Mostrar mensagens com a etiqueta Finlândia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Finlândia. Mostrar todas as mensagens

3 de fevereiro de 2020

Maximum Troll On. Benjamin Bergman (Mmmnnnrrrg)


A convergência da cada vez mais forte da capitalização de tudo, inclusive as culturas populares, que inclui as sub-cultura infanto-juvenil, geek, e high fantasy, e os modos como criam zonas de intersecção, levam a que seja sempre particularmente complicado conseguir escapar a certas fórmulas e tropos associados a géneros determinados. Este minúsculo livro, que junta quatro aventuras de dois aparentes cavaleiros de ar medieval, e cuja continuidade entre si é discutível mas uma clara possibilidade, cria elos mais o que óbvios com sagas como O Senhor dos anéis, e todos os textos derivados, da obra de R. E. Howard (Conan e Kull) e, mais recente, A Guerra dos Tronos. 

Porém, o autor está menos interessado em criar uma variação sobre esses temas, ainda assim contribuindo para esse edifício, no típico exercício de “resposta literária” que constitui os próprios campos temáticos, do que transformá-lo num quase independente exercício de retórica livre, experimental e alucinada. (Mais)

1 de julho de 2017

Vies de Marko Turunen. Marko Turunen, com Tea Tauriainen (Frémok)

Por várias ocasiões, falámos aqui dos territórios movediços e ambivalentes da autobiografia, a auto-ficção, a auto-fantasia, e outros descritivos que tanto assinalam como ofuscam o acto de recontar a sua própria vida sob uma forma qualquer artística, seja a literária, a cinematográfica, a teatral, as das artes visuais ou a da banda desenhada. Cada acto, na verdade, tem sempre os seus próprios contornos, pequenas redistribuições dos elementos expectáveis ou familiares, cada gesto as suas próprias contribuições únicas e aproveitamentos de semelhanças com outros textos. E, assim, ao pensarmos em constelações variadas que abarquem Miné Okubo, Justin Green, Aline Kominsky, Guido Buzzelli, David B., Emmanuel Guibert e as suas fontes, Ana Cortesão, Marco Mendes, Francisco Sousa Lobo, vamos encontrando uma mancha tão informe quanto expansiva quanto ainda complexa e numa mutação constante. Que pensar do último projecto do autor finlandês Marko Turunen? (Mais)

28 de outubro de 2016

Simplesmente Samuel. Tommi Musturi (Mmmnnnrrrg)

Quando escrevemos sobre Caminhando com Samuel, fizemo-lo no interior de um enquadramento não apenas comparatista – lendo-o em conjunto com outros dois livros – como sob um foco muito particular, que tinha a ver com a pesquisa possível sobre a natureza do divino pela banda desenhada. Com efeito, se podemos dizer que Musturi transforma as suas pesquisas formais num exercício não apenas metatextual sobre a criação da própria banda desenhada, ou outras disciplinas, mas até sobre a própria existência humana, quase de uma forma goethiana (devido à citação transversal que há àquele "mundo das madres" onde as formas ainda se encontram por formar...), existirão vários graus ou até naturezas dessa mesma tarefa conforme o propósito ou programa narrativo a que se entrega. Caminhando com Samuel transformava o que parecia um inflexível mecanismo de causalidade e movimento numa incessante interrogação. Simplesmente Samuel, quer pelo título quer pelas acções, parece “diminuir” a intensidade dessa inflexibilidade, mas a constância mantém-se. (Mais) 

22 de maio de 2014

Échos. AAVV (L'employé du moi)

Este livro é composto por seis histórias que nascem de um trabalho curioso de colaboração, ou melhor dizendo, de exercícios de canto de responsorial. Contam-se seis artistas, todas elas trabalhando, quase exclusivamente, com lápis (grafite, colorido ou outro) sobre papel. Mulheres de várias nacionalidades, algumas das quais já tivemos oportunidade de ler no passado, os “ecos” que criam são transnacionais: Joanna Hellgren é sueca, Amanda Vähämäki é finlandesa, Noémie Marsily é belga, Joanna Lorho é francesa, assim como Julie Delporte ainda que esta tenha trabalhado no Canadá sobretudo, e Aisha Franz é alemã. O livro está dividido em três partes, estando cada uma delas composta por duas histórias, criadas aparentemente por cada duas artistas ao mesmo tempo, com elementos narrativos ou temáticos idênticos. (Mais)

17 de agosto de 2013

Beating. Tommi Musturi (Huuda Huuda/La Cinquième Couche)

Façamos o seguinte exercício. Pensemos naquelas personagens de aspecto plástico máximo, filhas da transposição das técnicas de animação para o papel - Disney, Fleischer, entre outros. Foquemo-nos naquelas partes dos seus corpos que parecem ser modulares: os tubos dos membros, as azeitonas dos narizes, as ovais líquidas dos olhos, os pedúnculos - ora grossos ora meramente uma linha - que servem de orelhas, caudas, as formas cilíndricas ou arredondadas que servem de extremidades, as pequenas adições que passam por bigodes, pêlos, cabelos, rugas. Acrescentemos itens de roupa, chapéus, óculos, ou outros. Coloquem-se esses elementos numa tômbola, e produzam-se as mais diversas combinações, como se se tratasse de um jogo de espelhos moventes. Imaginemos ainda que todas essas combinações ganham a tridimensionalidade de bonecos (em PVC novo, brilhante, maleável) mas são submetidos a um mecanismo de aquecimento intenso, que os faz derreter e derreter as cores - até ali separadas por filamentos negros e densos - em manchas autónomas. Os tais filamentos erguem-se agora em estruturas esvaziadas, mas que também se torcem em torno dos seus próprios eixos, deslocados e impossíveis. A todos os momentos, não estamos seguros do que estamos a ver, mas há como que uma impressão de persistência retiniana e de memória cultural que nos faz, ao mesmo tempo, pensar que estamos a olhar para algo familiar. Existem momentos em que tudo isto se estilhaça ao seu mínimo contorno, contra uma negrura quase absoluta, outros em que tudo se remistura numa ofuscante paisagem de cores.
Tommi Musturi opera como uma espécie de xamã do grafismo, obrigando-nos a observar formas cambiantes que desligadas de qualquer propósito ou estruturação narrativa, nos faz ainda pensar estarmos a “ler” uma história comum, de que nos lembramos incompletamente. O que se passa em Beating é uma espécie de Unheimlich gráfico.
O livro, no que diz respeito a edição e design, comporta-se como toda uma série de livros afectos às áreas das artes contemporâneas, que tomam a ideia de arquivo não em termos de uma organização linear, explícita ou categorizável, mas antes de pilha que procure intensificar o conjunto. É Beating uma colectânea? Um catálogo? Um best of? Uma colecção? Um portfólio? Uma máquina de alucinação e de recrudescimento gráfico através da concatenação de trabalhos anteriores? É possível que haja uma organização cronológica de alguns trabalhos, começando nos mais recuados aos mais recentes, mas não há qualquer indicação certeira para que possamos saber. Um brevíssimo prefácio lança-nos as informações do que compõe o livro - posters, livros a solo, fanzines, colaborações, capas, objectos para exposições -, assim como nos indica locais, organizações, editoras, etc., mas não há forma de ligarmos ponto por ponto as imagens às circunstâncias. Temos de apelar ou para conhecimentos prévios - por exemplo, já havíamos falado de duas publicações antes, aqui retomadas integralmente, com pequenas diferenças de cor - para cartografar tudo. Mas talvez o desejo de Musturi seja precisamente fazer-nos abandonar nesta espécie de oceano sem fronteiras, onde as coisas se misturam, territorial, matérica, técnica e disciplinarmente. Não há que saber, há que nadar.
O autor demonstra através deste volume que oscila, apreciando-o, entre toda a espécie de formas de criação de imagens. Teremos aqui uma variedade assombrosa de materiais riscadores e suportes, e para além do desenho existe trabalho em serigrafia e manipulação digital; existe trabalho “límpido” e “sujo”; existem abordagens minimalistas no que diz respeito ao trabalho de linha e mancha de cor e outras mais próximas de explosões cromáticas psicadélicas, se não mesmo “ácidas”, como escreveu Marcos Farrajota. Em termos figurativos também encontraremos uma diversidade assinalável, desde criaturas o mais estilizadas possível, ora geométricas e “achatadas” a plasticamente maleáveis, a seres mais moldados em termos anatómicos e em texturas realistas (sem nunca chegar a ser “naturalista” propriamente dito). Existem galerias de retratos de personagens que nunca entrarão em história alguma, paisagens compósitas que não servirão nada a não ser a si mesmas, exercícios aparentemente sem nexo de riscos e travessias de linhas e formas desconexas, figuras isoladas e desenhos sobre figuras reais (uma pantera?). E apenas momentaneamente criará a ilusão de que estas imagens surgem por processos mecânicos ou mágicos. Pois a mão está lá. Desenho, desenho, desenho, como ondas sucessivas a bater contra as rochas dos olhos dos leitores. O acto de folhear o livro é a única tentativa de navegar, de cartografar, de controlar esta orgia gráfica.
Encontraremos aqui linhas arranhadas à la Gary Panter até às superfícies lisas de um Cadelo, aquela forma anímica das figuras pseudo-animadas à la Jim Woodring (que já João Ramalho Santos muito acertadamente convocara quando falou de Caminhando com Samuel) até à pura raiva expressiva tardo-adolescente de rabiscos nos cadernos de liceu, ao passo que em termos de imaginário não há nada que não possa ser encontrado, das hípérboles de acção à Frazetta às revistinhas baratas de banda desenhada coloridas dos anos 1970, da poster art do psicadelismo ao Onde está o Wally? Até existe um caso de uma imagem que nos faz recordar uma versão “horror” da famosa série de Ibáñez, 13 rue del percebe. Julgamos que em nenhum dos casos haverá necessariamente uma ligação directa, “fonte” ou “influência”, atenção. Simplesmente Musturi tem uma capacidade inata de ligar-se directamente à fonte comum, enérgica, abstracta, mística, de todas essas potencialidades, e daí captar estas diferenciações de resultados. Este livro não pode ser lido, nem visto, nem sequer degustado, mas sim aberto obsessiva e repetidamente, esperando que a aparente violência do embate com tantas imagens nos faça aproximar cada vez mais do coração profundo deste oceano.
Nota final: esta edição contou ainda com a co-produção da Bries e da portuguesa Mmmnnnrrrg, agradecendo a esta última o livro. Utilizámos as imagens disponibilizadas pelos editores.

27 de maio de 2010

SuccoAcido: In Search of God 3: Caminhando com Samuel. Tommi Musturi (Em Portugal: Mmmnnnrrrg)


Finalmente, o terceiro texto versa a mais completa obra do finlandês Tommi Musturi, num livro aparentemente simples, mas cuja abertura à interpretação nos parece ser substancialmente forte. Link.

25 de setembro de 2009

Kuti Kuti no. 13

O presente post serve para indicar que já se encontra disponível (em Portugal não sei onde nem como) o último número do jornal grátis de banda desenhada finlandês Kuti Kuti.
Para além da meia-dúzia de autores que já costumamos encontrar nestas páginas (inclusive o português André Lemos, com a mesma história da Crack On, mas com muito mais tremas), este número tem ainda um artigo deste vosso criado sobre a cena da banda desenhada em Portugal. Por uma qualquer razão, utilizaram como imagem principal uma ilustração de um autor espanhol (julgo que não a enviei por engano), há uma gralha enorme no título, etc. E, como apenas havia espaço para duas páginas, o texto acaba por se cingir a uma apreciação muito global, superficial e curta, seguida de alguns links para blogs dos nossos autores (igualmente truncada em relação ao que enviei).
Enfim, oços do ofíssio.
Mais informações, aqui.

22 de agosto de 2009

Eräänlaisia rukouksia. Ville Ranta (Huuda Huuda)

O que é uma oração? Etimologicamente, a palavra religião é apontada popularmente como derivando do latim religare, re-ligar, criar um novo laço com alguém ou algo, sendo os seus dois termos o homem ou a mulher e Deus, assuma esta última figura a forma que assumir (se for figura). Mas uma raiz mais correcta é a que é apontada em dicionários, através de Cícero, para relegare, reler, ler uma segunda vez, um texto que existe. Mas quem lê quem? O homem relendo o texto que Deus é, passando a ganhar um certo grau de distância que lhe permitirá uma mais profunda interpretação e, assim, tornar esse texto mais “seu”? Ou Deus lendo o homem e, a cada nova leitura, refazendo-o à medida da sua interpretação, transformando o texto passo a passo? Escolhamos uma ou a outra explicação, ambas apontam à ideia de comunicação ou associação entre dois termos que têm de estar necessariamente afastados. A oração é então uma leitura de um telegrama, de uma carta, é telefonema (ponderando aqui se existe ou não comutação). Mas tendo em conta que as comunicações hoje se podem reduzir até à escala do sms ou do twitter (e esperemos pelo momento do retorno do Morse na forma de smileys), a oração pode assumir as mais diversas formas, e cabe a cada um de nós procurar qual a mais apropriada. O autor finlandês Ville Ranta faz essa procura neste brevíssimo livro. Eräänlaisia rukouksia significa “Preces de uma espécie” [esta publicação tem tradução em inglês] e aqui apresentam-se uma mão-cheia de histórias curtas na qual o autor tenta procurar qual afinal a sua própria relação com a ideia de Deus, e de que forma é que se pode re-ligar a Ele, ou relê-Lo. Em 1994, a editora Autrement publicou uma colecção de livros de banda desenhada (“Histoires Graphiques”) com muitos dos autores na vanguarda do momento; um dos volumes intitulava-se Le retour de Dieu, com David B., François Ayroles, Jean-Christophe Menu, Lorenzo Mattotti e Marc-Antoine Mathieu. Todavia, todos eles preferiram apresentar pequenas rábulas humorísticas, derisórias do poder da(s) igreja(s) e do engodo que a religião pode ser/é. Ranta, apesar da aparente simplicidade destas histórias, encontra-se num processo mais sério de ponderar a sua experiência pessoal.
O cidadão cosmopolita urbano de hoje pretende viver na plena certeza do seu ateísmo. Existem, contudo, indícios, de que esse edifício é mais titubeante do que parece. Aquilino Ribeiro, enquanto personagem de David Soares, no seu romance Lisboa Triunfante, a dado momento expressa a sua visão da religião que penso ser aquela de um largíssimo número de pessoas na nossa esfera de vivências, ainda que o não expressassem assim jamais, ou talvez nem sequer desconfiem ser isso o que pensariam, se se atravessem a pensar nisso: “ser apenas agnóstico e não ateu: gostava demasiado de histórias e de acreditar nelas”. A crença nas histórias é o que leva ao exarcebar dito fundamentalista em torno das principais religiões monoteístas (a crença no Arrebatamento dos Evangelistas, toda a hierarquia do Paraíso no Islão), e o crescimento exponencial de sistemas altamente ritualizados e associados a toda uma narrativa, desde o Wicca aos Odinistas, passando até mesmo por culturas como a vampírica ou os Matrixistas.
Ville Ranta não crê em nenhuma história, mas vai explorando aquelas que herdámos – quer na forma das narrativas propriamente ditas da Bíblia quer as que foram sendo construídas pelas igrejas e denominações – para perceber qual o seu caminho, assim como cria as suas próprias histórias, precisamente as dessa busca.
Sem querer fazer um absurdo exercício de redução teleológico, podemos encontrar diversas fases (hoje concomitantes) no desenvolvimento ou história da oração: a rígida e altamente ritualizada praxis dos gregos, a comovida pistis dos cristãos, e o desaguar de todas as formas contemporâneas, “new age”, de crenças informais, pequenos sistemas de ideias e desejos que se pretendem comunicativos com uma ideia de Deus.
A própria praxis da banda desenhada ganha em Ranta contornos informais a todos os níveis, com as vinhetas flutuando como nuvens na página, as figuras e as letras desenhadas em modo de esquisso, ou rápido apontamento, a paleta abafada de cores aplicada num estranho equilíbrio entre um diverso e um estreito espectro, e o rigor da estruturação dos episódios e dos acontecimentos desfarelando-se à medida do momento. Como se procurasse ter criado uma linguagem que lhe permitisse transmitir o pulso à medida que o sentisse, como o sentisse, em quaisquer circunstâncias que o sentisse.
Poder-se-ia dizer, preces de uma espécie, de facto.
Nota: as imagens foram todas retiradas da net, inclusive de um blog que dava conta de uma exposição dos originais de Ranta.

16 de agosto de 2009

Ufoja Lahdessa # 3 & De la viande de chien au kilo. Marko Turunen (Daada & Frémok)

Estando presentemente a elaborar um pequeno ensaio em torno da obra, já considerável, quer em termos de proficuidade quer em termos de linhas de força de significação, este texto pretende apenas tecer umas breves notas soltas, dando conta ao mesmo tempo, sobre as duas últimas publicações acessíveis: o terceiro número, de quatro, da Ufoja Lahdessa, pelo seu próprio selo editorial, de que já havíamos falado aqui, e a edição francesa de De la viande de chien au kilo, pela consagrada Frémok.
Cada vez mais, a cada nova leitura, parece ser-nos confirmado o facto de que estamos perante uma forma nova de trabalhar a autobiografia, uma forma de trabalhar a autobiografia que a mescla à ficção, à auto-ficção, ou até mesmo à fantasia, provocando aquele sentimento do estranho familiar a que aludiramos anteriormente. As informações que nos permitem pautar estes trabalhos como “autobiográficos” (sobretudo as curtas histórias de UL, com as personagens Alien e Graterwoman¸mas De la viande... não deixa de se apresentar de um modo similar) são, na verdade, externas ou intuídas, já que não ocorre aqui o que Phillipe Lejeune chamara de “pacto autobiográfico”. Mas essas informações, esses elementos, esses indícios, externos ou não, concorrerão para a ideia de que apenas considerando essa interpretação permitirá um maior grau de desvendamento - mesmo que este jamais seja total (impossível, naturalmente, como a qualquer obra de arte que o seja profunda e verdadeiramente).
Tomemos De la viande de chien au kilo. Aparentemente, trata-se tão-somente da história de uma personagem feminina, Liisa, uma cadelinha, e de toda a sua família alargada. A forma, as cores, o ritmo, poderão fazer-nos pensar que se tratará de uma pequena rábula, infantil talvez, na mesma linha de um Scarry, Renier. A sua leitura, revelando pequenos episódios de um quotidiano muito próximo do nosso, vulgar, poderá fazer-nos aproximar de Wiggert. Mas a consideração de todos os elementos num corpo coeso leva-nos um pouco mais longe. As criaturas de toda a narrativa são animais, os mais variados possíveis (numa secção especial ao fim do livro, sobre os combates de luta livre de Kalevi, primeiro marido de Liisa, ele luta com vários adversários, de passarinhos a polvos gigantes, passando por cetáceos pré-históricos, leva às mais díspares combinações de tamanhos e forças), mas é como se fossem copiados de bonequitos da Playmobil ou algo do género, não por remeterem à infância, não somente por serem uma reapropriação da cultural popular (costumeira em Turunen, como se sabe), mas por serem inexpressivos. E é essa inexpressividade destas figuras que as torna estranhamente familiares, e as torna tão precisas para a a-plasticidade da reconstrução da memória familiar. Pois estamos em crer que Turunen, nesse livro em particular, elabora aquilo que David B. havia feito em L’Ascension du Haut Mal: uma altero-biografia dos seus antecedentes.
Mas o desvio que Turunen provoca – a distância que rompe a existência de um pacto autobiográfico ou que nos permita aceder a essa realidade familiar real, a inexpressividade das suas personagens, já de si “reapropriadas” de outros universos referenciais, da cultura popular ou de sub-géneros ficcionais ou de modas – leva a um desarranjo algo incómodo.
De certa forma, Turunen recorda-nos aquilo que vemos no trabalho de outros autores de outras áreas criativas, por exemplo, a fotografia de Gregory Crewdson. É claro que em Crewdson dá-se uma encenação complexa e rica, procura-se o pormenor límpido e a profundeza de campo, uma claridade trabalhada, e nos desenhos a preto-e-branco, quase xilogravados, brutos, de Turunen não existem as mesmas regras plásticas. Mas o que encontramo em ambos é esse pequeno e inanalisável, inquantificável desvio da realidade, ainda que saibamos dizer que esse desvio se dá; são imagens que olham para ambientes e paisagens vulgares, quase medíocres, por vezes povoadas por acções vulgares, mas focado de um modo tão preciso, tão intenso, que nos tornamos maravilhados perante o seu brilhantismo.
É como se, através das suas estratégias (que esperaremos desenvolver, como dissémos ao início), Marko Turunen quisesse, e fosse capaz, de transformar o ordinário no extraordinário e depois retorná-lo ao ordinário. O trabalho dele é feito de várias camadas, mas sem que elas se relacionem de forma hierárquica. Essas camadas entrosam-se umas nas outras, elaborando uma tessitura una, complexa. Tanto se pode entendê-la de um modo como de outro, como pertencendo a este género como àquele... Em certa medida, é em si mesma um ovni de banda desenhada.
Resta-nos cartografar os seus movimentos.
Nota: agradecimentos ao autor, pelo envio e oferta dos livros. Kiitos!

11 de dezembro de 2008

Orang no. 7. AAVV (Reprodukt)

A dupla vida de Amanda Vähämaki, parte 1.
Sob os auspícios da leitura de um muito recente livro do filósofo Noël Carroll, On Criticism, encontro a exposição de um pensamento teórico e programático em torno da actividade crítica estética com a qual não só me identifico como procuro activamente cumprir, apesar das muitas imperfeições e falhas (parte de uma aprendizagem e desenvolvimento sempre em curso). Não me cabe a mim analisar este livro, se bem que seja um autor que conheço bem e que procuro ler assiduamente (conjuntamente com outros autores que prezo), ajudando-me a tentar perceber qual o papel da crítica, e quais as suas funções, possibilidades e intrínseco valor. Mas abordemos alguns dos seus temas, para os poder aproveitar neste espaço. Para Carroll, e tese mais importante deste novo livro – de um nível introdutório, e não tão complexo como outros da sua lavra – é que a função principal da crítica é a avaliação. Isto é, para além da “descrição, classificação [em relação, por exemplo, a uma teoria dos géneros], contextualização, elucidação [i.e., o desvendamento de signos e/ou códigos], interpretação [sob uma miríade de disciplinas possíveis] e análise [explicação das partes e do todo]”, que é cumprida pela esmagadora maioria dos discursos que se fazem passar por críticos – sejam-no ou não, e com maior ou menor proximidade -, aquilo que faz distinguir outro tipo de discursos e um discurso propriamente crítico é o exercício de um juízo de valor. Esta última expressão nada tem a ver com a ideia de pontificado, de sentença, usualmente apresentada sob a forma de um número reduzido de “estrelas” ou “bolinhas”, devendo antes seguir um seu sentido mais profundo, da procura do valor especificamente encontrado na obra de arte a criticar (a valorizar). Como escreve Carroll, “a função primária da crítica é revelar o que é bom num trabalho. Classificá-los não é a preocupação principal do crítico”. Logo, importa menos julgar uma obra de arte pelos princípios de outra, por exemplo um livro de banda desenhada do mainstream norte-americano de super-heróis, como Joker (Azzarello e Bermejo), pela pauta do espaço criado por uma obra como a de Anke Feuchtenberger (e vice-versa), do que procurar no interior de cada qual o modo como cumprem as suas promessas, alteram o espaço anteriormente disponível e que ocupam e transformam, e revelam as suas forças. É claro que é possível, numa perspectiva mais global ou num patamar comparável (o que é difícil, parece-me), colocar uma contra a outra (“Feuchtenberger é uma artista que recria todo o espaço da banda desenhada, Joker adianta pouco à sua estrutura clássica” vs. “Joker apresenta uma curiosa variação e cruzamento de géneros, apreciável por um grande público, Feuchtenberger tem uma linguagem que encurta o leitorado”), mas de pouco adiantará para ler melhor cada uma dessas obras. E ler é o que nos importa.
A dado passo, Carroll apresenta alguns dos argumentos que poderiam ser arrolados contra a sua tese central. Um deles indica que a mera selecção das obras, a opção em falar de uma determinada obra e não de outra, a escolha, é já, em si mesmo, uma tomada de posição valorativa. Se bem que esta questão seja bem mais complexa do que se poderá apresentar aqui (o autor refere-se aos comissariados artísticos, por exemplo, mas também às críticas de jornal), a verdade é que por vezes se podem seleccionar obras sobre as quais, depois, se apresenta um veredicto negativo. No entanto, e é aqui que mais próximo estamos das regras implícitas do lerbd, a minha posição é a seguinte: de todas as obras que me chegam às mãos ou que tenho o interesse suficiente e prazer em ler, nem todas me suscitam a vontade de com elas dialogar para além dessa leitura. Usualmente, e uma vez que me cinjo à apresentação de reflexões em torno de livros novos (leio e descubro textos antigos igualmente, mas não fazem parte dos objectos de análise deste espaço), prefiro dar a ler reflexões positivas, de forças que encontro nos livros lidos, do que massacrar-vos com sentenças negativas (já chega o que têm para rolar o texto no ecrã). Quando lido com um texto qualquer de banda desenhada (ou de outro tipo) que me suscita mais desagrado ou que me dá a ver mais falhanços e fraquezas do que forças, prefiro passá-lo em silêncio, pois poderia ser visto (como infelizmente a crítica é entendida pela maioria das pessoas) ora como pontificanço ora como ofensa. Isso não significa que sinta, por vezes, a necessidade de sublinhar perspectivas demasiadamente presentes, apontando posições contrárias e que tento, sempre, justificar com argumentos racionais (como sucedeu em relação a Wanya).
Posto isto, a razão pela qual me sinto impelido a falar de duas antologias – discutivelmente parte das melhores antologias de banda desenhada no mercado contemporâneo e internacional (assim como a Glömp, a Kutikuti, a Rosetta – lenta, lenta – a Strapazin, a Canicola, entre outras -, a saber, a alemã Orang, da Reprodukt, e a D&Q Showcase, da canadiana Drawn & Quarterly, deve-se mais à presença de trabalhos da finlandesa Amanda Vähämaki que qualquer outra coisa. O que não nos impedirá de falar dos outros artistas presentes.
Amanda Vähämaki tem todas as particularidades que concorrem para a formação de um nome fundamental da banda desenhada contemporânea, a todas as instâncias. É uma artista em permanente formação, tem um cabal domínio dos instrumentos, quer técnicos (o lápis) quer estruturais (as pranchas), da banda desenhada, e procura tanto uma clareza nos propósitos das suas histórias como desvios que a tornam mergulhada numa aura de enigma (apresenta sempre histórias legíveis, narrativas, se bem que com um ambiente e uma delimitação das informações que torna os não-ditos tão significativos quando os elementos objectivamente determinados). Estes não são elementos nem suficientes nem necessários para a construção de um nome fundamental deste território, claro, mas são-no para Vähämaki. Haverá outros territórios, outras formas de o cartografar, de o delinear e de o iluminar. Todavia, esta artista tem o seu espaço próprio formando-se.
Isso não quer dizer que não possamos colocá-la junto a outros nomes. Por exemplo, a estratégia que tem em deixar visíveis o trabalho do lápis, as rasuras, a limpeza (ou melhor, a sua ausência), a repetição de linhas não-representacionais e ilógicas (numa perspectiva de um universo gráfico icónica e logicamente mimando o mundo natural), poderão fazê-la penetrar num grupo no qual se encontrarão os nomes de Thomas Gosselin, Merav Salomon, Sfar (o dos Carnets, sobretudo), Gregor Wiggert, a última Anke Feuchtenberger... Já as suas estratégias narrativas, da criação de um universo de referências limitado num espaço curto, quase familiar, no qual as restantes referências – a inscrição no mundo empírico e histórico que partilhamos – se dissolvem, e no qual um fantástico melancólico (ambas as palavras devem ser entendidas enquanto os seus exactos conceitos aplicáveis às artes literárias) ganha corpo e interfere com o mundo ficcional, poderiam irmaná-la com o seu companheiro de armas na Canicola, Andrea Bruno, mas também Gipi, Anders Nielsen, A I Wan, etc. Poderíamos, portanto, formar várias associações, combinações, famílias (lá está, “críticas”), dependendo da perspectiva do momento ou da circunstância precisa.
A antologia alemã Orang, pela mão do seu editor, Sascha Hommer, apresentou para este número um tema, “O Fim do Mundo”, e, com esse fim, os autores convidados criaram histórias originais. Todas elas exploram um hipotético fim do mundo, mas nenhum deles opta por soluções histriónicas ou que retratem os elementos que levam a esse mesmo fim do mundo. Existem pequenos acidentes que se acumulam, crises familiares crescentes, a contemplação de abismos negros, fantasmas que se revisitam, um aumento da loucura urbana, mesmo que anunciada na televisão, o alívio que vem ao se saber que a pena de morte será finalmente cumprida. Quase todos os autores, salvo aqueles que optaram por soluções mais fantasiosas, com gigantes marchando sobre vilas ou um outro que penetra o mar, mostram o modo como personagens solitárias ou em pequeníssimos grupos, lidam com os negócios e os comportamentos a ter num momento desses. A loja vai fechar, há que deixar as coisas nalguma ordem...
De entre as quinze peças da publicação, Moki apresenta mais uma vez uma história com figuras delicodoces, mas onde paira sempre uma qualquer sombra negra de angústia, de solidão insuportável, de amor não correspondido. O artista de Hong Kong Hok Tak Yeung apresenta uma história sobre um prisioneiro nos últimos dias da prisão, presume-se que para o cumprimento da sua pena de morte. o seu trabalho de pinceladas negras carregadíssimas e “sujas” levam a uma quase dificuldade de leitura, mas ao mesmo tempo permite-se, através dos diálogos, das pequenas coisas em que se concentra, na forma como mostra no mínimo as relações entre os presentes, uma história tocante (que faz lembrar, a um só tempo, The New Sun, de Taro Yashima e Na Prisão, de Kazuichi). Verena Braun apresenta-nos uma fábula, não, uma intromissão futura, em que alguns animais passam a ocupar alguns postos de trabalho misturados com os humanos, e estabelecendo relações pessoais e amorosas tão complicadas como as dos humanos. Christian Maiwald escreve para Martina Lazin uma visita de uma jovem a um local que abandonara há muito e onde lhe é literalmente possível aceder aos fantasmas que abandonara, acentuando a distância que existe entre amigos abandonados e amigos presentes. Tommi Musturi oferta-nos mais um episódio da criatura de um só olho, Samuel, e a sua travessia do que parece ser um mundo hermético mas multímodo, e Ron Regé Jr. um outro pedaço das suas criaturinhas Disneyescas-punk em remontagens e reciclagens sonoras sem nexo aparente, mas de enigmas cristalinos. E Arne Bellstorf, com “A inevitabilidade das coisas”, apresenta-nos uma espécie de thriller à la Hitchcock em que o McGuffin toma conta de toda a narrativa, levando-nos a torná-lo num sumário “alguém foge a alguém, que persegue esse alguém, contratando outro para tratar do serviço”. Mas nada mais é revelado, nada mais é compreendido. Fica o ambiente retro, servido com uma figuração fortemente estilizada, absolutamente regular, onde a única ideia dúbia de cor viva é nos rostos, mortiços, das personagens... Nada escapa.
Mas falemos de Vähämaki. Se em Squirels first o lápis se encontrava utilizado, a um só tempo, densa e diafanamente (por um lado, a inscrição dos traços, das sombras, das manchas, por outro, as rasuras, os “fantasmas de figuração”, ou as mesmas sombras e manchas vistas de um outro ângulo, as suas fronteiras dissipadas), na história do “fim do mundo” incluída na Orang, “Die Aufführung”, “O espectáculo”, o carvão mistura-se de um modo cabal à densidade da noite derradeira que caiu sobre o mundo, criando assim um ominoso ambiente, em que as referências de que falámos atrás, as que ligam ao nosso mundo empírico, mais resolutamente se dissolvem. Em alguns aspectos, está próximo (por afinidade, não por qualquer trânsito directo) do último livro de Feuchtenberger.
A história mostra-nos um punhado de personagens, um trio – um adulto, um velho e um jovem, como se se tratassem da versão masculina das Três Moiras, mas menos activas e menos alegóricas. O adulto retorna à aldeia de onde partira, juntando-se ao velho e, depois, o jovem juntando-se a eles, para verem o “espectáculo”. Atravessando uma noite tinta de negro, vão trocando informações e aprendemos que, do outro lado do pântano, estender-se-á um buraco negro. Tal qual. O velho chegou a perder dois dedos por lhe ter ultrapassado a fímbria. O jovem, entretanto, foi descoberto abraçando um imenso peixe branco no chão, que parece brilhar. Trata-se de um “peixe-estrela”, diz ele, porque tem medo da luz, mesmo das mais fracas. O peixe é abandonado para que ele os acompanhe a uma clareira, num terreno em declive, no centro do qual se ergue um palco. A dado momento, o espectáculo inicia-se, e a prancha passa a ser ocupada por uma imagem única: o espectáculo consiste na passagem de várias personagens, identificáveis apenas em termos gerais – o médico, a morte, a criança. Nenhum sentido é dado, e quando termina as questões que surgem são banalíssimas. Tratar-se-á de uma peça também ela alegórica? De simbolismos fáceis (Tarot, por exemplo)? De hermenêuticas absolutamente secretas? Jamais importará. O fim do mundo já está a suceder e as coisas podem apenas ser fruídas no momento em que nos chegam...
(Continua aqui.)
Nota: agradecimentos a Christian Maiwald pelos esclarecimentos e os três shots de vodka polaco.

D&Q Showcase no. 5. AAVV (Drawn & Quarterly)

A dupla vida de Amanda Vähämaki, parte 2.
(Continuado daqui). Quanto ao número 5 da D & Q Showcase, apresenta-nos três histórias. Uma primeira, de Anneli Furmark, artista sueca, sobre a aventura de um casal homossexual à casa dos pais de um deles, experiência na qual se prefere esconder o amor para preparar o terreno à confissão para “mais tarde”. O que se adivinha e sobrevive dessa visita, porém, é que, como reza a canção, será sempre “mais tarde” e “mais tarde é tarde demais”. A segunda é de um autor norte-americano, T. Edward Bak, que explicita estar mais interessado na banda desenhada enquanto “veículo de processos automáticos de narrativa, para além da música caótica da memória”. Este trabalho é muito surpreendente por em primeiro lugar ser reproduzido (ou assim o parece) directamente de um diário gráfico, com todas as suas vicissitudes e acidentes, como se fosse importante, perdão, sendo importante esse suporte físico e suas características para informar (“dar forma”) a história em si, que parece rondar um cenário pós-apocalíptico na América do Norte, mas onde mais importa a vida interna do protagonista, as suas memórias, arrependimentos e emoções que as anedotas que o rodeiam. Em segundo lugar, porque se sacrifica a unidade estilística dos vários passos da história para a submeter a uma multiplicidade de períodos narrativos, tempos visitados, ambientes emocionais, e atitudes para com as memórias. Um misto de relatório e de conto de fadas em termos visuais, é também um trabalho fortemente melancólico, ainda que de uma ligeireza muito subtil.
Finalmente, segue-se a história, sem título, de Amanda Vähämaki. Visualmente, é bem diversa da anterior, pela introdução da cor. E, apetece exultar, que cor! Certo, não estamos perante uma mestria e plasmação da cor como se verifica em Mattotti ou Conefrey, nos quais a cor assume um protagonismo activo e estruturante. É verdade que a cor em Vähämaki está subsumida ao programa figurativo e narrativo, mas mesmo assim mostra uma exuberância “quente”, de patchwork, ou das pesadas camisolas de lã que algumas personagens usam para combater o frio que as envolve. Nalguns pontos, essa cor concentra-se em torno do corpo das personagens, aliadas às linhas do lápis rasuradas, criando como que uma aura ou um fumo que delas se desprende.
O que une o trabalho de escrita da autora, a nosso ver, desde Campo di Babà ao objecto pseudo-narrativo Squirels First e agora estes dois contos, é que se constitui sempre uma narrativa com um universo diegético nítido, em termos dos seus elementos, para depois se exercer sobre ele uma deslocação. Paulatina e linearmente, são apresentadas as personagens, o espaço da acção, e o seu tempo. Nenhum desses elementos se reveste de qualquer problemática em particular (metalepses, por exemplo) e todos apresentam-se sob unidade. Mais, a própria forma narrativa moldada por Vähämaki é relativamente linear e descritível sem desvios de maior, sem, literalmente, extravagâncias. Porém, e eis aqui a discernível característica do trabalho da autora, há sempre uma qualquer interferência nesses mundos, uma evasiva, um elemento disruptivo, que lhe parece natural, que não é de surpresa nem burlesca nem assombrosa para as personagens, mas que se reveste, mesmo assim, esse elemento, dizemos, de uma natureza que poderia ser caracterizada como maravilhosa, fantástica, absurda, ilógica, espantosa, desviante, estranha.
No caso desta história, um casal de adolescentes, amigos, atascados no tédio de uma pequena vila piscatória (finlandesa?), num dia de folga, usam o controlo da televisão do pai do rapaz para viajarem no tempo. Sim, uma máquina do tempo sob a forma de comando de televisão. O momento dessa viagem é mostrada por um punhado de vinhetas, com a paisagem alterando-se ao longo das estações e uma, duas ou três linhas paralelas e em ziguezague, como sucede (sucedia) às fitas de vídeo quando as rebobinamos para trás mas observando-se a imagem. Essa viagem permite-lhes acompanhar uns pastores que vão até uma pequena ilha rochosa, na qual dispõem seixos e pedras numa qualquer forma misteriosa, jamais desvendada. Depois retornam ao seu tempo e sítio, e retomam a vida de todos os dias. Depois percebemos que talvez se trate de uma pequena vingança em relação ao pai (?), um pastor, mas de almas, um religioso taciturno. O pequeno furto ou ocultação do controlo remoto impedirá o padre de voltar no tempo, de procurar uma qualquer redenção de um pecado não indicado. Os jovens adentram-se pelo dia soalheiro e pela floresta, nesta magnífica prancha aqui mostrada. Assim termina a história, aberta sobre uma paisagem apenas vazia de nada, mas cheia do futuro que eles parecem querer construir com tranquilidade.
Nada é claro nem revelado, mas jamais se trata de uma falha, bem pelo contrário, fazendo-se dessa indeterminação narrativa, no seio de uma narrativa de resto clara, um valor artístico particular para estes trabalhos. Estarei errado na identificação destes elementos e querer colocá-los sob uma mesma égide, signo, até mesmo tema que atravesse a obra de Vähämaki como um baixo contínuo? Uma espécie de representação ficcional quer dos nossos desejos permanentes, cultivados desde a infância, sobrevivendo até à idade adulta, em podermos aceder a “outros mundos”, a “fantasias” e “sonhos”, “escapismos” até?, quer um certo mal-estar da sociedade contemporânea em que sentimos a existência de algo “que está mal” mas sem o poder identificar facilmente? Claro que podemos optar por chamar-lhe “crise”, “criminalidade”, “aquecimento global”, mas no fundo é apenas um mal du siècle que nos pertence por direito e herança, e a que a artista toma o pulso e traduz em figuras.

10 de dezembro de 2008

Ollaan Nätisti. Anna Sailamaa (Huuda Huuda)

Já nos havíamos cruzado com Anna Sailamaa nas páginas da Glömp no. 9, precisamente com uma das histórias reunidas nesta pequena publicação. Ollaan nätisti é traduzível por “portem-se bem” (esta publicação é em finlandês mas tem uma tradução inglesa no pé da página) e é um dos recados que o pai dá aos seus três filhos, um menino e duas meninas, uma das quais, presume-se, é a própria Anna, a menos que estejamos aqui perante um exercício de auto-ficção ou de uma inscrição dissimulada da autora real no corpo das suas personagens.
As guardas do livrinho [imagem a seguir] mostra uma espécie de constelação, de manchas de pontinhos que, acumulados, parecem fazer uma estrela brilhante, as quais despedem raios fazendo todas as ligações possíveis. É como se se tratasse de uma imagem metafórica que quer representar a ideia de família, e é exactamente à família que estas histórias são dedicadas. Em primeiro lugar, cada uma das 5 histórias que compõem Ollaan nätisti é intitulada com um dos membros da família: “Avó”, “Irmã”, “Mãe”, “Irmão” e “Pai”. Mesmo que uns surjam nas outras histórias, é aquela que se encontra destacada no título que assume o protagonismo do retrato, ainda que a focalização esteja sempre perto de uma das filhas, presumimos nós que Anna. Em segundo lugar, porque apesar da idade dessa personagem-filha se alterar de história para história, não apenas surge como condensadora dessa constelação familiar como orientadora das restantes relações. Ao longo desses episódios descobrimos a típica flutuação de humores entre os membros de uma família, da rivalidade à parvoíce fraternal a discussões mais sérias, até ás marcas profundas que os pais deixam de um modo quase negativo mesmo que eles não o tenham feito com essa intenção. O problema é que as intenções usualmente dão frutos de sinal contrário ao previsto, e isso é particularmente verdadeiro no seio de uma família.
Não se pense estar perante um livro que explora essas maleitas e crises de um modo directo ou dolorido. Com a excepção da última história, não há acesso ao pensamento interno das personagens, ou a uma voz narradora que, pela sua própria existência, tem necessariamente de se afastar do nível da diegese. É somente pelas relações estabelecidas em cada curto relato, e o seu acumular e passagem de um capítulo ao outro, e pelas suas vozes dialogantes, que construímos uma ideia flutuante dessas mesmas relações... flutua tal qual uma constelação, já que o desenho unindo as estrelas não existem objectivamente mas são modos dos seus observadores (nós) as mapearmos para nosso maior conforto e controlo do universo.
Uma vez que os episódios foram sendo criados para várias outras publicações, conforme as suas circunstâncias específicas e condições de produção, notar-se-á no trabalho de Sailamaa alguma diferenciação de traço de história para história: aqui parecem ser as figuras criadas por pinceladas de tinta-da-china, ali traços descomprometidos a caneta, onde a perspectiva e a volumetria é preterida em nome de uma óptica mais dinâmica e que talvez deseje traduzir o olhar infantil (de então, do momento representado).
A composição das páginas é muito simples, quase sempre de um modo regular e rectilíneo, mas isso apenas evidencia a liberdade da figuração e a dinâmica líquida das sensações. Tal como uma família, cujas ligações podem ser descritas de modo linear e nuclear (papá-mamã-filhotes), mas nada dizem dos modos como as paixões se instalam no seu interior.
Nota: agradecimentos a Marcos Farrajota, por ter actuado como dealer. Entre nós, à venda na Chili com Carne.

6 de setembro de 2008

Ufoja Lahdessa. Marko Turunen (Daada)

Esta pequena revista reúne alguns episódios, uns inéditos, outros não, da personagem Alien do autor finlandês, que já sido o protagonista do seu livro de maior sucesso (por ter edição internacional, da FRMK), La mort rôde ici. Mas marca, paradoxalmente, o início do fim. Numa prevista série de quatro números, da qual este é o primeiro, Ufoja Lahdessa (traduzido por “Ovnis em Lahti”, uma cidade no sul da Finlândia), apresentará os últimos trabalhos de Turunen com esta mesma personagem.
O formato é o de uma revista, cujo tamanho nos fará lembrar um comic book americano, mas num papel mais espesso e totalmente a preto-e-branco, que procura imitar, como somos informados pelo autor, “revistas baratas finlandesas sobre ovnis dos anos 70”. Uma vez que se trata de uma revista, acompanhada por inquéritos aos leitores sobre as suas próprias eventuais experiências com objectos voadores não-identificados e encontros de terceiro grau, o espaço de venda delas mais apropriado deveriam ser os quiosques, mas pertencendo ao círculo da edição independente, viverão somente naqueles círculos artísticos pelos quais o autor se habituou com os seus trabalhos (quer de edição, de filmes ou de exposições artísticas).
Para além das histórias com o pequeno Alien (que já havíamos exposto como uma espécie de alter-ego do autor), e com algumas personagens secundárias, das quais se destaca a “mulher”, nas histórias escritas por ou com Annemari Hietanen, mulher de Marko Turunen), há dois episódios, um verboso e ou outro não, com uma personagem chamada, em finlandês, “Tohtori Outotauti”, traduzido em inglês (esta é uma edição, como sempre na Daada, com traduções inglesas em nota de pé de página) como “Dr. Strangedisease”, fazendo recordar inevitavelmente o jogo similar da personagem de Kubrik, o Dr. Strangelove.
No entanto, a estranheza destas histórias, escritas por ou com Hans Nissen, não se prendem com um segredo que é ocultado a quase todas as personagens mas não à perspicácia do espectador, como no caso do filme citado. A estranheza que Marko pretende criar nas suas histórias, e que é aqui continuada pelos trabalhos de colaboração, prende-se com o facto de que o ambiente das histórias é construído nos pequenos bairros residenciais da Finlândia (de Lahti, presumo), seguindo-se acções aparentemente inócuas e banais – a recepção de uma encomenda postal, um livro comprado na internet, a observação do desenvolvimento de uma mazela – mas serem protagonizadas por personagens cuja representação nos faria pensar numa esfera qualquer do fantástico: um alienígena, uma mulher vestida como numa sessão hard de rubberplay, um homem mumificado e com uma pala num olho, um demónio do inferno, Thor, o deus do trovão...
Estamos de facto naquele território a que se dá o nome, por vezes abusado, do Unheimliche de Freud, o “estranho familiar”. Como o pai da psicanálise diz, “esse estranho não é nada novo ou alheio, porém algo que é familiar e há muito estabelecido na mente, e que somente se alienou desta através do processo da repressão. Essa referência ao fator da repressão permite-nos, ademais, compreender a definição de Schelling do estranho como algo que deveria ter permanecido oculto mas veio à luz” (Das Unheimliche, traduzido como “O estranho”, ed. port., Brasil, de As Obras Completas). No território da ficção imaginativa, contra um fundo de aparente correspondência com o nosso mundo empírico, surgem altamente contrastados os corpos destas personagens, que parecem querer representar algo de mais profundo, algo que nos fala a um só tempo de um modo inédito e íntimo, paradoxo traduzido pelo conceito do “estranho familiar”. Talvez não seja possível explicitar totalmente, à luz, o que era esse oculto, mas o sabê-lo é desde logo um passo decisivo à sua captura.
Estando de momento a preparar um ensaio mais alongado sobre a obra deste autor, fica aqui apenas o início dessa ideia, que se verá desenvolvida, explicada e fundamentada mais tarde.
Nota: agradecimentos ao autor, pelo envio da publicação e as conversas.

1 de agosto de 2008

The Complete Kake Comics. Tom of Finland (Taschen)

A Taschen começou a sua vida editorial precisamente como editora de banda desenhada, toda uma série de autores (então contemporâneos) Tramber e Jano, Ben Radis, Serge Clerc, Yves Chaland, Daniel Torres, Martin Veyron, mas igualmente dedicando-se aos territórios do erótico com os irmãos Varenne, o Ranxerox de Tamburini e Liberatore, Wally Wood, Guido Crepax, logo, estes últimos gestos – isto é, a edição da obra de banda desenhada de Tom of Finland, a da obra de Eric Stanton (famoso autor de bandas desenhadas eróticas cujo fetiche primeiro é a humilhação masculina às mãos de femmes – literalmente, por vezes – fatales) e ainda o novo (e caríssimo!) Robert Crumb's Sex Obsessions - podem ser vistos como uma forma de revisitar as origens ou de fechar um ciclo ou de repesar a vida, etc.
A edição da banda desenhada do finlandês Touko Laaksonen, mais conhecido como Tom of Finland, já havia sido alvo de uma edição, numa pequena caixa de cinco volumes, também com a colecção completa da revista de banda desenhada Kake, havendo publicado 26 números entre 1968 e 1986, num formato “de bolso” equivalente à Gina ou à Weekend Sex, para não contrastar com a família de publicações pornográficas. Tratavam-se de revistinhas de uma vintena de páginas, com um desenho por prancha, usualmente sem texto (ainda que surja esparsamente uma onomatopeia, uma fala), e em que o artista revelava o seu virtuosismo em termos de iluminação, anatomia, movimento e torção dos corpos, as texturas dos tecidos e peles, quer a lápis e carvão, quer por vezes a tinta, e tudo, tudo, subsumido ao programa da excitação sexual: porno. Este é um só volume, de mais de 700 páginas, coleccionando toda as aventuras do protagonista, que vemos na capa, Kake, um Übermensch ultra-sexuado, que alimentaria as páginas da revista homónima, e as fantasias dos seus leitores.
É curioso como o Erotismo, usualmente na banda desenhada – modo repetido nos estudos dedicados ao tema, fanzines que reúnem trabalhos, exposições públicas, etc. -, é confundido com apenas uma das suas formas: as fantasias heterossexuais masculinas em torno de mulheres praticamente dispostas a qualquer ataque sexual da parte dos homens. Raramente se encontram experiências outras, de mulheres comandando o leme (ou se o comanda, é para sublinhar as fantasias masculinas, de resto, como no caso de “lésbicas para satisfação masculina”), ou de fantasias homoeróticas, estas as mais das vezes votadas ao silêncio da parte daqueles que mais pugnam pela discussão do “erotismo visível”, “aceitável”, etc. Mas, do outro lado da barricada (gostaria que não existissem estes termos bélicos, mas infelizmente há ainda combates a fazer), surgem muitas vezes autores com obras surpreendentes, poucos, mas de resto, numa percentagem idêntica à daqueles que, no interior do erotismo normativo, conseguem atingir um outro patamar de profundidade com as suas obras (Varenne, Crepax?): veja-se o exemplo de Nazario. Quanto a autores que, no domínio da autobiografia ou autoficção), exploram as crises e combates necessários da homossexualidade no mundo, criando ao mesmo tempo obras-primas em termos de narrativa existencial na banda desenhada, arrolem-se os nomes de Howrd Cruse e Fabrice Neaud, por exemplo.
Mas, em relação Tom of Finland, como se viu e como se vê, não é preciso estar com paninhos quentes, uma vez que a sua banda desenhada é, sem discussão e complexidades, pornográfica: não só as relações sexuais são explícitas, e de uma visibilidade extrema (a exacerbação e hipérbole dos corpos musculados, os pénis gargantuescos, a viscosidade dos uniformes acentuada), como o objectivo das histórias é ir directo ao assunto, representar o mais claramente o encontro sexual e, assim, provocar nos leitores o “frenesim do visível”, como Linda Williams chamou à pulsão escópica (i.e., “do olhar”) presente na pornografia. Não há desculpas, as aventuras de Kake servem para projectar todas essas fantasias: o tema da violência ou mesmo da violação, de Kake sobre os outros ou de outros sobre Kake, a mera circunstância de um encontro transformado numa desculpa para uma orgia entre vários homens (o máximo é de 10, no número 23), são apenas exemplos.
Por outro lado, as criações de Tom of Finland são claramente subversivas: são muitas as histórias nas quais as figuras de autoridade (polícia, militares, marinheiros, Mounties do Canadá) participam, para cair ao mesmo nível horizontal das restantes personagens (se não fizerem desde logo parte do mesmo nível social); não se trata somente de uma fetichização dos uniformes, ou melhor, é isso, comportamento que se traduz por uma metonimização destes como instâncias das instituições que representam, podendo-se assim instituir uma relação directa com elas, e não com as pessoas, os indivíduos que estão ali de facto. Esse nível é horizontal por várias ordens de razão: é o mesmo nível social (amantes), é o mesmo nível actancial (actuam de igual para igual), o mesmo nível estético (os corpos misturam-se na figuração e no papel) e, perdoe-se a piada de mau gosto, porque se encontram ao “nível da cama”, o horizonte onde as linhas de facto se tocam. O homoerotismo de Tom of Finland é daquele que as características masculinas são acentuadas até a um máximo quase caricato, expurgando-se todo e qualquer traço que pudesse ser encontrado de feminino: não estamos perto aqui do homossexual representado como num território entre os “papéis masculinos” e “femininos” (de resto, os quais felizmente vão fazendo cada vez menos sentido, apesar da resistência generalizada), muito menos o “travesti” (que, como é visto em The Invisibles, apenas confirma uma percepção sobre o feminino a partir dos filtros da projecção do desejo e fantasia masculinas), mas mergulhando no “ultra-masculino”. Ainda que quase todos os homens sejam representados com feições delicadas, lábios grossos e redondos, belos, é a masculinidade que torna forma robusta. Por um lado, não é mais do que todas as fantasias também presentes, se melhor disfarçadas ou sublimadas numa direcção de espelhismo, nos super-heróis; por outro, e para citar de cor Jean Genet de Nossa Senhora das Flores, “macho que fode macho é macho a dobrar”. O poder masculino, portanto, fica sempre por cima.
Mas como explica a editora (no sentido inglês de editor) deste volume, Dian Hanson, Tom of Finland fez criar um espaço novo para a representação sexual homoerótica, até então nunca visto. Não se trata apenas da fetichização fantasiosa destes corpos imensos e ultra-masculinizados (os quais, na verdade, correspondem a uma evolução interna do estilo do autor, como se pode descobrir através de outros seus trabalhos), mas igualmente da introdução de uma certa ambiência de humor, alegria e liberdade. Todas estas personagens, mesmo naquelas histórias que se iniciam com fantasias violentas – violação, surpresa em ser-se apanhado, na prisão, na cela militar, etc. -, acabam por se beijar, acariciar, abraçar, descansar juntos e, sempre, sorrindo. Uma outra estratégia narrativa, também indicada nos textos periféricos é que a presença de Kake faz com que os homens com que se cruzem rapidamente se tornem tão desejosos de estar com ele como ele com eles, mesmo que haja uma resistência inicial (como se fossem heterossexuais). Nisto também não há diferença nas fantasias, em que nós sempre projectamos a ideia de sermos irresistíveis a quem desejamos possuir. E a existência de um parque onde se lê, à entrada “Men Only” apenas corrobora essa fantasia absolutamente liberta e feliz na expressão da sua sexualidade. Tom of Finland permitiu essa nova atitude, e se bem que não o fez sozinho, contribuiu em larga medida para a expressão sexual desta tribo de “bikers”, “leathers” e “bears” que mesmo os mais homófobos ou incautos conhecem, pelo menos do “Blue Oyster”...
Nota: o scan da imagem da capa é do livro lido, mas as imagens do interior foram retiradas do site da Taschen, uma vez que o livro é demasiado espesso para conseguir um bom scan.

7 de maio de 2008

Supernormal. Marko Turunen (Daada Books)

O título deste livro de bolso de mais de 400 páginas reúne trabalhos provenientes de duas séries de fanzines que Marko Turunen tem vindo a fazer nos últimos dez anos: o Super e o Normal. O autor explica: “Super era um comic book sobre pessoas com superpoderes, Normal sobre pessoas com superpoderes”. Parece de algum modo pouco natural que o que pareça mais importante, ou regra, é que tenham superpoderes, e que possam existir pessoas sem eles, e não ser o contrário aquilo que pautaria a relação (apesar da palavra “normal”), mas tendo em conta a pesquisa de formas de Turunen, não nos surpreende. Recordemos, uma vez mais, de que muitas das ilustrações que Turunen fez para publicações finlandesas (e expostas no último Salão Lisboa) utilizavam conhecidas personagens do universo Marvel para transportar conceitos ou sensações do nosso mundo, “real”.
Esta colectânea não apenas ajunta numa só publicação, e em língua inglesa, esses anteriores fanzines, como também serve de um só objecto condensando – ou dando-nos a ver o que era separado numa fórmula condensada - várias vontades expressas. Dá-se uma (contínua) oscilação de géneros, de estilos, de naturezas, de humores, de aproximações, de pensamentos, e de gestos. Uma diversidade que pretende também responder a várias necessidades do momento, a circunstâncias, a leituras flutuantes (de Chris Claremont a companheiros dos independentes europeus), e a um diálogo com a sua mulher – que em parceria participa nalguns dos “episódios” da colectânea. Há trabalhos em fotografia, manipulação de fotocópias, trabalhos mais “cinematográficos” e outros mais “íntimos”, temas mais pessoais e outros mais oníricos, desenhos infantilizados e estratégias mais complexas e cheias. Quase todas as histórias apresentam-se de um modo fragmentado, como se fossem uma pequena parcela de uma maior história, mas da qual jamais saberemos o início ou o desenlace, como se fossem meras promessas que entendêssemos, de imediato, jamais se cumpririam. Mas Super ou Normal, são promessas que preenchem um desejo estranho que não sabíamos existir, até fruirmos as histórias.

23 de novembro de 2007

Glomp no. 9. AAVV (Boing Being)



Ainda que corra o risco de cair numa apresentação superficial e parvamente (em ambos os sentidos, de limitação quantitativa como de restrição do espírito) redutora da filosofia, poder-se-á dizer que existem duas grandes atitudes perante ela: a de a aceitar como um movimento intrínseco ao homem, que ganha graus cada vez mais complexos e acabados (uma verdadeira filosofia) ou como a de perda de tempo, algo impenetrável num espírito que se chama a si mesmo “prático”. Mas a esses crentes na superioridade do pragmatismo, respondo o mesmo que Carlos Bruno, o protagonista de Mudança, de Vergílio Ferreira: “O senso prático é a pior besta de crueldade. Creio que por querer dar-se ares de razão que afinal dispensa”. É o fito da filosofia colocar problemas, não providenciar respostas.
Uma das mais belas lições que a filosofia pôde dar vem de Kant, quando este fala da única comunidade possível entre os homens, que é a estética. É só no horizonte de partilha de um mesmo prazer estético que o homem sabe conseguir estabelecer verdadeiros elos com os outros homens. Bem viam os gregos em distinguir os amores obrigatórios (pela pátria, pelos pais, pela família) dos acidentais (as paixões, inclusive as eróticas, sexuais, carnais) e dos escolhidos pela ordem da razão (as amizades). Os elos da amizade são os que mais verdadeiramente resistem à conturbação do mundo, e mais fortes serão esses elos quanto mais fortes forem as partilhas do gosto. É ainda Kant que afirma que o gosto, não se podendo disputar (“é bom!”, “não, é mau!”, “não tens razão!”, “tenho sim!”), pode-se discutir: i.e., entrar-se logo à partida num acordo primeiro de que eventualmente se poderá alcançar um acordo último, uma convergência, concordância, e, logo está, uma verdadeira comunidade.

São todas estas lições que me fazem aproximar de uma publicação como a Glomp com uma enorme esperança em que lentamente uma determinada comunidade se vai formando e expressando de uma forma tangível, uma comunidade atenta, inteligente, criativa, para com uma leitura da banda desenhada como linguagem totalmente livre de preconceitos de qualquer espécie, desprovida de limitações de qualquer tipo, e ainda despretensiosa em relação a qualquer sorte de caminho programático.
É por isso curioso que muitas das reacções que por vezes surgem em determinadas plataformas de discussão sobre esta área me surpreendam pela negativa, e as mais das vezes por revelarem aquilo a que se pode dar o nome (recorrendo a um outro filósofo ainda, Wittgenstein), de “cegueira aspectual”: isto é, não querer ver as nuances de um problema porque essas nuances escapam à experiência mais chã que se tem da mesma cor, território, conceito, etc. Ou, por outras palavras, revelando como um certo pensamento prático é inconsiderado para com uma sensibilidade mais ampla e aberta a experiências diferentes mas tão ou mais efectivas do que aquelas a que pensam se pode retornar. Uma primeira pauta-se pela seguinte afirmação: “(já) não há revistas de banda desenhada”, o que deve ser antes lido não existirem repetições de modelos editoriais análogos aos de uma forma de fazer, ditar e fruir a e da banda desenhada como num tempo em ela ocupava um lugar privilegiado de instrumento de entretenimento, e não de expressão pessoal ou investigação artística. A resposta a isso é, “existem, sim, mas não são iguais às que procura, veja, ei-las”. Outra passa por um pequeno desvio, relacionado com algumas das diatribes passionais contra o programa VerBd (ver secção dos comentários aqui, ou o a parte que lhe cabe no BDJornal # 20) onde um dos intervenientes afirmou, em detrimento dos autores seleccionados, “quem trabalha não faz relações públicas”, acusando assim esses autores e, por tabela, o entrevistador, de uma espécie de conluio social, pelas redes da amizade e conveniência e não pautado por alguma solidez (a vário graus e naturezas, sem dúvida) de trabalho efectuado, e mais acima de tudo, uma procura por uma qualidade intrínseca, estética e de atitude perante a banda desenhada como modo de expressão, e não como mero veículo (empregue seja em que “função” for). Apenas um exemplo, e que se prende com a Glomp directamente: André Lemos poderá ser um “ilustre desconhecido” entre nós, que nos abandonamos à ignorância e à falta de capacidade de procura individual, e contentamo-nos com felicidades afoitas e famas de praça pública, mas é também um dos autores mais internacionalizados dos portugueses desta geração mais jovem (fins da década de 80 até hoje), se não o que mais trabalho tem em publicações estrangeiras (dessa geração), à qual se junta esta mesma Glomp. Mas essa afirmação, como dizia, deve também ser lida de uma outra forma, encará-la como um grau muito grave de ensimesmamento, em que apenas se pode recorrer ao convívio com os Outros, quando esses outros são o Mesmo; afinal é como ser-se confrontado de facto com experiências de alteridade, seja essa cultural e intelectual, artística, e política, etc., fosse visto não como criação de oportunidades de fortalecimento ou desenvolvimento do Si-Mesmo, mas como ameaça à Mesmidade que se pensa ter alcançado enquanto, ilusória, claro está, “perfeição”. A última dessas afirmações já denota um breve contacto com as publicações, mas um contacto que se estabelece para logo ser negado: “não têm interesse”, o que por sua vez deve ser lido como uma qualidade de medo, não dos trabalhos, mas a de que estes trabalhos levantem uma incompreensão que está dentro de quem os não deseja sequer compreender; pois a mera verificação desta comunidade crescente e internacional que estabelece elos de colaboração e edição, se bem que não prime pela massificação e pela acessibilidade (a vários níveis), revela esse mesmo desejo de construção de comunidade, ao passo que as bandas desenhadas comerciais se pautam somente com uma preocupação de retorno imediato e que espera, as mais das vezes, algum grau de aceitabilidade em públicos internacionais, mas públicos que apenas os consomem pela inércia da maior visibilidade, e não uma opção real e activa.
Voltando atrás, para ligar os pontos todos, portanto, o que vejo ao ser confrontado com a Glomp, e a Kramer’s Ergot, e a Canicola, e a Mesinha de Cabeceira, e a Argh!, e outros exercícios maiores ou menores, de grande ou menor alcance, de pequena ou mais férrea pujança, é um gesto certeiro nessa permanente discussão e aproximação a uma comunidade amplíssima e tangível, erguida pela e unida na partilha estética.

Em muitos aspectos, e repetindo uma fórmula que se encontra em vários locais, a Glomp é comparada, e com propriedade, à Kramer’s Ergot. Como ela, nasce de um gesto antológico de novos e interessantes autores narrativos, que consolidam uma linguagem relativamente inovadora com princípios consensuais do que constitui a banda desenhada em geral, para paulatinamente se aproximar de cada vez mais uma política de radicalismo visual e narrativo, ainda no interior do território da banda desenhada. Tal como a revista americana nos últimos dois ou três números se distancia cada vez mais das suas congéneres, e até de si mesma nos primeiros passos, também estas últimas Glomp (desde o número 7, talvez?), em relação às anteriores, parece mais inclinada a uma experimentação da(s) linguagem(ns). Encontram-se aqui trabalhos magistrais, desde uma pequena banda desenhada tout court do já referido André Lemos, a uma “fuga e variação” divertidíssima de Lamelos, a um dos episódios da saga Power Masters de C.F., à presença fulminante de Tommi Musturi (o editor), de Amanda Vähämäki, Anders Nielsen, Ilan Manouach, Andrea Bruno, Ruppert e Mulot, Rui Tenreiro, ao "estranhamente familiar" das histórias curtas da sul-coreana Lee, Jung-Hyoun (com um exemplo acima), à aparentemente saga violenta infantil de Olivier Schrauwen (mais abaixo), e ainda muitos outros... Uma imensa diversidade de humores e naturezas de trabalho, num imenso livro. E acima de tudo, por mais uma vez, na melhor tradição das boas antologias de banda desenhada contemporânea, porque o gesto editorial de selecção e mise-en-scéne é coeso, multímodo, angariador de leituras diversificadas, desencadeador de novas relações, e mesmo belo, já que o objecto em si potencia o prazer sensual de ler estes trabalhos e de os atravessar com o olhar e os dedos.
Nota: agradecimentos a André Lemos, pela oferta do livro.

20 de novembro de 2007

Campo di Babà. Amanda Vähämäki (Canicola)


Importa-me começar por uma qualidade de Campo di Baba à qual poderíamos dar o nome de “leveza” ainda que exerça um peso considerável em toda a obra. Há como que uma impressão, uma sensação provocada nos sentidos, portanto superficial, que logo se imiscui e reverbera no interior do livro, no seu mais íntimo: trata-se da ideia de uma fragilidade, ainda que apenas aparente. Mas é uma impressão que de perseverante e nada anódina se torna uma verdadeira impressão, isto é, deixando uma marca, constituindo-se como a marca da obra. Não deixa de ser uma impressão formal, uma ilusão material, mas que lhe confere uma natureza lábil que é continuada, ecoa ou na obra se funda. Os desenhos são a carvão, e concorrem em cada vinheta os contornos seguros das personagens, as tramas pouco regulares que compõem as sombras, os pêlos e cabelos, as partes escuras das representações, traços mais leves que constituem os cenários e objectos secundários, os balões e textos, linhas de movimento ou de impacto, e ainda, e eis o de mais importante, por ser o mais diferente (ainda que não original, que é uma questão muito diversa), haver a presença das correcções, de vestígios mal-apagados de outros desenhos, primeiros esquissos ou tentativas da representação das personagens e suas acções: e esta mesma qualidade não aumenta nem o nível de ruído (por poder apontar para algo que não deveria passar na “comunicação” ou por apontar a um “erro, que se deveria disfarçar) nem o peso, mas bem pelo contrário, aumenta-lhe a leveza a que me referi ao princípio. Deverá ser óbvio que me informo aqui na qualidade do mesmo nome a que Italo Calvino se referiu nas suas Norton Lectures, em cujo ensaio, referindo-se ao mais famoso romance de Milan Kundera, indica “que na vida tudo o que escolhemos e avaliamos como leve não tarda a revelar o seu peso insustentável”. A que tudo se refere o autor italiano? A que “coisas”? Talvez pudéssemos responder, e aproveitando a leitura do livro de Amanda Vähämäki, que se tratarão de elementos como os sonhos, as esperanças, coisas impalpáveis mas inerentes à vida humana, e passíveis de serem transportados pelos instrumentos dos artistas, palavras, linhas, formas, sons, e que se constituirão em música, pintura, romances, bandas desenhadas. (Mais)