24 de junho de 2017

Aventuras na Ilha do Tesouro. Pedro Cobiaco (Kingpin)

Mais do que uma convergência, ou acumulação de referências, este livro maior de Pedro Cobiaco assinala uma possibilidade de cruzamentos frutíferos entre o que pareceria, até há uns anos, linhas de desenvolvimento temático, formas de pesquisa formal e conteúdos emotivos e conceptuais distintos, ou até mesmo incompatíveis. Mas uma das qualidades da contemporaneidade tem precisamente a ver com uma ultrapassagem de fronteiras que, até esse momento, pareciam seguras, sólidas e bem delineadas. Após a sua travessia, notam-se como sendo tão naturais, tão necessárias na obra, que o seu questionamento se dissipa de imediato na sua leitura. (Mais)

20 de junho de 2017

O convidador de pirilampos. Ondjaki e António Jorge Gonçalves (Caminho)

Na física existe um fenómeno relativo às frequências de ondas da luz, em função da velocidade relativa existente entre a fonte dessa mesma luz e o observador. Bem mais complexo do que o nosso uso metafórico poderá atingir, digamos apenas que existem os “desvios para o vermelho” e “desvios para o azul”, assinalando este último o caso em que a fonte dessa luz se vem aproximando do espectador. Por outras palavras, o vermelho seria sinal de expansão, ao passo que o azul de contracção. Muito possivelmente, esta descrição e uso metafórico não tem qualquer préstimo na leitura de O convidador de pirilampos, mas não podemos deixar de sentir que a família cromática que alimenta o “fundo” (já lá iremos) das imagens convida-nos a irmos além de interpretações de representação superficial (cenas nocturnas) para chegar a um gesto de convite, previsto no próprio título. Tendo deixado uma nota brevíssima sobre este volume anteriormente, voltamos aqui com uma leitura mais dirigida. (Mais) 

18 de junho de 2017

Nimona. Noelle Stevenson (Saída de Emergência)

Nimona é uma personagem intempestiva, irreflectida, violenta, inconsequente, com um sentido de humor duvidoso, e de oportunidade enxovalhado, enfim, um péssimo “modelo de comportamento moral” para qualquer criança ou adolescente. As mortes, destruição, uma certa paixão pelo caos, as suas alianças pouco saudáveis, causadas pela protagonista, tornam-na com efeito um péssimo exemplo se se pretender instigar nos jovens leitores um manual de comportamento e de civilidade. Mas esse não é, felizmente, o fito de Nimona. (Mais)

12 de junho de 2017

Nagual. Diniz Conefrey (Quarto de Jade)

Com O livro dos dias, e desdobrando-se numa série de exposições, palestras, workshops, e outros gestos, sabíamos que o diálogo, senão mesmo entrega, de Diniz Conefrey à cultura ameríndia era de uma intimidade absoluta. Não se trata tão-somente de um “fascínio”, que já antes descrevêramos como um prazer que advém da ignorância, mas um saber que bebe de uma incessante pesquisa, inquirição e respeito. E tampouco se trata, nunca!, de um mero aproveitamento superficial que seria transformado em “tema recorrente” ou “assunto”, que depois se exploraria de várias maneiras. Trata-se de facto de um entrosamento e diálogo com aquela cultura para que se opere uma transformação da matéria visual-textual do autor num hausto novo, e seu, que se expressa de modos diferentes conforme o projecto. Nagual é um conjunto de histórias curtas que se apresenta então como novo ciclo dessa respiração. (Mais) 

10 de junho de 2017

The Comics Alternative: Entrevista a Christopher Pizzino.

Na produção assombrosa de Estudos de Banda Desenhada, ou de volumes académicos que a abarcam de forma séria, consequente e integrada em diálogos mais alargados, não apenas é agora difícil seguir tudo (mesmo que saibamos a língua, mesmo que haja acesso editorial, etc. o que nem sempre é verdade, criando imnsos blocos de pontos cegos), como ainda mais impossível ler os livros com atenção, compreender de imediato o seu impacto ou (palavra horrenda) "utilidade". Em breve, esperamos, faremos precisamente um exercício de leituras quase superficiais e céleres de uma pilha de volumes dessa produção.

Mas por agora, fiquemos por um volume no qual não apenas operámos, ou assim o esperamos, uma leitura atenta, como tivemos o privilégio de conversas alargadamente com o seu autor, sublinhando alguns dos aspectos mais importantes do seu livro. Como dizemos na resenha crítica inicial no The Comics Alternative, não temos dúvida de que o argumento central de Pizzino neste livro tornar-se-á um pilar dos estudos futuros. basicamente tem a ver com o alerta e um despertar aos discursos que se tecem em torno da banda desenhada, mormente norte-americana, que constrói uma ideia de "maturidade" conquistada ao longo dos últimos anos. Nessa história simplificada ("antes as bds eram simples e infantilóides, hoje são para adultos", numa caricatura bruta), acabam por se criar outros perigos de recepção social, desde a ideia, absolutamente errónea, de distinguir "os romances gráficos" do "resto" da banda desenhada, e, claro, a criação de hierarquias de juízos de valor entre material que parecerá "digno" de atenção crítica e académica e disciplinar, e todo um fundo "negligenciável". É um peso valorativo que incorre com menos precisão noutras áreas criativas e inflecte um estatuto diminuído a esta arte em particular.

Poderão aceder ao artigo introdutório e à entrevista aqui.

9 de junho de 2017

O rei macaco. Silverio Pisu e Milo Manara (Arte de Autor)

Adaptação. Versão. Devaneio. Fantasia. Comentário. Alegoria. Todas e quaisquer destas palavras serviria para presidir a uma descrição deste volume, ou talvez melhor uma mistura entre elas, procurando as linhas de força conceptuais de cada uma, operando sobre alguns dos elementos que a compõe. Uma obra primitiva do famoso Manara a caminho da sua primeira maturidade, numa colaboração com Silverio Pisu, autor de experiências variadas e que se exprimem neste livro. O título original é Lo scimmiotto, literalmente “macaquinho”, que também era o título pelo qual o clássico chinês, atribuído a Wu Cheng-en, Viagem ao Ocidente, havia sido traduzido à época em Itália. Na verdade, já nos referimos a esta obra há uns anos, quando da leitura de uma versão feita por Terada Katsyua, e a ela remetemos para devolução de um breve contexto da obra. Até certo ponto, poder-se-ia dizer que este volume é uma adaptação desse escrito literário, já que as personagens, os episódios, as expressões e apodos, os contornos fantásticos, se repetem a par e passo conforme a primeira parte da obra chinesa. Mas a adaptação de Pisu e Manara não apenas se mantém na primeira parte, até ao castigo de Buda que aprisiona o Rei Macaco sobre uma nova rocha (recordemos que ele nasceu de uma pedra, havendo portanto um pequeno ciclo de regresso à origem neste episódio), como transforma toda a novela dessa figura numa plataforma para a criação de uma alegoria política. (Mais) 

8 de junho de 2017

Klaus. Felipe Nunes (Polvo)

Este livro foi celebrado devido à idade do autor quando da sua publicação (19 anos) e, claro, alguns dos prémios ou atenções angariadas por esta sua conquista de elaborar uma narrativa coesa, concentrada, de mais de 100 páginas. Considerá-lo um “romance”, gráfico ou não, parece-nos ser algo hiperbolizado, devido à sua estrutura narrativa e à organização actancial das suas personagens e eventos. Nem sequer poderia ser descrito como novela, do ponto de vista literário, sendo antes um conto, o que não retira de forma alguma os contornos do que consegue cumprir nas suas pranchas. (Mais) 

6 de junho de 2017

Colaboração no The Comics Alternative: Fun, de Paolo Bacilieri

Uma das frases muitas vezes repetidas em blurbs, comentários, conversas de café, mas muitas vezes arvorada igualmente enquanto opinião pública, quase se quer hiperbolizar uma determinada leitura é, "este é um dos melhores livros que já li", ou variações. Mas essa construção não se poderia jamais disfarçar de crítica propriamente dita se não fosse acompanhada de, em primeiro lugar, um verdadeiro contexto de leitura (qual é a paisagem de leitura em questão, qual a circunstância do encontro, contra que outros exemplos se criaria essa hierarquia, etc.?) e, em segundo lugar, da argumentação necessária para sustentar tal afirmação.

O lerbd, estamos em crer, é um espaço suficientemente amplo e presente para providenciar um contexto de leitura, ainda que atreito a livros relativamente recentes, mas que criam um panorama, esperamos nós, o mais alargado possível no que diz respeito à banda desenhada (e além dela) em termos de agentes de produção. E acreditando na necessária variedade das leituras que não permite comparações directas entre livros bem distintos, de instrumentos "contrários", estilos paradoxais e propósitos divergentes, ainda assim forma-se sempre uma "massa" da qual emergem, de quando em vez, intensidades de prazer distintas. Ora, o livro Fun, do autor italiano Paolo Bacilieri, traduzido recentemente para a língua inglesa, é um desses projectos que cria uma espécie de "inveja da criação". E são todos os seus elementos constitutivos que o tornam digno da atenção de um público alargado. Deixamos algumas notas aqui.

5 de junho de 2017

Cemitério dos Sonhos. Miguel Peres et al. (Bicho Carpinteiro)

Se tivéssemos acesso directo ao mundo interior das nossas vidas, que escolhas faríamos? Se pudéssemos manipular os sonhos, corrigi-los, que cursos estabeleceríamos? Se pudéssemos apagar fantasmas, interrogar os mortos, recuperar memórias, esclarecer dúvidas e esquecimentos, reforçar a recordação de modo a que meras impressões fugazes ganhassem corpo de certezas, a que tipo de aventuras nos entregaríamos nesses territórios? Todas essas perguntas são puras especulações, impossibilidades não apenas pela matéria da realidade, da tangibilidade científica, mas até das próprias condições de possibilidade de ser humano. Nada obsta, todavia, a que através da fantasia não possamos explorar tais possibilidades. Cemitério dos Sonhos é uma viagem a essa possibilidade. (Mais) 

3 de junho de 2017

Lugar maldito. André Oliveira e João Sequeira (Polvo)

Existem toda uma série de fenómenos, ditos “entópticos”, em que parecemos ver algo pelo canto do olho mas, ao virarmo-nos, não vemos nada: serão apenas impressões que não compreendemos, serão sombras que não mapeamos, ou serão fantasmas que habitam os nossos espaços e nos rodeiam? Independentemente do território que a ciência pode iluminar, a impressão duradoura dessas mesmas sombras é quase indelével no tecido da cultura. Não cremos em bruxas, mas que as há... Lugar Maldito é um livro que revela a mais profunda verdade, e corrige aquela frase conhecida (ainda que mal citada) de Jean-Paul Sartre: não, o Inferno não são os outros. Somos nós. (Mais)