15 de julho de 2026

Aldeamentos de Guerra. Francisco Sousa Lobo (Chili Com Carne)

Como sabemos, o género literário conhecido como “ensaio” foi cunhado e fundado por Montaigne, a partir da noção de exagium, que significa “exame” ou “pesagem”. Não se trata de um exercício de escrita que pretenda fechar-se como afirmação ou totalidade, mas antes como contínua interrogação do objecto a que se dedica, algo que vai pensando à medida que escreve. Essa sua natureza instável, subjectiva, fragmentária, e por isso capaz de expressar uma autonomia face à realidade a que se dirige, torna o ensaio numa sempre estimulante e espiritual leitura, numa construção mútua. Isto é, o leitor também se interroga.

Francisco Sousa Lobo é um autor que tem criado formas investigativas que tornam a banda desenhada num instrumento desse pensamento ensaístico. Se tem livros de banda desenhada de ficção, de autobiografia e de objectos pelo meio, também outros se revestem dessa película do “ensaio”, muitas vezes virado para a figura do próprio autor, a titulo de exemplo o livro Deserto/Nuvem, outras para temas semi-externos, como Gente Remota. Aliás, é com este livro que Aldeamentos vem criar um outro elo quase directo. Gente Remota é um dos poucos livros de banda desenhada contemporânea portuguesa que utiliza o “assunto” das Guerras Coloniais (e já é tempo de começarmos a empregar outros termos, como Guerras pela Independência) não tanto para criar uma situação fictícia mais ou menos formulaica para, apenas aparentemente, pensar esse período, mas para criar uma dolorosa fotografia da situação actual, de como os crimes se misturaram com o silêncio e, assim, mais infectados ficaram, tornando quase impossível uma retrospectiva clara, nítica e objectiva. Será alguma vez possível? Duvidamos. (Mais)

12 de julho de 2026

Da noite para o dia. Sofia Neto (Chili Com Carne).

Na passagem do ano de 2025 para 2026, os desenhos originais de Sofia Neto para o seu último projecto de livro foram apresentados numa exposição no Clube de Desenho. Tive a honra, então, de ser convidado a "ler" o livro e a escrever um pequeno texto para a folha de sala. 


É esse mesmo texto aqui apresento, en lieu de um novo texto mais consonante à prática crítica do Lerbd, mais manca nestes últimos anos, precisamento devido à multiplicação de outros papéis e funções. É verdade que a sua leitura material, em livro, leva a um bloco de sensações totalmente distinto, e o próprio propósito diferenciado dos textos - uma folha de sala, que serve para estimular algumas pistas de contextualização e navegação visual e interpretativa - e uma crítica - que ancora os juízos de valor numa argumentação mais validada, levaria a outra natureza, mas o rempo, meus amigos, o tempo... (Mais) 

7 de julho de 2026

Mitimota. Amanda Baeza (Chili Com Carne)

Mitimota e Bruma não são a mesma coisa. Ambas são a reunião, num só volume, de um conjunto de pequenas bandas desenhadas curtas, particularmente heteróclitas entre si, publicadas pela autora Amanda Baeza ao longo de anos em variadíssimas publicações, em países, línguas, formatos, estilos e circunstâncias diferentes. Sim. E não é impossível encontrar, de um título para o outro, pequenos temas recorrentes, trejeitos ou facetas comuns, uma maneira de encarar o acto de criar banda desenhada livre, sempre livre.

A autora tem-se especializado, digamos assim, em histórias curtas, por vezes apenas um par de páginas, e não tanto em fôlegos mais longos, ainda que haja notícia de um projecto no forno com essas características há um tempo. Ainda teremos de esperar por essa nova lavra. (Mais)

10 de maio de 2026

Terrea. Ricardo Cabral (A Seita/Comic Heart).

Quando a edição de artista de Terrea surgiu, há mais de dez anos, encontrámos ali um livro cuja “escrita” era dominada pela pulsão do desenho, que Ricardo Cabral já vinha alimentando há um breve trecho, libertando-se da canga de uma narrativa linear: os seus diários de viagem, alucinações gráficas com a realidade que o rodeava e sobretudo um trabalho de ilustração vinha testemunhando essas ideias. À medida que foram saindo os quatro volumes de TLS Series, o autor foi encaminhando novos “episódios” (mas sem essa linearidade ou propósito), mais ou menos subsumidos aos temas da antologia (“Viagens, “Cidade”, etc.). Quase sempre sem texto (com a excepção da peça para TLS Series: Raízes), deixando sempre aberta a ambivalência das circunstâncias diegéticas daquele universo gráfico que ia burilando. (Mais)

26 de abril de 2026

Don’t Like This/Present for you. Kaori Tsurutani/Shino Shinomiya (Fujur)

Durante um certo período, a mangá, ou melhor, toda a banda desenhada japonesa, vista como um bloco homogéneo, era considerada um campo de excessos. Uma banda desenhada pautada sobretudo pelo grande espetáculo, pelas acções grandiosas, de impactos traumáticos. Esses princípios ainda dominam, até certo ponto, uma certa recepção da mangã shonen globalizada. Leitores de uma maior variedade de produção sabem que isso não é verdade, claro. Mas mesmo num momento como o actual, em que o acesso através de traduções nas línguas ocidentais nos dá a conhecer um escopo bem mais alargado (gekigá, BL, sports manga, horror, sátira política, história, etc.) – poderíamos argumentar que cada década abre o leque, mas rapidamente se fecha numa espécie de cânone de géneros e, neste momento, isso seria a tríade entre shonen, gekigá e shojo – , haverá sempre pequenos ângulos cegos dessa oferta.

24 de abril de 2026

Final Cut. Charles Burns (Asa)

Este livro é tecido em torno da perspectiva e voz narrativa de duas personagens, que se conhecem no início do livro e depois se relacionam entre si, em torno de um filme amador, que mescla ficção científica, body horror e weird fiction. Brian, o introvertido artista de desenhos estranhos e co-autor dos filmes, e Laurie, a jovem beldade ruiva que se tornará a actriz principal. Mais uma vez, Charles Burns coloca no centro da atenção o desenvolvimento de uma história de amor adolescente, e as metáforas em torno das metamorfoses físicas e psíquicas que isso implica. Mais, a ideia do cinema não é apenas uma actividade superficial para as personagens, é mesmo a estrutura que explica a lógica das memórias, da montagem e da possibilidade de reescrita da realidade filmada. 

20 de abril de 2026

A História de uma Serva. Margaret Atwood e Renée Ault (Bertrand).

“Ambas somos invisíveis, ambas somos funcionárias”. Esta é, numa tradução tentativa da frase de Atwood, aquilo ao que as mulheres são reduzidas em Gilead, uma nova configuração dos Estados Unidos num futuro indeterminado, em que uma crise populacional desencadeia a ascensão de um poder teocrata. Impensável.  Ou…

O romance é de 1986 e parte da sua recepção crítica – a negativa – não apenas apresentava a narrativa como controversa, como igualmente chocante e paranóica. Não posso demonstrar ter sido o adjectivo “histérico” utilizado, mas não nos surpreenderia, já que tantas vezes serve de arma de arremesso favorita contra mulheres. Curiosamente, a própria Atwood concebia que a premissa era “demasiado louca” mas a sua capacidade de observação política aguda fazia-a compreender certos sinais, decisões e escolhas na sua sociedade que a faziam prever aquelas possibilidades que, na ficção científica, se tornam pasto das mais mirabolantes criações, as quais jamais deixam de espelhar o seu próprio tempo de inscrição. (Mais)

22 de fevereiro de 2026

Astérix en Lusitanie. Fabcaro e Didier Conrad (Hachette).

Ou, A insuportável ausência de espírito.

Sempre me pautei por um princípio, o qual, apenas mais tarde na minha tarefa enquanto crítico, aprendi estar expresso de forma clara por Jorge Luís Borges. “No hay poeta, por más mediocre que sea, que no haya escrito el mejor verso de la literatura, pero también el más desdichado”. Isto leva-me a ler sempre as obras todas de forma positiva, de mente aberta, buscando incessantemente por esse “melhor verso” e, a partir dele, poder estruturar uma leitura. Por vezes, na falha desse encontro, prefiro o silêncio, do que algo apenas construído sobre o desprezo. Todavia, há momentos em que isso é absolutamente necessário, numa espécie de procura por uma justiça, de reequilíbrio, e não deixar que apenas uma recepção febril e débil, ela também medíocre, prepondere num contexto. Mas a leitura deste livro, adiada por desconfiança e penosa na sua concretização, provou que era de facto difícil descortinar uma pedra branca que fosse numa corrente de desgraças. (mais)

20 de fevereiro de 2026

Duas raparigas nuas. Luz (Asa)

Num tempo em que a esmagadora maioria das editoras com algum poder financeiro, que apostam na tradução e publicação de títulos estrangeiros, fazem apostas algo débeis no que diz respeito à atenção para com obras e autores que criam algum tipo de novos haustos no campo da banda desenhada, e se vê sobretudo uma continuidade em tendências absolutamente esgotadas, com mais de 50 anos (em média), ou então em géneros de uma planura genérica desinspirada, a mera possibilidade de surgir algo relativamente distinto torna-se um relampejo. 

Luz é um autor que despertou para o mundo da banda desenhada de uma forma mais sustentada após o seu terrível testemunho dos atentados mortíferos ao Charlie Hebdo. Quando foi lançado Catharsis, demos conta desse livro, acreditando tratar-se de algo distinto, não apenas na carreira do autor, mas na própria linguagem que acreditamos ser livre e aberta da banda desenhada. Desde então, Luz tem criado outros títulos, uns mais interessantes que os outros (noutro local, discutimos Vernon Subutex, adaptação magnífica da obra literária homónima de Virginie Despentes). (mais)

4 de fevereiro de 2026

Lerbd - Living Will. André Oliveira, Joana Afonso, Pedro Serpa (Polvo)


Falámos deste livro quando foi lançado o primeiro fascículo ou comic book, numa auto-edição em inglês. Também demos conta depois no 3º volume, a propósito do seu lançamento, mas nessa primeira abordagem apontávamos desde logo a forma rara com que tínhamos nas mãos uma série com um protagonista idoso tratado como um ser humano completo, e não como uma mera caricatura da velhice, ou enclausurado numa figura cuja maior acção estaria enterrada no passado. Ao longo da série, algumas dessas expectivas alteraram-se, em relação à trama narrativa, mas não ao seu propósito. Agora que os materiais foram recolhidos num só volume, aumentado, e em português, é bem possível que muitos leitores o abordem como um novo texto. E assim pode ser lido, claro. (Mais)