“Ambas somos invisíveis, ambas somos funcionárias”. Esta é,
numa tradução tentativa da frase de Atwood, aquilo ao que as mulheres são
reduzidas em Gilead, uma nova configuração dos Estados Unidos num futuro
indeterminado, em que uma crise populacional desencadeia a ascensão de um poder
teocrata. Impensável. Ou…
O romance é de 1986 e parte da sua recepção crítica – a negativa – não apenas apresentava a narrativa como controversa, como igualmente chocante e paranóica. Não posso demonstrar ter sido o adjectivo “histérico” utilizado, mas não nos surpreenderia, já que tantas vezes serve de arma de arremesso favorita contra mulheres. Curiosamente, a própria Atwood concebia que a premissa era “demasiado louca” mas a sua capacidade de observação política aguda fazia-a compreender certos sinais, decisões e escolhas na sua sociedade que a faziam prever aquelas possibilidades que, na ficção científica, se tornam pasto das mais mirabolantes criações, as quais jamais deixam de espelhar o seu próprio tempo de inscrição. (Mais)
Na narrativa, a poluição levou a uma queda dramática da fertilidade (particularmente feminina, se não estou em erro) e, dessa forma, as mulheres férteis tornam-se um “recurso” que rapidamente leva a uma alteração dramática da sociedade civil, e permite a forças extremas de influência religiosa a tomarem o poder. Quase toda a novela é contada a partir da perspectiva de uma dessas mulheres férteis, tornada agora, não propriamente “propriedade” (ainda aque também o seja) mas, lá está, recurso, a um dos membros da sociedade de elite: ela é (tão-somente) o ventre que deve ser impregnado. O seu nome é, portanto, reduzido ao signo de propriedade: “Defred”, isto é, “De Fred” (a versão portuguesa deveria ter escolhido uma forma de grafar distinta, mesmo que não fosse como no romance, para alertar esse jogo, que se pode perder junto a leitores menos atentos).
Digo quase, pois ainda surgirão “documentos históricos” que
reformulam toda a narrativa a um nível hipodiegético do qual saímos, apercebendo-nos
de que eram matéria de uma série de fitas gravas, documentos de um tempo já
muito passado, mecanismo literário que ainda nos demonstra o assegurar da
sobrevivência desta sociedade. A adaptação de Renée Ault é particularmente fiel
a todos os elementos originais: voz, perspectiva, divisão capitular, eventos,
linguagem, cenas, etc.
Apesar de uma versão cinematográfica infelizmente algo
esquecida por Volker Schlöndorff, de 1990, a série de televisão da Hulu, de
2017, veio colocar A história de uma serva de novo num palco de atenção
mais alargado. Uma das partes que mais me surpreendeu e agradou na série
televisiva foi a introdução – não prevista no romance – das etapas sociais e
políticas que levariam à instauração de Gilead. O romance tem pura e
simplesmente lugar nessa sociedade mas, mesmo que possamos compreender a
questão da crise ecológica, a derrocada da natalidade, e os passos políticos,
não nos é dada nunca uma “explicação” ou narrativa clara. A série mostra, porém,
passo a passo, o que seria necessário – as jogadas médicas, depois políticas,
constitucionais, e assim sucessivamente até uma grande parte da sociedade
aceitar “a obrigatoriedade” de uma sub-classe de mulheres parideiras em nome
das elites nacionalistas-religiosas.
Uma piada recorrente de certas leituras de romances
distópicos (que abrange não apenas o título de Atwood mas clássicos como 1984
e Admirável Mundo Novo, ou projectos mais recentes como The Hunger
Games) é que poderão dar ideias a certos movimentos conservadores. E
qualquer observador, mesmo que semi-distraído, das políticas da administração
norte-americana actual (é curioso ver como o adjectivo “teocrático” é aplicado
sem dúvidas ao Irão, por questões legalistas, mas é impossível não ver essa
dimensão crescente nos Estados Unidos, com o tipo de movimentos evangélicos e
cristãos-nacionalistas em curso), decisões estaduais e certos movimentos com
comichão mesmo em Portugal vêm em A história de uma serva não um
terrível alerta e ajuda a criar defesas ideológicas e sociais contra tal
situação, mas antes uma “planta de acção” a ser tomada em conta. É caso para
dizer, fia-te na Virgem e não corras.
Um texto-gémeo do livro de Atwood é o da escritora P.D. James,
Children of Men (que também daria origem a um filme, de sucesso crítico,
de Alfonso Cuarón). Os dois pontos de maior contraste é que James coloca o
problema da infertilidade directamente nos homens, e não nas mulheres, e a sua
distopia não tem um cariz religioso, mas somente autoritário e violento.
Atwood, enquanto canadiana e atenta ao veio “messiânico” dos Estados Unidos,
ter-se-á apercebido que essa dimensão seria fundamental.
Ao criar-se uma perspectiva atreita à experiência de uma das “handmaids” ou servas, entre a chegada e depois a saída de uma das casas da elite, que sublinhar o princípio feminista de que “o pessoal é político”, e que muitas vezes os corpos – sobretudo as mulheres, mas poder-se-ia falar das pessoas racializadas, dos “outros” – são palco dessas lutas ideológicas. O foco concentrado cria no leitor uma textura muito mais vívida e imediata.
Esta adaptação para banda desenhada, que já via saído há uns
anos em capa cartonada, e agora ganha uma forma mais maleável, opta por uma
linguagem escorreita e de grande legibilidade, não sendo um espaço de
transposição experimental, apesar da autora ser bastante informada pela
variação das escolhas na composição de página conquistadas pela história da
banda desenhada europeia e japonesa, recorrendo a certos momentos de maior
intensidade narrativa ou emocional a páginas menos ortogonais. Muitas das
escolhas, por exemplo, incidem no isolamento de certas partes do corpo da
protagonista, criando planos subjectivos e sentidos, ancorando a experiência no
tal foco concentrado aventado acima.
As aguarelas suaves, a figuração delicada, torna até certos
momentos horrendos em quase uma titilação ao espectador (poderíamos argumentar
que o “olhar masculino” não é apagado, bem pelo contrário, de certas cenas, o
que enfraquece o poder da sua eficácia). Por outras palavras, há um certo grau
de dulcificação operado por Nault, artista canadiana a qual, antes deste mesmo
livro, havia trabalhado sobretudo em ilustração editorial.
O facto de não ser uma artista de banda desenhada, ou pelo menos com um percurso mais tradicional e normalizado, apenas garante uma respiração e sensibilidade diferente, fazendo-a escapar-se dos inúmeros casos de adaptações literárias medíocres, ora por incompreensão dos textos de partida ora por falta de mestria da própria linguagem da banda desenhada (e que algumas editoras portuguesas se aprestam a traduzir e publicar, devido ao seu “chamariz”).
Consta que a própria Atwood terá estado envolvida no processo
da sua selecção, sublinhando a prática – comum – de serem as editoras a dar
início a essas decisões de adaptação à banda desenhada, aproveitando uma certa vontade
do mercado. Dito isto, e assumindo essa potencialidade, a circulação de um livro
destes, nesta adaptação, pode tornar-se um instrumento de iluminação não apenas
para um extraordinário acto de ficção, e este clássico da ficção distópica em
particular, mais acima de tudo para os ângulos cortantes que certos sectores da
sociedade fantasiam como desejo a implementar. Dado o alerta, talvez possa ser
mais constante a vigia e o combate.
Nota final: agradecimentos à editora, pela oferta do livro.





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