De certa forma, como havia acontecido com a minha recepção de Nonnonba, que havia lido numa versão francesa cerca de 10 anos antes da edição portuguesa, também havia feito uma primeira leitura da série Showa, do mesmo autor, numa versão em inglês, há cerca de dez anos desta lavra da Devir. É mais que salutar a edição de obras que agora podem ser vistas como “clássicos” (modernos ou contemporâneos, pois o tempo poderá alterar as ordens), mas não deixa de haver uma nota mais melancólica por não acompanharmos outras séries ou títulos, de banda desenhada japonesa, mais recentes de uma forma mais imediata… Por essa razão, retomo alguns desses apontamentos de uma forma mais sumária. (Mais)
6 de agosto de 2026
Showa [1926-1939 e 1939-1944], Shigeru Mizuki (Devir)
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Pedro Moura
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9:12 p.m.
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23 de julho de 2026
Cheap nature. Episódios de renúncia e parcinómia. Xavier Almeida e Pato Bravo (Péssima)
Um volume importante na produção nacional, Cheap Nature é uma chamada de atenção para toda uma inscrição social da realidade que nos rodeia, não apenas a vida diária de um Portugal estratificado, mas de várias unidades encaixadas umas nas outras: cidades, países, economias, sistemas sociais, compreensões do tempo, vivências com ou na natureza, acessibilidade à riqueza material ou outra. O livro tem como autor Xavier Almeida, que o assina na capa, mas o guião parece ter sido co-criado com quem assina como Pato Bravo, isto é, o músico B Fachada, isto é, Bernardo Cruz Fachada, também editor da Péssima. Formas de trabalho não-lineares, não-autoritárias, abertas a diálogos, que vivem presentes na tessitura do que aqui se apresenta. (Mais)
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Pedro Moura
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5:05 p.m.
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21 de julho de 2026
Caderno de Memórias Coloniais. Isabela Figueiredo e Júlia Barata (Caminho)
A recepção crítica do romance de Isabela Figueiredo, desde o seu lançamento em 2015, tem-no assinalado enquanto parte de todo um processo literário e social em curso nas letras portuguesas (e para além delas ou mesmo das letras em si) mas ao mesmo tempo sublinhando as suas características singulares.
Tem havido, sob a forma de literatura, mas não apenas (estudos académicos, reportagens investigativas, considerações políticas até), uma re-emergência da voz dos ditos “retornados” – palavra contestada, controversa, muitas vezes pejorativa (muitos de nós reconhecerão algum caso de família), mas que contém em si toda a história sofrida que lhe pertence -, isto é, o repatriamento/migração forçada (a escolha das palavras sublinha de imediato um posicionamento, muitas vezes ideológico) de cerca de meio milhão de portugueses com o colapso do Império Colonial Português em 1974, e que veio criar processos de fricção na identidade própria não apenas dessas mesmas pessoas, mas de toda a ideia de “portugalidade”, revista desde então e ainda não resolvida hoje. (Mais)
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9:38 a.m.
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15 de julho de 2026
Aldeamentos de Guerra. Francisco Sousa Lobo (Chili Com Carne)
Como sabemos, o género literário conhecido como “ensaio” foi cunhado e fundado por Montaigne, a partir da noção de exagium, que significa “exame” ou “pesagem”. Não se trata de um exercício de escrita que pretenda fechar-se como afirmação ou totalidade, mas antes como contínua interrogação do objecto a que se dedica, algo que vai pensando à medida que escreve. Essa sua natureza instável, subjectiva, fragmentária, e por isso capaz de expressar uma autonomia face à realidade a que se dirige, torna o ensaio numa sempre estimulante e espiritual leitura, numa construção mútua. Isto é, o leitor também se interroga.
Francisco Sousa Lobo é um autor que tem criado formas investigativas que tornam a banda desenhada num instrumento desse pensamento ensaístico. Se tem livros de banda desenhada de ficção, de autobiografia e de objectos pelo meio, também outros se revestem dessa película do “ensaio”, muitas vezes virado para a figura do próprio autor, a titulo de exemplo o livro Deserto/Nuvem, outras para temas semi-externos, como Gente Remota. Aliás, é com este livro que Aldeamentos vem criar um outro elo quase directo. Gente Remota é um dos poucos livros de banda desenhada contemporânea portuguesa que utiliza o “assunto” das Guerras Coloniais (e já é tempo de começarmos a empregar outros termos, como Guerras pela Independência) não tanto para criar uma situação fictícia mais ou menos formulaica para, apenas aparentemente, pensar esse período, mas para criar uma dolorosa fotografia da situação actual, de como os crimes se misturaram com o silêncio e, assim, mais infectados ficaram, tornando quase impossível uma retrospectiva clara, nítica e objectiva. Será alguma vez possível? Duvidamos. (Mais)
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Pedro Moura
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11:42 a.m.
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12 de julho de 2026
Da noite para o dia. Sofia Neto (Chili Com Carne).
Na passagem do ano de 2025 para 2026, os desenhos originais de Sofia Neto para o seu último projecto de livro foram apresentados numa exposição no Clube de Desenho. Tive a honra, então, de ser convidado a "ler" o livro e a escrever um pequeno texto para a folha de sala.
É esse mesmo texto aqui apresento, en lieu de um novo texto mais consonante à prática crítica do Lerbd, mais manca nestes últimos anos, precisamento devido à multiplicação de outros papéis e funções. É verdade que a sua leitura material, em livro, leva a um bloco de sensações totalmente distinto, e o próprio propósito diferenciado dos textos - uma folha de sala, que serve para estimular algumas pistas de contextualização e navegação visual e interpretativa - e uma crítica - que ancora os juízos de valor numa argumentação mais validada, levaria a outra natureza, mas o rempo, meus amigos, o tempo... (Mais)
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Pedro Moura
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10:41 a.m.
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7 de julho de 2026
Mitimota. Amanda Baeza (Chili Com Carne)
Mitimota e Bruma não são a mesma coisa. Ambas são a reunião, num só volume, de um conjunto de pequenas bandas desenhadas curtas, particularmente heteróclitas entre si, publicadas pela autora Amanda Baeza ao longo de anos em variadíssimas publicações, em países, línguas, formatos, estilos e circunstâncias diferentes. Sim. E não é impossível encontrar, de um título para o outro, pequenos temas recorrentes, trejeitos ou facetas comuns, uma maneira de encarar o acto de criar banda desenhada livre, sempre livre.
A autora tem-se especializado, digamos assim, em histórias curtas, por vezes apenas um par de páginas, e não tanto em fôlegos mais longos, ainda que haja notícia de um projecto no forno com essas características há um tempo. Ainda teremos de esperar por essa nova lavra. (Mais)
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6:09 p.m.
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10 de maio de 2026
Terrea. Ricardo Cabral (A Seita/Comic Heart).
Quando a edição de artista de Terrea surgiu, há mais de dez anos, encontrámos ali um livro cuja “escrita” era dominada pela pulsão do desenho, que Ricardo Cabral já vinha alimentando há um breve trecho, libertando-se da canga de uma narrativa linear: os seus diários de viagem, alucinações gráficas com a realidade que o rodeava e sobretudo um trabalho de ilustração vinha testemunhando essas ideias. À medida que foram saindo os quatro volumes de TLS Series, o autor foi encaminhando novos “episódios” (mas sem essa linearidade ou propósito), mais ou menos subsumidos aos temas da antologia (“Viagens, “Cidade”, etc.). Quase sempre sem texto (com a excepção da peça para TLS Series: Raízes), deixando sempre aberta a ambivalência das circunstâncias diegéticas daquele universo gráfico que ia burilando. (Mais)
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2:17 p.m.
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26 de abril de 2026
Don’t Like This/Present for you. Kaori Tsurutani/Shino Shinomiya (Fujur)
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Pedro Moura
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6:15 p.m.
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24 de abril de 2026
Final Cut. Charles Burns (Asa)
Este livro é tecido em torno da perspectiva e voz narrativa de duas personagens, que se conhecem no início do livro e depois se relacionam entre si, em torno de um filme amador, que mescla ficção científica, body horror e weird fiction. Brian, o introvertido artista de desenhos estranhos e co-autor dos filmes, e Laurie, a jovem beldade ruiva que se tornará a actriz principal. Mais uma vez, Charles Burns coloca no centro da atenção o desenvolvimento de uma história de amor adolescente, e as metáforas em torno das metamorfoses físicas e psíquicas que isso implica. Mais, a ideia do cinema não é apenas uma actividade superficial para as personagens, é mesmo a estrutura que explica a lógica das memórias, da montagem e da possibilidade de reescrita da realidade filmada.
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Pedro Moura
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9:06 p.m.
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20 de abril de 2026
A História de uma Serva. Margaret Atwood e Renée Ault (Bertrand).
“Ambas somos invisíveis, ambas somos funcionárias”. Esta é,
numa tradução tentativa da frase de Atwood, aquilo ao que as mulheres são
reduzidas em Gilead, uma nova configuração dos Estados Unidos num futuro
indeterminado, em que uma crise populacional desencadeia a ascensão de um poder
teocrata. Impensável. Ou…
O romance é de 1986 e parte da sua recepção crítica – a negativa – não apenas apresentava a narrativa como controversa, como igualmente chocante e paranóica. Não posso demonstrar ter sido o adjectivo “histérico” utilizado, mas não nos surpreenderia, já que tantas vezes serve de arma de arremesso favorita contra mulheres. Curiosamente, a própria Atwood concebia que a premissa era “demasiado louca” mas a sua capacidade de observação política aguda fazia-a compreender certos sinais, decisões e escolhas na sua sociedade que a faziam prever aquelas possibilidades que, na ficção científica, se tornam pasto das mais mirabolantes criações, as quais jamais deixam de espelhar o seu próprio tempo de inscrição. (Mais)
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9:35 a.m.
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22 de fevereiro de 2026
Astérix en Lusitanie. Fabcaro e Didier Conrad (Hachette).
Ou, A insuportável ausência de espírito.
Sempre me pautei por um princípio, o qual, apenas mais tarde na minha tarefa enquanto crítico, aprendi estar expresso de forma clara por Jorge Luís Borges. “No hay poeta, por más mediocre que sea, que no haya escrito el mejor verso de la literatura, pero también el más desdichado”. Isto leva-me a ler sempre as obras todas de forma positiva, de mente aberta, buscando incessantemente por esse “melhor verso” e, a partir dele, poder estruturar uma leitura. Por vezes, na falha desse encontro, prefiro o silêncio, do que algo apenas construído sobre o desprezo. Todavia, há momentos em que isso é absolutamente necessário, numa espécie de procura por uma justiça, de reequilíbrio, e não deixar que apenas uma recepção febril e débil, ela também medíocre, prepondere num contexto. Mas a leitura deste livro, adiada por desconfiança e penosa na sua concretização, provou que era de facto difícil descortinar uma pedra branca que fosse numa corrente de desgraças. (mais)
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6:18 p.m.
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20 de fevereiro de 2026
Duas raparigas nuas. Luz (Asa)
Num tempo em que a esmagadora maioria das editoras com algum poder financeiro, que apostam na tradução e publicação de títulos estrangeiros, fazem apostas algo débeis no que diz respeito à atenção para com obras e autores que criam algum tipo de novos haustos no campo da banda desenhada, e se vê sobretudo uma continuidade em tendências absolutamente esgotadas, com mais de 50 anos (em média), ou então em géneros de uma planura genérica desinspirada, a mera possibilidade de surgir algo relativamente distinto torna-se um relampejo.
Luz é um autor que despertou para o mundo da banda desenhada de uma forma mais sustentada após o seu terrível testemunho dos atentados mortíferos ao Charlie Hebdo. Quando foi lançado Catharsis, demos conta desse livro, acreditando tratar-se de algo distinto, não apenas na carreira do autor, mas na própria linguagem que acreditamos ser livre e aberta da banda desenhada. Desde então, Luz tem criado outros títulos, uns mais interessantes que os outros (noutro local, discutimos Vernon Subutex, adaptação magnífica da obra literária homónima de Virginie Despentes). (mais)
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12:23 p.m.
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4 de fevereiro de 2026
Lerbd - Living Will. André Oliveira, Joana Afonso, Pedro Serpa (Polvo)
Falámos deste livro quando foi lançado o primeiro fascículo ou comic book, numa auto-edição em inglês. Também demos conta depois no 3º volume, a propósito do seu lançamento, mas nessa primeira abordagem apontávamos desde logo a forma rara com que tínhamos nas mãos uma série com um protagonista idoso tratado como um ser humano completo, e não como uma mera caricatura da velhice, ou enclausurado numa figura cuja maior acção estaria enterrada no passado. Ao longo da série, algumas dessas expectivas alteraram-se, em relação à trama narrativa, mas não ao seu propósito. Agora que os materiais foram recolhidos num só volume, aumentado, e em português, é bem possível que muitos leitores o abordem como um novo texto. E assim pode ser lido, claro. (Mais)
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4:28 p.m.
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19 de janeiro de 2026
5 títulos de Kenji Tsuruta (Sendai)
Esta leitura estava adiada há algum tempo, mas a recente
publicação, pela Sendai, de Espírito de Aventura tornou possível o
regresso a Kenji Tsuruta.
Espírito é uma colecção de quase 400 páginas que reúne
todas as histórias curtas publicadas entre 1986 e 1994 numa série de revistas,
todas num tom mais lúdico e divertido. Podendo ser vistas como sendo de ficção
científica, é fascinante observar os subgéneros e ambientes que atravessa. Todavia,
a leitura de uma assentada torna evidente a repetição, os tropos, e o humor por
vezes menos subtil. A linha algo pesada, os cenários muito detalhados e
escurecidos, aparecem algo compactados na edição portuguesa, irrepreensível em
si mesma (tal como os outros livros do autor), e que contribui em muito para o
acesso directo a autores influentes, papel que a editora faz com menos meios
que maiores plataformas comerciais, mas com uma poética, sensibilidade e inteligência
próprias.
Mas é a saga de Emanon (2008–2018, aqui em 4
volumes/títulos), adaptada das histórias de Shinji Kajio, que nos dá um território
mais poético e sofisticado. Continuamos na ficção científica, mas longe de
qualquer vertente “hard”. Há antes um fundo fantástico que serve sobretudo para
pensar memória e identidade, errância e pertença, liberdade e laços familiares.
A protagonista, que herda uma memória celular contínua desde o surgimento da
vida unicelular, poderia abrir caminho a leituras mais radicais ou ecológicas (Haraway!),
mas Tsuruta mantém-se num registo intimista, centrado na modernidade japonesa e
nos encontros fugazes que moldam a experiência humana. A edição portuguesa, que
inclui também textos de Kajio, destaca-se pela clareza e amplitude das
composições, pelos silêncios, pelas paisagens naturais e pequenas lojas de
província desenhadas com enorme delicadeza. Mesmo a sexualização da
protagonista, tão típica do autor, ganha aqui um tom menos titilante e mais
ligado à ideia de liberdade corporal. Há sugestões de uma narrativa mais vasta,
nunca plenamente desenvolvida, mas talvez seja essa abertura — esse convite ao
que poderia vir a ser — que torna Emanon tão duradoura na memória do
leitor.
[texto escrito para o Instagram]
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Pedro Moura
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8:16 p.m.
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13 de janeiro de 2026
O progresso da humanidade. Rui Cardoso Martins e João Sequeira (Polvo)
Mascarado de inquérito policial, levado a cabo por um inspector sem nome, o foco de atenção narrativo-visual de O progresso da humanidade não se fica preso somente pelos “eventos” das entrevistas e encontros com quem conhecia o jovem morto no Gerês, em estado atroz e causas por determinar, coração do caso em curso. O acesso ao diário desse morto, Oliveira, metamorfoseado de páginas escritas em cenas visuais, torna o livro num objecto distinto do do conto original.
Algumas cenas deambulam pelas paisagens áridas onde o corpo terá sido encontrado, outras vislumbram o desmantelamento de um corpo de mosca por uma aranha precisa. Mesmo nas imagens de analepses visuais, em que temos acesso à vida de Oliveira, a perspectiva é rasa, dando-nos acesso, literalmente, à merda abandonada no chão. Serão representações da “realidade narrativa”, ou antes metáforas das deambulações e reconstruções do inspector com os seus dados? De texto literário a banda desenhada, os dispositivos de emolduramento e travessias de níveis são vários, mas resultam numa intensa rede de compreensões. (Mais)
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10:53 a.m.
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11 de janeiro de 2026
Atrahasis. David Soares e Sónia Oliveira (Kingpin)
O apocalipse, já o dissemos bastas vezes neste espaço, não é uma data única e irrepetível, algures numa compreensão linear, teleológica e hierarquizada da história humana (melhor dizendo, “histórias”), mas um objecto comum, um permanente estado civilizacional, que apenas uma visão mais crítica captura. No famoso dictum que não se sabe se se atribuir a Žižek ou se a Jameson, é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo (leia-se, a nossa sociedade presente, que partilhamos neste momento). E a fantasia (negra?, ou no fundo parte intrínseca da ilusão de que precisamos para vivermos a nossa realidade quotidiana; de novo, Žižek, cf. The Plague of Fantasies) de que nos espera uma hecatombe apenas vem sublinhar a visão tipicamente liberal do individualismo, enquanto varremos os apocalipses que decorrem, entretanto, em Gaza, no Sudão, um pouco por todo o mundo, em escalas diferentes, inclusive as de “interesse”.
Daí que o exercício de mesclar o Dilúvio do épico acádico que empresta o nome a este livro a uma socie/cidade com suficientes traços comuns ao nosso não seja particularmente difícil. O que é único é o escavar de David Soares e o moldar de Sónia Oliveira. (Mais)
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Pedro Moura
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4:18 p.m.
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9 de janeiro de 2026
Rain in Tears. Mao (Kuš!)
Os interesses e campo de experiência de Hugo Almeida, a.k.a. “Mao”, continuam a incidir numa densa e intrincada rede de cruzamento das consequências das possibilidades que a técnica tem trazido de forma cada vez mais dramática nas determinações biológicas. Isto é, não tanto simplesmente a intervenção externa sobre o biológico da parte da técnica via a soteriologia (através de ferramentas, fármacos, cirurgia, prostética), mas algo que reconfigura a própria ontologia da vida.
À primeira vista (que na verdade nunca o é, pois o autor não
está interessado em ilusões simples), o livro parece ter uma intriga de fc. Só
que a travessia pelas páginas coloca-nos num mundo laboratorial e de ciências “duras”
que conseguem manipular o ADN como os poetas DADA brincaram com o alfabeto.
Estão aqui presentes os ecos de campos contemporâneos como os da engenharia
epigenética, a edição CRISPR, o uso do sistema de IA AlphaFold, e outras nano-
e macro-coisas de que nem sei a missa a metade. Mao “disfarça” tudo isto com
uma pequena intriga tirada de um thriller de ficção científica, como se
tivéssemos chegado a meio de um filme. Um laboratório que parece querer
contornar certas regras deixa que um polvo, geneticamente alterado, escape para
o mundo natural e isso poderá vir a ter consequências desastrosas. Fanfiction
de uma “lab leak theory”, portanto, as coisas são relativamente simples e
céleres em termos de acções. Todavia, a força de Mao está em todas as camadas que
actuam, a um só tempo, como textuais e metatextuais – as pop-up Windows, o
acesso a emails e mensagens que temos, os chats.
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Pedro Moura
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10:52 a.m.
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