27 de julho de 2018

Madoka Machina # 6. André Pereira (Polvo)


O projecto de maior fôlego, até à data, de André Pereira, chega ao fim. A sua leitura
não foi propriamente suave, uma vez que o autor apresentou uma narrativa não apenas densa na sua tessitura diegética como estruturalmente complexa, com laivos de experimentalismo na composição de páginas que obrigava a mudar de regime visual e e leitura a cada capítulo. Estamos em crer que a sua leitura de uma assentada, num putativo “livro” de quase 100 pranchas, revelará ser talvez mais compensador e a sua eficácia mais coesa. Todavia, essa coesão pela completude será ao mesmo tempo um convite a reler cada um dos números, e compreender quais as estratégias certeiras que levaram a essa opção, inclusive aquelas que têm a ver com a materialidade do projecto (isto é, não somente o que tem a ver com um ritmo de trabalho e exposição, recompensa financeira e de circulação, etc.). (Mais) 

Madoka Machina, como havíamos dito a propósito da publicação do seu primeiro número, é uma amálgama de territórios criativos e de géneros, sendo tão devedor da banda desenhada independente advinda dos anos 1990, com a sua atenção às culturas urbanas, jovens e semi-deprimidas, como de géneros mais claros, da high fantasy à mangá de ficção científica. Mas há uma fortíssima relação igualmente com muitas das tendências contemporâneas da banda desenhada global, em que esses embates de territórios aparentemente separados são apenas um pasto aberto para ensaiar e pensar em temáticas mais profundas. Perguntamo-nos se não será uma espécie de ode ao desespero. Ou um espelho da precariedade. Ou um apontamento de quão difícil é o combate pela realização pessoal.

No fundo, esta história ou triângulo entre os amigos Leandro, Leonor e Orlando, em torno dos seus empregos precários numa espécie de interface tecno-mágico, é apenas um espelho da nossa própria sociedade, até portuguesa, com especificidade, no momento em que a noção de “labor” se começa a liquefazer, como bem apontara Marshall Berman na sua apropriação da famosa frase de Marx. Madoka Machina, dessa forma, pode ser lido como um livro sobre a passagem da adolescência tardia ou a primeira idade adulta aos desencantos das responsabilidades profissionais e de vida (Leonor está à beira dos 30 anos, hoje não sendo garante de estabilidade, burguesa, admitamos, a qualquer nível), à impossibilidade de garantir uma solidez profissional independentemente da dedicação aos estudos e trabalho, à precariedade planeada das novas empresas, à dissolução das relações nas grandes sociedades, à alienação prevista por certos usos tecnológicos, e à capacidade incrível que o capitalismo tem de “comodificar” tudo, inclusive os produtos da imaginação e da expressão livres.

Esse “mergulho” é tornado literal neste último capítulo, já que a parte de leão é ocupada pela descida de Leonor, no tal mundo liquefeito do Aether. Mas igualmente no seu desespero de empregada por conta de outrem, ou de “asset” ou “activo” dispensável conforme as flutuações de mercado e necessidades de flexibilidade empresarial. Mas também na sua memória de infância e formação. Mas também, e talvez de forma mais importante, na sua própria psique, talvez ferida para sempre. André Pereira apresenta uma panóplia de estratégias de composição de página para assinalar esse mergulho, tirando partido de combinações muito produtivas entre grelhas ortogonais e linhas oblíquas, rectas e formas líquidas e de derretimento para traduzir essa queda. Há também um judicioso uso de tipologias e “linhas de evolução” [como nesta prancha], que desdobra uma linha temporal da própria personagem como espelho desta outra, nova, viagem. Há algo de Lynch nessa gestão do lado negro da psique e uma quase total banalidade dos eventos no mundo exterior.

Há também algo que faz recordar, em termos muito gerais, a saga do Incal, de Jodorowsky e Moebius, pelo facto de que no fim, Leonor “desiste” e prepara-se para reenviar a sua tipificada mensagem de candidatura a um emprego. Tal como havia começado a saga. Funcionará? Ou terá ela batido no proverbial fundo? O livro recusa-se a providenciar uma reposta cabal, ou pior, falsamente esperançosa. O problema, e a força de Madoka Machina, é que, acima de tudo, pouco importa.
Nota final: agradecimentos à editora, pela oferta do livro.

1 comentário:

Anónimo disse...

De maior fôlego a solo, porque na verdade o André Pereira já havia feito um álbum.