Num tempo em que a esmagadora maioria das editoras com algum poder financeiro, que apostam na tradução e publicação de títulos estrangeiros, fazem apostas algo débeis no que diz respeito à atenção para com obras e autores que criam algum tipo de novos haustos no campo da banda desenhada, e se vê sobretudo uma continuidade em tendências absolutamente esgotadas, com mais de 50 anos (em média), ou então em géneros de uma planura genérica desinspirada, a mera possibilidade de surgir algo relativamente distinto torna-se um relampejo.
Luz é um autor que despertou para o mundo da banda desenhada de uma forma mais sustentada após o seu terrível testemunho dos atentados mortíferos ao Charlie Hebdo. Quando foi lançado Catharsis, demos conta desse livro, acreditando tratar-se de algo distinto, não apenas na carreira do autor, mas na própria linguagem que acreditamos ser livre e aberta da banda desenhada. Desde então, Luz tem criado outros títulos, uns mais interessantes que os outros (noutro local, discutimos Vernon Subutex, adaptação magnífica da obra literária homónima de Virginie Despentes). (mais)
Este novo livro,
em tradução portuguesa pela Asa, não é propriamente um rasgo de total
originalidade narratológica, mas ainda assim merece ser apreciado pelo seu
mecanismo principal. O título coincide com o de uma tela do pintor Otto Mueller,
Zwei Mädchen – Halbakte, datada de 1919-20. E podemos dizer que é essa
mesma tela a personagem principal. Ou, melhor ainda, que é através da
perspectiva ocular, posicional, visual, do próprio campo de visão possibilitado
pela tela, que temos acesso aos acontecimentos que veremos discorrer
cronologicamente.
A História da Arte comporta vários saberes disciplinares no seu interior, instrumentos para a análise das obras de arte. Uma obra de pintura pode ser analisada semioticamente, por exemplo, buscando estruturas ditas “universalistas” dos seus componentes formais. Mas podem buscar-se igualmente questões contextualizadas no processo verdadeiramente histórico, tomando mais atenção às culturas que a viram nascer, como é que a sua camada visual e simbólica pode ter sido burilada, que devolução fariam das visões do seu tempo, do seu pintor em primeiro lugar, mas igualmente daqueles que o rodeariam. Associar-se-á ainda a convoluções mais abrangentes e complexas, o papel da Estética, ramo específico da filosofia que diz respeito à arte, e que ausculta territórios que lhe podem ser próximos, conceptuais, éticos, políticos. Pode ainda pensar-se numa história material e de autoridade, estudando quem o encomendou, porque que preços passou, por quais mãos mudou, como foi apresentado publicamente e que relação estabeleceria com outras pinturas, suas contemporâneas ou não.
Ora Luz lança mão
precisamente de todos esses instrumentos para criar, não tanto a história de
Otto Mueller e a sua relação com esta pintura em particular, ou quais os
elementos da sua vida a experiência que o levariam a criar, ou por onde essa
tela passou, mas tudo isso, criando assim uma perspectiva a
partir da “vida da tela”.
Leitores de Here,
de Richard McGuire, conhecerão esse outro texto que desarruma as expectativas novecentistas
da literatura burguesa, criando antes um mecanismo preso espacial ainda que não
temporalmente. Os fãs de Chris Ware recordar-se-ão de Building Stories
e como é que um edifício ganhava protagonismo ganhando voz própria, discorrendo
sobre os seus inquilinos, que recebera. Outros exemplos poderiam ser
arrecadados, mais ou menos experimentais, que mostrassem formas alternativas de
criar uma história que não se prendesse tanto a uma intriga aristotélica e
linear, e sobretudo com um conflito central em busca de resolução última. Duas
raparigas nuas não será tão radical quanto essas obras, mas ainda assim
providencia um mecanismo curioso.
Nas primeiras páginas, testemunhamos a própria emergência do campo visual a que teremos acesso, campo visual esse que é a superfície da própria tela. Repare-se – temos de insistir, lamento – que não se trata da perspectiva do seu assunto, isto é, de “duas raparigas”. Mas da própria tela, cujo formato, claro, se torna sinónimo, numa banda desenhada, do dispositivo clássico da vinheta rectangular. Sendo a tela em si “muda”, vamos tendo acesso a uma procissão de personagens, e das suas falas e discussões, encontros e momentos perdidos, dúvidas, desejos, medos e breves resoluções. Por vezes, é certo, Luz opta por uma apresentação de factos e informações algo “forçado”, para permitir uma maior clareza narrativa, mas enfim, o objectivo do livro é chegar a um público mais vasto. A tela é uma espécie de centro nevrálgico dos acontecimentos em seu torno, é um objecto de desejo (ou de repúdio), bateria onde todas as personagens colocam juízos de valor ou morais, sejam o seu autor, a putativa musa, um proprietário judeu, os esbirros nazis, os recuperadores do mercado da arte, uma filha sobrevivente assaltada pela memória dolorosa do que ela significou na história familiar.
É dessa forma que
parte da história fica não apenas ocupada pela vida e lutas internas e de
fortuna do pintor, Mueller, mas também vasculhará a relação com uma classe
endinheirada a informada pela arte então contemporânea, seguida pela
ambivalência das visões dos vários agentes do regime nazi durante todo o
período ante- e durante a guerra (desembocando nessa mítica e estranha
exposição que foi a da “Arte Degenerada” de 1937), e depois a lenta recuperação
de uma vida mais aberta às artes e que transforma a fortuna da tela, dando-lhe
nova vida.
Luz cria,
portanto, uma vida cultural que se tece e respira em torno desta tela,
transformando-a no plano de observação especial, privilegiado e inteligente
para todo esse cortejo histórico.
Mesmo não
reinventando a roda, há claramente um modo de insuflar uma nova vida à pintura.
Nota final: agradecimentos à editora, pela oferta do livro.




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