24 de janeiro de 2023

The End of Madoka Machina. André Pereira (Massacre)

Provavelmente será o proverbial “fugir com o rabo à seringa”, mas uma vez que havia discutido este título anteriormente, sob forma de série, sinto-me perfeitamente no direito de me abster de considerações mais alargadas sobre o “conteúdo” deste volume. Falámos de Madoka Machina mal foi lançada no final de 2015, alertando sobretudo para os modos formais e heteróclitos com que se propunha contar a história, e depois no seutérmino, em 2018, já nos abalizando das formas como aborda assuntos das relações entre labor e capitalismo, a (falsa) desmaterialização dos meios digitais e a sacralização/tribalização da sociedade pelas suas inscrições sociais. Este volume, intitulado The End of Madoka Machina, colige todos os seis números originais dos comics, então publicados pela Polvo, com algumas alterações cosméticas, textuais e de menor monta sobre o material édito, e agrega-lhe a curta que havia saído na colectiva All Watched Over By Machines of Loving Grace, sobre a qual conduzimos uma entrevista com os editores, e ainda mais umas 30 e tal páginas inéditas, intercaladas ao longo da narrativa. E ainda contém um largo posfácio do autor, que se reveste de uma importância crítica substancial, já que tem laivos de ensaio e reflexão sobre a própria matéria abordada no livro. Nesse texto, explicam-se raízes, influências, contextos, escolhas, progressos e retrocessos.

21 de janeiro de 2023

Ex-Votos para o século XXI. Miguel Carneiro (Matrijarsija)

O termo “ex-voto” é a versão coloquial, objectificada, de uma expressão latina mais longa: ex voto suscepto, “em busca de um voto”. Esta última palavra descende de votum, que pode ser interpretada como “aquilo que é prometido”, usualmente a uma figura divina, em benesse de algo que se procura adquirir, ou como gratulação de algo já alcançado. É portanto um movimento paradoxal, centrífugo e centrípeto, de dar e receber, para fora e para dentro, estabelecendo um elo, uma liga, uma ligação (uma religião) entre aquele que pede e a entidade a quem é pedido. Acto solene, mescla dádiva e desejo. Se num momento poderia estar associado a um acto verbal – ode, dedicação, prece, canto –, estes votos ganhariam corpo material sob as mais diversas formas em objectos tornados ex-votos. Estes não têm necessariamente que surgir ou “nascer” como tal, podendo ser capturados do mundo ordinário e transformados, ou ressignificados, através da dedicação e/ou sacrifício dele mesmo à divindade em questão. Existem, todavia, objectos materiais criados como tal. 

19 de janeiro de 2023

Fazer Isto & Assignar. Banda desenhada, autografia e memória gráfica em Rafael Bordalo Pinheiro.

Serve a presente nota para anunciar o lançamento de Fazer Isto & Assignar. Banda desenhada, autografia e memória gráfica em Rafael Bordalo Pinheiro.

Trata-se do 5º volume da colecção "Cadernos de Bordalo", coordenados e publicados pelo Museu Bordalo Pinheiro, uma série de monografias temáticas dedicadas às várias dimensões da obra e da vida do humorista finissecular. Coube-me a honra e privilégio de escrever sobre a banda desenhada neste autor, quem quase consensualmente consideramos como a figura tutelar desta disciplina artística no nosso país. 

Na verdade, deve ser encarado mais como um longo ensaio, uma vez que não sou historiador. Existem muitas obras, por mim consultadas e admiradas, onde encontrarão modos mais exaustivos de listar a obra produzida por Bordalo. António Dias de Deus e Leonardo de Sá, em primeiro lugar, naturalmente e sobretudo no que diz respeito à banda desenhada, mas considerando mais alargadamente a obra caricatural, de imprensa, gráfica, também os trabalhos de Irisalva Moita, Carlos Bandeiras Pinheiro, João Medina, Maria Manuel Pinto e Barbosa e Álvaro Costa de Matos foram fundamentais nesta navegação, tal qual a ainda seminal biografia de José-Augusto França. Mais recentemente, o monumental Quase Todo o Bordallo. Obra Gráfica, de Isabel Castanheira, tornou-se um instrumento imperativo e de sistematização, complemento magnífico mesmo com o acesso a toda a obra, pública, inédita e de esboços, que me foi facilitada pelos serviços museográficos. Aliás, o acesso a toda a equipa, através de consultas extemporâneas, perguntas sobre minudências e depois múltiplas leituras críticas tornaram o volume em algo melhor do que seria, caso caminhasse sozinho.

O objectivo, dizia, é o de um ensaio. Não se procura um regime de exaustão ou de listagens, cujo remate poderia ser hercúleo, mas árido e insubstancial. Ao longo de sete capítulos centrais, menos ou mais tematizados, perscruta-se a obra de Bordalo, para entender atitudes, mecanismos, recorrências, preferências e eficácias nos modos artísticos e nas inscrições sociais e políticas do autor. O ponto de partida é o de que possuímos hodiernamente um conceito e campo social da "banda desenhada" que pura e simplesmente não existia no tempo de Bordalo. Ele é, afinal, um dos "inventores" de toda uma série de estratégias formais, modos de publicação e circulação, atitude social, e de potencialidades textuais e materiais que depois seriam seguidas e/ou abandonadas. Bordalo, tal qual outros autores que lhe foram imediatamente anteriores ou contemporâneos,  estava a experimentar esta linguagem, e não se podia recorrer de um corpus de experiência consolidado, tal qual nós hoje podemos fazer, com 150 anos de produção. O que não significa que Bordalo não tenha reempregue princípios, noções ou instrumentos advindos de outras longas "tradições", advindas da literatura, do teatro e,, claro está, da produção gráfica histórica da civilização ocidental (e não só, como é demonstrado no livro!). 

Pondera-se os diálogos artísticos que Bordalo estabeleceu com os grandes "mestres da banda desenhada" - mesmo antes de tal nome! - do seu tempo, como Cham, e através deste Töpffer, Nadar, Caran d'Ache e Wilhelm Busch, para descobrir um autor sempre proteico. Atenta-se às muitas maneiras, graduais, diferenciadas e materializadas, em que o autor procurou soluções editoriais, e como isso influenciaria as suas escolhas de "assunto" mas também de "estilo". Demonstra-se a maneira como o autor explorou a autobiografia em banda desenhada, mesmo antes desta se tornar um consolidado "género" (a partir sobretudo de 1990). Discute-se a maneira como respondeu à realidade bruta dos factos em seu torno, o que o levou por vezes mesmo à reportagem, ao olhar antropológico, mas quase sempre sarcástico e metafórico. Acede-se aos muitos modos em que o teatro - paixão de Bordalo desde jovem - viriam a influenciar a sua produção, a todos os níveis. Acompanhamos, de modo impossível de exaurir, como o artista fundou "typos" e "personagens", que respondiam a perspectivas do seu tempo, mas que viriam a tornar-se herança nacional, e plástica. 

No fundo, tentamos compreender novamente Bordalo à luz do que sabemos hoje da banda desenhada, do ponto de vista histórico e teórico, assim como repensar a banda desenhada de hoje a partir da prática, tão viva ainda, de Bordalo.

Nota final: muitas pessoas há a agradecer, remetendo à página que lhes é dedicada no livro. Este encontra-se, para já, à venda na loja do Museu. Em breve, anunciarei a data da sua apresentação, no próprio Museu. 

18 de janeiro de 2023

3 Graus de Carequice - Episódio 67 - Biografias


Tosse, rouquidão, falta de ânimo? É o dia-da-dia da geriatria bedéfila. Mas que isso não impeça os Marretas de se juntarem para terapias indizíveis. Desta feita, André Oliveira propôs ponderações em torno de "biografias em banda desenhada", utilizando como modelos "Eusébio, O Pantera Negra" (Arcádia 1990), do recentemente falecido Eugénio Silva, e "Morro da Favela" (Barba Negra 2012), de André Diniz, criando uma dicotomia apenas de partida para uma discussão que foi, contra o segundo princípio da termodinâmica, aquecendo, mas terminando em piadas de mau gosto, idiotices e mau cabelo, tudo da parte da jibóia mais velha, que os moços são bons rapazes.

4 de janeiro de 2023

Espelho da água. João Sequeira (Polvo)

É apanágio do artista (escritor, pintor, cineasta) ter a capacidade de olhar o mundanal e destacar-lhe os elementos de tal modo, frente aos quais, ao nos serem devolvidos, remoldados que estarão pelos materiais de eleição do feitor, nos depararemos com o familiar e, ao mesmo tempo, com o que nele existe de extraordinário, obrigando-nos a ver de novo, pela primeira vez, esses mesmos objectos. Espelho da água, tratado fosse com mera sinopse, de elementos narrativos encadeados em descrição fria, surgiria como patética novela. Uma manhã, um corpo de mulher flutua e perde-se ao largo da travessia de um cacilheiro vindo da margem sul para Lisboa, e testemunhamos os gestos da tripulação, a tribulação do capitão, os apoucamentos dos muitos passageiros, as lamentações das gaivotas e o fado dos bivalves. Todavia, é a agulha argêntea do escritor, e depois o fluido e negro esparzir do artista, que torna essa travessia numa pequena jóia. 

1 de janeiro de 2023

A Rainha dos Canibais. Miguel Rocha (A Seita)

Vivemos num tempo em que a sofreguidão da oferta e a imediatez do acesso acabam por dissipar a compreensão do esforço que a produção de uma banda desenhada implica, sobretudo num contexto em que a sua recompensa é quase nula, seja sob a forma mais baixamente material de benesse financeira, fama mediática, novas oportunidades, conquista de públicos, menos que alargados, adequados, e outros aspectos, seja sob a forma da sua recepção balizada e ancorada numa avaliação informada. Isso muitas vezes repercute-se pela dificuldade em que autores, de fartos currículos e competências artísticas e/ou literárias comprovadas, têm em encontrar vazão para darem uma maior continuidade ou celeridade a este território criativo. Por isso, sempre que um autor se ausente das prateleiras com novidades por um período igual ou maior que, digamos, três, quatro anos, subitamente parece ter-se “eclipsado”, e no momento em que surja algo novo, se fale de “regresso”. Miguel Rocha, um dos mais significativos auteurs da cena nacional (não apenas nas décadas em que esteve activo, arriscar-me-ia a destacá-lo em toda a história do meio) jamais se “eclipsou” da cena, e este não é um seu “regresso”. Pura e simplesmente não tínhamos um seu livro há mais de dez anos, e agora temos a oportunidade de ler cerca de 200 páginas de uma espécie de devaneio por um seu imaginário fantasmático, falsamente nostálgico e febril, alimentado pelas leituras de uma infância sedenta em aventuras.

30 de dezembro de 2022

3 Graus de Carequice - Episódio 66 - Balanço de 2022 e desejos para 2023


Conforme prometido, eis um programa - mais longo - em que nos perdemos em leituras passadas, memoráveis, que gostaríamos de partilhar e aconselhar, mesmo no meio de muitas ausências. E depois, breves votos do que se desejaria ler no futuro, por cá.

Risca Faca. André Kitagawa (Monstra)

Este livro faz precisamente um ano que foi publicado, mas infelizmente o acesso das edições brasileiras em Portugal – e a inércia de quem escreve estas linhas – leva a que a sua recepção seja tardia. Porém, esperemos, jamais desatempada. E quando se trata de obras que almejam uma certa atemporalidade, qualquer momento para a sua descoberta é o momento certo e recompensador.

Recordar-se-ão alguns dos leitores e visitantes deste espaço que a obra de André Kitagawa esteve presente em Portugal integrada na exposição “Seisesquinas de inquietação”, integrada no Festival da Amadora de 2013, comissariada por mim mesmo. A minha capacidade de acompanhamento da obra deste autor não foi pautada pela maior das proximidades – apesar de termos salientado a sua peça num dosprojectos da Graphic MSP – mas isso dever-se-á igualmente à própria produção do autor ser mais esparsa do que outros seus companheiros em termos de temática, atenção política e sensibilidade social, como Marcelo D'Salete, Wagner Willian, André Diniz ou Rafael Sica. Mesmo este volume é relativamente curto: 120 páginas com 3 histórias individuais, e muitos textos/blurbs de terceiros e outros complementos. A sua concisão, porém, é precisamente a da lâmina, célere, certeira e que, num clarão, nos fere.

24 de dezembro de 2022

18 de dezembro de 2022

Slight. Simão Simões (Can Can Press)

Uma das constantes na apreciação crítica de uma determinada forma de arte é quando esta esbarra num dos supostos limites, ou periferias, de todo um território que é apenas compreendido como tal no momento da sua crise. Não há qualquer resistência enquanto os textos e exemplos de uma determinada arte, no caso, a “banda desenhada”, seguem aquilo que é a percepção média, indiscutida, da sua prestação usual. Narrativo, representacional, subsumido a convenções simbólicas e de géneros literários, associados a gestos individuais de esforço artístico e vontade autoral, etc. Mas quando se apresentam recusas desses mesmos papéis – banda desenhada não-representacional, não-narrativa, sem agência humana de um modo clássico (a hodierna discussão em torno do uso de imagens geradas através de programas de prompts de I.A.) - lá caem os proverbiais Carmo e a Trindade.