Um volume importante na produção nacional, Cheap Nature é uma chamada de atenção para toda uma inscrição social da realidade que nos rodeia, não apenas a vida diária de um Portugal estratificado, mas de várias unidades encaixadas umas nas outras: cidades, países, economias, sistemas sociais, compreensões do tempo, vivências com ou na natureza, acessibilidade à riqueza material ou outra. O livro tem como autor Xavier Almeida, que o assina na capa, mas o guião parece ter sido co-criado com quem assina como Pato Bravo, isto é, o músico B Fachada, isto é, Bernardo Cruz Fachada, também editor da Péssima. Formas de trabalho não-lineares, não-autoritárias, abertas a diálogos, que vivem presentes na tessitura do que aqui se apresenta. (Mais)
23 de julho de 2026
Cheap nature. Episódios de renúncia e parcinómia. Xavier Almeida e Pato Bravo (Péssima)
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Pedro Moura
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5:05 p.m.
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21 de julho de 2026
Caderno de Memórias Coloniais. Isabela Figueiredo e Júlia Barata (Caminho)
A recepção crítica do romance de Isabela Figueiredo, desde o seu lançamento em 2015, tem-no assinalado enquanto parte de todo um processo literário e social em curso nas letras portuguesas (e para além delas ou mesmo das letras em si) mas ao mesmo tempo sublinhando as suas características singulares.
Tem havido, sob a forma de literatura, mas não apenas (estudos académicos, reportagens investigativas, considerações políticas até), uma re-emergência da voz dos ditos “retornados” – palavra contestada, controversa, muitas vezes pejorativa (muitos de nós reconhecerão algum caso de família), mas que contém em si toda a história sofrida que lhe pertence -, isto é, o repatriamento/migração forçada (a escolha das palavras sublinha de imediato um posicionamento, muitas vezes ideológico) de cerca de meio milhão de portugueses com o colapso do Império Colonial Português em 1974, e que veio criar processos de fricção na identidade própria não apenas dessas mesmas pessoas, mas de toda a ideia de “portugalidade”, revista desde então e ainda não resolvida hoje. (Mais)
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Pedro Moura
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9:38 a.m.
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15 de julho de 2026
Aldeamentos de Guerra. Francisco Sousa Lobo (Chili Com Carne)
Como sabemos, o género literário conhecido como “ensaio” foi cunhado e fundado por Montaigne, a partir da noção de exagium, que significa “exame” ou “pesagem”. Não se trata de um exercício de escrita que pretenda fechar-se como afirmação ou totalidade, mas antes como contínua interrogação do objecto a que se dedica, algo que vai pensando à medida que escreve. Essa sua natureza instável, subjectiva, fragmentária, e por isso capaz de expressar uma autonomia face à realidade a que se dirige, torna o ensaio numa sempre estimulante e espiritual leitura, numa construção mútua. Isto é, o leitor também se interroga.
Francisco Sousa Lobo é um autor que tem criado formas investigativas que tornam a banda desenhada num instrumento desse pensamento ensaístico. Se tem livros de banda desenhada de ficção, de autobiografia e de objectos pelo meio, também outros se revestem dessa película do “ensaio”, muitas vezes virado para a figura do próprio autor, a titulo de exemplo o livro Deserto/Nuvem, outras para temas semi-externos, como Gente Remota. Aliás, é com este livro que Aldeamentos vem criar um outro elo quase directo. Gente Remota é um dos poucos livros de banda desenhada contemporânea portuguesa que utiliza o “assunto” das Guerras Coloniais (e já é tempo de começarmos a empregar outros termos, como Guerras pela Independência) não tanto para criar uma situação fictícia mais ou menos formulaica para, apenas aparentemente, pensar esse período, mas para criar uma dolorosa fotografia da situação actual, de como os crimes se misturaram com o silêncio e, assim, mais infectados ficaram, tornando quase impossível uma retrospectiva clara, nítica e objectiva. Será alguma vez possível? Duvidamos. (Mais)
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Pedro Moura
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11:42 a.m.
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12 de julho de 2026
Da noite para o dia. Sofia Neto (Chili Com Carne).
Na passagem do ano de 2025 para 2026, os desenhos originais de Sofia Neto para o seu último projecto de livro foram apresentados numa exposição no Clube de Desenho. Tive a honra, então, de ser convidado a "ler" o livro e a escrever um pequeno texto para a folha de sala.
É esse mesmo texto aqui apresento, en lieu de um novo texto mais consonante à prática crítica do Lerbd, mais manca nestes últimos anos, precisamento devido à multiplicação de outros papéis e funções. É verdade que a sua leitura material, em livro, leva a um bloco de sensações totalmente distinto, e o próprio propósito diferenciado dos textos - uma folha de sala, que serve para estimular algumas pistas de contextualização e navegação visual e interpretativa - e uma crítica - que ancora os juízos de valor numa argumentação mais validada, levaria a outra natureza, mas o rempo, meus amigos, o tempo... (Mais)
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Pedro Moura
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10:41 a.m.
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7 de julho de 2026
Mitimota. Amanda Baeza (Chili Com Carne)
Mitimota e Bruma não são a mesma coisa. Ambas são a reunião, num só volume, de um conjunto de pequenas bandas desenhadas curtas, particularmente heteróclitas entre si, publicadas pela autora Amanda Baeza ao longo de anos em variadíssimas publicações, em países, línguas, formatos, estilos e circunstâncias diferentes. Sim. E não é impossível encontrar, de um título para o outro, pequenos temas recorrentes, trejeitos ou facetas comuns, uma maneira de encarar o acto de criar banda desenhada livre, sempre livre.
A autora tem-se especializado, digamos assim, em histórias curtas, por vezes apenas um par de páginas, e não tanto em fôlegos mais longos, ainda que haja notícia de um projecto no forno com essas características há um tempo. Ainda teremos de esperar por essa nova lavra. (Mais)
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Pedro Moura
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6:09 p.m.
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10 de maio de 2026
Terrea. Ricardo Cabral (A Seita/Comic Heart).
Quando a edição de artista de Terrea surgiu, há mais de dez anos, encontrámos ali um livro cuja “escrita” era dominada pela pulsão do desenho, que Ricardo Cabral já vinha alimentando há um breve trecho, libertando-se da canga de uma narrativa linear: os seus diários de viagem, alucinações gráficas com a realidade que o rodeava e sobretudo um trabalho de ilustração vinha testemunhando essas ideias. À medida que foram saindo os quatro volumes de TLS Series, o autor foi encaminhando novos “episódios” (mas sem essa linearidade ou propósito), mais ou menos subsumidos aos temas da antologia (“Viagens, “Cidade”, etc.). Quase sempre sem texto (com a excepção da peça para TLS Series: Raízes), deixando sempre aberta a ambivalência das circunstâncias diegéticas daquele universo gráfico que ia burilando. (Mais)
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Pedro Moura
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2:17 p.m.
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26 de abril de 2026
Don’t Like This/Present for you. Kaori Tsurutani/Shino Shinomiya (Fujur)
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Pedro Moura
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6:15 p.m.
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24 de abril de 2026
Final Cut. Charles Burns (Asa)
Este livro é tecido em torno da perspectiva e voz narrativa de duas personagens, que se conhecem no início do livro e depois se relacionam entre si, em torno de um filme amador, que mescla ficção científica, body horror e weird fiction. Brian, o introvertido artista de desenhos estranhos e co-autor dos filmes, e Laurie, a jovem beldade ruiva que se tornará a actriz principal. Mais uma vez, Charles Burns coloca no centro da atenção o desenvolvimento de uma história de amor adolescente, e as metáforas em torno das metamorfoses físicas e psíquicas que isso implica. Mais, a ideia do cinema não é apenas uma actividade superficial para as personagens, é mesmo a estrutura que explica a lógica das memórias, da montagem e da possibilidade de reescrita da realidade filmada.
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Pedro Moura
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9:06 p.m.
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20 de abril de 2026
A História de uma Serva. Margaret Atwood e Renée Ault (Bertrand).
“Ambas somos invisíveis, ambas somos funcionárias”. Esta é,
numa tradução tentativa da frase de Atwood, aquilo ao que as mulheres são
reduzidas em Gilead, uma nova configuração dos Estados Unidos num futuro
indeterminado, em que uma crise populacional desencadeia a ascensão de um poder
teocrata. Impensável. Ou…
O romance é de 1986 e parte da sua recepção crítica – a negativa – não apenas apresentava a narrativa como controversa, como igualmente chocante e paranóica. Não posso demonstrar ter sido o adjectivo “histérico” utilizado, mas não nos surpreenderia, já que tantas vezes serve de arma de arremesso favorita contra mulheres. Curiosamente, a própria Atwood concebia que a premissa era “demasiado louca” mas a sua capacidade de observação política aguda fazia-a compreender certos sinais, decisões e escolhas na sua sociedade que a faziam prever aquelas possibilidades que, na ficção científica, se tornam pasto das mais mirabolantes criações, as quais jamais deixam de espelhar o seu próprio tempo de inscrição. (Mais)
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9:35 a.m.
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22 de fevereiro de 2026
Astérix en Lusitanie. Fabcaro e Didier Conrad (Hachette).
Ou, A insuportável ausência de espírito.
Sempre me pautei por um princípio, o qual, apenas mais tarde na minha tarefa enquanto crítico, aprendi estar expresso de forma clara por Jorge Luís Borges. “No hay poeta, por más mediocre que sea, que no haya escrito el mejor verso de la literatura, pero también el más desdichado”. Isto leva-me a ler sempre as obras todas de forma positiva, de mente aberta, buscando incessantemente por esse “melhor verso” e, a partir dele, poder estruturar uma leitura. Por vezes, na falha desse encontro, prefiro o silêncio, do que algo apenas construído sobre o desprezo. Todavia, há momentos em que isso é absolutamente necessário, numa espécie de procura por uma justiça, de reequilíbrio, e não deixar que apenas uma recepção febril e débil, ela também medíocre, prepondere num contexto. Mas a leitura deste livro, adiada por desconfiança e penosa na sua concretização, provou que era de facto difícil descortinar uma pedra branca que fosse numa corrente de desgraças. (mais)
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Pedro Moura
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6:18 p.m.
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