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3 de outubro de 2020

A menina dos olhos ocupados. André Carrilho (Bertrand)

Será inevitável que todos os autores de banda desenhada, ilustração, literatura, música, teatro, ou empadas de galinha, no momento em que se tornam pais e começam a enfrentar a necessidade de participarem na educação de uma criança quer para a cidadania quer para a liberdade da imaginação, sentem a responsabilidade de criarem algo nesse sentido? Haveria muitos exemplos a apontar, uns movidos por uma certa capacidade em encontrarem caminhos comuns entre um território e as suas disciplinas de trabalho, outros talvez até por um certo egoísmo e egotismo, julgando-se capazes de fazer algo melhor do que aqueles que se dedicam a essa mesma tarefa. E haverá projectos que, nutridos por um movimento ou outro, trazem um contributo indelével a esse campo, mas muitos mais em que há um claríssimo falhanço, alimentado por uma pífia compreensão do que é preciso fazer, ou pior, empurrado pela tal arrogância cega aos demais exemplos. (Mais)

8 de maio de 2020

«Para que serve?» Conversa com Madalena Matoso e José Maria Vieira Mendes (Planeta Tangerina)



Conversa com Madalena Matoso e José Maria Vieira Mendes, em torno do livro ilustrado para a infância, e todas as pessoas, "Para que serve?" (Planeta Tangerina 2020). Baseado numa conferência de Vieira Mendes no teatro Lu.ca, "Para que serve a cultura?" e fruto de uma densa colaboração com a ilustradora, arriscamo-nos a dizer que este é um livro muito filosófico e necessário para todos nós, pois coloca-nos uma questão, a qual, menos do que saber responder, temos de saber bem perguntar.
Nota final: agradecimentos à editora, pela oferta do livro.

21 de abril de 2020

Tinta nos Nervos/LERBD: Apresentação da revista «Dois Pontos» # 02



Notas ?  margem mais ou menos organizadas.

30 de agosto de 2019

fêmea. Uma história ilustrada das mulheres. Inês Brasão e Ana Biscaia (Santillana)


Não se tratando propriamente de um dicionário, ou enciclopédia organizada, fêmea está organizado de uma maneira que permitirá usos idênticos ao desses objectos livrescos: uma consulta, em vez da leitura linear, e uma descoberta, abrindo a maior pesquisa pontual. As secções são claras e reveladoras: a primeira é dedicada a “artefactos”, ou objectos e invenções que, de uma maneira ou outra, vieram, alterar as possibilidades dos movimentos sociais da mulher, para bem ou para mal, e as mais das vezes, para ambos; a segunda reúne “manifestos”, no sentido do que é manifestado, encarnado, que ganha corpo, por entre personagens histórias ou papéis colectivos que poderão servir de modelo maximal ao esforço feminino na História, ainda muitas vezes escrita no masculino; a última focando “territórios”, isto é, campos profissionais que vieram a ser ocupadas de uma maneira especial por mulheres, ou por pressões sociais que as confinavam a esses papéis, ou por pressões sociais que as impediam de ocupar esses papéis e que acabaram por ocupar de modo especial. (Mais) 

25 de agosto de 2019

A Piscina. JyHyeon Lee (Orfeu Negro)


Porque é tão fascinante quando mergulhamos na água? Trata-se de uma memória da espécie, ou do nosso desenvolvimento ontogenético, ou uma mera sugestividade devida a tantos mitos? Dever-se-á à alteração das percepções e capacidades físicas, do incrível equilíbrio entre os limites impostos e as novas liberdades? Em A Piscina, de JiHyon Lee, encontraremos esses encontros, descobertas e possibilidades. (Mais) 

23 de agosto de 2019

Ilustrações de João Maio Pinto para «Confissões de um travesti». Anónimo (Orfeu Negro)


Esta nota breve serve para falar de um livro que foi, originalmente, publicado pela casa Le Terrain Vague, parte do projecto editorial de Eric Losfeld, que nos daria também Emmanuelle, as obras de Sacher Masoch e De Sade, no campo da literatura dita “erótica” (que vocábulo mal empregue e confuso nestes três casos), e todo um rol de bandas desenhadas de expressão francesa dos anos 1960 que introduziriam, para nunca mais se alterar, o erotismo e um certo grau de sofisticação intelectual e visual.

Todavia, estamos longe de uma obra com o peso literário de um Mishima, Bataille, ou Renault na sua capacidade de descrever as forças subcutâneas e tectónicas do desejo e as esplendorosas formas como explodem cintilantes no momento da libertação expressiva a que acedem. Tampouco estamos perante os malabarismos frásicos de um Ubaldo Ribeiro ou até à desfaçatez, sarcasmo genuíno de um Luiz Pacheco. Apesar de se titular uma “confissão”, não há aqui espaço para a intimidade e proximidade desse género, mas tão somente um tom quase documental, jornalístico e, passe o paradoxo, seco. Todavia, a promessa desse percurso permite, digamos assim, um acesso directo às questões principais. (Mais)

15 de agosto de 2019

Pimenta no cu dos outros para mim é refresco. José Feitor (Imprensa Canalha)


Fosse José Feitor escritor medíocre, ou editor banal, provavelmente teria dado como título a este opúsculo “Tratado da crueldade humana”, ou algo assim, exercício insonso a que estas mesmas palavras, de crítico sempre votado à segunda palavra, derivada, incorre. Todavia, esse apodo descritivo ou putativo sub-título tão explicativo como redutor, é tão-somente uma tentativa de começar a dar a ver este segundo volume de uma planeada trilogia que começara com Uma perna maior que a outra, de que já faláramos. Se um título destes, de provérbio de pouco uso, não capta desde logo o futuro leitor, então não estaremos a falar sequer de um leitor digno desse papel. (Mais)

4 de julho de 2019

A guerra. José Jorge Letria e André Letria (Pato Lógico)


A expressão “para a infância” deverá, cada vez mais, libertar-se do seu juízo de valor associando-o a produções que significam tão-somente um entretenimento formulaico, protegido, incontroverso e afastado das mesmas preocupações que regem (regeriam? Deveriam reger?) o “mundo dos adultos”. E, cada vez mais, são livros como A guerra que contribuem para essa alteração. Mais, se acreditarmos que a formação cognitiva, intelectual, cultural e para a cidadania das crianças começa “de pepino”, genuinamente, então que se lavre esse trabalho com instrumentos intensos, directos e acabados. Ei-lo. 

16 de agosto de 2018

Cancer. Tilda Markström (Mmmnnnrrrg)


Se não estamos em erro, esta é a primeira vez que o autor por trás deste seu longo projecto heteronímico, Tiago Manuel, explora uma projecção de personalidade e autoral que já morreu. Tilda Markström é uma artista plástica sueca falecida em 2012, não nos sendo fornecida a data em que terá criado este livro. Apesar de se incluir uma brevíssima biografia na contra-capa do volume, e três excertos do seu diário dos anos 1990, quando terá regressado a Estocolmo para viver, mas revelando viagens pelo norte de Espanha, não conseguimos re-construir com precisão ou certeza que percurso terá sido o da autora até fornecer todos os materiais conducentes a este livro. Na ausência dessas informações, e aceitando com rigor a distância de um heterónimo, que não nos permitiria – nada nos permite, mas a confusão entre o nome do autor e a sua pessoa convida os mais distraídos leitores a provocar esse problema de interpretação – aproximar a obra da vida, é o texto em si, com um título tão directo, que deve ser enfrentado, sem esses instrumentos de conforto. (Mais) 

20 de maio de 2018

Wonderstruck: o museu das maravilhas. Robert Selznick (Bertrand)


Perguntamo-nos se a publicação deste livro se deve a uma atenção para com a obra deste autor particularmente central na produção de livros cuja natureza se encontra nos interstícios e experimentação conjunta de várias disciplinas, que havia sido publicado em 2011, ou se terá antes a ver com uma esperança de que a sua versão cinematográfica, realizada por Todd Haynes e em exibição em Portugal este mesmo ano, possa suscitar interesse junto aos potenciais leitores. A resposta é, naturalmente, óbvia, até pela capa do livro (veja-se uma nota final), mas pelo menos isso torna-se garante da sua circulação entre o público português. (Mais) 

8 de abril de 2018

Noite estrelada. Jimmy Liao (Kalandraka)


Como ocorrem nos casos de alguns dos projectos de Maurice Sendak, Shaun Tan, Brian Selznick e António Jorge Gonçalves, por exemplo, também alguns dos livros de Jimmy Liao vivem numa fronteira algo esquiva entre a banda desenhada, o livro ilustrado, e a literatura tout court. Noite estrelada tem apenas umas poucas páginas com texto isolado, mas depois desdobra-se em spreads, ilustrações por página, com texto ou sem ele, e pelo menos uma sequência dividida em vinhetas. Tipologias e divisões que, para além disso, têm explorações formais no interior das próprias imagens, que apresentam planos distintos, texturas, espaços com objectos repetidos (sejam padrões no chão, bibliotecas, jardins, florestas ou os telhados de prédios cheios de néons). (Mais) 

4 de dezembro de 2017

Colaboração em "Guimarães. Cidade visível".

Serve a presente mensagem para indicar que, no quadro da Bienal de Ilustração de Guimarães (a BIG), foi publicado na revista do município, a Guimarães. Cidade Visível no. 5 (Julho-Dezembro 2017), um pequeno texto meu que debate algumas ideias em torno da ilustração, suscitada pela própria bienal, as suas exposições e a oportunidade de coordenar o seu pequeno ciclo de palestras, A Teia da Ilustração.

Esse texto, "Ler com olhos de ver", repesca muitas das questões que fomos debatendo ao longo de anos neste mesmo espaço, ou na nossa actividade crítica e de docência, procurando um foco e concentração neste contexto mais específico. A revista é gratuita, mas a sua distribuição está limitada ao próprio município daquela cidade. Este número tem ainda o texto de comissariado e apresentação elaborado por Jorge Silva em torno do veterano da ilustração homenageado nesta primeira edição da BIG, Luís Filipe de Abreu, com algumas reproduções do seu magnífico trabalho.

[O editor, Paulo Pinto, disponibilizou o link para acesso digital à revista, aqui. Agradecido.]


Aproveitamos a oportunidade para recordar que no próximo Sábado, dia 9, pelas 15h, no Centro Internacional das Artes José de Guimarães, terá lugar a terceira e final palestra do ciclo, com o professor e artista Paul Hardman, em que discutiremos os contextos da criação e a flexibilidade de responder aos desafios múltiplos da ilustração. 

21 de setembro de 2017

Desenhar em cima da conserva. AAVV (Arranha-Céus)


Este pequeno livrinho, oblongo e fino, nasceu de um projecto que envolveu os artistas e a Conserveira de Lisboa, numa lógica de exposição/decoração temporária da fachada do seu estabelecimento. Isso daria origem a uma colaboração directa entre os autores para que fabricassem uma narrativa curiosa nos seus contornos estruturais. Este é o resultado.

20 de junho de 2017

O convidador de pirilampos. Ondjaki e António Jorge Gonçalves (Caminho)

Na física existe um fenómeno relativo às frequências de ondas da luz, em função da velocidade relativa existente entre a fonte dessa mesma luz e o observador. Bem mais complexo do que o nosso uso metafórico poderá atingir, digamos apenas que existem os “desvios para o vermelho” e “desvios para o azul”, assinalando este último o caso em que a fonte dessa luz se vem aproximando do espectador. Por outras palavras, o vermelho seria sinal de expansão, ao passo que o azul de contracção. Muito possivelmente, esta descrição e uso metafórico não tem qualquer préstimo na leitura de O convidador de pirilampos, mas não podemos deixar de sentir que a família cromática que alimenta o “fundo” (já lá iremos) das imagens convida-nos a irmos além de interpretações de representação superficial (cenas nocturnas) para chegar a um gesto de convite, previsto no próprio título. Tendo deixado uma nota brevíssima sobre este volume anteriormente, voltamos aqui com uma leitura mais dirigida. (Mais) 

9 de abril de 2017

Torrente de ilustração (várias editoras).


Permitam-nos iniciar este texto com uma nota pessoal e um pedido de desculpas. A nota pessoal prende-se com uma justificação de termos estado “em silêncio” em relação a toda uma série de livros ilustrados para a infância que têm sido publicados nos últimos meses em Portugal, não por falta de atenção e menos ainda por falta de interesse, mas devido a vários compromissos profissionais e académicos que nos têm impedido de poder fazer uma recepção crítica mais atempada, individualizada e específica a cada um desses projectos. O pedido de desculpas deve-se às editoras, que têm sido generosas em deixar-nos a par das suas novidades e apostas editoriais, que não acarreta de forma alguma a obrigatoriedade de escrever sobre elas mas parte de um pressuposto de atenção, dada a (ainda) desequilibrada recepção crítica desta produção nos meios de comunicação mais massificados, e mesmo nos mais especializados reduzidos muitas vezes a discursos impressionistas. Porém, esse pedido de desculpas deve ainda dizer respeito ao presente texto, pois ao abordar mais de trinta títulos de um só fôlego, é mais do que natural que incorramos numa profunda injustiça, já que nem poderemos entrar numa leitura formal pormenorizada que cada título mereceria nem poderemos dar conta de um juízo de valor mais argumentado e claro. (Mais)

3 de fevereiro de 2017

A minha casa não tem dentro. António Jorge Gonçalves (Abysmo)

No final do volume, o autor explica como o título deste livro é retirado de uma “estiga”, que neste caso se refere a uma forma ritualística e lúdica de Luanda de criar narrativas trocadas com interlocutores, com direito a resposta. Usualmente, e mesmo em Portugal, são jogos de insultos mútuos, com ataques e ripostas, uma espécie de rap battle, mas onde o objectivo é o divertimento de todos (às custas dos que se propõem a jogar). É portanto uma forma de exposição, franca, directa, bruta, e em grande medida é isso o que se passa neste livro. Mas é no início que está a nota que explica a razão de ser deste projecto. António Jorge Gonçalves teve um acidente gravíssimo médico que o colocou à beira da morte, ou mesmo para além dessa hipotética fronteira (ele escreve “morri e regressei à vida”). E este acto criativo é uma resposta. Se essa reposta é à aproximação dessa fronteira, à sua travessia, ou ao seu regresso, não sabemos. Sabemos é que deve ser lido. (Mais) 

15 de outubro de 2016

Bad Little Children's Books. Arthur C. Gackley (Abrams)

A existência, esforço de escolha e condução da leitura de livros infantis pautar-se-á por toda uma série de premissas, sendo as principais aquelas que advém da posição dos progenitores face ao mundo e que pretendem transmitir à sua prole, se os educarem. Os valores e conhecimentos passam-se sobretudo através do exemplo e do diálogo, pela presença, mas os livros talvez continuem a ser um dos melhores instrumentos de delegação desses valores que existem. Muitas vezes também poderão servir de contra-exemplo, e necessitam por isso de um maior esforço dos pais em criarem um espaço que discuta esses mesmos textos. Julgar portanto qualquer “livro infantil ilustrado” desprovido da transmissão de valores imbuídos de características ideológicas e políticas é não apenas ingénuo como perigoso, como já o havíamos discutido em ocasiões anteriores. Dito isto, é por vezes um esforço aborrecido da parte dos pais tentarem criar uma visão do mundo através de metáforas suavizantes ou, pior, delicodoces, ou de simplificações de enquadramentos que sabemos serem mais matizados, subtis e complexos. (Mais)

28 de julho de 2016

Iconolatry. André Coelho (Universal Tongue)

A propósito do fanzine Deathgrind, de Zé Burnay, citáramos uma entrevista a Fernando Ribeiro, em que o vocalista dos Moonspell havia descrito muita da imagética associada ao heavy metal em geral como sendo uma “fantasia dos fracos”. Esse outro autor transformava muita dessa iconografia em elementos passíveis de transformações narrativas, usando e abusando de géneros para criar scherzos de alta octanagem e dinâmica narrativa. Até certo ponto, existem largas linhas de afinidades com esta publicação, mas o trabalho de André Coelho trilha de outras maneiras. (Mais)

16 de julho de 2016

Songs. João Fazenda (auto-edição)

Songs é um pequeno livro que reúne dezassete histórias curtas em prosa, acompanhadas por um desenho, cuja relação com esse texto não é de todo a de uma ilustração tout court, mas procurando complementaridades visuais que não estavam previstas. E havendo ainda alguns desenhos extra, com cenas aparentemente sem relação quer com as outras cenas visuais quer com a matéria dos contos. (Mais) 

23 de abril de 2016

Os figos são para quem passa. João Gomes de Abreu e Bernardo P. Carvalho (Planeta Tangerina)

Num tempo em que perigosamente a distribuição e acesso a todas as facetas da vida na Terra é compartimentada por direitos de propriedade estanques, sopesar alternativas de relacionamento não é apenas importante como compulsório. A patenteação de produtos agrícolas, até hoje “livres” e “naturais”, a privatização da água, a re-confirmação de fronteiras intransponíveis, a hierarquização de importâncias conforme o poder (económico, militar, social), e a relativização cultural de valores éticos que, sendo esgrimíveis, devem ser claros, são apenas alguns dos escolhos lançados na tempestade dos tempos contemporâneos. Uma pequena distância crítica e mecanismos ficcionais, mesmo que simples (mas não simplistas), é de uma utilidade extrema. (Mais)