29 de maio de 2005

La Mort rôde ici. Marko Turunen (v. fr. FRMK).


Lembrar-se-ão os que conhecem, aprenderão os que não, que nos anos 60, houve uma pequena revolução na produção dos comics norte-americanos de super-heróis, graças à casa que viria a ser conhecida por “das Ideias”, isto é, a Marvel, sobretudo graças à equipa de Stan Lee e seus colaboradores, com o óbvio destaque de Jack Kirby. Um dos elementos dessa revolução foi a convergência de princípios narrativos até à data afastados entre si: a invulnerabilidade física dos heróis e a máxima dramatização interior do humano nos mesmos. Pouco me interessa discorrer se isso permitia maior ou menor identificação com as personagens da parte do leitorado adolescente (ou outro), já que cada vez mais penso ser essa identificação uma ilusão, ainda que difícil de ultrapassar. Mas sem dúvida que os atractivos do Homem-Aranha residiam, não na força que possuía em dobrar metal ou em escalar paredes, mas antes nas divisões amorosas, nas situações de ser apanhado in extremis pela Tia May nos seus preparos de herói, nos atrasos constantes em relação à sua vida “normal” causados pela sua vida “super”....
Essa convergência viria a ganhar contornos cada vez mais profundos, à medida que o “Universo Marvel” se ia complexificando e as suas personagens se cruzando, levantando a parada quer nos riscos – as destruições das cidades, civilizações, encontros intersiderais, etc. – quer nas vidas pessoais dos superseres – casamentos, divórcios, namoros confusos, mortes e nascimentos, rivalidades no coração. Exemplo máximo, as relações tempestuosas entre o Quarteto Fantástico e o mundo dos Inumanos, e todas as crises que daí advieram...
Mas novas revoluções do mesmo género e no género nunca seriam feitas novamente no interior da própria “indústria”, mas sempre por fora. Sem dúvida alguma que surgiram novos modos de contar as mesmas coisas, e Alan Moore e Frank Miller contribuíram decisivamente para essas mudanças de tom, mas a incessante busca pela originalidade forçada consequente seria estéril, já que se trataria apenas de se seguir as mesmas linhas, ainda que pelo seu exagero. Mesmo Gaiman com 1602, ou Tom Scioli com os seus plágios misturando nostalgia, epigonia, e retrocesso mental, cada um puxa uma sardinha já morta. Há ligeiramente uma maior torção da parte de escritores como G. Morrison ou W. Ellis, etc., mas ainda assim perpetuando princípios arreigados na indústria e que por isso mesmo possuem limites demasiado visíveis. Para objectos mais estranhos, temos, por exemplo, Marko Turunen.
Para a biografia deste jovem artista finlandês, e outras informações, remeto à leitura do texto no catálogo do Salão Lisboa 2005, onde participou. Foi aí que tive oportunidade de trocar uma ou duas palavras com ele, informações coligidas utilizadas neste texto (veja-se ainda http://www.daadabooks.com/).
Numa época em que se diz que as novas gerações não têm referências culturais ou que fizeram tabula rasa de uma certa tradição cultural (as Altas Culturas, na qual uns dizem não acreditar, pero haberlas, hailas) – asserção jamais acompanhada de considerações sobre a relativamente recente democratização da cultura e do ensino, a proliferação de meios de difusão e produção de conteúdos e conhecimento, da exponenciação da comunicação a vários níveis e da dispersão dos centros, etc. - , Turunen faz algo inusitado: utiliza as suas próprias referências culturais de uma banda desenhada mais comercial, logo, (acusada de “aculturizada”) e transforma-as em símbolos profundos. Dois possíveis mal-entendidos que poderão surgir de imediato que importa corrigir já:
1º não é que M.T. seja o primeiro a fazê-lo, todos nós fazemos uso da cultural popular para falar de outras coisas mais elevadas, mas ele domina essas intensidades de uma forma extremamente criativa, criando um verdadeiro evento, cf. Deleuze, isto é, algo afastado da mais banal e chã das “situações”. Veja-se um exemplo dado por José Gil: todos nós somos capazes de mergulhar uma madalena numa chávena de chá, mas quase ninguém conseguirá transformar isso nas primeiras páginas de A La Recherche...
2º Não se trata de arte pop, já que esta corrente é precisamente o movimento contrário, o aproveitamento de algo considerado “trash”, confirmando-o, ainda que elevando a local antropológico de observação: ou seja, objecto a manter à distância, encerrado numa redoma separadora, etc. Trata-se mesmo de uma reintensificação dessas imagens, dos seus potenciais conteúdos significativos.
Mas em que medida é que há essa transformação? Basta um exemplo, parece-me: de entre os vários artigos que Turunen ilustrou para os jornais, um foi sobre a guerra civil finlandesa, e que usou ele como imagem? Nada mais nada menos do que Black Bolt e Maximus (precisamente dos já referidos Inumanos). A inimizade já existia nessa relação, claro, mas é a sua aplicação a um tema desta envergadura que faz emergir novos significados, quer para as personagens da Marvel quer, acho eu, para a dolorosa experiência histórica.
Um outro aspecto fascinante dessa reutilização está presente nos seus livros, que ele diz serem “autobiográficos”. Mas é este presente volume que essa transfiguração ganha contornos mais definidos e mais amplos: faz-se através dos retratos de si mesmo e dos companheiros (Marko faz-se passar por Alien, um anão com uma cabeça de extraterrestre, a mulher dele é a Mulher-Raspadora, de máscara SM e raios partindo dos olhos) através de avatares que relembrarão super-heróis, que usam os poderes para actividades banais: aquecer uma pizza, despertar sonhos, mudar de pneus. O desejo juvenil em fazer bd de super-heróis era já de longe acalentado, mas houve uma pulsão transfigurada. Na conferência que deu no Salão, mostrou exemplos de bds juvenis redesenhadas: a primeira era amadora, fraca, imitativa, mas a actual, que utiliza precisamente a mesma mise-en-page, já se torna num objecto de diversidade e experimentação... Os vazios, antes meras "ausências", são agora vazios significativos, tal como na pintura chinesa clássica.
A “space opera” de, por exemplo, as aventuras do Quarteto Fantástico na guerra entre Krees e Skrulls encontra aqui um eco numa mais chã “soap opera”, exponenciada não só através das actividades representadas, como também pelas frases – curtas, lacónicas, de uma gramática despojada (sujeito-predicado-complementos) – que, mais que um texto continuo, parecem notas num diário ou numa agenda.
Pescar referências seria enfadonho – estão por todo o lado, desde Kripto, o cão do Super-homem, à Madame Min, como velha perdida. Mas os elementos à la Marvel, sobretudo os não-materiais, estão todos lá, inclusive a obrigatória crise identitária, universo alternativo (o sonho da Mulher-Raspadora), crise universal (o Verão ardendo tudo). Insisto na colagem à Marvel, pois a ausência da revisitação do “momento da origem” impede-me de o fazer ao outro aglomerado comercial do género, a DC (cujas personagens vivem obcecadas – vide Batman e Super-Homem – com as suas origens). Até o clímax, que nos surge como catástrofe aparente, com um nemesis implacável, é cortado por um lacónico “não entendo/percebo” que nos retira a possível satisfação – básica, previsível - que nos é ofertada pelos finais dos “arcos narrativos” dos super-heróis, isto é, a restauração da situação inicial. Mas na vida de todos os dias destes infra-heróis, em que se discute o melhor caminho para o parque ou o número de folhas de alumínio a utilizar na lasagna, os gestos repetidos vezes sem conta jamais são os mesmos. Posted by Hello