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28 de abril de 2019

O cão que guarda as estrelas. Takashi Murakami (JBC)


A estreia da luso-brasileira JBC no nosso mercado foi estrondosa, tendo começado com dois clássicos de peso – Akira e Ghost in the Shell –, e obrigatórios em qualquer biblioteca de banda desenhada que se preze, ciente da sua história contemporânea, já para não falar das suas repercussões cruciais no mundo do cinema de animação, dos jogos, na recepção e/ou diálogo entre a cultura japonesa e o resto do mundo, na cultura popular em geral, e muitas outras dimensões. Apenas questões internas ao Lerbd nos têm impedido de escrever com a mesma regularidade habitual, e é possível que ainda revisitemos esses títulos. Seguiram-se apostas numa série mais comercial de grande sucesso, Ataque dos Titãs, e neste pequeno volume, de um registo bem distinto dos demais. (Mais) 

1 de setembro de 2018

Pescadores de medianoche. Yoshihiro Tatsumi (Gallo Nero)


Entre 1972 e 1973, Tatsumi criou cem histórias curtas, oscilando entre as 15 e as 20 e poucas páginas para uma panóplia de revistas diferentes, cada qual com o seu espectro de géneros, atitudes sociais, e níveis de maturidade. Logo à partida, essa mera informação aponta para o tipo de entrega assombrosa à sua arte, impulsionada sem dúvida por uma ética e desejo artístico, mas igualmente por necessidade, como os leitores de A Drifting Life poderão facilmente contextualizar. Todavia, mais importante é parecer-nos que o autor se mantinha numa mesma veia nessas mesmas diferentes histórias, que o tornara afinal o pai da gekiga, ou uma tendência de empregar a banda desenhada num tom mais atento à realidade do Japão seu contemporâneo. Mesmo que não abandonasse algumas estruturas de géneros – o policial, a ficção científica, a narrativa histórica, o conto tradicional (estes últimos agregados num volume me inglês, Fallen Words) –, elas seriam empregues não para a titilação mais comum desse mesmo género, mas para desvendarem um desses cantos obscuros que o país, na sua senda de desenvolvimento material do pós-guerra, quereria esquecer ou pelo menos não revelar à luz do dia. (Mais) 

25 de março de 2018

Nonnonba. Shigeru Mizuki (Devir)

Uma vez que havíamos escrito um longo texto sobre esta obra quando de uma sua edição em francês, há uma década, remetemos a esse texto para a análise das suas conquistas temáticas, formais, parte do contexto de produção e a sua desenvoltura diegética e simbólica. É, portanto, um momento feliz ao termos acesso, no nosso idioma, a uma das obras mais amadas de um grande público japonês, e uma das obras que mais contribuiria (e no seio da própria obra do autor) para a divulgação popular das figuras fantásticas folclóricas daquele país, conhecidas como yokai, e que hoje têm uma circulação mais comum pela cultura popular. (Mais) 

21 de agosto de 2017

Platinum End; vols 01 e 02. Tsugumi Ohba e Takeshi Obata (Devir)


De certa forma, podemos ler Platinum End como uma espécie de reverso de Death Note. Uma vez que um certo grau de maniqueísmo é uma assinatura dos autores, não nos admira que aqui haja uma transformação para o pólo “contrário” à famosa saga anterior. Em vez dos demónios ou deuses da morte, temos agora hierarquias de anjos em torno de (um) deus. Em vez da feiúra dos primeiros, temos a beleza etérea dos segundos (e que devem algo da sua forma física às personagens fantásticas do Cremaster de Matthew Barney). O seguimento mais ou menos próximo de vários sistemas de angeologia são muito secundários, tirando algumas referências básicas, já que a própria “moralidade” destas criaturas é tão matizada ou até indiferente como o era nos shinigami de Death Note: não são “más” nem “boas”, simplesmente têm papéis e tarefas a cumprir. E em vez de um jovem (Light Yagami) que ganha um artefacto de poderes sobrenaturais (um caderno escolar) interessado numa ideia de justiça que passa pela sua decisão pessoal em matar outras pessoas – ou seja, uma acção moralmente repreensível de acordo com os melhores princípios societais –, sublinhando um ego que vai crescendo, no caso de Platinum End seguimos outro jovem (Mirai Kakehashi) que ganha um artefacto de poderes sobrenaturais (as “asas” e as “espadas”), por ter sido seleccionado, mas que prefere a inacção do que interferir na vontade pessoal dos outros, mesmo que isso lhe custe a sua própria “vitória”. (Mais) 

27 de julho de 2017

O Homem que passeia. Jiro Taniguchi (Devir)

Em boa-hora é relançado este título junto ao público português, numa nova tradução (e novo título), e num formato melhorado, ou pelo menos, individualizado, do que a anterior edição da própria Devir através da colecção Série Ouro com distribuição do Correio da Manhã, há mais de dez anos. Todavia, precisamente por termos feito uma leitura, que esperamos ainda pertinente, da mesma obra então, a esse texto remetemos, deixando aqui considerações de outra natureza. 

O objecto é em si tem outras diferenças substanciais. Materialmente falando, tem uma capa mais atraente e que se prevê ser um projecto gráfico sustentado na nova colecção de mangá da editora, com trabalhos de maior maturidade e para um público mais generalista. Poder-se-ia ter imaginado numa encadernação mais robusta, próxima da colecção Écritures, da Casterman (com a qual partilha o mesmíssimo formato), mas haverá razões substanciais para esta opção. Em termos de conteúdo, porém, a escolha da Devir é bastante feliz. Em primeiro lugar, não temos aqui uma edição que reconstitua as páginas numa ordem de leitura ocidental e em que cada vinheta se mantém idêntica mas numa posição relativa da prancha invertida, e muito menos as antigas edições “flipped”, em que pura e simplesmente se apresentava uma inversão de toda a prancha. É uma edição tal qual a original japonesa, permitindo esta magia visual tão própria da banda desenhada e passível de ser desfrutada pelos leitores não-japoneses (de resto, prática da casa). (Mais)

6 de outubro de 2016

Colecção Novela Gráfica II. AAVV (Levoir)

Nota de intenções: tendo traduzido dois volumes desta colecção, assim como escrito o prólogo de dois outros, temos uma associação profissional a esta colecção.
Tendo terminado esta colecção, e não tendo tido oportunidade antes de falar sobre ela, esperamos que ainda sejam pertinentes estes comentários, uma vez que a colecção continuará disponível quer através da rede do Público quer, mais tarde, no mercado livreiro. As ideias apresentadas a propósito da primeira colecção são ainda válidas para esta segunda. Compreendendo-se que o mundo editorial em Portugal, no que diz respeito à banda desenhada, ainda não se encontra num estado óptimo, sobretudo no que diz respeito à sua recepção e circulação, a aposta em apresentar de rompão toda uma série de títulos é uma estratégia válida. De certa forma, é mesmo uma maneira de revalidar alguma da sua história, aumentar exponencialmente os títulos disponíveis de entre os “clássicos”, os “desconhecidos” e os “contemporâneos”, e, de resto, trazer algum grau de diversidade à sua maneira. Não sendo possível esquecermos os gestos, tão diferentes mas sustentados e programáticos, de editoras como a Polvo, a Chili Com Carne e a Kingpin Books, selos mais pequenos mas também buscando coerências várias, como a El Pep, o Clube do Inferno, a Libri Impressi, os projectos comerciais sólidos da Devir, da Goody e da G.Floy, os gestos mais ou menos isolados de editoras generalistas com apostas na banda desenhada nacional e internacional (Bertrand, Parceria A. M. Pereira, Tinta da China, Teorema, Gradiva, etc.), a paisagem é suficientemente variada para albergar e acomodar os propósitos destes projectos da Levoir. (Mais)

3 de julho de 2016

A Girl on the Shore. Inio Asano (Vertical Comics)

Como tem ocorrido tantas vezes em relação à banda desenhada japonesa, ou sobretudo no que diz respeito à sua recepção ocidental, Asano é um daqueles autores que numa primeiríssima fase ganhou proeminência sobretudo nos círculos das scanlations, mas rapidamente conseguiu assegurar um lugar numa circulação mais oficial e comercial, com traduções em inglês e francês das suas obras. Ao contrário de duas ou três gerações atrás, não precisamos de esperar décadas para ter acesso a traduções e edições cuidadas dos importantes autores contemporâneos desse país (de outros, o esforço continua). Oscilando entre séries extensas e histórias em volumes isolados, A Girl on the Shore pertence à segunda categoria e vem confirmar o autor como a voz da sua geração no que diz respeito a uma representação da melancolia urbana e da sufocação emocional da juventude japonesa (ou global). Algo que, de resto, parece ser uma característica de alguma literatura japonesa contemporânea, como se o afã daquela sociedade obrigasse a uma resposta quase apática. (Mais) 

13 de maio de 2016

Chiisakobé. Minetarô Mochizuki (Le lézard noir)

O filósofo alemão Walter Benjamin distinguia duas formas de experiência, que não apenas eram expressas por duas palavras alemãs diferentes – a saber, Erfahrung e Erlebnis - como se associavam a quadros diferenciados que se dividiam num momento pré-moderno e moderno. Em variadíssimos dos seus escritos, desde os ensaios publicados em vida ao seu grande e inacabado projecto das Arcadas, a um só tempo Benjamin lamentava o desaparecimento da Erfahrung como celebrava também a modernidade. De maneira forçosamente sumária, expliquemos que a Erfahrung está associada a uma profunda relação entre a memória e comunidade, o que permitia que ela mesmo fosse narrada como um fluido (o seu ensaio sobre “O contador de histórias” é fundamental para entender isso); pelo contrário, a Erlebnis expressaria uma experiência mais fragmentada e imediata, cuja forma de expressão se encontra no “choque” das notícias curtas, rápidas e sucessivas, as quais na era da internet ganham uma velocidade, mas igualmente uma volatilidade, exponencial. É esse estímulo exagerado que leva à, nas suas palavras, “atrofia” da Erfahrung, abrindo espaço para aquele torpor cujo nome medieval é a acédia. Uma espécie de passividade, apatia, derrotismo até, que impede a pessoa de reagir de modo mais acabado à situação em que se encontrará. Um aborrecimento derrotador, em vez de um aborrecimento entendido como oportunidade de contemplação da vida e compreensão profunda da condição humana.  (Mais) 

9 de abril de 2016

Industrial Revolution and World War. Shintaro Kago (UDWFG)

Este será um brevíssimo texto sobre este pequeno álbum do autor japonês, que tem a particularidade de ser um nome conhecido e admirado entre os leitores de scanlations (isto é, edições “piratas” acessíveis na internet, com traduções e edições amadoras, o que não significa necessariamente com qualidade menor), mas cuja circulação por edições comercialmente acessíveis é bem menor. Na verdade, esta edição, da italiana Hollow Press/UDWFG, que se dedica a uma linha negra da criação de banda desenhada (horror, críptico, gótico, monstruoso, etc., e a que regressaremos em breve quando falarmos da revista homónima), é a primeira em língua inglesa a solo (história curtas haviam sido publicadas, como “Punctures”, em Secret Comics Japan, da Viz, em 2000) após alguns títulos de Kago em francês. (Mais)

6 de março de 2016

Trash Market. Tadao Tsuge (Drawn & Quarterly)

Trash Market reúne 6 histórias médias do autor, publicadas entre o final dos anos 1960 e início da década seguinte, sobretudo na mítica Garo (uma mais tardia é da Yagyô). Tadao é o irmão mais novo de Yoshiharu Tsuge mas não possui a mesma fama que o autor do sublime O homem sem talentos, tal como a não partilha a mesma circulação internacional que outros autores da mesma geração, sejam os mais dramáticos Yoshihiro Tatsumi ou Sanpei Shirato ou os mais poéticos e melancólicos como Seiichi Hayashi ou Oji Suzuki. É desta maneira que este volume publicado pela Drawn & Quarterly, com tradução e edição de Ryan Holmberg, possivelmente o mais significativo contribuidor neste momento para a passagem de “uma outra mangá” para o Ocidente, é um importante marco. É que não é apenas uma adição de um autor e de umas quantas obras, mas de um pedaço que recoloca toda uma série de questões e da história (acessível aos ocidentais) da banda desenhada japonesa do pós-guerra. (Mais) 

11 de fevereiro de 2016

Yon & Mu. Junji Ito (Kodansha)

E agora, para algo completamente diferente.

Junji Ito é um autor que tentamos seguir com interesse, por criar das poucas bandas desenhadas de horror que no é de facto perturbante a um nível fisiológico. O modo como ele transforma os corpos humanos em palcos de transformações plásticas, sem jamais perder o fio à meada naturalista torna-o perfeito para certas emoções (como discutimos há pouco). Não foi sem alguma surpresa, portanto, que nos deparámos com um livro que parece dedicar-se a territórios totalmente distintos, e que pensávamos afastados do autor. (Mais) 

6 de fevereiro de 2016

La maison aux insectes. Kazuo Umezu (Le Lézard Noir)

É uma verdade de La Palisse que a banda desenhada japonesa se apresenta de uma forma mais estratificada do que outras, no que diz respeito a géneros, públicos e circulações, até pela sua produção massiva, o que torna mais fácil, até certo ponto, análises por atacado. O que não invalidade a existência de cruzamentos, contaminações e problemas de generalização com essas mesmas leituras. Contudo, elas ajudam, numa primeira instância, a uma primeira abordagem. Ora, é nesse sentido que podemos afirmar que se existe uma grande oferta de títulos de horror, é Kazuo Umezu, famosamente conhecido como “Kazz”, o seu grande primeiro cultor e figura. (Mais) 

28 de agosto de 2015

Opus. Satoshi Kon (Dark Horse)

A palavra opus, latim para “obra” ou “trabalho”, num sentido singular, tem uma raiz no Indo-europeu *op-, que poderá dar a ideia de um excesso de esforço. Se se aplicar demasiada força física ao se desenhar, o papel rasgar-se-á, seguramente. Mas o que sucede quando esse esforço se encontra num outro plano em relação à obra, e se rasgam antes as fronteiras ontológicas entre a realidade e a criação, entre a vida na vigília e o devaneio da fantasia? (Mais)

13 de agosto de 2015

All you need is kill. Takeshi Obata et al. (Devir)

Faz muito sentido da parte da editora em lançar os dois volume de All you need is kill ao mesmo tempo, uma vez que a economia e concentração desta narrativa, assim como a velocidade da sua complexificação e resolução, convida a uma leitura rápida. Se a divisão por capítulos se justificava na sua serialização em revista, na sua ausência no nosso mercado, a sua (re)leitura em livro é a opção certa. (Mais)

31 de julho de 2015

Showa. A History of Japan (4 vols., 1926-1989). Shigeru Mizuki (Drawn & Quarterly)

Esta nova série de livros do autor faz já parte de um corpo de trabalho mais alargado. Trata-se de um projecto de longa duração que entrosa a autobiografia com interrogações de cariz político sobre a história da Japão, nomeadamente uma crítica acerba e musculada de um posicionamento insustentável de uma certa superioridade e excepcionalidade do povo japonês face às suas relações históricas com outros povos, desculpando o seu imperalismo e nacionalismo, violento, e cujas consequências ainda se fazem hoje sentir nas suas relações bilateriais com as antigas colónias ou países agredidos, como a Coreia, a China ou a Tailândia. A desresponsabilização do Japão em relação a esses crimes (até certo ponto, similar à desculpabilização que Portugal ou os portugueses fazem às suas antigas colónias), muitas vezes expressas pela sua classe política e alguns sectores da cultura popular, faz com que a missão de Mizuki seja urgente. (Mais) 

1 de abril de 2015

Colecção Novela Gráfica: a colecção (Levoir/Público).

A presença da banda desenhada no mundo editorial português é, no mínimo, residual. Basta compreender que certos géneros literários, mais populares ou menos, têm uma distribuição equilibrada pelas várias editoras, assim como outros tipos de livros não-literários, ensaios ou romances de sucesso crítico. Sem a legitimação e papel cultural que terá a poesia contemporânea, a banda desenhada tem o mesmo tipo de veiculação por um punhado de editores menores e/ou especializados, uma distribuição comercial titubeante e que vive de certos circuitos específicos, e um público algo reduzido. Com a agravante, em relação à banda desenhada, da sua recepção crítica ser extremamente circunscrita, em termos de agentes e espaço na dita mediasfera (de que a blogosfera faz parte mas também poderá ser considerada, dados certos focos, como separada). (Mais) 

27 de março de 2015

The Man Next Door. Masahiko Matsumoto (Breakdown Press)

Na continuidade do projecto da Breakdown Press em permitir a Ryan Holmberg a tradução, edição e publicação de pequenos volumes dedicados a momentos fundamentais nas transformações modernizantes e de maturidade da mangá, e depois do volume dedicado a Hayashi, encontramos este segundo volume dedicado a Matsumoto. (Mais) 

29 de janeiro de 2015

Quatro monografias académicas.

Conforme informámos no texto anterior, a produção acelerada e exponencial de volumes académicos em torno de todas as dimensões passíveis de estudo da banda desenhada tem-se tornado demasiado intensa e complexa para podermos dar conta dela de uma maneira equilibrada. O que se desejaria, e foi feito até à data, era uma leitura cabal, pelo menos, dos livros, acompanhada por uma atenção rigorosa, uma memória e associação à tradições e discussões similares ou complementares, para depois se devolver ao leitor uma compreensão dos argumentos, uma descrição das estruturas e, onde pertinente, apontar os pontos cegos ou sublinhar as grandes forças. Enfim, cumprir aquilo que George Steiner dizia ser a tarefa do intelectual, que era ler um livro de lápis na mão.

Todavia, essa tarefa vê-se agora drasticamente diminuída pela entrada massiva de livros que nos interessaria conhecer com maior intimidade, e pela falta de tempo. Assim sendo, procuraremos dois caminhos alternativos. Por um lado, procuraremos angariar o apoio a investigadores e/ou leitores críticos com as capacidades necessárias para esse tipo de leituras. Isso foi brilhantemente cumprido por Ana Matilde Sousa nos livros sobre mangá e animé, e já se encontram a lavrar outros artigos por outras pessoas. Por outro, faremos apenas apresentações gerais, senão mesmo superficiais, de alguns desses livros, pelo menos pour prendre date, esperando que possam existir mais desenvolvimentos adiante.
Comecemos, então, com quatro livros dedicados a artistas singulares, também escritos por autores individuais. (Mais)

27 de janeiro de 2015

6 livros académicos sobre mangá e animé, por Ana Matilde Sousa.

Nota inicial: até há recente período, o Lerbd procurava ter alguma capacidade de ir dando conta da bibliografia académica especializada. Jamais sem a veleidade de ser completa, claro está, até pela impossibilidade de aceder a todos os livros publicados, conhecer as línguas ou mesmo compreender o alcance de alguns dos projectos, integrando-os e contextualizando-os correctamente nas suas áreas. Todavia, havia uma possibilidade de ir lendo um volume ou outro, com cuidado, rigor a atenção, por vezes providenciando uma entrevista que permitisse uma maior aproximação. Mas o ritmo de publicação, sobretudo em língua inglesa e francesa, na área cada vez mais consolidada dos Estudos de Banda Desenhada tem conhecido acelerações progressivas, tornando essa tarefa impossível de realizar com segurança, muito menos de modo individual. 

Querendo, ainda assim, contribuir para uma divulgação em Portugal, dessa linha de trabalhos, damos início hoje a uma série de posts em que daremos contas de alguns títulos, mas com uma abordagem bem diferente da usual, mais concentrada.

Mas a de hoje, alargada e rigorosa, passa por um convite estendido, e aceite, à investigadora e artista Ana Matilde Sousa, que se encontra a terminar o seu doutoramento, com um projecto em torno da banda desenhada e a cultura popular japonesas sob ângulos críticos propostos pela arte contemporânea. O que se segue são notas de leitura de uma série de seis livros sobre banda desenhada e animação, mas não só, japonesas, cada qual com o seu foco e disciplina. Agradecemos à autora não apenas ter aceite o convite mas também por ter providenciado um nível de qualidade imerecido deste espaço. Agradecimentos também às respectivas editoras, pela oferta dos livros. (Mais)

24 de julho de 2014

Flowering Harbour. Seiichi Hayashi (Breakdown Press)

Há uns anos, a propósito da publicação em inglês de Red Colored Elegy, faláramos do papel de Hayashi na geração da Garo, na companhia de outros autores que, não sendo famosos junto a um público mais jovem e mais “fã” de séries populares, compõem porém um grupo extremamente significativo numa verdadeira expansão da banda desenhada enquanto linguagem passível de explorar emoções e realidades humanas complexas, desprovidas quase totalmente de mecanismos mais tipificados, sejam eles da aventura, da acção ou do romance. (Mais)