma série de títulos é uma estratégia válida. De certa forma, é mesmo uma maneira de revalidar alguma da sua história, aumentar exponencialmente os títulos disponíveis de entre os “clássicos”, os “desconhecidos” e os “contemporâneos”, e, de resto, trazer algum grau de diversidade à sua maneira. Não sendo possível esquecermos os gestos, tão diferentes mas sustentados e programáticos, de editoras como a Polvo, a Chili Com Carne e a Kingpin Books, selos mais pequenos mas também buscando coerências várias, como a El Pep, o Clube do Inferno, a Libri Impressi, os projectos comerciais sólidos da Devir, da Goody e da G.Floy, os gestos mais ou menos isolados de editoras generalistas com apostas na banda desenhada nacional e internacional (Bertrand, Parceria A. M. Pereira, Tinta da China, Teorema, Gradiva, etc.), a paisagem é suficientemente variada para albergar e acomodar os propósitos destes projectos da Levoir. (Mais)

8 de julho de 2016

Eu, assassino. Antonio Altarriba e Keko (Arte de Autor)

Depois da recepção significativa de El arte de volar, e a sua integração na exposição sobre autobiografia no FIBDA, é natural que tenha surgido uma atenção maior para com o trabalho de Altarriba, que se havia nutrido sobretudo num círculo mais restrito literário, e no que diz respeito àquele relacionado com a banda desenhada, apenas numa esfera académica (Altarriba é também um investigador do campo) ou de experiências literárias afectas, como foi o caso do livro “proibido” sobre Tintin. A publicação em português deste volume vem juntar-se a dois outros volumes saídos nas duas colecções Novelas Gráficas, da Levoir, com A arte de voar no ano passado e o volume que sairá em Setembro. Todavia, se esses dois outros títulos são estritamente do campo autobiográfico, mesmo que expandido tocando as vidas dos pais, respectivamente, Eu, assassino procura explorar uma outra maneira de fazer implicar o eu, que não através do programa clássico da confusão entre narrador, protagonista e autor. (Mais)

21 de janeiro de 2016

Bagatelas: treze pequenos livros e fanzines. AAVV

Mesinha de Cabeceira # 27. XXXMas Special: Nadja, Ninfeta Virgem do Inferno. Nunsky (Mmmnnnrrrg) Depois de um tremendo intervalo entre os dois livros acabados do bravio autor do norte, eis que Nunsky regressa às lides rapidamente com um pequeno opúsculo. Mas todos os instrumentos são bem diversos dos de Erzsébet: a história completa que ocupa todo o número 27 do MdC é, a um só tempo, pesada e leve, séria e cómica, fresca e desesperante. A ninfeta do título vê o seu jovem namorado toxicodependente a perder a vida com um chuto mal-sucedido, e segue-lhe na peugada até ao Inferno, onde faz um pacto com o demónio que a torna numa personagem trágica e romântica. Ser-lhe-á concedido tempo de redenção com o namorado quantas mais almas conquistar para o Príncipe das Trevas. Este relato parece prometer-se como o primeiro episódio de muitas aventuras, e seguramente que haveria estômago para aguentar tamanha crueldade, morte sanguinária, heavy metal à anos 1980, e risadas à custa de beatos de séries de televisão de cartão canelado de décadas ainda mais rebuscadas. Um autêntico exercício de citação de bonecos-feitos, Nadja é, em termos figurativos, uma espécie de clash entre a luxúria e os laivos de fotorrealismo ma non troppo de um de Will Elder ou Angus McKie (e, no que diz respeito às cores, a explosão de diversidade do segundo e a o esbatimento do segundo, sobretudo na fase da Playboy, com H. Kurtzmann) e o pormenor quase doentio nas expressões e distribuição de moral, e até alguns aspectos do conteúdo, de Jack Chick (das “Chick Bibles”). Existem traços de alguma soberba crença na mundividência católica e a associada crença no Demo. Tratar-se-á este Nadja de um tortuoso panfleto de um Católico atormentado por gostar dos discos dos Slayer e Iron Maiden e querer ver realizadas as suas capas? Uma homenagem a todo um historial de comics de séries Z? Interprete-se como se desejar, e para mandar fora um cliché, Nadja é um bafejo de hálito quente e cerveja quente. 
(Mais)

9 de janeiro de 2016

Amigos do peito. Cláudio Thebas e Violeta Lópiz (Bruaá)

Numa correria da escola até casa, uma personagem visita vários dos cantos da cidade onde vive, perscrutando espaços de naturezas específicas, que convidam a actividades díspares, sempre na companhia de um seu amigo próximo. Esse passeio, que podemos imaginar repetido todos os dias, é também palco de uma reflexão sobre a amizade, ou melhor, a possível definição de um amigo, alguém que conhecemos por uma razão qualquer que nos leva a colocá-los num lugar que podemos sempre revisitar. (Mais) 

26 de dezembro de 2015

The Fall of the House of West. Paul Pope, JT Petty, David Rubin (First Second)

Numa abordagem extremamente concentrada, como digestão de leituras maiores, serve o presente post para dar conta da recepção do segundo volume da prequela da saga de Battling Boy, de Pope e companheiros. Este segundo volume continua a acompanhar a demanda de Aurora West pela sorte da sua mãe, levando-a a oposições ao seu pai, o herói Haggard West, e a fortuna de Arcopolis, lentamente tombando nas mãos dos pesadelos. (Mais)

4 de dezembro de 2015

Las Meninas. Santiago García e Javier Olivares (Astiberri)

Poderíamos começar este texto da mesma forma que o anterior, já que também Javier Olivares foi alvo da nossa atenção há quase uma década, e que são apenas circunstâncias algo superficiais que nos colocam de novo frente a um seu trabalho. Por outro lado, este volume estabelece algumas linhas de relação com o de Auladell, menos por características comuns de pertença social do que pela forma como ambos entram em diálogo com a pintura ocidental. Auladell numa óptica de re-utilização dramática, Olivares e García numa de pesquisa. (Mais) 

3 de dezembro de 2015

El paraíso perdido de John Milton. Pablo Auladell (Sexto Piso)

Como é natural, acompanhar todos e quaisquer livros produzidos nos últimos anos de vários quadrantes geográficos e estilísticos não é possível, mesmo que haja razões para, ao nos interessarmos por um determinado autor, ser desejável acompanhar de maneira sustentada o seu percurso. Há quase dez anos, faláramos de La Torre Blanca, de Pablo Auladell. E apesar de nos cruzarmos aqui e ali com o seu trabalho de ilustrador e de autor de bandas desenhadas, foi preciso atravessar um deserto para ter a oportunidade de desembocar num projecto de grande fôlego. Este volume com mais de 300 páginas é uma adaptação livre do famoso poema de John Milton. Tendo começado num momento que se veria interrompido, e fruto de transformações internas, esta é a sua forma final. Desta feita então, Auladell empresta as suas figuras quasi-andróginas, pequenos títeres de grafite, para dar corpo a uma encenação que ronda a vontade e autonomia, o amor e a entrega, a glória e a solidão, a distribuição de poder e o sonho, ou até mesmo a mais profunda natureza humana, levada a cabo por seres que, em princípio, estariam longe das suas paixões. (Mais) 

29 de novembro de 2015

Conversa em Pontevedra.

A convite dos Departamentos de Português das Escolas Oficiais de Idiomas de Pontevedra e de Vila Garcia, na Galiza, estarei amanhã, Segunda, e depois de amanhã, Terça, a falar de banda desenhada portuguesa. O propósito tem mais a ver com a conhecer a realidade da língua portuguesa, mas espero ter oportunidade de despertar o interesse de novos leitores pelos trabalhos existentes na nossa "cena contemporânea", sejam livros mais críticos da nossa sociedade e atentos à situação económica-social, sejam livros que procurem de alguma forma criar ficções bem-dispostas, ou mesmo aqueles autores que viverão em espaços intermédios em termos de forma e conteúdo.

Se estiverem com vontade de comer uns chipirones e botá-los abaixo com um branco numa cunca, apareçam.
Agradecimentos a María J. Sola Bravo e Carlos Alhegue Leira, pelo convite, a Conceição Pereira, pelo contacto, e Carlos Pinheiro, pelo uso da imagem (de Sobrevida). 

18 de agosto de 2015

O tempo do gigante. Carmen Chica e Manuel Marisol (Orfeu Negro)

Se a natureza do tempo é incompreensível para os seres humanos, por estarmos nele imbuídos ou por ele sermos constituídos, tal não significa que esse seja um enigma o qual devamos desistir perseguir. E não há melhor momento de nos começarmos a interrogar sobre ele do que no momento em que passamos a existir, que é sempre, a cada momento afinal. Os livros ditos infantis, mormente os ilustrados, os livros de histórias com ou por imagens, são um instrumento incontornável nessa aprendizagem permanente, e se colocamos aquela ressalva quanto ao seu público-alvo é porque, de quando a quando, haverá livros que poderão ou deverão mesmo ser lidos pelos adultos não tanto com olhos de “nostalgia” ou “maravilha ingénua”, mas genuína entrega. Este é um desses objectos. (Mais)

10 de agosto de 2015

Kovra no. 6. AAVV (Ediciones Valientes)

Ao contrário de uma ideia sobretudo alimentada pela edição mainstream, ou pelo menos convencional, a circulação de autores em palcos internacionais não tem necessariamente de passar pela edição de um livro inteiro numa língua estrangeira. É óbvio que esse tipo de circulação leva imediatamente a uma maior exposição e recepção, resultado natural do volume de impressão, os pontos de venda e a atenção mais categorizada da esmagadora maioria dos canais de divulgação, também eles necessariamente balizados por princípios de normalização. Todavia, se a atenção abarcar outro tipo de objectos, descobriremos formas alternativas de diálogo e de presença em palcos internacionais. (Mais) 

1 de abril de 2015

Colecção Novela Gráfica: a colecção (Levoir/Público).

A presença da banda desenhada no mundo editorial português é, no mínimo, residual. Basta compreender que certos géneros literários, mais populares ou menos, têm uma distribuição equilibrada pelas várias editoras, assim como outros tipos de livros não-literários, ensaios ou romances de sucesso crítico. Sem a legitimação e papel cultural que terá a poesia contemporânea, a banda desenhada tem o mesmo tipo de veiculação por um punhado de editores menores e/ou especializados, uma distribuição comercial titubeante e que vive de certos circuitos específicos, e um público algo reduzido. Com a agravante, em relação à banda desenhada, da sua recepção crítica ser extremamente circunscrita, em termos de agentes e espaço na dita mediasfera (de que a blogosfera faz parte mas também poderá ser considerada, dados certos focos, como separada). (Mais) 

23 de março de 2015

Blacksad: Amarillo. Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido (Arcádia)

Em várias circunstâncias já o havíamos afirmado mas deixamos aqui por escrito pela primeira vez que Blacksad é uma das melhores séries de banda desenhada que nos deixavam indiferentes. O que queremos dizer com isso é que reconhecemos nela determinadas qualidades, sobretudo do ponto de vista técnico e formal, que a tornam um excelente exemplo de uma obra que preenche todos aqueles requisitos de uma banda desenhada do ponto de vista das suas mais usuais especificidades. A indiferença deve-se ao facto, mais subjectivo, empírico, emocional, de que o cruzamento entre o noir e a antropomorfização, os temas-cliché do cinema norte-americano dos anos 1930 e 1940, a economia narrativa em torno da personagem detective não constituem de forma alguma um interesse particular para nós. Em muitos aspectos, Blacksad é uma obra sem grande “ruído”, e talvez seja por isso que não nos estimula grande paixão. (Mais) 

14 de dezembro de 2014

Ardalén, de Miguelanxo Prado no aCalopsia.

Tendo recebido uma cópia deste livro da parte da Asa através do editor do site aCalopsia, ficara prometida que a crítica que dele faríamos seria publicada nesse mesmo local. O nosso interesse pela obra de M. Prado tem sido algo intermitente, e não tanto de seguidores fiéis, por encontrar neste autor prestações muitos desiguais entre si. 

Se por um lado este imenso volume é apresentado como uma grande obra no percurso do autor, e apenas uma leitura atenta permita responder se se trata de uma obra maior, ela pede, ainda assim,por um esforço particular em compreender a sua natureza.

Ficando os agradecimentos à editora e a B. Campos, o nosso texto pode ser acedido directamente aqui.

9 de novembro de 2014

The Rise of Aurora West. Paul Pope, JT Petty, David Rubín (First Second)

As afinidades entre Paul Pope e David Rubín não são poucas nem negligenciáveis na apreciação das obras de ambos. É então sem grande surpresa, no fundo, que encontramos frutos do seu encontro, permitidos pela forma como o mercado actual da banda desenhada permite uma circulação cada vez mais sólida e diversa de autores entre países que, até há uma década, se encontravam relativamente “isolados” em matéria de criação, salvo casos pontuais. Não há hoje necessidade de “emigrar” para vingar ou entrar em mercados internacionais. E ao vermos o tipo de intensidade emocional e regresso a um certo prazer juvenil em El heróe e Battling Boy, já para não falar das pesquisas intertextuais e citações integradas respectivas, quase se poderia dizer que era inevitável o seu cruzamento. Ei-lo. (Mais)

28 de dezembro de 2013

Lisboa. David Pintor (Kalandraka)

Através do Google Earth conseguimos hoje ver, de rabo assente e à frente do computador, grande parte das ruas de Lisboa, até mesmo atravessá-las usando os comandos possíveis (Alfama continua inavegável, como soe). Os tours virtuais de muitos museus, ou outras instâncias, vem alargar de forma positiva a acessibilidade àqueles que não a possuem, mas será sempre uma experiência diminuída. E os guias turísticos, livros de fotografias, vídeos, etc., serão sempre uma ferramenta útil, de apoio, informação, preparação. Tudo isto é muito “útil”, sem dúvida, tudo isto concorre para uma maior “informação”, é certo, mas não é esse sempre o propósito dos livros, nem é isso o que os artistas perseguem nem o que os leitores desejam.

A palavra “visita” parte do verbo videre, isto é, “ver” ou “observar”, por isso tem menos a ver com uma presença física do que uma acção complexa que ela implica. E se num momento o emprego de imagens associadas à viagem e ao seu testemunho procurava devolver um peso de verdade verificável, de concretudes objectivas, de Matthew Paris e Duarte de Armas a Melton Prior, a chegada dos “cadernos de viagem” viriam impor outras inflexões, olhares que moldariam as formas pela imaginação. De Delacroix a Salavisa, cadernos que testemunhariam um desenho que começa a responder a outras pulsões (informados por todos os desenvolvimentos das artes visuais e da filosofia das artes). Constantin Guys seria um curioso caso de transição, talvez, e que nos remete para as considerações de Baudelaire no seu famoso ensaio, “O pintor da vida moderna”, no qual debate a forma como um artista pode encontrar os sinais de uma beleza eterna precisamente onde inscreve os sinais, exteriores, da beleza passageira, do dia.  

O diário de viagem, ou caderno de esboços, ou diário gráfico, é um espaço onde os artistas podem moldar precisamente as impressões que cada momento de observação lhes permite, para captarem o que há de passageiro, de distinto e exclusivo desse preciso momento, de maneira a que, quando devolvidas, essas formas permitam aos espectadores-leitores vislumbrarem algo que atinge uma maior profundidade. Tal como profunda pode ser a água escondida pela superfície de um passeio coberto de calçada portuguesa.

Os actos de transformação espacial e imaginativa que David Pintor exerce sobre Lisboa recordam algumas das paisagens maravilhosas propostas por Nuno Artur Silva e António Jorge Gonçalves nos livros de Filipe Seems. Uma Lisboa transformada em Veneza feérica, mas mais mágica que Lisboa e Veneza juntas: uma cidade onde há uma pequena enseada em frente às escadas da Assembleia, onde as “ferraduras” das portas da estação do Rossio são transformadas em vitrinas de um Oceanário, na qual botes conseguem navegar pela calçada ou pelo macadame, e a ventania sacode a pala de Álvaro Siza. Uma cidade cheia de roupa multicolorida a secar às janelas, atravessada incessantemente por cardumes-bandos de sardinhas aladas com cores de cerâmica, e cujos eléctricos parecem criaturas animadas de Miyazaki, espreitando por um beco de Alfama ou por detrás de um arbusto dos jardins da Gulbenkian.

Baudelaire, naquele mesmo texto, dizia que Guys “desenha de memória, e não de um modelo”, e talvez pudéssemos dizer o mesmo de Pintor, na medida em que o artista galego não exerce somente os seus dotes de observador no momento em que desenha nos diários, mas vaza neles impressões que nascem noutro local e momento, faz atravessá-los desde logo por um filtro. O seu traço é muito estilizado, uma intersecção entre um desenho de assinatura muito vincada, feita de elementos preexistentes e repetidos, e uma abordagem mais gestual, expressiva, que responde à moldagem do que é visto aqui e agora. Um encontro entre Loustal e Mariscal. As cores são sólidas e planas, mas procuram responder aos desafios de alguma da luz que se exibe por Lisboa, nos reflexos entre o Tejo e as fachadas brancas dos prédios nas colinas, os telhados laranjas e inclinados e os cobos no chão.

O autor revela igualmente um vivo interesse em inscrever em muitos dos seus desenhos um pequeno avatar auto-representativo: o próprio artista, sempre de chapéu, no próprio acto de desenhar. Não como perspectiva conduzida do que nós também vemos, mas como personagem numa acção, seja ela a do desenho, a do descanso que o prepara ou o segue, ou as aventuras de deslocação, de fiel bicicleta ao lado, que unem os pontos visitados. Cada duas páginas apresentam-nos uma imensa paisagem, uma série de panoramas diversificados, que ora nos revelam um cantinho, um pormenor, ora uma alargadíssima vista sobre as margens do rio.

Nalguns momentos, incorremos na ideia de que talvez esta Lisboa seja mítica e feérica demais. Coberta ou composta por ideias desde logo fabricadas antes de as visitar. Ou sensibilizada para mostrar aquilo que se desejava encontrar à partida. Feita de esplanadas em sítios inusitados, cafés em todas as esquinas, cobos da calçada prístinos e prontos a serem colhidos, e ruas limpas e solarengas, sem nenhuma outra figura humana que não o próprio desenhador. Tememos estar perante uma fantasia que esvazia Lisboa de algumas das suas características próprias. Talvez menos felizes, que desejaríamos corrigir, quem sabe, mas próprias, dela e irrepetíveis. Ou seja, há um ligeiro perigo de Lisboa surgir como uma colecção de “postais” [Mais: quatro impressões são oferecidas no interior do livro, com esse propósito separável]. Mas se as olharmos, às ilustrações, como retratos individuais onde se encontram uma visita-observação e um acto de moldar a imaginação do artista, que vão muito para além da “utilidade” dos postais, talvez o possamos percorrer como um pequeno guia de descobertas.

Nota final: agradecimentos à editora pela oferta do livro.

22 de setembro de 2013

Sueños ilustrados. Roger Omar et al (el monstruo de colores no tiene boca)


Alguns leitores conhecerão aquele dispositivo conhecido como dreamcatcher, um objecto de artesanato associado a algumas das culturas dos nativos norte-americanos (lakotas e ojibwes, para ser mais preciso), que se parece com um disco com uma teia no interior e penas em torno. O conhecimento do seu uso histórico é algo fragmentário, e as formas de cruzamento intercultural - numa primeira fase entre os vários povos autóctones e depois através do contacto com a cultura ocidental e as sucessivas transculturações – torna difícil compreender a exactidão do seu funcionamento, mas a ideia fundamental é de que esse objecto (a Wikipédia diz que um dos termos originais significa “aranha”) filtra os sonhos bons dos maus e, assim sendo, ajudará o sonhador a ter melhores sonhos. Poderíamos imaginar que também os livros seriam como que possíveis teias que os captassem e redistribuíssem. Este conjunto de livros vindos de Espanha constituem uma longa aranha que cumpre esse fito.

A transcrição de sonhos e a sua consequente transformação em textos (literários, cinematográficos, teatrais) não é algo de imprevisto, e mesmo no campo da banda desenhada e ilustração existem bastantes casos. Estamos aqui perante um caso clássico de encadeamentos de transformações: os sonhos em si mesmos partem do núcleo da relação entre o subjectivo e o mundo exterior, e depois segue-se uma elaboração verbal que lhe impõem uma qualquer forma fechada, e finalmente temos uma nova elaboração, desta feita pelas imagens e estruturas da banda desenhada e da ilustração. Para além da mera criação de imaginários oníricos (de Nemo a Sandman), existem casos de diários (Crumb, Zograf, Veitch, Bechdel) e até mesmo de recepção de sonhos alheios para a criação de textos em banda desenhada, sendo o caso de Jesse Reklaw talvez o mais conseguido. O projecto de Roger Omar inscreve-se portanto nesse campo relativamente restrito. Sueños ilustrados é um projecto em que Omar “colecciona” sonhos de crianças, sendo elas mesmas quem os escrevem, de idades compreendidas entre os 8 e os 12 anos, de várias cidades e vilas espanholas, mas também de Cuba, do México, Alemanha, e, num caso, de “niños cirqueros”, isto é, que vivem a vida nómada do circo. Há também um caso de uma só
sonhadora, Luli, com um livro, e o tratamento reflecte isso mesmo. Recolhidos por Omar, os sonhos são depois tratados e traduzidos graficamente, por toda uma troupe de ilustradores, que compreende artistas espanhóis (Max é um deles), ingleses, japoneses, israelitas, e de outras paragens. Rui Tenreiro e Pedro Lourenço são os dois artistas portugueses envolvidos no projecto. A esmagadora das publicações estão nas mãos de um só artista. Os livrinhos mais pequenos, todos em acordeão, intitulam-se “6 sueños” e já ultrapassaram a vintena. Existem também outros formatos, maiores acordeões, e mesmo um livro que serviu de antologia de ilustradores israelitas e de catálogo de uma exposição em Telavive. Cada um dos livros tem um título individual, que se refere a um dos sonhos. Além do mais, os livros estão sempre escritos em espanhol, e duas traduções, abarcando línguas como o inglês e o português, o alemão e o hebraico, o hindi e o francês, o vietnamita e o russo, o mixteco e o japonês, o chinês e o nahuatl…
Apesar dessa diversidade, o formato parece convidar à ideia de transitoriedade. Aliás, este será o mote das nossas considerações sobre o conjunto destes livros: uma flutuação entre um desejo por continuidades, ligações, passagens e comunidade, e uma segura confirmação da individualidade dos participantes e envolvidos. Poderíamos dizer que o próprio formato dos livros, em acordeão, os aproximaria de uma performatividade de um dreamcatcher? Este formato é conhecido em alemão e francês como “leporello”, recordando o aio de D. Giovanni, o qual desenrola um imenso catálogo das conquistas amorosas do seu senhor. Mas esse movimento de súbita revelação do acto de conquista da carne pode ser invertido, se pensarmos neles numa posição horizontal, recordando os biombos, que ocultam e prometem revelar. A ideia de acordeão solta associações à música, e até mesmo a uma muito especial musicalidade, lúdica, alegre, de convite à dança e à aproximação. Fora desse campo metafórico, porém, o que um formato deste tipo permite é desagregar a leitura dos seus comportamentos mais usuais, a leitura de duas em duas páginas, o ritmo encadeado do avanço, e permite um outro de fluidez, de acesso imediato ou mesclado de tempos e espaços, há uma protecção do recuo ou do salto inopinado. Mais uma vez, um movimento de maior liberdade. Um trânsito fluido.
A “tradução” dos artistas dos sonhos das crianças atravessam as mais diversas naturezas. Se a maioria dos artistas opta por adaptações “narrativas” dos sonhos numa cena legível, em que todos os aspectos estranhos ou absurdos ganham o peso concreto de personagens fantasiosas, alguns artistas optam por soluções menos comuns. A título de exemplo, Mitch Blunt faz como que retratos de crianças, de grandes rostos, nas superfícies dos quais se projectam os protagonistas dos sonhos sonhados. Pedro Lourenço isola os animais ou constrói estruturas mágicas para dar conta das paisagens soturnas dos seus sonhadores. Takeuma e Mexer constroem, cada um, uma ininterrupta paisagem através do acordeão aberto com os elementos dos sonhos que trataram. A diversidade dos rostos e dos sonhos capturados e redistribuídos está assim assegurada. Os estilos, como é de esperar de tal diversidade, atravessam um espectro alargadíssimo, com uns representando abordagens límpidas e claras, e outros uma expressividade mais material e espessa, uns com mais dinamismo e outros com estruturas mais livres, alguns recordando uma animação “nervosa” e outros escolas clássicas de ilustração infantil, etc. Alguns têm o texto na página acompanhando a imagem (por vezes nas línguas que dominamos, noutros casos não), noutros casos separam-se as águas, levando assim a “navegações” diferentes também. E se quase todos são a preto-e-branco, com dois casos impresso ora a verde ora a roxo, há casos em que intervém uma segunda cor (como o laranja, ou o verde de Le asustaba el verde).
Não nos interessa, de forma alguma, fazer uma interpretação dos sonhos em si, o que seria um disparate. Em primeiro lugar, estamos a falar de livros e não de pessoas, e não há – ao contrário de crenças populares ou pseudo-ciências infelizmente demasiado divulgadas – “sentidos universais” ou “fechados” dos sonhos. Não pode existir um “dicionário” deles. O que podemos interrogar é o gesto editorial, e tudo o que ele implica. Porém, aquém dessa interpretação, podemos tentar compreender os mecanismos que presidem ao sonho, e aí a psicanálise é imbatível enquanto interrogação aberta do humano, e do estranho que todos nós encerramos em nós mesmos. Os sonhos das crianças permitem-lhes que elas se tornem, naquela situação, os agentes de controle. Se crermos, com Freud, que os sonhos se aliam às suas fantasias, os sonhos estão ao mesmo nível que os jogos e brincadeiras em que as acções são repetidas ou encenadas, por vezes mesmo cenas desagradáveis, mas onde há um forte grau de centralidade do eu. Segundo o pai da psicanálise, em Para além do princípio do prazer, “mesmo sob o domínio do princípio do prazer, há meios e caminhos o suficiente para tornar aquilo que é, em si mesmo, desprovido de prazer, num objecto a ser recordado e trabalhado pela mente”. Como escreve o filósofo Pascal Bruckner, “dormir não é de todo repouso; o sono não é reparador mas divagador”. Ou seja, o sonho em si mesmo é um mecanismo que permite retrabalhar (fala-se mesmo, como se sabe, em “trabalho do sonho”) os elementos da percepção, da experiência, da memória e do imaginário para relançar esses mesmos elementos de um modo diferente, e uma das actividades do sonho é a narrativização desses elementos. Ora, sendo transcritos, transformados, traduzidos ou transfigurados – cada termo tem as suas especificidades, mas teríamos que fazer uma análise mais cuidada, isolada e atenta para destrinçar os seus usos em cada texto – em novos textos – neste caso, curtas narrativas ilustradas – essa narrativização ganha uma nova existência e tornam-se passíveis de um novo uso: a sua leitura por outrem.
O projecto de Omar não tenta, de forma alguma, ocultar as especificidades culturais dos sonhadores, ou mais, dos próprios sonhos, e isso justifica-se pela inclusão de muitas informações em cada um dos livros (o nome ou origem ou idade das crianças, as línguas incluídas, quem desenhou, quem traduziu, etc., etc.). Haverá contornos circenses claros nos sonhos dos meninos “cirqueros”? Encontraremos pontos comuns entre a violência e os actos de comer das crianças de Mazatlán? Há uma preocupação por garantir que todos esses elementos paratextuais consolidam uma ideia de autenticidade do gesto de recolha e transformação. Mas ao mesmo tempo, é precisamente pela sua transformação com desenhos e línguas tão diversas que se pretende sublinhar, ao mesmo tempo, a potencial universalidade do sonho enquanto realidade psíquica e texto partilhável. Nada tem a ver com misticismos ou inflexões jungianas que pretendem reduzir a diversidade cultural a “arquétipos” ou “princípios universais”. Bem ao contrário da esperança algo fortuita e talvez mesmo fútil de um esperanto, é a criação de um espaço – de novo, de uma teia de aranha, de uma rede de caçador – onde só se pode esperar que a tradução seja possível.
Nas considerações que Freud fez sobre o acto da escrita, ele repete algumas das noções que tem do trabalho psíquico que ocorre quer na memória ou nos sonhos. Em nenhum dos casos estamos perante actos mecânicos de reprodução, mas antes de representações, isto é, reconstruções nas quais os elementos atravessam um qualquer filtro. Escreve ele que “o tratamento poético é impossível sem que se suavize e disfarce”. Não queremos crer que Sueños ilustrados procure “suavizar” as experiências reais dos sonhos das crianças – ou melhor, do já trabalho de transformação da parte das crianças das suas memórias de sonhos em textos escritos -, no sentido de apagamento das individualidades em nome de um qualquer universalismo pateta e vago, mas antes que a sua possibilidade de texto, a sua publicação em projecto, demonstra de uma forma clara a possibilidade mesma de eleger um espaço de diálogo e tradução mútua, logo, de verdadeira aproximação entre todos sem anulação de individualidade. Livro a livro, nome a nome.
Nota final: Un saludo y agradecimento a Roger Omar, por su aprecio y por la oferta de las publicaciones. Eis a ligação para o site: http://elmonstruodecoloresnotieneboca.wordpress.com/