22 de fevereiro de 2026

Astérix en Lusitanie. Fabcaro e Didier Conrad (Hachette).

Ou, A insuportável ausência de espírito.

Sempre me pautei por um princípio, o qual, apenas mais tarde na minha tarefa enquanto crítico, aprendi estar expresso de forma clara por Jorge Luís Borges. “No hay poeta, por más mediocre que sea, que no haya escrito el mejor verso de la literatura, pero también el más desdichado”. Isto leva-me a ler sempre as obras todas de forma positiva, de mente aberta, buscando incessantemente por esse “melhor verso” e, a partir dele, poder estruturar uma leitura. Por vezes, na falha desse encontro, prefiro o silêncio, do que algo apenas construído sobre o desprezo. Todavia, há momentos em que isso é absolutamente necessário, numa espécie de procura por uma justiça, de reequilíbrio, e não deixar que apenas uma recepção febril e débil, ela também medíocre, prepondere num contexto. Mas a leitura deste livro, adiada por desconfiança e penosa na sua concretização, provou que era de facto difícil descortinar uma pedra branca que fosse numa corrente de desgraças. (mais)

Este é um livro nulo. Não é apenas fraco, do ponto de vista das dimensões habituais de atenção da banda desenhada, como a intriga literária, os diálogos, a caracterização das personagens ou a camada visual. É mesmo a sua alma. Inexistente, é o melhor que se pode dizer. Mero “produto”. Que, no fundo, é o objecto de atenção do seu “plot”.

Estamos claramente num período de grande produção de banda desenhada internacional e nacional, mas, infelizmente, nem mesmo as editoras que o poderiam fazer – especializadas e genéricas – têm uma visão de conjunto ou atenta a essas respirações. Assim, apenas se seguem sobretudo tendências mais conservadoras, títulos já mastigados. Onde brilha um Blast, vêm as sombras de cowboys e marinheiros e detectives gatos. Onde se vislumbra O gato do rabino, há uma enxurrada de títulos de Fórmula 1, solteirões britânicos dos anos 1950 em thrillers de vão de escada, ou biografias sem espinhas para burguesas lacrimejarem sem verdadeiros compromissos emocionais. A esmagadora é iogurte, sem lactose, sem açúcar, sem glúten, sem álcool, sem glutamato. Sem gosto.



O frenesim do lançamento deste título foi, em Portugal, mais que expectável, não fosse o nosso milenar provincianismo endémico. São por demais as anedotas pessoais que poderia partilhar como testemunho dessa “breve febre” de lados que, noutros dias, bem se estão a borrifar para a banda desenhada. Naturalmente, alguns dirão que se trata de ciúmes e inveja, e não esconderei que, em parte, poderá ser isso, sim, mas está claramente a situação ancorada numa ignorância tremenda e nítida, se não mesmo um desinteresse pela banda desenhada que entristece a quem a ela se dedica.

Faz sentido este subproduto do imperativo da sobrevivência económica de uma marca após a morte dos seus criadores, em nome de um suposto legado, mas em que o mesmo é apenas aplastado sob a forma de uma propriedade intelectual passível de exploração de merchandising e licenciamento? Faz sentido a alegria pateta de “sermos mencionados” num chorrilho narrativo pobre? Não, nem tudo vale a pena e também não, nem sempre mais vale ser mencionado do que votado ao silêncio.

Uma coisa é aceitar que, nos anos 1960 e 1970, a relação de França para com outros países era pautada por outra realidade, e que fazia sentido a emergência desta série como mescla de busca de orgulho da identidade nacional francesa, um certo charme chauvinista e um tour mundial através de estereótipos bem-intencionados (como ainda se pauta muita da comédia francesa). Afinal de contas, Portugal era, na óptica desse país, apenas uma fonte pobre e desqualificada de mão-de-obra barata, submissa mas que, ponto positivo, não era muito “diferente” em questões de tom de pele e religião dos próprios franceses, numa primeira onda da emergência da classe média do pós-guerra. Enfim, eram passíveis, os portugueses, de uma caricatura melancólica, atreita ao faduncho-caruncho, sob a forma dessa personagem surgida em um par de vinhetas de O domínio dos deuses (de 1971), Boulquiès, resgatado nesta nova oferta.

Além disso, ainda havia colónias com necessidade de levar no toutiço. Não se esqueçam que quando Goscinny e Uderzo iniciaram esta série, nas páginas da Pilote, em 1959, estava a derrota no Vietname ainda fresca e a Guerra na Argélia ao rubro (em 1961 dar-se-ia o massacre de Outubro em Paris). Por mais “apolíticos” que os autores quisessem ser, era impossível escapar ao contexto da herança histórica de uma França dividida entre colaboracionistas e resistentes e, na contemporaneidade, na de Império colonial (em cujo espírito Portugal participava).

Mesmo assim, vários historiadores e críticos o apontam (para mim, Nicolas Rouvière é excelente no seu artigo em Le tour du monde d'Astérix), mesmo na exploração dos estereótipos das várias identidades culturais de povos estrangeiros (enxertando as dos povos contemporâneos, numa mescla de referências), os autores de Astérix optaram por uma noção de soberania e autonomia desses mesmos povos, espelhando a ideia histórica de uma “Europa das Nações”. Os traços de não-submissão, de resistência ao imperialismo, etc., criariam um fundo de aceitação junto aos franceses de uma França que permitisse a autonomia das suas colónias.

Outra coisa, dizíamos, é querer que estes livros funcionem hoje da mesma forma. Impossível. O contexto social, político, cultural, é totalmente distinto. E as transformações que se deram desde então nem sequer dizem respeito somente à série em si ou os seus autores, ou aos públicos. É a própria esfera da banda desenhada que se alterou drasticamente, em termos de géneros, de públicos, de agências, de valências políticas, de possibilidades de expressão, de circulação, recepção e crítica (anémica, como dissemos, em Portugal). Nem sequer há alguma coragem de, ao se criarem versões destas personagens, procurar um tom contemporâneo, como um Émile Bravo fez tão bem com Spirou.


Temos aqui uma intriga débil, anémica, sem ambição nenhuma, apenas desculpa para o movimento mínimo da narrativa. Nem o design do título faz algum esforço de mimese autóctone. Um punhado de personagens claramente decalcadas de outras anteriores dos primeiros autores mas sem ganharem o peso e marca das originais (até o mito de Viriato é um exercício de
copy-paste pobre, pobre; a diferença entre este pastiche e A.I. slop, venha o diabo e escolha). Uma redução das personagens “locais” em coadjuvantes sem personalidade e aos cenários como “papel de parede” facilmente substituível. Mesmo os jogos de linguagem – como as palavras terminadas em “ão” (apenas a versão portuguesa resolveu espalhar “pás”) – são fraquinhos, repetitivos e sem humor. Quanto aos estereótipos de mostrar os lusitanos-portugueses como homens atarracados, peludos, de cabelo crespo e grandes entradas, e barbudos ou de fartos bigodes, gostava de defender a honra pátria com exemplos de maior beleza, mas os espelhos não mentem cá em casa. E não sei o que dizer do “Portuguese-face” dos dois heróis… Se há fãs de Emily in Paris, para quê nos aborrecer com isto? Mas, com efeito, revelemos a nossa falta de paciência, mau humor e até má educação quando, ao ver os pastéis de nata pura e simplesmente rebaixados ao mais baixo humor de, literalmente, “tarte na cara”, dá vontade de ser pouco criativo nos desejos ao que os franciús podem fazer com as sua baguettes.

Pode-se perguntar porque falo eu de outras coisas que não do livro em si? Posso devolver a pergunta com um “porque não pensas com ele?” Porquê atermo-nos à leitura do livro, e não à leitura com ele e por ele, para chegarmos a outras coisas mais vastas? Para que serve a nossa capacidade de análise, correlação e pensamento senão para nos libertarmos das amarras do mesmo de sempre, de uma incapacidade de vermos mais além do que a mera propriedade e qualidade de colecionador? Outras pessoas poderão dizer, mas não é importante que estes livros existam? Não são eles que criam a possibilidade de ler outras coisas? Não. Pois há décadas que estamos nessa conversa e os leitores comem sempre arroz. Tem de se ler mesmo José Rodrigues dos Santos para depois ler Gabriela Llansol? De ouvir o top da Comercial ou da Renascença para apreciar Keith Jarrett? Não. Há modos de leitura e busca e interrogação e curiosidade que nos fazem ultrapassar logo etapas que já não interessam.

O problema em Astérix en Lusitanie nem sequer tem a ver com as menções ao bacalhau, ao pastel de nata, aos azulejos. A transformação de Lisboa e do Porto em cidades de turismo uberificado e instagramável é inevitável, ainda que se possa combater. É antes ver tudo isso apenas surgindo como se tivesse sido alistado a montante da criação do livro, de “coisas a mostrar” e, depois, vão sendo enfiadas a martelo, sem vida nem peso no tecer da história ou das relações entre personagens. Sem arte.


A Olisipo deste livro não é um lugar, é apenas um lo
cal. Leiam o primeiríssimo parágrafo de Para viver em qualquer mundo, de André Barata, para compreender as diferenças: um “local” é “abstracção”, geografia desumanizada; um “lugar” é “um espaço que se tornou um hábito, que fez memória e a que se regressa”. Alguém “regressa” a este espaço? Ou é apenas uma travessia por uma paisagem para garantir a marketability do produto? Segue-se Astérix em Venetia? Barcino? Ragusa? Qual a diferença disso e uma caneca da Starbucks decorada com o Padrão dos Descobrimentos? De “autenticidade” é apenas essa patina de plástico sobre a cerâmica lisa.

Já o havia dito em outras circunstâncias. Sempre que alguém repete “cresci com isto” (em relação à banda desenhada, mas podem ser outras coisas), em vez de isso significar algo como “foi graças a estes textos que fui ganhando conhecimento e desenvolvimento emocional e intelectual”, isto significa antes, por força maior, “eis um território da minha infância, em que me sentia seguro e feliz, longe das complexidades do mundo verdadeiro, adulto, onde existem outras realidades que não a minha e gente que não pensa sempre como eu”. E é isso o que faz com que leitores recusem outra banda desenhada, e queiram ver sempre o regresso destes mecanismos de uma nostalgia distorcida, espaços seguros da memória da infância. Já Stetlana Boym havia apontado a diferença entre a nostalgia “reflexiva” e a “restaurativa”. Esta segunda é aquela que tenta sempre reconstruir um passado que nunca existiu, e por isso, higienizado e idealizado. A redução dos elementos de Astérix apenas a um punhado de mecanismos repetitivos, reciclados, mal empregues literária ou criativamente, mas que se reconhecem, através desse filtro, do que se leu aos oito anos. Mark Fisher também explicaria este “modo de nostalgia” como um escape fantasista para algo que apenas na imaginação existiu.

Quer saber quanto vale o seu Astérix? Não se preocupe, este Pedro diz-lhe. Nada. É um produto tão inválido quanto a última moda passageira de objectos “absolutamente necessários” de acordo com o recente número da Monocl-Out. Compre a inenarrável garrafa Stanley, os horrendos bonecos Labubu, o intragável chocolate do Dubai, e agora esta pastilha de folhas coloridas. Pode sentir-se feliz por ter, mas não há aqui espaço para ser.

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