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5 de abril de 2018

Do Inferno. Alan Moore & Eddie Campbell (Biblioteca de Alice)


A palavra “autópsia”, na sua acepção moderna e médica, formou-se no cadinho da emergência do pensamento científico, já no século XVII. Originalmente, a palavra significará tão-somente “ver com os próprios olhos”, “testemunhar” (e isto implicará sempre a ideia desta visão ser a de um terceiro sobre um evento que lhe é externo). Apenas na modernidade passa a significar “a dissecação de um corpo morto para determinar a causa da morte”. 

Como muitos outros críticos já o disseram, e acima de tudo, o próprio protagonista deste imenso romance – e esta será uma das poucas instâncias em que o emprego deste termo técnico literário não é enviesado – em banda desenhada, From Hell/Do Inferno é uma investigação dolorosa, cruel, e violenta ao corpo morto que daria origem ao século XX. Ao contrário do que se poderia imaginar a partir de uma mera descrição, ou pior, através da miserável adaptação cinematográfica de 2001 pelos irmãos Hughes, From Hell não é um “whodunnit”. Focado nos assassínios de prostitutas em Whitechapel, Londres, no estertor do século XIX, que ficariam conhecidos como o caso de “Jack, o Estripador”, o livro assinado por Alan Moore e Eddie Campbell não se interessará tanto pela identificação do assassino, já que parte desde o primeiro momento pela sua revelação: o Dr. William Gull. O que interessa aos autores é a pesquisa do como aconteceu e, até mais, o porquê íntimo dessas acções. (Mais)

14 de agosto de 2017

Miracleman. A Idade de Ouro. Neil Gaiman e Mark Buckingham (G. Floy)

Antes de mais, queríamos esclarecer a declaração de intenções, uma vez que, tendo sido os tradutores deste volume, somos parte interessada no projecto.

Dito isto, e na continuidade de alguns projectos da editora, que nos tem disponibilizado alguns dos melhores títulos do mainstream norte-americano contemporâneo (Saga, Fatale, Southern Bastards), e depois de uma edição com todo o run de Alan Moore (a que corresponderiam 3 livros), eis que se publica um volume com todo [v. comentários] o material criado e publicado na época por Neil Gaiman e Mark Buckingham, herdeiros imediatos do anterior autor, e seus múltiplos colaboradores artísticos. Como é consabido, o Miracleman, nas mãos de Moore et al., transformar-se-ia no principal cadinho e laboratório de cruzamentos de muitas das noções daquele autor britânico que tanto seriam influentes no seu próprio trabalho no território dos super-heróis como depois em todo este género, e a que se viria a dar muitos nomes, desde “desconstrutivismo”, a “pós-moderno”, até mesmo “maturidade” ou “revisionismo”. Não é que algum desses termos esteja errado, mas tampouco serão completos. Seja como for, é inegável que se encontrariam aí muitos dos elementos que depois se tornariam inevitáveis na esmagadora maioria da produção deste género. (Mais)

27 de abril de 2017

Três títulos da Avery Hill. AAVV.


Três passeios por paisagens inconstantes. A Avery Hill é uma recente e pequena editora londrina que parece disposta a fazer apostas numa certa diversidade de linguagens da banda desenhada, que tanto poderá compreender gestos algo experimentais como outras abordagens mais convencionais, mas ainda assim informadas por sensibilidades e estilos contemporâneos, abertos a um diálogo entre vários géneros, e sempre sob o signo da tranquilidade. Dos que nos foi dado a ler, vimos precisamente como constante a exploração dos mais distintos mundos ficcionais, que podem compreender a ficção científica, a fantasia, o fantástico, o mundano e até o horror, mas sempre numa pausada e certeira caminhada. Os três livros que trazemos aqui à colação, de uma forma ou outra, dão-nos a impressão de estarem unidos por “passeios” idênticos, sejam eles mais próximos da ficção ou da autobiografia, e procurando vários graus de experimentação gráfica, narrativa ou de composição. (Mais) 

24 de março de 2017

Colaboração no The Comics Alternative: Stardust Nation, de Deborah Levy e Andrzej Klimowski

O que acontece quando os nossos sistemas de empatia ultrapassam as fronteiras do ego para começarmos a identificar-nos perigosamente com o outro, derrubando as fronteiras, abrindo a nossa experiência própria à alheia? E o que ocorre se essas passagens se elaboram no centro de vários triângulos de dramas psico-familiares?

Uma colaboração entre a dramaturga britânica Deborah Levy num pequeno e simples conto que recorda alguma da programação clássica do Channel 4, e com os desenhos, desta feita coloridos e algo domados, de Andrezj Klimowski, de quem havíamos falado antes, explora essa mesma intriga.

O texto em que o lemos está no The Comics Alternative, aqui.

12 de dezembro de 2016

How to talk to girls at parties. Neil Gaiman, Fábio Moon e Gabriel Bá (Dark Horse)

O problema muitas vezes do sucesso e do apoio vocal e numeroso de certos autores é que abre oportunidades de publicação de trabalho que mereceria um outro tipo de filtro ou esforço. Gaiman atingiu um tal nível de estrelato que até surge como personagem de “autor com conselhos para novos escritores” em séries de animação (The Simpsons, Arthur) e já há muito tempo que qualquer recado ou notinha acaba por ser antologiada, coligida ou adaptada a outro meio. O problema não está, naturalmente, no facto de ser publicado. Isso é até positivo. O problema está em que tem mais um efeito cumulativo do que de relatividade da qualidade de escrita. (Mais) 

11 de novembro de 2016

Miracleman/Watchmen. Alan Moore et al. (Levoir/G. Floy)

A publicação destes dois livros no mesmo ano, por dois projectos diferentes (mas que sabemos estarem aliados por agentes comuns), vem repor uma das muitas falhas da banda desenhada disponível em Portugal em língua portuguesa na norma europeia. As relações de ambos os títulos partem da circunstância de ambas partilharem o mesmo escritor, Alan Moore, e de fazerem parte de um projecto que ele não tem abandonado, pois mais que o pareça nas suas afirmações explícitas: a da reinscrição do género dos super-heróis numa nova relação com a referencialidade real para, a partir disso, interrogar o género mas também a fantasia, a efectividade das utopias, a realidade política que nos assiste, etc. E à distância de mais de trinta anos, não pode haver dúvidas de que houve de facto uma transformação radical desse género provocado pelo trabalho do escritor inglês. (Mais) 

6 de outubro de 2016

Colecção Novela Gráfica II. AAVV (Levoir)

Nota de intenções: tendo traduzido dois volumes desta colecção, assim como escrito o prólogo de dois outros, temos uma associação profissional a esta colecção.
Tendo terminado esta colecção, e não tendo tido oportunidade antes de falar sobre ela, esperamos que ainda sejam pertinentes estes comentários, uma vez que a colecção continuará disponível quer através da rede do Público quer, mais tarde, no mercado livreiro. As ideias apresentadas a propósito da primeira colecção são ainda válidas para esta segunda. Compreendendo-se que o mundo editorial em Portugal, no que diz respeito à banda desenhada, ainda não se encontra num estado óptimo, sobretudo no que diz respeito à sua recepção e circulação, a aposta em apresentar de rompão toda uma série de títulos é uma estratégia válida. De certa forma, é mesmo uma maneira de revalidar alguma da sua história, aumentar exponencialmente os títulos disponíveis de entre os “clássicos”, os “desconhecidos” e os “contemporâneos”, e, de resto, trazer algum grau de diversidade à sua maneira. Não sendo possível esquecermos os gestos, tão diferentes mas sustentados e programáticos, de editoras como a Polvo, a Chili Com Carne e a Kingpin Books, selos mais pequenos mas também buscando coerências várias, como a El Pep, o Clube do Inferno, a Libri Impressi, os projectos comerciais sólidos da Devir, da Goody e da G.Floy, os gestos mais ou menos isolados de editoras generalistas com apostas na banda desenhada nacional e internacional (Bertrand, Parceria A. M. Pereira, Tinta da China, Teorema, Gradiva, etc.), a paisagem é suficientemente variada para albergar e acomodar os propósitos destes projectos da Levoir. (Mais)

5 de outubro de 2016

Colecção Sandman. Neil Gaiman et al. (Levoir)

Nota de intenções: estando envolvido na tradução de vários volumes desta colecção, existe uma relação profissional entre nós e a editora.
Quando a edição de Sandman, pela Devir, se viu interrompida por problemas de cariz legal e internacional, que não era imputável à editora, tecemos algumas considerações gerais sobre a série. A elas remetemos, pois apesar da distância de dez anos, algumas dessas notas são ainda pertinentes. É verdade que a leitura desta série, no início dos anos 1990, se fez numa paisagem mediática e de produção de banda desenhada profundamente distinta daquela que é possível nos nossos dias, já para não falar da própria recepção pessoal, que tem de ser diferente por razões tão várias quanto óbvias. (Mais)

17 de junho de 2016

V de Vingança. Alan Moore e David Lloyd (Levoir) - texto de apresentação

Foi hoje apresentado o primeiro volume da segunda colecção Novelas Gráficas, da Levoir e com distribuição pelo PúblicoV de Vingança, de Alan Moore e David Lloyd. Uma vez que tive o prazer de ter sido o tradutor desta obra para português europeu, pela primeira vez, fui igualmente convidado para estar presente numa sessão que teve lugar na Universidade Nova. Numa outra ocasião, falarei brevemente da colecção. 

Tendo escrito um texto (em inglês, para incluir Lloyd de imediato no diálogo que se seguiu) que não terá outro fim senão o que teve, deixo-o aqui para memória futura ou para quem o desejar ler, com algumas notas adicionais. Não tem qualquer valor académico, sendo apenas um texto de ocasião, mas que tenta sublinhar alguns aspectos que me parecem significativos na releitura deste livro, passados mais de 30 anos. 

As imagens empregues foram retiradas da versão original, para demonstrar um ponto assinalado no texto.

Os meus agradecimentos aos editores da Levoir, ao Professor Rogério Puga e a Dave Lloyd.

18 de abril de 2016

Comic Invention. Laurence Grove e Peter Black (BHP Comics)

Esta caixa é um projecto-companheiro de uma exposição patente no museu Hunterian, da Universidade de Glasgow, co-organizada por um dos curadores do museu, Peter Black, e por Laurence Grove, um investigador académico da Universidade de Glasgow que tem estudado as relações entre texto e imagem, com uma especialização na emblemática e na banda desenhada (mormente de expressão francesa, em torno da qual tem livros e artigos importantes). A caixa possui cinco publicações fisicamente separadas, mas que pretendem dar conta das várias dimensões tentadas nessa exposição, ao mesmo tempo que alertam para dois princípios: por um lado, o de que a relação da banda desenhada com o leitor é directa, material, física, exigindo um contributo activo de construção do significado (qual das publicações ler primeiro?, que relações construir entre elas?), por outro, a de qualquer narrativa desejada é sempre composta por linhas diferentes que podem ter desenvolvimentos distintos conforme a perspectiva de aproximação. (Mais) 

4 de fevereiro de 2016

Colaboração no The Comics Alternative: Disposession & Transforming Anthony Trollope, de Simon Grennan et al

De quando em quando, surgem livros que se tornam enormes desafios a muitas das categorias que alimentamos numa visão tradicional da banda desenhada. Dispossession é um desses livros, o qual levanta questões profundas em torno de expectativas relativas a adaptações literárias, o agenciamento das acções das personagens, e a possibilidade de criar um genuíno diálogo cultural que ilumina ou questiona o tecido original com questões contemporâneas. É como se Simon Grennan, um autor e académico de grande rigor desta arte, fosse capaz de colocar de lado a "tradição" (sem a esquecer, e citando-a mesmo na tessitura do seu projecto), para empregar um método de grande razão. No enquadramento do bicentenário em torno do escritor inglês, ao mesmo tempo que Dispossession foi lançado, foi também publicado um volume académico, Transforming Anthony Trollope, com ensaios, relacionado com o projecto em termos latos. No site The Comics Alternative, tivemos a oportunidade de analisar ambos os livros, procurando que se informasse mutuamente, e ainda tivemos o privilégio de entrevistar Grennan. 
Podem aceder ao artigo aqui. E à entrevista aqui.
Nota final: agradecimentos a ambas as editoras, pelas ofertas dos livros, e a Simon Grennan, pela contínua amizade e simpatia. 

6 de julho de 2015

The King in Yellow. Robert Chambers e INJ Culbard (Self Made Hero)

Como havíamos indicado já na leitura da adaptação de The Dream-Quest of Unknown Kadath, de Lovecraft por Culbard, este artista britânico estava a trabalhar uma outra adaptação da literatura do horror fantástico, ou mais especificamente, da literatura weird. Aliás, estava mesmo a dedicar-se a um dos autores que é apontado como um dos seus progenitores: Robert W. Chambers. Apesar da alargada produção literária deste escritor norte-americano da passagem do século XIX, sobretudo numa veia romântica, é The Yellow Sign, de 1825, um volume de contos, a sua obra mais famosa. Por duas razões, estamos em crer. Em primeiro lugar, por ser uma enorme influência sobre H. P. Lovecraft, Derleth, e outros escritores que dariam continuidade à “mitologia” de Cthulhu, de Carcosa (o reino referido em Chambers), e as mesclas destes universos, iniciadas pelo próprio Lovecraft; em segundo, e mais recentemente, por ser uma das referências recorrentes, mas oblíquas, da primeira série de True Detective, de Nic Pizzolatto. Ei-la. (Mais) 

1 de maio de 2015

Calculus Cat. Hunt Emerson (Knockabout)

Se bem que seja possível estarmos a reduzir a produção de Hunt Emerson a pouca coisa, diríamos que este autor tem como seus principais territórios temáticos o humor desabrido e o erotismo, ainda que este último, seja sob a forma da série Firkin, the Cat ou as adaptações literárias (sendo Lady Chatterley's Lover o primeiro e de maior reconhecimento), esteja muito formado por uma abordagem igualmente humorística. E, também sendo possível estarmos a incorrer numa redução injusta, é Calculus Cat a sua personagem mais famosa, icónica e que terá surgido em mais locais, tendo começado numa publicação americana, na verdade. (Mais) 

25 de março de 2015

Outras literaturas: Próximo Futuro 2015.

Gostaria de anunciar, no momento em que isso se torna público, que no próximo dia 15 de Maio terá lugar uma mesa-redonda na Fundação Calouste Gulbenkian, na qual actuarei como moderador.

Trata-se de uma sessão dedicada à banda desenhada no encontro "outras Literaturas", integrado no programa Próximo Futuro deste ano, na Gulbenkian. 

Este encontro terá a presença dos autores Posy Simmonds (Reino Unido), Anton Kannemeyer/"Joe Dog" (África do Sul), e Marcelo D'Salete (Brasil). 

Eis o texto criado para a ocasião:

Sem mutantes nem conservantes: a Banda Desenhada e o diálogo intercultural.
«O encontro dedicado à banda desenhada, integrado na edição de 2015 do Próximo Futuro, convida três artistas bem diferentes entre si: Posy Simmonds, Anton Kannemeyer e Marcelo D'Salete. Distintos no que diz respeito à geração, nacionalidade, estilo, tradição e materialidade do seu trabalho, esta será uma pequena constelação que espelha a natureza múltipla e mutante da banda desenhada, um campo artístico cujo crescimento tem sido exponencial nas últimas décadas em todos os aspectos. Este encontro procurará compreender não apenas modos de produção mas também que respostas, diálogos e reflexões ela estabelece com o tecido cultural global.»
Ficam os agradecimentos à equipa do Próximo Futuro, sobretudo na pessoa do seu Programador Geral, António Pinto Ribeiro, pelo convite estendido, aos artistas por terem aceite o convite, a Marcos Farrajota, Paul Gravett e Rui Brito pelo apoio, e ainda a Francisco Sousa Lobo. O jornal do certame, a publicar, conterá uma banda desenhada inédita deste último autor. 

27 de fevereiro de 2015

Celeste. I. N. J. Culbard (Self Made Hero)

Gostaríamos de começar por dizer que a resolução narrativa deste livro não é, de forma alguma, satisfatória. Em muitos aspectos até, é uma narrativa falhada. Os elementos que a comporiam e que preparariam uma estrutura unitária, no que diz respeito à coordenação das suas três “linhas de intriga”, são dissolutos, e jamais se coalescem numa forma final, e a explicação cabal dos misteriosos eventos que testemunhamos nunca surgirá. Todavia... o problema está precisamente nesse ponto de partida. É que Celeste não é totalmente uma narrativa. (Mais) 

30 de janeiro de 2015

Quatro estudos.

Desta feita, angariámos aqui quatro títulos escritos por um só autor e apresentando uma tese, tema ou foco disciplinar. Nesta frente igualmente o avanço é substancial, e não se atém somente a leituras analíticas informadas pelas ciências literárias e/ou artísticas, mas tentam dialogar com áreas de interesse mais específicos e mais latas, desde a ciência militar e política, à religião, sociologia, etc. É claro que aquelas áreas mais clássicas, como a narratologia, a literatura, a comparação a linguagens tais como o cinema, o teatro, ou a procura de ligações a outras áreas afectas ao desenho narrativo, etc., não são de forma alguma descuradas, mas é importante que a expansão seja tanto lateral como em profundidade. Alguns destes volumes parecem prescrever sobre áreas já de certa forma abordadas por áreas exploradas anteriormente, enquanto que outros parecem burilar de facto novos territórios, ou apresentam inflexões de tal complexidade que se tornam pontos obrigatórios de passagem e reflexão por aqueles que se atribuam a tarefa de navegar estas águas. (Mais) 

26 de janeiro de 2015

The Dream-Quest of Unknown Kadath. I.N.J. Culbard (SelfMadeHero)

São variadíssimas, como se imagina, as adaptações de Lovecraft à banda desenhada. Ele é, aliás, um favorito mesmo de uma certa tendência da banda desenhada, mais dada ao choque e ao terror gore, se bem que também tenha conhecido desvios e raptos pelos underground comix ou outros géneros e/ou estilos que os transformam de alguma forma para longe do seu território literário, usualmente baptizado de “weird fiction”, mas tratando-se no fundo de uma variação muito particular de uma família mais alargada a que se pode dar o nome de ficção gótica. Um desses desvios de Lovecraft, por assim dizer, e que ainda hoje achamos uma das mais interessantes premissas possíveis neste universo de referências, é aquele proposto pelo autor catalão Max, na sua história curta “El encuentro entre Walt Disney y H.P. Lovecraft”. (Mais) 

2 de janeiro de 2015

And Then Emily Was Gone. John Lees e Iain Laurie (Comix Tribe)

 Existem muitos títulos que tentam alimentar o género do “horror” na banda desenhada, e há várias maneiras de o fazer. Mas se a maioria deles opta pelo caminho fácil da violência, quase sempre gratuita, muitas vezes misturada com um qualquer entendimento da sexualidade de modo básico e titilante, existem outros caminhos mais subtis ou pelo menos mais elaborados. Sem querer de forma alguma arrogar-nos de apresentar uma tipologia fechada ou taxativa, um deles é o da compreensão do que esse género permite como espaço de reflexão dos limiares apresentados ao ser humano, e nesse território temos em Portugal um excelente exemplo com a obra de David Soares. Outra é a de fomentar pequenos universos mitológicos que podem ir aumentando de facetas, até ao ponto é que é menos importante a emoção central que deveriam explorar – o horror – do que a contínua construção do universo diegético; é precisamente isso o que se passa com o desdobramento do universo de Clive Barker pelos Boom! Studios, ou Hexed, da mesma editora (uma exploração das referências de Lovecraft num tecido mais ou menos coeso).  Outra ainda é perseguir formas heterodoxas, surreais, pós-genéricas, e freaks. And Then Emily Was Gone pertence a essa categoria. (Mais)

1 de agosto de 2014

Fish. Bianca Bagnarelli (Nobrow)

Sem precisarmos de fazer uma colheita pelas mais diversas culturas ou recorrer a dicionários especializados, a mais simples leitura deste pequeno livro fará entender que os peixes previstos no seu título estarão presentes não apenas na sua qualidade tangível animal mas igualmente por assumirem um papel simbólico. Talvez o de criaturas que permitem uma consciência e até mesmo algum possível diálogo entre dois espaços incompatíveis naturalmente, mas que também se revestem de significados mais culturais, como acima de tudo aquele que separa o reino dos vivos e o dos mortos. (Mais) 

11 de outubro de 2013

The From Hell Companion. Eddie Campbell e Alan Moore (Top Shelf)

É curioso notar como a expansão da atenção para com a banda desenhada não signifique somente o aumento das vozes que se expressam através dela, nem dos estilos nem dos géneros ou possibilidades narrativas, temáticas e estruturais, mas igualmente das discussões disciplinares em seu torno, o que se vem demonstrar igualmente por estas abordagens a que podemos chamar de edições críticas. Este termo quer dar a entender, de uma forma simples, a publicação de um determinado texto, mas procurando uma sua fixação ancorada por estudos e sustentações críticas e analíticas da sua matéria. No caso das edições da literatura, existe toda uma tradição de aparatos críticos textuais consabidos, mas no caso da banda desenhada isso ainda é relativamente recente. Podemos pensar em Autopsie d’une adaptation, de Jean-François Douvry (um estudo sobre a adaptação do romance 120, Rue de la Gare, de Léo Malet, à banda desenhada por Tardi) ou nas edições The Complete Maus/MetaMaus como gestos conducentes a essa situação. Mais recentemente, temos The Daniel Clowes Reader, de Ken Parille, que abordaremos atempadamente, e este The From Hell Companion.Apesar dos dois nomes na capa, este livro é sobretudo coordenado pelo autor Eddie Campbell, mas que no projecto de From Hell poderá ser tratado como “artista”, sem diminuir a sua força participativa, e cuja relação com a Top Shelf já vem de longe (tendo publicado a integral de Alec e estando para breve a de Bacchus).
From Hell é, possivelmente, uma das obras mais monumentais e majestosas da banda desenhada moderna. As comparações directas entre textos diversos é sempre falha, mas a razão dessa apreciação global não terá a ver com a longevidade ou fama do trabalho (se bem que foi produzida ao longo de dez anos, termina num tomo imponente, e passados mais de vinte anos desde o seu início, ainda continua a ser uma referência para os seus leitores atentos), nem com estratégias de espectacularidade (se bem que possamos ler alguns episódios, das visões de Jahbulon à “apoteose” de Gull, passando pela obscena e ritual matança das mulheres pelo médico), nem com experimentações formais nítidas (como em Watchmen, mas ainda assim tendo soluções magníficas) e muito menos com o facto de ter conquistado “traduções” (o filme baseado nele é, numa palavra, medíocre, para não dizer pior). From Hell é um gesto de uma elegância narrativa e visual muito raro (como esta  página, que Campbell usa como exemplo de leitura pluridireccional, inclusive em termos do texto). Não é um policial, pois sabemos quem é o assassino - isto é, a exploração fictícia dessa hipótese, Moore e Campbell são claríssimos que não pretendem criar uma solução, mas sim uma obra ficcional - Jack, the Ripper, desde o início; não é uma obra de horror, pois as emoções que se pretendem estimular não são essas súbitas alavancas e desconfortos, mas antes uma protelada angústia em nos aproximarmos de uma realidade que jamais compreenderemos na totalidade; não é uma biografia, se bem que se arrolem factos e ideias em torno das mais variadas personagens históricas e da cidade de Londres do final do século XIX; não é uma teoria, se bem que a sua trama e matéria visual provoque uma tessitura fortíssima nesse sentido. Como o primeiro episódio escrito por Moore para Swamp Thing, no qual ele coloca todas as perguntas mais importantes para compreender a personagem principal, mas necessariamente mergulhando num acto de violência desapaixonada, From Hell é antes uma lição de anatomia. É também, sob a influência assumidíssima da obra literária e cinematográfica de Ian Sinclair, um gigantesco passeio psicogeográfico pela cidade de Londres, que se torna assim, tal como apontado por tantos críticos, mais uma, senão a principal, personagem desta obra. Aliás, em 1001 Comics You Must Read Before You Die, uma das obras apontadas como similares é Berlin, de Jason Lutes. E se bem que a pesquisa do autor norte-americano seja uma mais circunscrita pesquisa histórica, a polifonia dessa outra obra é comparável, mesmo que From Hell provoque um escopo mais alargado e mais profundo para com a matéria que constitui a própria existência humana, as dores que infligimos uns aos outros, e as desigualdades sociais que empregamos para o fazer. Enfim, uma obra feita por dois soberbos autores britânicos para o mercado norte-americano, mas que mergulhava na Inglaterra vitoriana e, como apontado pelo próprio texto, e outros críticos, acaba por ser uma dissecação e trabalho de parto dos horrores do século XX, uma espécie de interrogação sobre o (falso) estado de civilização a que pensávamos (e ainda hoje pensamos) ter atingido.
Se se pode falar de dissecação, anatomia revelada, esses gestos são cumpridos para que se provoque um choque de destruição de ilusões. Numa das muitas partes em que Eddie Campbell tece comentários mais filosóficos sobre as implicações desta obra, e mais concretamente sobre a necessidade que as pessoas parecem ter em nutrir teorias da conspiração, implicações maquiavélicas da Maçonaria ou outras ordens “controlando os fios”, escreve o autor: “A humanidade sente um profundo terror em relação ao insondável, e por isso inventamos deuses e conspirações. Preferimos acreditar que pessoas velhacas controlam as coisas do que considerarmos a possibilidade que ninguém o faz” (259). Esta é uma ideia que Moore, de resto, havia explorado na própria obra, algo que, admite o escritor, escreveu para efeito, mas quando se apercebeu da sua verdade profunda - a de que os deuses existem mesmo, mas na nossa imaginação, e é em nome deles que tanta mortandade e crime se cometeu - foi “forçado”, digamos assim, a viver essa mesma verdade. Poder-se-á dizer que foi graças a From Hell que Moore, aos 10 anos, tomou a decisão de se tornar um mago.
Essa é também uma das razões pelas quais o William Gull fictício - não podemos parar de insistir neste aspecto - é um vilão muito mais bem construído e interessante e eficaz e memorável do que todos aquelas figuras pré-fabricadas (zombies, lobisomens, nazis). E a sua apoteose final, em que Gull se torna uma espécie de criatura semi-divina, a quem as várias figuras do seu panteão sincrético lhe dá as boas-vindas, mesmo que apenas na ilusão no interior da sua mente , é ainda mais tocante. Como se cita de uma entrevista com Roger Sabin, as constelações são padrões impostos sobre as longínquas estrelas pela nossa própria perspectiva e circunstância, e é isso o que os “caçadores de gaivotas” Moore e Campbell fazem com From Hell, magistralmente. Um padrão.
O presente livro é divido em várias partes, que correspondem aos capítulos da obra original, parte nas quais Campbell tenta identificar os temas que se concentram nesses agrupamentos, como “a cidade de Londres” ou “princípios cinemáticos”, por exemplo. No entanto, para uma simplicidade de consulta e acompanhamento ou releitura da obra, está tudo organizado pela ordem dos capítulos. Existem interlúdios com imagens das mais diversas naturezas (ver adiante), mas tudo isto contribui para aquela imagem do “floco de neve de Koch” que é explicitamente citado no epílogo da obra, corroborando a forma como vamos espiralando através de informações (recordemo-nos dos magníficos apêndices textuais de cada livro) até um hipotético “centro” que, como quer o poema de Yeats citado, jamais se sustenta.
Além do mais, juntam-se os complementos expectáveis: novas aguarelas, as capas e ilustrações a cores feitas por Moore e Campbell para as publicações originais ou outras plataformas, material promocional, as fotografias tiradas pelos autores ou amigos (a ideia de Jamie Delano servindo de chauffeur é impagável), os rascunhos nos blocos de apontamentos de Moore, algumas sinopses ou tratamentos alternativos das versões finais, informações sobre o caso real contrastando com as opções literárias e artísticas dos autores, comparações ou menções - sarcásticas e corrosivas - à patética versão cinematográfica do livro, trechos das mais diversas entrevistas ou artigos sobre a obra e os autores, e até desenhos da filha de Campbell, Hayley, que, tendo acompanhado o pai nesta aventura desde os 3 anos, desenhava pelos 6, 7 anos de idade cenas retiradas directamente das cenas mais escabrosas da magnum opus…
O primeiríssimo capítulo de From Hell saíria na revista Taboo no. 2, a Setembro de 1989, a qual era coordenada por Steve Bissette mas que atravessaria variadíssimos problemas de calendarização, circulação e vendas (aprendemos aqui que várias empresas de acabamento se recusavam a aceitar o livro dado o seu conteúdo potencialmente controverso, tal como os “conteúdos” de From Hell levantariam alguns obstáculos na sua importação na África do Sul, Austrália, ou mesmo no Reino Unido), ao ponto de Campbell apelidar a revista de “antologia trimestral que sai uma vez por ano”. Foi nessa mesma revista que as primeiras páginas de Lost Girls sairiam, na sua primeiríssima versão, depois abandonada. Mas mesmo com a transformação do projecto numa espécie de magazine irregular, os vários livros de From Hell atravessariam dois projectos editoriais (a Tundra e depois a Kitchen Sink), e apenas passados dez anos seria a obra, como um todo, publicada num imenso volume único pelo selo do próprio Campbell. Talvez o seu impacto junto a um público mais alargado tenha apenas surgido depois dessa sua existência em um volume, e será a ele que haverá sempre novas conquistas de leitores.
Para quem havia lido o primeiro volume (de uma série que jamais viu continuidade) dos The Complete Scripts desta obra, pouco adiantará este novo volume em termos de aproximação e aprendizagem do método do escritor (já para não falar dos materiais espalhados noutros locais, como os livros de homenagem, a monografia de Millidge, etc.), mas como o próprio Moore indica em relação ao seu processo de trabalho, tendo uma ideia da imagem geral desde o primeiro momento mas à medida que avançava se ia apercebendo cada vez melhor dos pormenores, também esta leitura nos vai dando aos poucos novos elementos. Para além do acesso aos scripts até agora nunca revelados, parte de leão desta obra, outra significativa parte desses elementos partem de Eddie Campbell, que não apenas providencia novos desenhos ou material de preparação, como comentários, muitos dos quais hilariantes, mas que vão iluminando o processo de trabalho e de colaboração, as circunstâncias desses mesmo trabalho, e outros faits divers. Ainda assim, esta é uma oportunidade para compreender que Moore cria um género muito particular de escrita. Ao lermos os argumentos, apercebemo-nos da sua forma literária, que parece ir muito além da “necessidade” de criar informações visuais para o artista cumprir; não tem apenas a ver com informações impossíveis de colocar no papel, desde sons a cheiros, impressões ou pormenores detalhadíssimos, é a própria linguagem burilada. Exemplo clássico e várias vezes repetido: “Um outro escritor poderia dizer-te ‘está a chover’, mas no argumento de Alan Moore está escrito que o seu ruído é ‘como código Morse para um romance russo imenso e depressivo’” (85). Por outro lado, há como que uma convergência entre a escrita literária, auto-suficiente, a dimensão das pistas ou desejo visual - que Campbell ora constrói na perfeição, ora suficientemente, ora mudando as estratégias, ora mesmo “falhando”, mas o que não impede a emergência de uma imagem justa… -, e ainda a parte de correspondência pessoal com o artista, na qual o escritor propõe explicações, posicionamentos teórico-estéticos, ideias de esclarecimento diegético, político ou de representação histórica, ou mesmo troca galhardetes e jocosidades pessoais, etc. Campbell mostra ainda alguns dos materiais de referência, fotografias ou outros, enviados por Moore a Campbell (que já vivia na Austrália, na época), ou as correcções de Campbell em relação a uma qualquer rua ou edifício; uma imagem da carruagem a cair da ponte do Tamisa, meio-construída, arrastando Netley e Gull, “corrige” com humor uma impossibilidade histórica. É nesse interstício de literatura epistolar - “Desculpa, temos aqui mais uma página de nove vinhetas” (154) - e documentos técnicos que emerge um dos processos de trabalho de Moore, mas também a amizade terna, dialogante e colaborativa, entre os dois autores. De facto, se o full script - de que Moore é talvez o cultor mais famoso (ainda que não único) - é um fortíssimo instrumento para tornar visível a “visão interna” do autor, tem de haver sempre alguma margem de aceitabilidade de entrada do artista, pois por vezes existirão desvios possíveis, melhorias consideráveis, ou então pura e simplesmente esforços impossíveis de alcançar (e Campbell vai deixando claro o que ele “não respeitou” temerariamente, mas também se sente o tom exasperado: “tanto disto está para além da [sua possibilidade de] ilustração”, 167). Todavia, se aceitamos que o texto final é que deve surgir de modo inconsútil e justo em si mesmo, o desvendamento da estrutura e processo nos bastidores não retira a sua “magia” final. De forma alguma, faz-nos antes compreender mesmo as maravilhas da colaboração entre dois autores inteligentes. Ainda assim, é muito revelador entender os problemas de representação, ou as posições dos autores - a escrita “cinematográfica” de Moore e a posição “anti-cinematográfica” de Campbell, problemas de (que o artista nos perdoe) raccord, e ainda os enigmas que se mantêm para além das “soluções” propostas pela obra.
Aquela dimensão de colaboração, expansão ou desvio em relação aos scripts leva a que haja aqui muito do material em que Campbell refazia ou corrigia páginas ou vinhetas. Podemos mesmo imaginar, tal como dissemos ao início, numa possibilidade futura em que as “edições críticas” de banda desenhada contemplariam a presença de todo o material alternativo, versões, correcções, etc. As informações dadas por Campbell abarcam ainda questões técnicas (que tipo de papel usava, como empregava as tintas e aguarelas, quais eram os seus assistentes e o que preparavam, como integrava o material de referência na textura das imagens, etc.) que são extremamente iluminadoras para com o processo social, igualmente. Quando ele, muito rapidamente, explica como se preparavam as pranchas com grelhas regulares sobre as quais depois procurava os desvios necessários, Campbell acaba por provar algumas das abordagens de Renaud Chavanne, no que diz respeito à “arqueologia” a fazer sobre os materiais originais dos autores, para nos apercebermos do processo de emergência das composições.
Aprende-se muito, portanto, nesta leitura e observação ultra-estimulada das páginas, sobre teoria, estruturação, composição e possibilidades de leitura. Campbell, aliás, tem uma expressão repetidamente usada, que é “grafismo da teoria e conjectura”, em que vai tentando demonstrar como a pesquisa de criação visual ajudava aos problemas de identificação de determinadas personagens, sobretudo no par Mary Kelly/Emma (o nome que ela dá a Abberline, iniciando uma estranha relação com o detective e Julia, hipoteticamente a última vítima de Gull. Eis uma frase iluminadora a esse respeito: “A minha noção sobre o livro era que precisava de um estilo de desenho que pudesse abarcar a ambiguidade e a hipótese ao mesmo tempo que apresentasse uma narrativa literal a desenvolver-se à nossa frente” (133).
Se existe uma miríade de pormenores importantes, como as imagens das capas, a questões várias como a(s) plataforma(s) de edição, os prémios ganhos, pensamos que o mais sumarento são mesmo as discussões de Campbell sobre a representação diegética, desde pormenores sobre a geografia e arquitectura da cidade de Londres nos anos 1880 ao emprego de Netley…
Apesar de Alan Moore, quando propôs a Campbell este projecto para participarem na Taboo, ter já atrás de si (parte d)os dividendos e a fama angariada por Watchmen e outros trabalhos, o seu afastamento da DC e a busca por canais alternativos de produção e distribuição não lhe sorririam. Apesar dos conselhos impagáveis que lhes haviam sido dados por Dave Sim, autor de Cerebus e mentor de muita gente em optarem pela  auto-publicação (e cuja correspondência com Moore sobre From Hell é importantíssima, e disponível online), as coisas não correram de feição para os autores ingleses nos seus projectos individuais. Não esqueçamos que o novo grande projecto de Moore da época, Big Numbers, só veria dois números publicados pela sua própria Mad Love, e depois teria um fim desastroso (recontado por Campbell em Alec: How to be an Artist). Isso reflectiu-se na maneira como cada novo capítulo de From Hell ia chegando às mãos dos seus leitores ávidos, através das confinadas redes das encomendas por catálogo que estavam disponíveis nos anos iniciais ou imediatamente anteriores à expansão paradigmática da www. Num aspecto muito pessoal, o confronto com esta obra obrigou a (mais) uma mudança paradigmática da forma como se apreciava a banda desenhada, assim como à compreensão do que lhe era possível enquanto matéria narrativa. Se num momento inicial se estranhava a opção de Moore por um artista aparentemente rudimentar, essa impressão errónea foi lavada à medida que mergulhávamos, ao ritmo de uma lâmina penetrante, sob a mera superfície até à medula de uma obra. E esse é mesmo o mecanismo de From Hell, que poderá começar num nível de representação diurna, social, epidérmica, para depois descer pelas vísceras até às mais sombrias e ocultas dimensões do humano (e não é esse o cerne da famosa página quasi-abstracta aqui ao lado, lida excelentemente por Matt Seneca?).
Se Watchmen é continuamente elogiado pela sua estrutura elegante, de “cristais” e “entraçamentos” complexíssimos, From Hell, apresenta-se igualmente como uma obra de um outro tipo de elegância. Menos em termos de intertextualidade e de referências simbólicas como V for Vendetta, ou enquanto sinfónico de formas e géneros como Swamp Thing, ou enquanto espelho reflector da história interna do género de super-heróis como Watchmen, Miracleman e Supreme, etc., esta obra monumental é talvez a mais acabada de Moore em termos do modo como responde à realidade cultural do seu mundo. É a mais filosófica, sem dúvida, se suspendermos o inacabado Big Numbers, que poderia vir a ser o seu mais preciso documento em relação à sua contemporaneidade real. Em vários momentos, não sem humor, Campbell diz que se alguém achar aborrecidas as cenas de diálogos - as quais são brilhantes, fundamentais e profundas - que regressem aos seus “jogos vídeo”. Aliás, ele faz uma rápida comparação entre os “mecanismos de tempo” das duas obras: o relógio atómico de Watchmen e o cacho de uvas em From Hell, que seria empregue no fecho dos capítulos na Taboo, mas os autores abandonaram a ideia, possivelmente por entenderem que esse tipo de marcação rítmica não teria o mesmo lugar significativo na fluidez da sua obra. Pedia um outro tipo de seriedade.
E, de facto, é como um monumental romance polifónico: há que atender a todas as vozes que o constituem para que a imagem geral, final e absoluta, surja na sua estrutura gloriosa.
Nota final: agradecimentos à editora, pelo envio do projecto em formato digital, assim como os complementos do dossier de imprensa, empregues neste post.