12 de julho de 2026

Da noite para o dia. Sofia Neto (Chili Com Carne).

Na passagem do ano de 2025 para 2026, os desenhos originais de Sofia Neto para o seu último projecto de livro foram apresentados numa exposição no Clube de Desenho. Tive a honra, então, de ser convidado a "ler" o livro e a escrever um pequeno texto para a folha de sala. 


É esse mesmo texto aqui apresento, en lieu de um novo texto mais consonante à prática crítica do Lerbd, mais manca nestes últimos anos, precisamento devido à multiplicação de outros papéis e funções. É verdade que a sua leitura material, em livro, leva a um bloco de sensações totalmente distinto, e o próprio propósito diferenciado dos textos - uma folha de sala, que serve para estimular algumas pistas de contextualização e navegação visual e interpretativa - e uma crítica - que ancora os juízos de valor numa argumentação mais validada, levaria a outra natureza, mas o rempo, meus amigos, o tempo... (Mais) 


Apenas acrescentaria aqui que este livro arrisca-se a poder ser visto como um importante marco na ficção científica portuguesa, não tanto pela sua espectacularidade - usualmente um efeito de superfície para embasbacar leitores de impressões, e não de profundidade - mas pela forma como explora consequências sociais, políticas e identitárias de tecnologias, as quais, "inexistentes", estão bem próximas daquelas já em vigor. Nesse sentido, sinto-lhe grandes afinidades com Madoka Machina de André Pereira. Atente-se, para mais, à sua rede temporal narrativa e aos efeitos de referencialidade da nossa realidade local, e isso apenas reforçará os elos interpretativos propostos. Por outro lado, de forma mais enviesada, mas que tem a ver com identidade e desejo, haverá igualmente ecos com a trilogia de Filipe Seems, de Nuno Artur Silva e António Jorge Gonçalves, quase esfumados pela distância, mas ainda assim presentes. 


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Da noite para o dia

Entre trechos e conversas fragmentárias, banais, a vida começa, a variedade humana revelada. “Outras pessoas” que não nós mesmos, na sua alteridade sempre inalcançáveis —tragédia ou maravilha? A missão de Ana, a protagonista desta banda desenhada (livro e exposição), não é “descobrir” o outro, mas antes “recobri-lo”.

A exposição nas redes sociais surge como extensão desmedida das nossas máscaras sociais, performance explorável e capitalizável por quem detém as condições da sua expressão, enoveladas na condição da precariedade contemporânea e no isolamento que se instala num tecido urbano indiferente. A ficção científica funciona sempre como comentário do nosso estado presente, e do amanhã imediato. A tecnologia central da intriga é administrada, mas não compreendida, por Ana; esta é uma mera “funcionária”, no sentido flusseriano, incapaz de dominar o dispositivo que opera, o qual, moderno ou não, sempre nasce e se inscreve numa hegemonia.

A narrativa intricada de Neto aproxima-se do thriller, com episódios em crescente tensão até ao encontro com Luca, que se submete voluntariamente às transformações do dispositivo. Porém, as boas intenções têm o destino habitual: a degradação que espreita na ponta das tecnologias de ponta. Tiro, culatra.


O desenho de Sofia Neto equilibra uma linha nervosa, quase titubeante, com a solidez das figuras que esculpe. Os gradientes de cinzento e azul conferem ao trabalho uma presença elétrica, clínica, até cínica. A composição das páginas sóbria está menos interessada em pirotecnia gráfica do que na atenção aguda às relações entre personagens; imbricado na trama, observa-se o aumento gradual do toque físico: o conhecimento buscado encontra um caminho háptico, cada vez menos digital — ou melhor, eletrónico, já que o “dígito” permanece. Luca resume: “as transformações são todas físicas”. A ontologia humana não se desprende da sua maior materialidade: a do corpo.



A exposição de banda desenhada cumpre um duplo propósito: estimular a leitura e fabricar um tempo distinto, de observação e contemplação dos gestos e expressões que antecedem o burilar final. Essa faceta intensifica-se pelo acesso a elementos “arqueológicos” do processo criativo, lembrando que a vida da obra reside na sua reprodutibilidade técnica. O “original” não existe; apenas vestígios dos pré-gestos que o livro, como texto total, constitui.

Onde está o “original” de Ana?


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