Ou, A insuportável ausência de espírito.
Sempre me pautei por um princípio, o qual, apenas mais tarde na minha tarefa enquanto crítico, aprendi estar expresso de forma clara por Jorge Luís Borges. “No hay poeta, por más mediocre que sea, que no haya escrito el mejor verso de la literatura, pero también el más desdichado”. Isto leva-me a ler sempre as obras todas de forma positiva, de mente aberta, buscando incessantemente por esse “melhor verso” e, a partir dele, poder estruturar uma leitura. Por vezes, na falha desse encontro, prefiro o silêncio, do que algo apenas construído sobre o desprezo. Todavia, há momentos em que isso é absolutamente necessário, numa espécie de procura por uma justiça, de reequilíbrio, e não deixar que apenas uma recepção febril e débil, ela também medíocre, prepondere num contexto. Mas a leitura deste livro, adiada por desconfiança e penosa na sua concretização, provou que era de facto difícil descortinar uma pedra branca que fosse numa corrente de desgraças. (mais)
Este é um livro
nulo. Não é apenas fraco, do ponto de vista das dimensões habituais de atenção
da banda desenhada, como a intriga literária, os diálogos, a caracterização das
personagens ou a camada visual. É mesmo a sua alma. Inexistente, é o melhor que
se pode dizer. Mero “produto”. Que, no fundo, é o objecto de atenção do seu
“plot”.
Estamos
claramente num período de grande produção de banda desenhada internacional e nacional,
mas, infelizmente, nem mesmo as editoras que o poderiam fazer – especializadas
e genéricas – têm uma visão de conjunto ou atenta a essas respirações. Assim,
apenas se seguem sobretudo tendências mais conservadoras, títulos já
mastigados. Onde brilha um Blast, vêm as sombras de cowboys e
marinheiros e detectives gatos. Onde se vislumbra O gato do rabino, há
uma enxurrada de títulos de Fórmula 1, solteirões britânicos dos anos 1950 em thrillers
de vão de escada, ou biografias sem espinhas para burguesas lacrimejarem sem
verdadeiros compromissos emocionais. A esmagadora é iogurte, sem lactose, sem
açúcar, sem glúten, sem álcool, sem glutamato. Sem gosto.
O frenesim do
lançamento deste título foi, em Portugal, mais que expectável, não fosse o
nosso milenar provincianismo endémico. São por demais as anedotas pessoais que
poderia partilhar como testemunho dessa “breve febre” de lados que, noutros
dias, bem se estão a borrifar para a banda desenhada. Naturalmente, alguns
dirão que se trata de ciúmes e inveja, e não esconderei que, em parte, poderá
ser isso, sim, mas está claramente a situação ancorada numa ignorância tremenda
e nítida, se não mesmo um desinteresse pela banda desenhada que entristece a
quem a ela se dedica.
Faz sentido este subproduto
do imperativo da sobrevivência económica de uma marca após a morte dos seus
criadores, em nome de um suposto legado, mas em que o mesmo é apenas aplastado
sob a forma de uma propriedade intelectual passível de exploração de merchandising
e licenciamento? Faz sentido a alegria pateta de “sermos mencionados” num
chorrilho narrativo pobre? Não, nem tudo vale a pena e também não, nem sempre
mais vale ser mencionado do que votado ao silêncio.
Uma coisa é
aceitar que, nos anos 1960 e 1970, a relação de França para com outros países
era pautada por outra realidade, e que fazia sentido a emergência desta série
como mescla de busca de orgulho da identidade nacional francesa, um certo
charme chauvinista e um tour mundial através de estereótipos
bem-intencionados (como ainda se pauta muita da comédia francesa). Afinal de
contas, Portugal era, na óptica desse país, apenas uma fonte pobre e
desqualificada de mão-de-obra barata, submissa mas que, ponto positivo, não era
muito “diferente” em questões de tom de pele e religião dos próprios franceses,
numa primeira onda da emergência da classe média do pós-guerra. Enfim, eram
passíveis, os portugueses, de uma caricatura melancólica, atreita ao
faduncho-caruncho, sob a forma dessa personagem surgida em um par de vinhetas de
O domínio dos deuses (de 1971), Boulquiès, resgatado nesta nova oferta.
Além disso, ainda
havia colónias com necessidade de levar no toutiço. Não se esqueçam que quando
Goscinny e Uderzo iniciaram esta série, nas páginas da Pilote, em 1959, estava
a derrota no Vietname ainda fresca e a Guerra na Argélia ao rubro (em 1961
dar-se-ia o massacre de Outubro em Paris). Por mais “apolíticos” que os autores
quisessem ser, era impossível escapar ao contexto da herança histórica de uma
França dividida entre colaboracionistas e resistentes e, na contemporaneidade,
na de Império colonial (em cujo espírito Portugal participava).
Mesmo assim,
vários historiadores e críticos o apontam (para mim, Nicolas Rouvière é
excelente no seu artigo em Le tour du monde d'Astérix), mesmo na
exploração dos estereótipos das várias identidades culturais de povos
estrangeiros (enxertando as dos povos contemporâneos, numa mescla de
referências), os autores de Astérix optaram por uma noção de soberania e
autonomia desses mesmos povos, espelhando a ideia histórica de uma “Europa das
Nações”. Os traços de não-submissão, de resistência ao imperialismo, etc.,
criariam um fundo de aceitação junto aos franceses de uma França que permitisse
a autonomia das suas colónias.
Outra coisa,
dizíamos, é querer que estes livros funcionem hoje da mesma forma. Impossível.
O contexto social, político, cultural, é totalmente distinto. E as
transformações que se deram desde então nem sequer dizem respeito somente à
série em si ou os seus autores, ou aos públicos. É a própria esfera da banda
desenhada que se alterou drasticamente, em termos de géneros, de públicos, de
agências, de valências políticas, de possibilidades de expressão, de
circulação, recepção e crítica (anémica, como dissemos, em Portugal). Nem
sequer há alguma coragem de, ao se criarem versões destas personagens,
procurar um tom contemporâneo, como um Émile Bravo fez tão bem com Spirou.
Pode-se perguntar
porque falo eu de outras coisas que não do livro em si? Posso devolver a
pergunta com um “porque não pensas com ele?” Porquê atermo-nos à leitura do
livro, e não à leitura com ele e por ele, para chegarmos a outras
coisas mais vastas? Para que serve a nossa capacidade de análise, correlação e
pensamento senão para nos libertarmos das amarras do mesmo de sempre, de uma
incapacidade de vermos mais além do que a mera propriedade e qualidade de
colecionador? Outras pessoas poderão dizer, mas não é importante que estes
livros existam? Não são eles que criam a possibilidade de ler outras coisas?
Não. Pois há décadas que estamos nessa conversa e os leitores comem sempre
arroz. Tem de se ler mesmo José Rodrigues dos Santos para depois ler Gabriela
Llansol? De ouvir o top da Comercial ou da Renascença para apreciar Keith
Jarrett? Não. Há modos de leitura e busca e interrogação e curiosidade que nos
fazem ultrapassar logo etapas que já não interessam.
O problema em Astérix en Lusitanie nem sequer tem a ver com as menções ao bacalhau, ao pastel de nata, aos azulejos. A transformação de Lisboa e do Porto em cidades de turismo uberificado e instagramável é inevitável, ainda que se possa combater. É antes ver tudo isso apenas surgindo como se tivesse sido alistado a montante da criação do livro, de “coisas a mostrar” e, depois, vão sendo enfiadas a martelo, sem vida nem peso no tecer da história ou das relações entre personagens. Sem arte.
Já o havia dito
em outras circunstâncias. Sempre que alguém repete “cresci com isto” (em
relação à banda desenhada, mas podem ser outras coisas), em vez de isso
significar algo como “foi graças a estes textos que fui ganhando conhecimento e
desenvolvimento emocional e intelectual”, isto significa antes, por força
maior, “eis um território da minha infância, em que me sentia seguro e feliz,
longe das complexidades do mundo verdadeiro, adulto, onde existem outras
realidades que não a minha e gente que não pensa sempre como eu”. E é isso o
que faz com que leitores recusem outra banda desenhada, e queiram ver
sempre o regresso destes mecanismos de uma nostalgia distorcida, espaços
seguros da memória da infância. Já Stetlana Boym havia apontado a diferença
entre a nostalgia “reflexiva” e a “restaurativa”. Esta segunda é aquela que
tenta sempre reconstruir um passado que nunca existiu, e por isso, higienizado
e idealizado. A redução dos elementos de Astérix apenas a um punhado de
mecanismos repetitivos, reciclados, mal empregues literária ou criativamente,
mas que se reconhecem, através desse filtro, do que se leu aos oito anos. Mark
Fisher também explicaria este “modo de nostalgia” como um escape fantasista
para algo que apenas na imaginação existiu.
Quer saber quanto vale o seu Astérix? Não se preocupe, este Pedro diz-lhe. Nada. É um produto tão inválido quanto a última moda passageira de objectos “absolutamente necessários” de acordo com o recente número da Monocl-Out. Compre a inenarrável garrafa Stanley, os horrendos bonecos Labubu, o intragável chocolate do Dubai, e agora esta pastilha de folhas coloridas. Pode sentir-se feliz por ter, mas não há aqui espaço para ser.





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