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18 de fevereiro de 2013

Biblioteca de Rapazes. Rui Pires Cabral (Pianola), no Cadeirão Voltaire.

De uma forma quase sazonal, os nossos exercícios de crítica literária (nste caso, num foco particulamente atento à materialidade e à imagética do projecto de poesia de Cabral) são albergados em espaço privilegiado, pelo Cadeirão Voltaire. Como nos casos anteriores, as afinidades com um campo alargado da imagem, ou pelo menos circunstâncias que um modo ou outro remetem aos objectos mais centrais ao Lerbd, são imperativos no súbito entusiasmo que toma conta de nós ao lermos - na sua mais primária e prazenteira das acepções - um livro como este. Por vezes, esse entusiasmo é seguido quase de imediato por uma pulsão de escrita e crítica. É o caso de Biblioteca de Rapazes.
Mais uma vez agradecemos à Sara Figueiredo Costa pela simpatia e disponibilidade em servir de anfitriã a estes textos no seu espaço, Cadeirão Voltaire. Link direto aqui. (Neste momento, faltam as imagens do interior, mas em breve estarão disponíveis; mas revelamos uma aqui) 

15 de junho de 2012

Logo depois da vírgula, Mattia Denisse [no Buala]

Serve o presente post para indicar que foi publicado no site BUALA, Cultura Contemporânea Africana (com quem já havíamos colaborado, mas desta feita em exclusividade), um texto sobre o livro do artista Mattia Denisse (de quem havíamos falado a propósito de uma exposição), Logo depois da vírgula, que consideramos uma experiência literária e artística muito significativa.
Trata-se de um livro que desafia, em parte, muitas das fronteiras estabelecidas em torno de alguns objectos que são mais ou menos centrais nas nossas preocupações (desenho, relação texto e imagem, acto literário, literariedade, inter-, intra-, para- ou hipertextualidade, etc.).
O texto encontra-se aqui.
Agradecimentos a Lígia Afonso, Barbara says... e Francisca Bagulho (Buala).

3 de fevereiro de 2011

Uma Viagem à Índia. Gonçalo M. Tavares (Caminho) no Cadeirão Voltaire

Serve a presente "interrupção" para indicar ter participado mais uma vez no Cadeirão Voltaire com um post sobre uma obra literária, a saber, Uma Viagem à Índia de Gonçalo M. Tavares, cujo prefácio, de Eduardo Lourenço, curiosamente cita a banda desenhada enquanto modo próprio mas para sublinhar os seus aspectos mais redutores, procurando formas de abaixamento e sub-dimensionação das personagens de Tavares (que faz sentido em termos literários, claro, mas desfavorece uma visão mais ampla da banda desenhada em si mesma).
Encontro entre a prosa pautada e perscrutadora do escritor português e a sua poesia quase parcimoniosa (este é uma prosa em verso, em termos formais), e espelho d'Os Lusíadas com a patina da contemporaneidade, Uma Viagem à Índia é não tanto um retrato dessa mesma contemporaneidade ou algo assim de superficial, como uma potência do que se pode dizer.
Menos do que uma crítica (uma vez que os nossos instrumentos são mais limitados nessa outra área do que nos arrogaremos ter nesta da banda desenhada), são notas de leitura do mais profícuo e interessante (dois elementos em conjunto, não absolutos) escritor português contemporâneo.

12 de janeiro de 2010

Leituras de A Conspiração dos Antepassados e Lisboa Triunfante, de David Soares. Na Saída de Emergência.

Por vezes, temos oportunidade de tentar alguns dos instrumentos da crítica, ou do pensamento, para aplicar a áreas que não são do foro da banda desenhada, da ilustração, ou de outras que lhe sejam relativas. Ainda assim, os romances de David Soares, autor também de bandas desenhadas de mérito próprio, têm algumas características, a meu ver, que revelam de quando em vez uma forma de pensar e de estruturar o mundo a partir do visual. A leitura deles suscitaram uma mão-cheia de apontamentos, que foram sendo coligidos e ganharam a forma de um texto crítico, albergado no site da sua editora, a Saída de Emergência. Estando para ser lançado o terceiro romance de Soares, O Evangelho do Enforcado, não poderia haver melhor momento para tornar este texto disponível à vossa apreciação, caso haja interesse.

Se ele houver, então, encontrá-lo-ão aqui. Boa leitura.

8 de janeiro de 2010

O sítio das coisas selvagens. Dave Eggers (Quetzal) no Cadeirão Voltaire.

A propósito da estreia do filme de Spike Jonze (de que falámos aqui), que adapta o livro ilustrado de Sendak (também discutido aqui), escrevemos algumas notas suplementares sobre o romance de Dave Eggers, argumentista do filme: Wild Things, traduzido em português como O sítio das coisas selvagens [uma das edições em inglês tem uma capa fabulosa coberta de pêlo]. O texto, incidindo sobre uma obra de natureza literária, foi mais uma vez albergado pelo Cadeirão Voltaire, agradecendo novamente à Sara Figueiredo Costa a simpatia nessa recepção.
O livro acrescenta mais umas quantas dimensões ao desdobramento da obra de Sendak feito no filme, sobretudo no que diz respeito à figura do pai, totalmente ausente na obra original, pressentida mas ausente no filme, mas que parece ganhar algum peso significativo, ainda que não presencial, no romance.
Ainda nesse seguimento, aproveito para vos deixar um link onde encontrarão a homenagem que 24 artistas da banda desenhada independente internacional fizeram a este verdadeiro clássico norte-americano. Encontrarão aí variadíssimas versões, perspectivas e cruzamentos bem interessantes e divertidos, alguns dos quais provocam mesmo possibilidades de interpretação novas. Link.
Quanto ao texto sobre o livro, podem lê-lo aqui.

5 de janeiro de 2010

Atentar contra si. Jean Améry (Assírio & Alvim) no Cadeirão Voltaire.

Por várias ordens de razão, houve um pequeno hiato na escrita e actualização deste espaço. De regresso, mas ainda não ao seu território central, serve para dar conta de um texto recebido no Cadeirão Voltaire, com uma breve nota de leitura de um livro difícil, mas que suscitou um vivo interesse e uma intensa aprendizagem.
Atentar contra si - do autor austríaco Hans Meyer - é, para uma explicação sumária, um livro de filosofia, mas não entendida enquanto discurso organizado e sistemático sobre uma questão (e muito menos dogmático, o que seria um paradoxo chamar de "filosófico"). É antes um discurso, como diz o sub-título, sobre o suicídio. A própria estratégia e opção em substituir esse vocábulo por "morte coluntária" desvenda numa primeira abordagem o programa que faz avançar. Não tendo a formação necessária para atingir todo o alcance deste livro, fica pelo menos a nota da sua existência, e uma abordagem inevitavelmente superficial.
O meu texto, aqui.

31 de outubro de 2009

Caim. José Saramago (Caminho) no Cadeirão Voltaire.

Como de costume, e espero que costume se torne, as leituras a que tenho a oportunidade de me dedicar no campo estritamente literário são acolhidas pelo Cadeirão Voltaire.
Desta feita é o recente romance de José Saramago, Caim, não apenas inevitavelmente manchado com a marca de Deus, como pela da polémica lançada de parte a parte pelo simulacro de discussão que parece ter ocorrido.
Tendo em conta que se aproximam as leituras de três livros, os quais, desconfio, entrosarão no tema de Deus - The Book of Genesis, de Robert Crumb, Dieu en personne, de Marc-Antoine Mathieu, e Caminhando com Samuel, de Tommi Musturi - faz todo o sentido procurar outros caminhos paralelos ou perpendiculares noutro campo de criação.
Convido-vos à sua leitura, e respostas, aqui.

27 de junho de 2009

Children's Literature, de Seth Lerer, e A Infância é um território desconhecido, de Helena Vasconcelos. No Cadeirão Voltaire.

Por vezes, jamais por acaso, mas por contínuo crescimento ou obrigação intelectual, o estudo do campo da banda desenhada e da ilustração leva-nos a leituras académicas ou de divulgação mais ou menos felizes. E se na maioria das vezes nos ficamos pelo sublinhar, o apontamento e a preparação das sebentas, outras tantas leva-nos a uma reflexão um grau mais cuidada.
Na continuação das minhas "notas à margem mais ou menos organizadas" (que deveria ter sido o subtítulo do lerbd), escrevi uma resenha crítica a duas publicações ligeiramente análogas nos seus objectos gerais. O primeiro é um título norte-americano, académico, Children's Literature: A Reader's History from Aesop to Harry Potter, de Seth Lerer, e o segundo uma obra portuguesa, de notas de leitura em torno de livros sobre o conceito da infância, da bibliófila Helena Vasconcelos, A Infância é um território desconhecido.
No entanto, para o lerem, deverão dirigir-se ao blog da Sara Figueiredo Costa, Cadeirão Voltaire, assento o qual teve portas abertas a este texto, e no qual se está muito confortável entre tantos livros e bibliotecas. Os meus agradecimentos à Sara, por tudo, que é tanto.
Ligação directa ao artigo, aqui.

16 de outubro de 2008

L’un pour l’autre. Les écrivains dessinent. AAVV (Buchet-Chastel/IMEC)

Desenho, escrita, urdidura, pensar. Parte 1.
Em muitas ocasiões me pergunto se haverá algum limite para o tipo de “textos” a chamar à atenção, no seio deste espaço de discussão. Isto é, desde o início até ao momento presente, é possível encontrar algum tipo de expansão no que diz respeito ao tipo de livros ou publicações incluídas, a natureza das obras, o alcance da arte. Ainda que o título do espaço seja “lerbd”, rapidamente se negou a redução a “bd” para encontrar um amplo território da banda desenhada e, a partir dela, encontrar outros territórios contíguos, cujas fronteiras podem ser mais ou menos claras ou sombrias. De certa forma, é como se se entendesse a banda desenhada como uma forma particular, se não mesmo privilegiada, de pensar o mundo através do desenho, o que pode levar a uma construção narrativa, mas nem sempre o sendo necessariamente.
Os três próximos momentos de apresentação, em torno do desenho enquanto escrita ou dos espaços existentes ao desenho no mundo dos escritores, ou a expansão, através da redução, da estruturação do desenho enquanto escrita, serão contributos a essa questão sem fim.
Por ocasião da exposição Desenhos de Escritores, segunda apresentação (de três) de uma exposição preparada pelo Institut Mémoires de l’édition contemporaine (IMEC), apresentada em Lisboa no espaço da Colecção Berardo/CCB, chega-nos às mãos este L’un pour l’autre. Les écrivains dessinent, que pode ser visto a um só tempo como catálogo da exposição e como publicação independente, no seguimento do excelente (e agora interrompido) Le Cahier Dessinée, dirigido por Frédérik Pajak. Quer a exposição quer este livro reúnem, muito simplesmente, desenhos que foram criados por pessoas cujas carreiras são mais marcadas no mundo enquanto escritores. Encontrar-se-ão aqui congregados romancistas como Proust, René Daumal, Alfred Jarry, Robbe-Grillet, Jean Genet, Günter Grass, poetas como Baudelaire, Rimbaud, Paul Valéry, Allen Ginsberg, polimatas como Cocteau, Kurt Schwitters, Artaud, Bréton, Tzara, Kantor, e outros mais conhecidos pelas suas dimensões visuais que escritas, como Hans Arp (excelente poeta, por sinal), Copi, Topor. O acto forte é o desenho, mas também são incluídos trabalhos mais próximos da disciplina da “pintura” ou da “fotografia”, e até mesmo da “instalação” (os “paus” de Serge Pey, a descrição do Gigantexte de Michèle Métail). A prestação portuguesa foi ainda beneficiada pela presença de trabalhos de Almada Negreiros e Ana Hatherly. Estas inclusões parecem ter sido pensadas “à última hora”, uma vez que nenhum destes trabalhos revela desse trabalho subterrâneo que está previsto na frase “desenho de escritor”. O trabalho de Almada Negreiros porque fica aquém dessa promessa, o de Hatherly porque o ultrapassa: falamos, obviamente, de O Escritor (publicado em 1975) [a propósito, convidava-vos a, sobre esse livro, lerem o texto de Domingos Isabelinho, que finalmente se rendeu aos blogs como modo de presença activa].
Devo precisar que o discurso que opera sobre esta exposição, e a sua selecção e a articulação das “peças”, feita por Jean-Jacques Lebel, seu comissário, oscila entre duas perspectivas. Por um lado, o modo como a fronteira entre desenho e escrita parecem se diluir nestas obras (se não directamente, pelo menos enquanto promessa); por outro, enquanto entrosamento de uma disciplina na outra, forma de bastardia, de contaminação, infecção, de mutação quando possível. A pergunta é mesmo directa, no texto: “E se a dualidade entre escrita e pintura não fosse mais que um fantasma, uma astúcia de classificação, uma esperteza de arquivista, e não uma realidade existencial?” É sobre essa hipotética sombra de resposta – já que séculos de educação nos impedem de conseguirmos uma genuína ingenuidade perante ambos os campos – que Lebel faz surgir um espaço, intervalar, “mal cartografado”, ao qual dá o nome de “um pelo outro”, em que o que parece ser substituído e o que substitui jamais é totalmente claro, “abolindo a questão do valor e da historicidade do juízo do qual aquele decorre” (E. Lambert). São várias as disciplinas das humanidades e das ciências que concorrem a uma explicação, nunca cabal, desses fenómenos intervalares, nas linhas da frente respectivas a filosofia e neurobiologia, mas pretender-se-á, com esta exposição – perdoe-se o pleonasmo – uma exposição poética, isto é, através do contacto directo com vários exemplos desse fazer. Num texto que encerra a publicação (Un entre-deux avec des trous, sendo esses “buracos” aquilo que melhor ilumina a questão, naturalmente: mais, a autora explica como o que se tece não é um texto, ou um tecido, ininterrupto, mas antes uma malha, mais maleável, livre, mas também robusta), Emmanuelle Lambert aclara a leitura ou atitude de Lebel: “Quando olhamos uma peça, consideramo-la sempre em relação com qualquer outra coisa”, por procurarmos um valor documental, histórico, genético. Para mais, num “desenho” que pertença a um “escritor” (as aspas servem para reduzir quer um quer o outro às suas definições de dicionário). Mas Lebel “procura perceber, em cada obra, o traço da pulsão criativa, a única que pode abolir a divisão, artificial por derivar de uma aproximação demasiado genérica, entre escrita e pintura”. Lambert revela mesmo o choque entre a atitude de Lebel e a sua e dos seus colegas, os arquivistas de serviço.
Não há quaisquer promessas (impossíveis de satisfazer) de se ser exaustivo nesta catalogação, trabalhando-se sobretudo com os fundos do IMEC, mas deles emerge de facto uma possível imagem pertinente desse espaço multiforme e proteico.
Há toda uma tipologia de desenhos aqui encontrados, se é que é possível sequer falarmos de tipologia: desenhos feitos sobre um bocado de papel, talvez ao acaso e distraidamente, mas também desenhos feitos com um intuito de completude, e alguns até mesmo com a ideia de virem a ser publicados. Alguns quiçá feitos em tom jocoso, de passatempo, outros com contornos de uma vontade artística. Uns deixados em sobrescritos ou nas margens de cartas para serem ofertados a amigos, outros feitos com a intenção de se relacionarem directamente com um texto (ocupando o lugar central de “ilustração”). Alguns salvos pelo próprio autor e explicados (Althusser), outros resgatados por amigos. Uns salpicados de tinta, como se ao acaso, ou que emergem do centro de colagens de imagens e de textos, ou esmagados pelos textos, ou como se fossem estudos de uma sinalização a aprender e apreender (o caso de Barthes, óbvio). Uns são colectivos, frutos de colaboração artística ou até de jogos (os surrealistas, sobretudo). E alguns fazem mesmo parte da exploração central artística do autor em questão (como nos casos de Christian Dotremont, participante do grupo CoBrA, de Brion Gysin, ou, de novo, de Michaux).
É de Alfred Pacquement que se descobre esta citação, a propósito de Michaux: um “descondicionamento em relação ao verbal”, atingido sobretudo com esse autor na experimentação com a mescalina. Ora, são raros os casos neste grupo de autores onde esse descondicionamento se verifica: a esmagadora maioria dos trabalhos são de desenhos, pura e simplesmente, mas que se cobrem de uma patina de “curiosidade” por serem feitos por autores famosos pela sua escrita. Outros, como vimos, revestem-se desde logo de um interesse plástico uma vez que se prendem com a preocupação central do seu autor, no preciso momento da sua criação, o que os impede de serem vistos como “desenhos de escritores”, mas como “desenhos”.
Os pequenos textos que acompanham os desenhos de cada um dos autores, no livro, não são mais que meras súmulas biográficas, alertando para os principais títulos que compõem a sua obra e herança. Poucos são os vestígios de comentário sobre o modo particular como esses desenhos se articulam com essa obra escrita, ou que traços nele surgem que possam irromper ou se encaixarem na escrita, ou sequer se se tratam de achados raros - como no caso de Rimbaud – ou se, bem pelo contrário, se fazem parte de um espólio considerável e reconhecido – como nos de Hugo ou Michaux. Era preciso contextualizar e identificar, caso a caso, qual a matriz criativa para, de seguida, perceber qual o grau de relação entre o gesto do desenho e o gesto da escrita. Se bem que o texto final de Lambert leve a pensar que não existem discursos e estudos nesse sentido (aquilo que “seria por definição excluído da historiografia”), isso é relativamente falso. De acordo com os estudos de Jacqueline Sudaka-Bénazéraf (autora de Le regard de Franz Kafka. Les dessins d’un écrivain e editora da colecção “Un double regard” da Maisonneuve & Larose) e de Konstantin Barsht (autor de Dostoïevski. Du dessin à l’écriture romanesque), os desenhos criados por estes autores – ainda que de modos e implicações muito diversos – concorre para a escrita, isto é, desenhavam para escrever ou desenhavam como continuidade (especificação, peso, dinamização) da escrita. Mas essa dimensão não está aqui prevista, ou pelo menos de uma maneira mais nítida. Talvez dois casos de charneira sejam os de Pierre Klossowski (o seu particular erotismo [aqui mostrado numa das suas mulheres desocultadoras]) e Dino Buzzati (cujo encontro último entre a escrita e o desenho se dariam com Poema a Fumetti).
São, portanto, raras as passagens nestes trabalhos que façam vislumbrar esse tal espaço de intervalo. Uma citação de Robbe-Grillet mostra que esse autor entendia a escrita, como outros saberes, parte dos “trabalhos manuais”: as suas composições, de impressões da mão com tintas, lacas e colagens de resquícios de papel de jornal, demonstram parte dessa “manualidade”, e as tentativas de organização multi-legível eventualmente recordarão o programa da compossibilidade previsto em L’Anné Dernière àMarienbad. Sempre, porém, inconclusivamente. A ausência dos Lettristes e dos Hypergraphistes, por exemplo, agrava ainda mais o não cumprimento dessa promessa primeira.
A aposta desequilibra-se, a meu ver, por incluir muitos exemplos de obras que, sendo em rigor desenhos feitos por pessoas conhecidas como escritores, têm uma autonomia total entre cada território. Victor Hugo, por exemplo, apesar de ser mais conhecido enquanto romancista e poeta, tinha uma actividade paralela, perfeitamente acabada e de sucesso, de desenho, que teve uma relativa, se não total, autonomia em relação à escrita[e que assume uma importância extrema no que diz respeito à História da Abstracção na pintura, e no experimentalismo, avant la lettre: este desenho é uma impressão de uma renda, com carvão, e laivos de tinta castanha, azul e verde, e cera vermelha sobre papel avergoado]. O mesmo se poderá dizer de Topor, arriscando dizer que este, entre nós, é mais conhecido enquanto desenhista (mas lembremos o excelente A Cozinha Canibal, na Fenda, ou uma referência mais obscura, a antologia Humor Negro editada e publicada por José Vilhena, de 1969). Henri Michaux, criando séries de desenhos, instaura como que dois ramos que despontam de um mesmo tronco, mas são dois troncos identificáveis e separáveis, não obstante as lianas com que se cobrem os estreitem em vários dos seus nós. Bruno Schulz, o grande ausente desta antologia (notada pelos próprios editores), é ainda um outro caso, apetece dizer raro, quer no sentido quantitativo quer no sentido de “excepcional”: é, a um só tempo, um desenhador que escrevia e um escritor que desenhava (e o filme Street of Crocodiles, a adaptação do conto do autor polaco pelos irmãos Quay ao filme de animação, parece unir numa terceira disciplina artística ambas as dimensões em diálogo).
“A relação entre ‘imagem’ e texto permite a troca entre o olhar e o pensamento, os quais, como a metáfora, abrem um espaço ilimitado ao imaginário” (J. Sudaka-Bénazéraf). Ora esse imaginário forma-se com este grupo de trabalhos, mas como se de uma neblina se tratasse, e não uma mais penetrante marca sob os auspícios da qual pensar.
O olhar moderno – previsto ou vislumbrado por Baudelaire [curioso que de um desenho aqui incluido, este que aqui mostro, o comissário diga ser um auto-retrato "muito American Comics avant la lettre": serão os raios que lhe saem dos olhos também análogos a super-poderes de visão, já agora? Como sempre, o espectro da "bêdê" surgirá sempre como forma simplificadora nos lábios dos intelectuais defensores das últimas fronteiras?], teorizado redondamente por Benjamin – em que a presença das imagens nas cidades, sob a forma de posters publicitários, as divisões breves e comerciais nas páginas dos jornais, o papel que têm na ilustração de uma notícia (primeiro a gravura, depois a fotografia, depois novamente a ilustração de um novo modo), leva à assunção de uma natureza narrativa sobre todas e quaisquer imagens. Mesmo aquelas que surgem enquanto “imagens puras”, desconectadas da representação ou de contextualizações estreitas, são susceptíveis de virem a ser remodeladas e reapresentadas num modo mais controlado e narrativizável – pense-se em Mondrian. Não obstante, sempre existiram imagens que provocaram o aparecimento desse espaço intervalar que provocam um curto-circuito e nos obriga a reponderar o valor da imagem, do desenho, em relação à escrita (texto, história, etc.). Desde as marginalia (tenho em mente sobretudo o excelente estudo de Michael Camille) aos trabalhos de ilustradores contemporâneos (e usemos o caso de Jorge Nesbitt, como exemplo), voltam a surgir dúvidas no mundo ocidental (já que no espaço asiático, sobretudo China-Coreia-Japão, mas também na tradição islâmica, a caligrafia ganhou contornos de fronteira bem diversos do que entre nós) nessa divisão clara entre um gesto e outro. Aqui, no mundo ocidental, é como olhar uma floresta e conseguir ver as árvores, perdendo a floresta, ou recuperando-a e perdendo as árvores. Não se pode ver uma e as outras, mas ou uma ou as outras. Tal qual aquela imagem reversível do coelho-pato de Jastrow que Wittgenstein cita no seu livro. É assim que vemos ora as imagens (as quais mostram, configuram, dão a ver) ora o texto (os quais demonstram, desfiguram, dão a ler), mesmo que estes ocupem espaços bem diversos numa página, e canais de distribuição e apreciação bem diversos. E talvez seja essa razão pela qual a ilustração e mormente a banda desenhada atravessem sempre uma dificuldade em ser apreciada de um modo mais cabal, intelectual, balizado, já que se têm de pensar dois domínios ao mesmo tempo e de modo implicado: isto é, procurar um movimento contínuo de multiplicidades, que jamais se cristalizam numa forma decidida, mas em que cada uma delas desprende novos movimentos adicionais, num turbilhão incessante. A obra apenas dá a ver uma possibilidade de pausa, um vector nas linhas de fuga e de movimento provocadas por esse turbilhão.
Ainda assim, l’un pour l’autre faz-nos aproximar desse abismo.
Nota: agradecimentos a Nuno Carvalho (Museu Berardo), pela disponibilização da publicação.

20 de junho de 2008

Cadernos de Fausto, de Rafael Dionísio (literatura) no Cadeirão Voltaire

Não é banda desenhada, e a função deste post é para dar conta da minha "visita" ao Blog sobre livros e leituras Cadeirão Voltaire, da Andreia Brites e Sara Figueiredo Costa, esta última também do (espero que conhecido e muito vistado) Beco das Imagens.
Será o início de uma colaboração que espero alongada, ainda que esparsa, de artigos críticos sobre literatura, especialmente de autores portugueses contemporâneos. Começo com o Rafel Dionísio e o seu Cadernos de Fausto, alguns dos textos tendo surgido primeiro no seu blog.
Obrigado pela atenção.