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3 de outubro de 2020

A menina dos olhos ocupados. André Carrilho (Bertrand)

Será inevitável que todos os autores de banda desenhada, ilustração, literatura, música, teatro, ou empadas de galinha, no momento em que se tornam pais e começam a enfrentar a necessidade de participarem na educação de uma criança quer para a cidadania quer para a liberdade da imaginação, sentem a responsabilidade de criarem algo nesse sentido? Haveria muitos exemplos a apontar, uns movidos por uma certa capacidade em encontrarem caminhos comuns entre um território e as suas disciplinas de trabalho, outros talvez até por um certo egoísmo e egotismo, julgando-se capazes de fazer algo melhor do que aqueles que se dedicam a essa mesma tarefa. E haverá projectos que, nutridos por um movimento ou outro, trazem um contributo indelével a esse campo, mas muitos mais em que há um claríssimo falhanço, alimentado por uma pífia compreensão do que é preciso fazer, ou pior, empurrado pela tal arrogância cega aos demais exemplos. (Mais)

24 de julho de 2020

Desvio. Ana Pessoa e Bernardo P. Carvalho (Planeta Tangerina)


Este título poderá vir a tornar-se num importante contributo para a literatura gráfica portuguesa, menos pelas suas conquistas estéticas ou reinvenção da arte, relativamente calma, mas por o que ele poderá representar em termos de espelho das emoções mais vigentes nas gerações jovens dos nossos tempos. Desenganem-se aqueles que procurem aqui uma “plot-oriented story” à la Harry Potter ou outra bodega YA que ande por aí à espera de adaptação cinematográfica. Desvio não é bombástico. Sussurra com compreensão. (Mais) 

17 de julho de 2020

Planície Pintada & Floema Dorsal. Diniz Conefrey e Maria João Worm (Quarto de Jade)


Perdoar-nos-ão os autores colocar num mesmo texto a apreciação dupla dos seus últimos títulos, apesar de tamanha disparidade. Queremos acreditar, ainda assim, que tal como as respirações criativas, partindo do mesmo ponto, se podem depois consubstanciar em ventos tão diferentes, que novamente esses movimentos se possam vir a unir numa força comum, a da leitura conjunta. (Mais) 

8 de julho de 2020

A Assembleia das Mulheres. Aristófanes e Zé Nuno Fraga (A Seita)

O parágrafo que utilizámos para falar de O Penteador, de Paulo J. Mendes, poderia ser empregue com toda a precisão em relação a esta adaptação da comédia de Aristófanes. O artista em questão parece ter tido já experiências anteriores no campo da banda desenhada, mas surge, tal qual como Palas Atena, totalmente formada e armada da cabeça de Zeus. Isto é, com um livro totalmente criado por si, se exceptuarmos, claro está, a estrutura dramática, didascálias e falas do comediógrafo do século V. a.E.C. Além disso, a surpresa de ser uma adaptação de uma obra que não está propriamente nos programas escolares faz adivinhar uma escolha pessoal, genuína, pouco programática em relação a estratégias “escolarizantes”. (Mais) 

5 de julho de 2020

O Penteador. Paulo J. Mendes (Escorpião Azul)

 Com a relativa multiplicação de editores disponíveis para publicarem banda desenhada contemporânea em Portugal, entre plataformas generalistas, especializadas ou dedicadas à imagem e com espaço para esta disciplina, é salutar ver como se abre espaço igualmente a que surjam novos autores portugueses. E mesmo havendo ainda, ou até de forma estimulada nos últimos anos, fanzines, antologias, publicações colectivas e projectos de pequenos grupos mais ou menos informais, quando aparece um novo autor através de um “livro inteiro”, isso é ainda mais assinalável. Paulo J. Mendes tem um percurso que já teve na banda desenhada passos, um pouco como Penim Loureiro, que “regressam” aos amores da adolescência ou primeira idade adulta, conquistando o gesto de uma obra coesa e grande. (Mais)

11 de junho de 2020

Lerbd/Tinta nos Nervos - Conversa com os editores de "AWOBMOLG"







Conversa com Dois Vês e João Carola, os dois editores da antologia «All Watched Over By Machines Of Loving Grace» (Chili Com Carne: 2019). Com trabalhos dos editores e ainda de Amorim Abiassi Ferreira, Ana Maçã, André Pereira, Cátia Serrão, Cláudia Salgueiro, Félix Rodrigues, Vasco Ruivo, e design de André Vaillant. Uma colecção de curtas de banda desenhada "experimental" em torno de questões de como as tecnologias cada vez mais ubíquas reinventam a relacionalidade humana (#hightechlowlife). Relações familiares, amorosas, precariedade, navigabilidade do espaço, tempo e memória, a dimensão onírica e maquínica, a tensão imaginativa entre Ballard e Dick, "Ghost In The Shell" e "Black Mirror".



A Tinta nos Nervos apresentou uma exposição de curta duração ("Mata Borrão") dos trabalhos originais, esboços e estudos deste projecto, com venda dos originais, entre 10 e 17 de Junho de 2020.

26 de maio de 2020

3 Graus de Carequice - Episódio 05: TENSÃO







Quinto episódio do pseudo-podcast de Gabriel Martins, André Oliveira e Pedro Moura. O tema, desta feita, é "TENSÃO". O livro de partida é o volume, já com algum sucesso crítico, de Nick Drnaso, "Sabrina" (Drawn and Quarterly: 2018; ed. portuguesa Porto: 2019). Um termo-chave e particularmente paradoxal neste drama contemporâneo...

Havia escrito sobre este livro aqui.

8 de maio de 2020

«Para que serve?» Conversa com Madalena Matoso e José Maria Vieira Mendes (Planeta Tangerina)



Conversa com Madalena Matoso e José Maria Vieira Mendes, em torno do livro ilustrado para a infância, e todas as pessoas, "Para que serve?" (Planeta Tangerina 2020). Baseado numa conferência de Vieira Mendes no teatro Lu.ca, "Para que serve a cultura?" e fruto de uma densa colaboração com a ilustradora, arriscamo-nos a dizer que este é um livro muito filosófico e necessário para todos nós, pois coloca-nos uma questão, a qual, menos do que saber responder, temos de saber bem perguntar.
Nota final: agradecimentos à editora, pela oferta do livro.

6 de maio de 2020

«Bestiário» #s 1 & 2.


Num momento em que a os editores, livrarias e todos os agentes associados à dita “indústria” do livro já lançam mãos de quaisquer bóias de salvamento das contínuas crises – económicas, de consumo, de confiança, educação, das plataformas digitais, alterações sociais e culturais, de sector, legislação e, mais recentemente, de saúde pública – é difícil encontrar uma solução que funcione como panaceia universal. Podemos estar no mesmo oceano de papel, mas as embarcações são bem distintas entre si, e as ondas levantam-se de maneira diferente, o marulhar afecta em variação. Uma opção, porém, se avizinha àqueles que ainda crêem no poderoso objecto que o livro é: fazê-los bem, fazê-los belos, fazê-los inteligentes. Entra a Bestiário. (Mais)

21 de abril de 2020

Tinta nos Nervos/LERBD: Apresentação da revista «Dois Pontos» # 02



Notas ?  margem mais ou menos organizadas.

9 de abril de 2020

Einstein, Eddington e o Eclipse. Impressões de Viagem. Ana Simões e Ana Matilde Sousa. (Chili Com Carne)


Este volume encerra um multifacetado e ambicioso projecto. A sua mera descrição desencerrará alguns aspectos dessa natureza complexa. Podemos começar por descrevê-lo como sendo um “livro-companheiro” de uma exposição intitulada E3, desdobrando o mesmo título. Esta exposição teve lugar no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, celebrando o 100º aniversário de uma expedição astronómica científica, organizada pelos britânicos em 1919. Por ocasião de um eclipse solar total, dois navios partiram em direcção a Sobral, no Ceará, Brasil, e à Ilha do Príncipe, esta segunda sob o comando científico do astrónomo Arthur Eddington, então académico já bastante conceituado pelo seu labor intelectual e em prol da ciência contemporânea. O objectivo era claro: confirmar algumas das previsões centrais da Teoria da Relatividade Geral de Albert Einstein, propostas as quais haviam sido apresentadas meros anos antes. (Mais)

7 de abril de 2020

Pentângulo no. 3. AAVV (Chili Com Carne/Ar.Co)


Conforme os números anteriores desta antologia, devo começar por indicar que, de uma maneira ou outra, estamos envolvidos no seu processo de produção. Apesar de não participarmos activamente neste novo número, quer com um artigo ou uma banda desenhada, ou até mesmo com “exercícios” directos, o nosso envolvimento enquanto docentes no Ar.Co leva a que, num caso ou outro, haja um cruzamento prévio com peças de alguns dos alunos envolvidos. (Mais)

28 de fevereiro de 2020

Mar de Aral. José Carlos Fernandes e Roberto Gomes (Comic Heart/G. Floy)


Este livro é, de uma certa forma, a continuidade do plano interrompido das Black Box Stories de José Carlos Fernandes, um conjunto de histórias curtas, talvez em forma de argumento ou talvez de outline, que seriam desenhadas por uma série de artistas. A maior fortuna dessas relações foi aquela alimentada pelos desenhos de Luís Henriques, que dariam três livros bem distintos (Umbrografia, Metrópole, Estrelas). A série acabou por não ter continuação. José Carlos Fernandes abandonou o mundo da criação de banda desenhada, Luís Henriques também. Consta que existiram outras “stories” começadas, mas nenhuma viu o lume da impressão. Até este título. (Mais) 

25 de fevereiro de 2020

Filhos do Rato. Luís Zhang e Fábio Veras (Comic Heart/G. Floy)


À medida que o tempo avançar e a esmagadora maioria dos protagonistas da guerra colonial começarem a deixar este mundo, o processo da sua memória vai dando cada vez mais frutos, e poderá mesmo chegar ao espaço público. É algo que se tem verificado, como um padrão, noutras circunstâncias históricas. Se quase se pode falar de um “pacto de silêncio” feito por essa geração em relação àquela que imediatamente gerou, o tempo aproxima-se em que também os objectos da cultura popular – no caso, a banda desenhada -, começará a responder. Não vamos fazer aqui o enésimo exercício de listar os trabalhos desta disciplina que versaram este conflito. Nos últimos anos, OsVampiros teve algum impacto, se bem que escolheu um caminho da narrativa de género; Filhos do Rato afasta-se dessa abordagem mais espectacularizante, validando porém elementos fantásticos. (Mais) 

20 de janeiro de 2020

Toutinegra. André Oliveira e Bernardo Majer (Polvo)

A noção da fé é profundamente distinta da do conhecimento. A oposição pistis e gnosis é um pilar histórico no crescimento da filosofia da igreja cristã, e se ambos os conceitos indicam uma aceitação de ua lição como verdadeira, os modos de aceder a essa verdade são diferentes, distinguindo-se uma dimensão emotiva de uma outra racional. 


A razão pela qual arrolamos essa discussão filosófica, ainda que não a aprofundemos, é porque nos parece estar subjacente, de forma inconsciente, na matéria debatida pela intriga de Toutinegra, o mais recente livro escrito por André Oliveira, desenhado por Bernado Majer. Penso que não será ofensivo para com o artista assumir que este é um volume que à continuidade a muitas das preocupações e assinaturas temáticas de Oliveira, mas que queiramos acreditar que existirá aqui frutos de discussões entre os dois autores e contrintuso equilibrados. Um dos recorrentes temas do argumentista é a importância da dinâmica familiar, seja esta composta por que elementos forem. E é quando essa unidade social se rompe, está à beira da ruptura ou numa tensão significativa, que as suas narrativas se tecem. Oliveira encontra aqui uma maneira naturalista de escrever os diálogos, que com pouco caracterizam de forma magistral as relações entre as personagens e as suas inscrições sociais. (Mais)

17 de janeiro de 2020

Parícutin. Gonçalo Duarte (Chili Com Carne)


Pequena obra de estreia do jovem autor para além da sua produção fanzinística, Parícutin é um objecto invulgar e que dificilmente se poderá categorizar. Depois dos vários trabalhos curtos pela Lobijovem, Dor de Cotovelo e vários títulos colectivos da Chili Com Carne, Gonçalo Duarte aventura-se numa narrativa mais alargada, cuja coesão se encontrará mais numa veia poética e impressionista do que propriamente pela organização de elementos concretos e cartografáveis. (Mais)

13 de dezembro de 2019

Encantados e arruinados ante os restos do banquete. José Feitor (Imprensa Canalha)


É hoje lançado o volume que reúne a trilogia de José Feitor de livros com imagens e textos que perfazem um contundente "Fia-te na Virgem e não corras" a toda a humanidade. São esses livros dois que foram publicados anteriormente e de que demos conta, a saber, Uma perna maior que a outra e Pimenta no cu dos outros para mim é refresco. e um inédito, intitulado Ainda que fosses capaz, não o farias (Notas esparsas e incoerentes sobre aquilo que tem corrido mal), . Juntos, ganham título-mor: Encantados e arruinados ante os restos do banquete. Muitos dos desenhos originais destes livros, serigrafias associadas e fontes estiveram expostas na Tinta nos Nervos, entre 19 de Setembro e 16 de Novembro: A Mercadoria é Medonha, vai vender que nem ginjas. Nessa altura, produziu-se um texto para a folha de sala, que poderá servir igualmente de resenha ao novo capítulo e à obra em geral. Aqui o recuperamos e publicamos para toda a gente. O lançamento é hoje, às 18h30, na livraria-galeria Tinta nos Nervos.

24 de novembro de 2019

Tequila shots. Claudio Yuge e Juan Burgos (Comic Heart)


Em muitos aspectos, este pequeno livro é, a um só tempo, um acto de nostalgia e de expiação para poder lançar um passo futuro. Através das várias informações (com algum excesso, talvez) veiculadas extratextualmente na publicação, as origens deste projecto remontam ao final dos anos 1990 quando os seus autores conviviam, na partilha da vida de estudantes universitários. Aliás, a própria história tematiza essa experiência, talvez mesmo enquanto exercício de auto-ficção, e integra em si mesma o mecanismo da sua origem. (Mais)

3 de novembro de 2019

Selva! Filipe Abranches (Umbra Livros)


O regresso de Filipe Abranches à banda desenhada é feito com um fulgor que faz colidir a nostalgia, a homenagem, a memória da banda desenhada e outros lazeres da infância (o modelismo, o radioamadorismo, os soldados de plástico, as leituras de aventura, os jogos paramilitares, as brincadeiras com bonecos e a mimetização de um certo discurso infantil, que por sua vez mimava o que se imaginava ser o linguajar dos adultos em filmes de guerra). Até certo ponto, Selva! é um livro para os miúdos que fomos. Todavia, é um livro para os miúdos que fomos enclausurados nos adultos que somos agora, e é possível observar, como a um tronco cortado, todos os anéis das camadas marcadas, e encontrarmos os nódulos que estiveram um dia no centro, e agora se perdem na polpa, deixando apenas a forma mais expansiva à sua volta. (Mais)

2 de novembro de 2019

O colecionador de tijolos. Pedro Burgos (Chili Com Carne)


Uma vez que havíamos escrito sobre este livro quando da sua edição original em francês, remetemos para esse texto, mas celebramos a sua publicação no seu idioma de partida. Agora que aparentemente a crise económica foi ultrapassada, mas as maleitas sobre o mercado imobiliário parece ter ganho estaleca para continuar a servir todos os interesses excepto o da habitação, o surgimento deste livro entre nós não podia ser mais ominoso. Ficam os votos para que crie alguma discussão, sobre o livro, claro, mas igualmente sobre o tema, tão bem explorado noutros círculos, como a Buraco, de que falaremos a seguir.