9 de setembro de 2018

Livro sagrado. Santo (Edições Milagre)


Esta pequena edição de autor reúne toda uma série de histórias curtas que estão associadas entre si por uma vontade comum, a de alcançar e transformar, através de várias estratégias, um fundo dos contos e tradições folclóricas portuguesas – o que não impede de arrolar a literatura, com Alexandre Herculano, Jorge de Sena e Zeca Afonso –, com várias roupagens. Tendo acompanhado o trabalho do autor há muitos anos, desde os seus primeiros trabalhos em fanzines no final dos anos 1990, fomos acompanhando estes trabalhos à medida que foram surgindo, inclusive tendo nós próprios colaborado, tendo incluído uma das histórias (“A Dama Pé de Cabra”), em inglês e a duas cores, na nossa própria publicação Quireward. (Mais)

6 de setembro de 2018

Jardim dos Espectros. Fábio Veras (Escorpião Azul)

Há 20 anos sucedeu algo nas paragens de Núvia que amaldiçoaria os seus jardins. Um segredo, talvez, cuja insatisfatória conclusão lançaria um fel venenoso que transformaria a terra numa sombra fraca de si mesma, azedando tudo à sua volta, desde a vida dos vivos até mesmo ao descanso dos mortos. Tornando-se um famoso enigma nestas terras, Núvia parece ter passado a ser um desafio àqueles que se julgam capazes de o desvendar, aspirante a Édipo. Porém, ao contrário deste, sem ter pago o óbulo de um verdadeiro sentimento de perda e desenraizamento, terão falhado essa suposta “missão”, deixando o caminho aberto sempre para quem de direito. Este livro abre-se para o dia em que quem de direito finalmente atinge os limites dos jardins de Núvia, disposto a atravessá-los, para buscar o seu coração e, talvez, feri-lo de morte. (Mais) 

4 de setembro de 2018

Dragomante: Fogo de Dragão. Filipe Faria e Manuel Morgado (Comic Heart/G. Floy)


Há algo de libertador quando somos confrontados com um objecto cuja clareza é patente e genuína. Uma capa apelativa, clara nos seus propósitos, apresentando objectos cujo sentidos não exigem uma interpretação secundária, mas vivem quase de uma presença denotativa absoluta. Uma mulher guerreira, ostentando duas espadas longas, seguras de forma marcante, com uma armadura total e, junto a si, um imenso dragão, de dentes de diamante, ameaçando os seus inimigos fora de campo. Uma única palavra como título, concentrado e icónico, com um sub-título que pouco parece adiantar à promessa feita já por tudo o resto. Sabemos o que nos espera. Aventura de género de alta-octanagem. (Mais)

2 de setembro de 2018

Cinco Mil Quilómetros por Segundo. Manuele Fior (Devir)


Como saberão os leitores deste espaço, a leitura é feita sobre livros lidos. Este é um local para leitores, não para promessas de leitores, pelo que não nos coibimos de tratar as narrativas pelos seus fins, resoluções ou enigmas desvendados. Não é que o livro de Manuele Fior se apresente como um enigma, ou algo oculto que se revele no fim, reescrevendo toda a narrativa tecida até esse momento, mas há um efeito de organização que permite criar uma história linear por sobre a história cronológica que se desenvolve por trechos isolados. Manuele Fior parte de um ponto de partida clássico, para não dizer cliché – o do triângulo amoroso – para o explodir pelo tempo, a vida real, o afastamento, formando uma pequena pérola de estrutura narrativa com os seus elementos. (Mais) 

1 de setembro de 2018

Pescadores de medianoche. Yoshihiro Tatsumi (Gallo Nero)


Entre 1972 e 1973, Tatsumi criou cem histórias curtas, oscilando entre as 15 e as 20 e poucas páginas para uma panóplia de revistas diferentes, cada qual com o seu espectro de géneros, atitudes sociais, e níveis de maturidade. Logo à partida, essa mera informação aponta para o tipo de entrega assombrosa à sua arte, impulsionada sem dúvida por uma ética e desejo artístico, mas igualmente por necessidade, como os leitores de A Drifting Life poderão facilmente contextualizar. Todavia, mais importante é parecer-nos que o autor se mantinha numa mesma veia nessas mesmas diferentes histórias, que o tornara afinal o pai da gekiga, ou uma tendência de empregar a banda desenhada num tom mais atento à realidade do Japão seu contemporâneo. Mesmo que não abandonasse algumas estruturas de géneros – o policial, a ficção científica, a narrativa histórica, o conto tradicional (estes últimos agregados num volume me inglês, Fallen Words) –, elas seriam empregues não para a titilação mais comum desse mesmo género, mas para desvendarem um desses cantos obscuros que o país, na sua senda de desenvolvimento material do pós-guerra, quereria esquecer ou pelo menos não revelar à luz do dia. (Mais) 

26 de agosto de 2018

Angola Janga, Marcelo D'Salete [no Buala]

Mais uma vez, fica aqui o aviso de uma colaboração com a plataforma Buala, desta feita com um texto sobre o magnífico e monumental Angola Janga, de Marcelo D'Salete. Corolário de um trabalho cujos primeiros frutos foram colhidos em Cumbe, este é um livro sobre os actos de resistência dos próprios escravos negros no Brasil da era colonial. A partir de perspectivas ficcionais mas que tocam uma realidade histórica, este livro é ao mesmo tempo uma celebração do indomável espírito humano e uma correcção a certos mitos da história e da identidade a que muitos leitores portugueses deveriam ser atentos.

Agradecimentos ao editor, pela oferta do livro, ao autor, pelos esclarecimentos e à equipa da Buala, por me receber uma vez mais. Link directo aqui.

20 de agosto de 2018

Álvaro. The Worst of/Balcão Trauma Redux (Escorpião Azul/Insónia)


Tal como a dois coelhos, é de uma cajadada só que se dá conta do recado a estes dois livros. A sua leitura conjunta é consentânea na descoberta dos instrumentos próprios do autor e pela força das circunstâncias editoriais. De facto, por coincidência, deu-se a proximidade da publicação de uma antologia de trabalhos primitivos de Álvaro, pela Escorpião Azul e a do conjunto total da série Balcão Trauma, pela chancela do próprio autor. Estes dois livros poderão ser vistos então como uma oportunidade única de ver os primeiros passos do autor no campo da banda desenhada e aquilo a que veio destilar nos últimos tempos. (Mais) 

16 de agosto de 2018

Cancer. Tilda Markström (Mmmnnnrrrg)


Se não estamos em erro, esta é a primeira vez que o autor por trás deste seu longo projecto heteronímico, Tiago Manuel, explora uma projecção de personalidade e autoral que já morreu. Tilda Markström é uma artista plástica sueca falecida em 2012, não nos sendo fornecida a data em que terá criado este livro. Apesar de se incluir uma brevíssima biografia na contra-capa do volume, e três excertos do seu diário dos anos 1990, quando terá regressado a Estocolmo para viver, mas revelando viagens pelo norte de Espanha, não conseguimos re-construir com precisão ou certeza que percurso terá sido o da autora até fornecer todos os materiais conducentes a este livro. Na ausência dessas informações, e aceitando com rigor a distância de um heterónimo, que não nos permitiria – nada nos permite, mas a confusão entre o nome do autor e a sua pessoa convida os mais distraídos leitores a provocar esse problema de interpretação – aproximar a obra da vida, é o texto em si, com um título tão directo, que deve ser enfrentado, sem esses instrumentos de conforto. (Mais) 

14 de agosto de 2018

Cicatriz. Sofia Neto (Polvo)


Ao acompanhar os trabalhos de Sofia Neto por um punhado de fanzines, não nos surpreende encontrarmos aqui e agora toda uma série de características comuns em termos de interesses temáticos, de tratamento das personagens, de lançamento das circunstâncias espácio-temporais para as suas ficções. Confessemos desde logo que esperávamos ver desenvolvidas de uma maneira mais coerente e musculada num trabalho de maior fôlego esses mesmos traços, como estaria prometido neste livro de 60 e tal páginas. Quer dizer, algo que satisfizesse o mecanismo mental que exige uma narrativa completa, satisfatória em todos os seus pormenores actanciais, e apresenta um desenlace claro, que nos liberta do próprio texto... Todavia, se Cicatriz confirma essas mesmas preocupações, interesses e inquirições, o seu desenvolvimento é algo comedido e limitador dessas expectativas, para nos obrigar a uma travessia e caça mais solitárias. (Mais)

13 de agosto de 2018

Comer/Beber. Filipe Melo e Juan Cavia (Tinta da China)


As origens deste pequeno livro são explicadas no seu prefácio, pelas palavras de Carlos Vaz Marques, na sua qualidade de editor da revista literária, também ela publicada pela Tinta da China, a Granta. Até certo ponto decalcada do seu modelo inglês, a Granta portuguesa acaba por ser um pouco mais confinada à “coisa” literária, ainda que inclua imagens por alguns dos mais conceituados ilustradores portugueses. Dito isto, porém, e apesar do prémio atribuído a João Fazenda, mesmo uma rápida consulta demonstrará que as mais das vezes essas mesmas imagens acabam por estar subsumidas aos princípios temáticos da publicação, e menos propensas a ganhar uma dimensão autónoma e conceptual como poderiam ter. Daí que o “direito à cidadania” da banda desenhada seja algo limitada e se tenha pautado pela força de circunstâncias e proximidade editorial dos autores, e não propriamente por uma abertura genuína e procura editorial por um diálogo, por exemplo, entre as pesquisas da literatura e da banda desenhada pelos temas propostos a cada número. (Mais)

10 de agosto de 2018

O espião Acácio. Fernando Relvas (Turbina/Mundo Fantasma)


Pelo que se entende publicamente, a organização desta antologia estava a ser preparada ainda em vida do artista, num momento em que Fernando Relvas se apercebia de duas coisas: por um lado, que não seria provável, devido à doença que o afligia, que voltasse a conseguir desenhar e dar vazão aos muitos projectos que estariam interrompidos, por outro lado, por estar consciente do interesse de vários quadrantes editoriais em “recuperar a memória” da sua própria obra (como gostamos de repetir aqui neste espaço esse trabalho de olhar para trás na história da banda desenhada de forma a consolidar uma tradição a partir da qual novos textos podem emergir). Demos conta aqui de Sangue Violeta, pela El Pep, e Rosa Delta Sem Saída, pela Polvo, que farão parte dessa tendência, a que se vem juntar este novo livro mas que apenas é o corolário da amizade e interesse contínuos e ininterruptos que os editores portuenses nutriram pelo autor e de um gesto que foi por eles fundado, na verdade, quando da edição, já em 1998, pelo SIBDP, do peregrino L123 + Cevadilha Speed. Poder-se-á dizer que é o atempado repescar de um projecto de longa data, num momento em que talvez haja uma melhor recepção e circulação destes objectos. Além disso, as duas exposições relativamente recentes de que foi alvo na cidade da Amadora [uma das quais organizadas por este vosso criado] serviram igualmente como mostra dilatada da sua imensa e variada produção, alguma da qual inédita ou por recuperar nestes moldes. (Mais) 

6 de agosto de 2018

Artigo em «Comics Memory. Archives and Styles»

Serve este post para informar que foi publicado um artigo nosso, intitulado "The Ever-Shifting Wall: Edmond Baudoin and the “Continuous Poem” of Autobiography", num volume acabado de editar, a saber, Comics Memory. Archives and Styles.

Este volume pertence à série Palgrave Studies in Comics and Graphic Novels, que se tem tornado uma das mais prestigiadas plataformas académicas especializadas de livros em torno de Estudos de Banda Desenhada, juntamente com as "presses" das universidades do Mississippi, Rutgers, Leuven, entre outras, pelo que é uma tremenda honra estar na companhia destes nomes e trabalhos.

27 de julho de 2018

Madoka Machina # 6. André Pereira (Polvo)


O projecto de maior fôlego, até à data, de André Pereira, chega ao fim. A sua leitura
não foi propriamente suave, uma vez que o autor apresentou uma narrativa não apenas densa na sua tessitura diegética como estruturalmente complexa, com laivos de experimentalismo na composição de páginas que obrigava a mudar de regime visual e e leitura a cada capítulo. Estamos em crer que a sua leitura de uma assentada, num putativo “livro” de quase 100 pranchas, revelará ser talvez mais compensador e a sua eficácia mais coesa. Todavia, essa coesão pela completude será ao mesmo tempo um convite a reler cada um dos números, e compreender quais as estratégias certeiras que levaram a essa opção, inclusive aquelas que têm a ver com a materialidade do projecto (isto é, não somente o que tem a ver com um ritmo de trabalho e exposição, recompensa financeira e de circulação, etc.). (Mais) 

26 de julho de 2018

Malditos Amigos/Que Deus te Abandone. André Diniz, com Tainan Rocha (Polvo)



Por razões de vária ordem, tentaremos experimentar notas mais breves de leituras de alguns títulos, já que se têm acumulado demasiados títulos nos últimos meses, e poucas oportunidades de nos sentarmos para escrever de forma consequente. Comecemos com dois livros da autoria do autor André Diniz, agora radicado em Lisboa, entre nós, pela Polvo. (Mais) 

18 de julho de 2018

Lá fora com os fofinhos. Mariana Pita (Chili Com Carne/O Panda Gordo)


Na lógica da colecção da Mercantologia (aqui com apoio d'O Panda Gordo), como havíamos aventado a propósito de Bruma, este volume reúne toda uma série de materiais que a autora havia publicado em formatos variados, de fanzines individuais a publicações antológicas e outros objectos, transformando essa oferta num conjunto coerente e coeso que poderá iluminar a assinatura de Mariana Pita, não apenas no que diz respeito à sua abordagem gráfica mas às suas preocupações de representação e temáticas. (Mais) 

13 de julho de 2018

Colaboração com a "Mundo Crítico".

Serve o presente post para anunciar que foi lançada oficialmente ontem o segundo número da revista Mundo Crítico, uma publicação da Associação para a Cooperação entre os Povos, que reúne uma série de entrevistas, ensaios e artigos em torno das questões da cooperação, colocando esta edição sob a égide do tema da "inovação".

Ora, deve-se este anúncio ao facto de que, a partir deste número, passamos a participar nesta publicação num papel duplo. Em primeiro lugar, contribuiremos com um ensaio que tanto procurará responder à temática proposta como possibilitando uma ligação, por mais ténue que seja, com a segunda parte, adiante explicada. A resposta ao tema, naturalmente, criará ligações com as matérias que mais nos ocupam o tempo. É por essa razão que nos focámos aqui no filme Black Panther, de Ryan Cooger, para auscultar uma das dimensões mais interessantes desse filme: a sua capacidade de re-imaginar um pais africano detentor de uma autonomia tecnológica total, permitindo, por sua vez, resgatar um poder identitário de uma imaginação africana não-subsumida a sistemas imaginados "de fora". Assim, escrevemos "Black Panther: deitar abaixo os obstáculos de imaginar outra coisa". 

Em segundo lugar, asseguraremos um papel de curadoria de uma nova secção de banda desenhada, intitulada "Ecos Gráficos", nas quais convidar-se-ão e coordenar-se-ão trabalhos inéditos de autores portugueses ou a viver em Portugal que respondam, de alguma forma, às mesmas preocupações temáticas. Nesta primeira aventura, Darsy Fernandes apresenta-nos a história de duas páginas "P.A.L.O.P."

Ficam aqui os agradecimentos ao Alain Corbel, pela possibilidade de contacto, e à Dra. Fátima Proença e a toda a equipa da ACEP responsável pela publicação.

1 de julho de 2018

Introdução à Filosofia em Banda Desenhada. Michael F. Patton e Kevin Cannon (Gradiva)


Na esteira de toda uma produção de livros de banda desenhada que procuram popularizar, sobretudo junto a um público mais jovem, ou alargado, ou apressado, etc., temas de alguma complexidade através de discursos mais simples mas não menos sistematizados e sempre com humor e a facilitação permitida pela camada visual, este livro é uma espécie de súmula da história da filosofia ocidental. De certa forma, Larry Gonick é o percursor imediato deste projecto, com os seus variadíssimos guias disciplinares e a sua História Universal, igualmente publicada pela Gradiva, a qual também lançou recentemente os primeiros volumes da colecção Pequena Bedeteca do Saber. Mas poderíamos citar ainda projectos tão distintos tais como Dinosaur Empire! ou os Science Comics para um público infantil, ou o projecto mais ensaístico de Jens Harder... (Mais) 

27 de junho de 2018

Ler BD: Curso de banda desenhada na Nextart.

Serve o presente post, tal como ocorreu nos dois anos anteriores, para informar todos os interessados que estão abertas as inscrições para os cursos de Verão na Nextart, entre os quais se encontra um curso breve de introdução à linguagem, estruturas e criação de banda desenhada, ministrado por este vosso criado. A primeira fornada ainda tem algumas vagas.

Caso estejam interessados, as portas estão abertas. Ou passem palavra.  

Mais informações directas aqui.
Nota: imagem de Sérgio Sequeira (estudos para projecto em curso)




25 de junho de 2018

L’Orso Borotalco e la Bambola Nuda Italiana. Maria João Worm (Quarto de Jade)


Quase toda a história humana é pautada pelo fascínio da animação, no sentido da condição de algo estar vivo, mover-se, actuar, talvez mesmo pensar e comunicar. É talvez esse sentimento que nos tenha feito criar deuses, desenhar nas paredes, esculpir formas. É esse sentimento que, ao longo da cultura humana, nos fez criar histórias em que os objectos ganhavam poderes extraordinários, guardavam resquícios das almas dos seus antigos possuidores, enclausuravam seres vivos ou ganhavam eles mesmos uma espécie qualquer de vida. Um fascínio que mistura idolatria a receios, terrores a desejos, algo que pode tanto oscilar entre o sonho de Pigmalião e Geppetto, como o horror do Mickey em Fantasia ou dos pais do Pequeno Otik/Otesánek, de Svankmajer. Com o advento do cinema, de facto, rapidamente os criadores puseram à prova esse fascínio e são os brinquedos uma classe de objectos preferencial dessa “vida”, sobretudo graças à técnica da animação de volumes: desde o perdido The Humpty Dumpty Circus, de Blackton e Smith (de 1898) ao sobrevivente Dreams of Toyland de Arthur Melbourne Cooper, que data de 1908, mas a cuja tradição temática pertencerá igualmente a série contemporânea da Doutora Brinquedos, o já clássico Toy Story e igualmente o assassino Chucky. (Mais)

22 de junho de 2018

"Magma", colaboração na Strapazin no. 130

No último Abril, o Festival Internacional de Banda Desenhada Fumetto, em Lucerna, Suíça, apresentou como exposição central o projecto "Magma". Trata-se de uma colaboração à distância entre um grupo de autores suíços , que conta, por um lado, com  Fanny Vaucher, Corinne Odermatt, o colectivo Ampel, e a artista Anete Melece, da Lituânia, e por outro com uma "embaixada do Brasil", agregando Fábio Zimbres, Diego Gerlach, Rafael Coutinho e a artista visual Talita Hoffman. Ainda que nenhum destes grupos participasse como um "bloco nacional", mas bem pelo contrário como artistas altamente idiossincráticos, inclusive no seu entendimento formal e estético do que pode ser entendido como "quadrinhos", o projecto foi elaborado através de um contacto directo. 

Os artistas trocaram uma série de impressões, ideias e imagens ("trocar cromos" é um pensamento que nos ocorreu de imediato), que serviria para que houvesse uma rede de comunicação e possível influência mútua. Através desse trabalho de bastidores, os artistas desenvolveram trabalhos originais, alguns mais próximos do material trocado do que outros, uns investigando mais profundamente questões de identidade ou de potencialidades artísticas do que outros mas sem dúvida que em resposta a esse contacto. Esta é uma das dimensões interessantes do Fumetto, que como que encomenda trabalhos originais e imediatamente associadas a essa mesma circunstância.

A selecção dos artistas foi coordenada entre a directora do Festival, Jana Jakoubek, o artista brasileiro Nik Neves, e os resultados seriam publicados no número 130 da revista Strapazin.


Tivemos o grato prazer de sermos convidados a observar o trabalho de troca de comunicações entre os artistas e a génese e desenvolvimento de alguns trabalhos, com o intuito de escrevermos um ensaio associado à acção. Os resultados podem ser vistos e lidos em alemão e português (o nosso texto foi escrito sob a norma do Brasil), aqui.
Nota final: agradecimentos à Jana e ao Nik, pela amizade instantânea e confiança, assim como a Talaya Schmid, editora da Strapazin.

18 de junho de 2018

LEBD: Zines e blogs de workshops.


Para além da nossa actividade crítica (nos últimos tempos, sofrendo em termos de produção nos blogs), académica, docente e criativa, temos o imenso prazer de administrar de quando em vez workshops para pessoas mais jovens, e por vezes menos jovens, mas que jamais tinham criado banda desenhada. Serve o presente post tão-somente para mostrar as capas de alguns fanzines produzidos nos últimos anos, na escola Nextart e no Liceu Francês, assim como revelar um novo blog que mostra os resultados de outro workshop levado a cabo numa escola primária: Peixaria de Tascoaes.
Divirtam-se.

8 de junho de 2018

Pequena Bedeteca do Saber, dois títulos (Gradiva)



A Gradiva dá início a esta colecção em português, mas numa ordem diferente da original. O mesmo ocorreu, por exemplo, com a Biblioteca de Babel, a famosa colecção organizada por Franco Maria Ricci e Jorge Luís Borges para a italiana FMR e a espanhola Siruela, e publicada entre nós pela Vega. Aproveitando o projecto editorial original da Lombard, coordenado e pensado na sua génese por David Vandermeulen, autor do magistral Fritz Haber, e contribuindo dessa maneira para a criação de materiais originais e conduzidos por uma ideia central – no caso, a veiculação de conteúdos complexos sobre os mais diversos assuntos científicos, sociais, históricos e culturais da humanidade através de pequenas súmulas em banda desenhada ensaísta (voltaremos a este termo) –, a Gradiva lança mãos de dois temas mais centrais e, sem dúvida, mais caros ao seu próprio catálogo de primeira água. Esperemos, todavia, que não apenas haja uma continuidade deste projecto, pois existem alguns volumes excelentes em termos formais (volumes com os desenhos de Fabrice Neaud, de Alfred, de Jean Solé), tal como temas – organizados em sete categorias – 


fascinantes e tratados de maneira holística (a história da tatuagem, da prostituição, do conflito israelo-palestiniano, da génese dos escritos bíblicos), como não haja um desvirtuamento ou aproveitamento “local” de criar intervenções na colecção (como ocorreu na Biblioteca de Babel portuguesa). (Mais) 

30 de maio de 2018

Colaboração no Bandas Desenhadas: Marco Mendes no Jornal de Notícias.


Apesar de já termos colaborado no passado, de várias formas, com o site Bandas Desenhadas, essa colaboração tem ganho nos últimos tempos novos contornos. Apesar de, também, não haver previsão de ritmos e rotinas, haverá porém uma mais regular contribuição para objectos textuais que não de resenhas críticas de livros, as quais continuarão a ter existência no Lerbd e no Yellow Fast & Crumble.

Assim sendo, esta é apenas uma pequena mas feliz notícia relativa ao autor Marco Mendes, que poderão ler aqui.

29 de maio de 2018

31 de Junho: Pentângulo na Feira do Livro


Serve estoutro post para anunciar que na próxima Quinta-feira, dia 31 de Maio, estaremos presentes no pavilhão C41 da Feira do Livro de Lisboa pelas 18h00, em companhia de outras pessoas, para promover a antologia Pentângulo, de que já havíamos falado e na qual participámos enquanto formador/autor.

Apareçam!

Mais informações sobre a editora na Feira, aqui.

Os Regressos. Pedro Moura e Marta Teives (Polvo)


Serve o presente post tão-somente para informar os leitores deste espaço que acabámos de lançar, no Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja, o livro Os Regressos, publicado pela Polvo, em co-autoria e com desenhos de Marta Teives.

Trata-se de uma novela, no verdadeiro sentido do termo literário, com 60 pranchas de banda desenhada, entre um realismo rural e um imaginário a recuperar. Não nos caberá a nós, naturalmente, o seu juízo, ficando nas mãos dos seus putativos leitores. Mas ficam os agradecimentos à artista e ao editor, pelo convite e abertura. 

A sua distribuição estará em curso, e anunciaremos o seu lançamento em Lisboa em breve.

23 de maio de 2018

Sem dó. Luli Penna (Todavia)


Há uma tendência, quase automática e, por isso, irritante e vexante, de quando certos círculos discutem qualquer acto criativo da parte de uma mulher, descrevê-lo como contendo “características femininas”, mas sem jamais as revelar, analisar, explicar e muito menos compreender o seu papel na articulação do texto total ou, menos ainda, contextualizá-las no sistema em que emerge. Esse termo é empregue de maneira fantasmática e mágica, como se o seu emprego fosse suficientemente explicativo de algo que, no fundo se recusa a tornar possível. Partindo de uma perspectiva homocêntrica, o que esse passe de magia cumpre é, no fundo, em primeiro lugar a criação de uma posição de “tolerância” que permite ao texto “feminino” a possibilidade de existência e circulação e, sem segundo e mais permanente lugar, a assunção do próprio sistema hegemónico que se confere o direito dessa mesma decisão. (Mais) 

20 de maio de 2018

Wonderstruck: o museu das maravilhas. Robert Selznick (Bertrand)


Perguntamo-nos se a publicação deste livro se deve a uma atenção para com a obra deste autor particularmente central na produção de livros cuja natureza se encontra nos interstícios e experimentação conjunta de várias disciplinas, que havia sido publicado em 2011, ou se terá antes a ver com uma esperança de que a sua versão cinematográfica, realizada por Todd Haynes e em exibição em Portugal este mesmo ano, possa suscitar interesse junto aos potenciais leitores. A resposta é, naturalmente, óbvia, até pela capa do livro (veja-se uma nota final), mas pelo menos isso torna-se garante da sua circulação entre o público português. (Mais) 

16 de maio de 2018

Colaboração no Bandas Desenhadas: Como falar com raparigas em festas, de J. C. Mitchell

Três pontos de convergência. 

Primo: a Bertrand publicou a adaptação do conto de Neil Gaiman por Fábio Moon e Gabriel Bá, de que já tinha antes falado, e para cujas considerações volto a remeter. 

Secondo: a adaptação cinematográfica, assinada por John Cameron Mitchell, do memorável Hedwig and the Angry Inch, apesar de pronta há um ano, estreia agora no circuito internacional e a sessão de imprensa em Portugal foi na semana passada. No fim deste mês, estará em exibição. Em suma: pfff.

Tertio: o site Bandas Desenhadas permitiu-me assistir à mesma, convidando-me a escrever uma resenha ao filme. 

Vi e fiz, num registo bem distinto do que costuma ser o linguarejar do Lerbd. Para pior, claro. Texto aqui.

Nota final: agradecimentos à Bertrand, pelo envio do livro, e ao BD.com, pelo acesso. 

13 de maio de 2018

O maestro, o cuco e a lenda. Wagner Willian (Texugo/Polvo)


Poderíamos começar por dizer que Wagner Willian apresenta aqui uma narrativa aparentemente mais domesticada do que aquela de Bulldogma. Até mesmo em termos do género em que se inscreveria, O maestro, o cuco e a lenda seria colocado nesse tão vasto território da “aventura de fantasia para a infância e juventude”. Afinal de contas, uma narrativa que nos revela um protagonista a regressar a um local da infância, e que, desviando-se para o bosque atrás da casa e graças a um acidente cai numa realidade extraordinária, permitindo-lhe descobrir toda uma vívida galeria de personagens, aproximá-la-ia, elemento por elemento, tropo por tropo, de um rol de títulos clássicos, desde Alice no país das maravilhas e O feiticeiro de Oz a As crónicas de Nárnia e Labyrinth. (Mais) 

10 de maio de 2018

Bartoon 25 anos. Luís Afonso (Arranha-Céus/Público)

Este pequeno volume celebra os 25 anos da tira Bartoon, de Luís Afonso, de uma forma curiosa. Convidando 25 personalidades, dos mais diversos papéis sociais (responsáveis por organismos públicos, académicos, artistas, desportistas, pessoas dos meios de comunicação social, e colegas do autor), a escolherem um conjunto de tiras que denotem as suas escolhas pessoas e algumas dimensões personalizadas desta obra, o leitor terá tanto acesso à própria obra como a estes 25 olhares distintos sobre ela. Acompanhadas essas selecções por breves parágrafos desses ilustres, vai-se desvendando também uma pequena mas personalizada teoria da recepção, significativa para melhor apreciar a tira. (Mais)

30 de abril de 2018

Best of 2017: para Paul Gravett.

Desde 2011 que participamos na chamada de Paul Gravett em contribuir para a "Perspectiva Internacional" do seu site, em que se mostram algum dos mais interessantes títulos de banda desenhada saídos no ano anterior de uma série de países, um trabalho muito interessante e bem mais diversificado do que o usual, por todas as limitações imagináveis.

Uma vez que já nos explicámos várias vezes sobre o que pensamos de listas e tops, continua a ficar apenas a nota que desejamos tão-somente que alguns destes livros tenham uma atenção mais alargada para além das nossas fronteiras e língua, e possam ser vistos como bons gestos no interior dos seus territórios, por mais distintos e incomparáveis que sejam entre si.

Este será o último ano em que participamos, passando a responsabilidade para o Gabriel Martins, a quem desejamos um bom trabalho. E ficam aqui também os profundos agradecimentos ao Paul Gravett e a sua amizade.

Link para a lista de 2017 aqui.

17 de abril de 2018

O reino. Ruppert & Mulot (Douda Correria)

Este será apenas um pequeno recado. Foi lançado recentemente uma edição portuguesa do magnífico objecto-jornal O Reino, da dupla experimentalista de banda desenhada Ruppert e Mulot, projecto este de que já havíamos dado conta na sua edição original há uns anos, aqui.

As mais das vezes, a existência de edições portuguesas não são propriamente motivo de júbilo, sobretudo se se seguirem os caminhos mais normalizados de sempre... Porém, neste caso não estamos a falar dessas máquinas comerciais já instituídas, mas tampouco de "apostas" em obras históricas ou significativas por plataformas editoriais sólidas, ou sequer das também agora usuais colaborações entre editoras nacionais e estrangeiras na publicação de um título. Trata-se, desta feita, de uma acção feita de paixão, risco e coragem.

A edição portuguesa deste jornal é feita pela Douda Correria, uma editora afecta sobretudo à poesia contemporânea e a outros objectos literários não-identificados. Não deixa de ser curioso que, para encontrarmos atenções particulares ao que ocorre na cena contemporânea mais afecta à experimentação, à verdadeira invenção da linguagem, e não apenas a sua clássica confirmação, não se possa contar propriamente com as plataformas mais comuns, mas sim de sectores inesperados. Ou, na verdade, não é nada curioso, é condição sine qua non dessa distribuição de atenção. Seja feita a sua vontade. 




15 de abril de 2018

Futuro proibido. Pepedelrey (Escorpião Azul)


Primeiro capitulo do que se adivinha ser uma longa saga de ficção científica, este volume de 60 páginas não irá satisfazer modos clássicos e contidos de constituir uma acção narrativa. Se começamos num local, rodeados de personagens que mal criam relações entre si para o leitor e começa a emergir uma possível intriga concentrada, logo há uma rasteira que impele todo esse mundo para segundo plano. Mas quando julgamos ter atingido um outro nível, que nos permitisse cartografar a dinâmica, dá-se outro salto. (Mais)

14 de abril de 2018

A leoa. Anne-Caroline Pandolfo e Terkel Risbjerg (G. Floy)


A longo prazo, será produtivo pensar na colaboração desta dupla de uma forma mais analisada. Tentar compreender como é que atingem uma fórmula de fundação sólida tal que a factura dos seus livros não pode ser considerada do ponto de vista de uma “história com desenhos” nem de “desenhos historiados”. Todos os factores contam na sua estruturação prístina, inconsútil, enquanto banda desenhada. A leoa é uma biografia da escritora dinamarquesa Karen Blixen, autora da famosa autobiografia África Minha (graças igualmente ao filme de Sydney Pollack de 1985), A festa de Babette, e de Contos e Inverno. Uma biografia que vai além desses instrumentos, pra devolver uma vida profunda, imaginativa e vivida dessa personagem. (Mais) 

11 de abril de 2018

Quireward # 03.

O terceiro número da Quireward está finalmente disponível. 

Com histórias em inglês, este número inclui: o terceiro e último episódio de "Matias", desenhado pelo Sérgio Sequeira; um capítulo auto-suficiente de uma série de ficção científica, "David Kino", desenhada pelo André Pereira; uma curta história desenhada pela Marta Teives; duas das peças antes publicadas na Cais desenhadas por Vasco Ruivo e Catarina Coroado - todas elas escritas por mim -; e uma história de Nuno Fragata à qual acrescentei texto. 

A capa é de Wagner Willian e o design de Playground Atelier. Impresso a uma cor em risografia. Será agora lançada em Portugal na Feira Raia, este fim-de-semana, no Anjos 70. 34 páginas. 100 exemplares.

[sobre # 01]

[sobre # 02]

8 de abril de 2018

Noite estrelada. Jimmy Liao (Kalandraka)


Como ocorrem nos casos de alguns dos projectos de Maurice Sendak, Shaun Tan, Brian Selznick e António Jorge Gonçalves, por exemplo, também alguns dos livros de Jimmy Liao vivem numa fronteira algo esquiva entre a banda desenhada, o livro ilustrado, e a literatura tout court. Noite estrelada tem apenas umas poucas páginas com texto isolado, mas depois desdobra-se em spreads, ilustrações por página, com texto ou sem ele, e pelo menos uma sequência dividida em vinhetas. Tipologias e divisões que, para além disso, têm explorações formais no interior das próprias imagens, que apresentam planos distintos, texturas, espaços com objectos repetidos (sejam padrões no chão, bibliotecas, jardins, florestas ou os telhados de prédios cheios de néons). (Mais) 

6 de abril de 2018

Santa Camarão. Xavier Almeida (Chili Com Carne)


A possibilidade de escrever uma “autobiografia” de uma outra pessoa, em que um artista “empresta” a sua linguagem para dar voz e corpo à biografia de outrem mas contada na primeira pessoa, não é de todo inédita, se nos recordarmos do projecto de Emmanuel Guibertcom Alan Cope. Os modos de produção são diferentes, porém, já que Guibert colhia a biografia de Cope a partir de conversas gravadas, directas e ao vivo, ao passo que Xavier Almeida estará a trabalhar à distância. O pugilista José Santa “Camarão”, nascido em Ovar e famosíssimo durante as décadas de 1920 e 1930, morreu em 1965. Almeida, instado por um artigo de jornal e criando laços com a sua terra (é também vareiro), criou este pequeno livro de banda desenhada a partir da pequena biografia escrita pelo próprio boxeur. (Mais) 

5 de abril de 2018

Do Inferno. Alan Moore & Eddie Campbell (Biblioteca de Alice)


A palavra “autópsia”, na sua acepção moderna e médica, formou-se no cadinho da emergência do pensamento científico, já no século XVII. Originalmente, a palavra significará tão-somente “ver com os próprios olhos”, “testemunhar” (e isto implicará sempre a ideia desta visão ser a de um terceiro sobre um evento que lhe é externo). Apenas na modernidade passa a significar “a dissecação de um corpo morto para determinar a causa da morte”. 

Como muitos outros críticos já o disseram, e acima de tudo, o próprio protagonista deste imenso romance – e esta será uma das poucas instâncias em que o emprego deste termo técnico literário não é enviesado – em banda desenhada, From Hell/Do Inferno é uma investigação dolorosa, cruel, e violenta ao corpo morto que daria origem ao século XX. Ao contrário do que se poderia imaginar a partir de uma mera descrição, ou pior, através da miserável adaptação cinematográfica de 2001 pelos irmãos Hughes, From Hell não é um “whodunnit”. Focado nos assassínios de prostitutas em Whitechapel, Londres, no estertor do século XIX, que ficariam conhecidos como o caso de “Jack, o Estripador”, o livro assinado por Alan Moore e Eddie Campbell não se interessará tanto pela identificação do assassino, já que parte desde o primeiro momento pela sua revelação: o Dr. William Gull. O que interessa aos autores é a pesquisa do como aconteceu e, até mais, o porquê íntimo dessas acções. (Mais)

4 de abril de 2018

Desolation.Exe ESP. Berliac (Fosfatina)

Serve o presente post tão-somente para indicar que a edição profissional e em língua espanhola de Desolation.Exe, de que faláramos anteriormente na sua primeira versão, foi publicada. O texto que tínhamos escrito foi transformado em prólogo, o que muito nos honra. 

Em breve, daremos notícias do novo projecto do autor, que tem tido alguma recepção complexa, Sadboy.
Nota final: agradecimentos ao autor pelo volume.

2 de abril de 2018

Ermal. Miguel Santos (Escorpião Azul)


Miguel Santos apresenta aqui aquilo que se chama na indústria de entretenimento um projecto “high-concept”, isto é, algo que se concentra de forma potente numa premissa, em si mesmo pejada de implicações narrativas. Neste caso, trata-se de uma história alternativa, passada numa província colonial portuguesa em que a guerra colonial terá encontrado uma continuidade terrível por estar associada a um confronto nuclear no hemisfério norte. Como está indicado no próprio livro, numa espécie de sub-título, neste universo a Guerra Fria “aqueceu”. (Mais) 

26 de março de 2018

Master Song. Francisco Sousa Lobo (Kuš)


Este é o último livrinho do autor, e apesar de textualmente estar muito distante do que fez até à data, não deixa de ser surpreendente a maneira como se encaixa perfeitamente no seu programa a longo prazo. Ainda que não haja qualquer elemento que permita uma leitura auto-ficcional, e muito menos autobiográfica, não deixa de ser possível criar uma redoma que, unindo toda a obra, nos faça pensar na continuação e uma pesquisa muito pessoal de uma expressão da própria intimidade. Contado na primeira pessoa, e em verso, podendo falar-se de dísticos rimados, a parte textual transforma-se, como o título indica, numa canção. E como uma canção, ouvi-la várias vezes vai despertando novas ideias. (Mais)

25 de março de 2018

Nonnonba. Shigeru Mizuki (Devir)

Uma vez que havíamos escrito um longo texto sobre esta obra quando de uma sua edição em francês, há uma década, remetemos a esse texto para a análise das suas conquistas temáticas, formais, parte do contexto de produção e a sua desenvoltura diegética e simbólica. É, portanto, um momento feliz ao termos acesso, no nosso idioma, a uma das obras mais amadas de um grande público japonês, e uma das obras que mais contribuiria (e no seio da própria obra do autor) para a divulgação popular das figuras fantásticas folclóricas daquele país, conhecidas como yokai, e que hoje têm uma circulação mais comum pela cultura popular. (Mais) 

23 de março de 2018

Duplo Vê/O Tautólogo. Mattia Denisse (dois dias)


Por esta altura, começa a construir-se um edifício feito de elementos singulares, e a que se poderá vir a dar o nome de “obra gráfica”, de Mattia Denisse, designação que tanto terá a felicidade de agrupar essa sua produção por um traço material, permitindo uma visão de conjunto e uma consideração das constantes, como poderá incorrer em distrações relativas a especificidades de cada um desses mesmos elementos. (Mais) 

15 de março de 2018

Livro das imagens. Sei Miguel (O Homem do Saco/Marmita de Gigante)


É por vezes difícil, se não impossível, lermos, vermos, interpretarmos e pronunciar um juízo de valor sobre uma determinada obra nova sem recorrermos a elementos que lhe são extrínsecos. As mais das vezes, isso prende-se a questões de biografia, círculo social ou outra actividade profissional, pública ou artística que o autor ou autora exerçam e que parecem fazer pressão sobre aquelas que se nos apresentam no momento. É isso o que sucede quando se procuram “traços” de arquitectura em desenhistas que têm formação de arquitecto (e tão distintos como Richard Câmara, Francisco Sousa Lobo, Pedro Burgos, Ana Cortesão, André Pereira), ou se pretendem compreender como actividades musicais podem informar a prática da banda desenhada (Carlos Zíngaro, Ilan Manouach, Brian Chippendale, André Coelho). Quase sempre esse exercício é supérfluo e inválido, uma vez que providencia mais com elementos de cegueira e limitação do que um caminho para cumprir uma melhor leitura crítica. (Mais)