26 de abril de 2026

Don’t Like This/Present for you. Kaori Tsurutani/Shino Shinomiya (Fujur)

Durante um certo período, a mangá, ou melhor, toda a banda desenhada japonesa, vista como um bloco homogéneo, era considerada um campo de excessos. Uma banda desenhada pautada sobretudo pelo grande espetáculo, pelas acções grandiosas, de impactos traumáticos. Esses princípios ainda dominam, até certo ponto, uma certa recepção da mangã shonen globalizada. Leitores de uma maior variedade de produção sabem que isso não é verdade, claro. Mas mesmo num momento como o actual, em que o acesso através de traduções nas línguas ocidentais nos dá a conhecer um escopo bem mais alargado (gekigá, BL, sports manga, horror, sátira política, história, etc.) – poderíamos argumentar que cada década abre o leque, mas rapidamente se fecha numa espécie de cânone de géneros e, neste momento, isso seria a tríade entre shonen, gekigá e shojo – , haverá sempre pequenos ângulos cegos dessa oferta.

24 de abril de 2026

Final Cut. Charles Burns (Asa)

Este livro é tecido em torno da perspectiva e voz narrativa de duas personagens, que se conhecem no início do livro e depois se relacionam entre si, em torno de um filme amador, que mescla ficção científica, body horror e weird fiction. Brian, o introvertido artista de desenhos estranhos e co-autor dos filmes, e Laurie, a jovem beldade ruiva que se tornará a actriz principal. Mais uma vez, Charles Burns coloca no centro da atenção o desenvolvimento de uma história de amor adolescente, e as metáforas em torno das metamorfoses físicas e psíquicas que isso implica. Mais, a ideia do cinema não é apenas uma actividade superficial para as personagens, é mesmo a estrutura que explica a lógica das memórias, da montagem e da possibilidade de reescrita da realidade filmada. 

20 de abril de 2026

A História de uma Serva. Margaret Atwood e Renée Ault (Bertrand).

“Ambas somos invisíveis, ambas somos funcionárias”. Esta é, numa tradução tentativa da frase de Atwood, aquilo ao que as mulheres são reduzidas em Gilead, uma nova configuração dos Estados Unidos num futuro indeterminado, em que uma crise populacional desencadeia a ascensão de um poder teocrata. Impensável.  Ou…

O romance é de 1986 e parte da sua recepção crítica – a negativa – não apenas apresentava a narrativa como controversa, como igualmente chocante e paranóica. Não posso demonstrar ter sido o adjectivo “histérico” utilizado, mas não nos surpreenderia, já que tantas vezes serve de arma de arremesso favorita contra mulheres. Curiosamente, a própria Atwood concebia que a premissa era “demasiado louca” mas a sua capacidade de observação política aguda fazia-a compreender certos sinais, decisões e escolhas na sua sociedade que a faziam prever aquelas possibilidades que, na ficção científica, se tornam pasto das mais mirabolantes criações, as quais jamais deixam de espelhar o seu próprio tempo de inscrição. (Mais)