Como sabemos, o género literário conhecido como “ensaio” foi cunhado e fundado por Montaigne, a partir da noção de exagium, que significa “exame” ou “pesagem”. Não se trata de um exercício de escrita que pretenda fechar-se como afirmação ou totalidade, mas antes como contínua interrogação do objecto a que se dedica, algo que vai pensando à medida que escreve. Essa sua natureza instável, subjectiva, fragmentária, e por isso capaz de expressar uma autonomia face à realidade a que se dirige, torna o ensaio numa sempre estimulante e espiritual leitura, numa construção mútua. Isto é, o leitor também se interroga.
Francisco Sousa Lobo é um autor que tem criado formas investigativas que tornam a banda desenhada num instrumento desse pensamento ensaístico. Se tem livros de banda desenhada de ficção, de autobiografia e de objectos pelo meio, também outros se revestem dessa película do “ensaio”, muitas vezes virado para a figura do próprio autor, a titulo de exemplo o livro Deserto/Nuvem, outras para temas semi-externos, como Gente Remota. Aliás, é com este livro que Aldeamentos vem criar um outro elo quase directo. Gente Remota é um dos poucos livros de banda desenhada contemporânea portuguesa que utiliza o “assunto” das Guerras Coloniais (e já é tempo de começarmos a empregar outros termos, como Guerras pela Independência) não tanto para criar uma situação fictícia mais ou menos formulaica para, apenas aparentemente, pensar esse período, mas para criar uma dolorosa fotografia da situação actual, de como os crimes se misturaram com o silêncio e, assim, mais infectados ficaram, tornando quase impossível uma retrospectiva clara, nítica e objectiva. Será alguma vez possível? Duvidamos. (Mais)
O presente volume é fruto de uma colaboração do autor com um
projecto de investigação académico, dedicado à arquitectura e urbanismo, e mais
precisamente aos aldeamentos construídos “à pressa” nos territórios de Angola,
Moçambique e Guiné-Bissau, nas décadas já conturbadas pelos conflitos nas fronteiras
com outros países, entretanto independentizados. Textos de envolvidos, em
prefácio e posfácio, contextualizam todas as questões. Tratou-se de uma
ocupação do território efectiva, e não mítica, mas pouco eficaz; não apenas em nada
estancaria o processo inevitável, mas que tornaria apenas mais dolorosa a vida
de todos os envolvidos.
Esse projecto consistiu em entrevistas a pessoas que lá viveram, que para lá foram enviados, os “aldeados”, e cujas relações são muito diversas. Reportagens in loco, levantamento de informação, fotografias e vídeo, consulta de documentação histórica, militar, emprego de imagens da época, inclusive de propaganda, todo um manancial de materiais que tentam moldar uma perspectiva “objectiva”.
Lobo não ilustra as entrevistas, nem as utiliza como base de
uma reconstrução romanceada ou fictícia. Elas são re-encenadas sob a forma de
uma banda desenhada, e esta explode em vários modos, navegando nessas muitas
camadas distintas de materialidade, sem nunca deixar de as tornar transparentes
e presentes.
Uma das secções entrevista João, da Guiné-Bissau. Essa
secção começa da seguinte forma: “O próximo entrevistado pega na caneta e desenha”.
Veremos partes desses desenhos, ainda que “traduzidos” por Lobo pelas suas
próprias mãos. O texto ficará cheio de deícticos: “era assim…”, “os abrigos
eram assim.”, “construía-se assim” e, tal como ocorre no passe de mágica de O
principezinho de Saint-Exupéry, a palavra esgota-se na sua forma verbal e
obriga a que o sentido desague e se materialize na imagem vista e lida.
As formas das figuras hirtas, esboçadas, os cenários quase minimalistas, a cor limitadíssima, a composição ortogonal recorrente, o emprego das linhas febris, não-representativas, e despedidas dinamicamente, os ângulos dramáticos, toda uma assinatura a que o autor já nos habituou, em nada retiram o poder da presença destas vidas e experiências. Há um maior aproveitamento de efeitos de referencialidade, naturalmente, com o uso de retratos mais precisos de certas figuras históricas e/ou citadas, de posters e banda desenhada da época (Contra a Escravidão, Pela Liberdade de Henrique Abranches).
Esta co-responsabilização entre texto e imagem, sequência e
imagem efectiva, fluidez da narrativa e concretude do desenho, está presente em
todo o projecto, claro, mas aqui ganha uma dureza mais que visível. Exige que
vejamos, que leiamos, compreendamos, e possamos até, quem sabe, reviver. É aqui
que se demonstra que a intervenção do autor de banda desenhada não é uma mera
estratégia de divulgação, pedagogia, facilitação mas de dar a ver e a pensar de
uma forma engajada todo assunto das vidas das pessoas tocadas.
E, para nós, leitores portugueses, obriga a que pensemos no que significa precisamente essa identidade, face a uma história recente, viva, herdada. Orgulho e responsabilização, assunção e empatia, que apaguem certos discursos a-históricos e de novo mitificadores que muitas vezes se fazem sentir nos nossos dias. Curiosamente, talvez seja por isso que o autor cria uma moldura na sua parte em torno da (re)leitura do poema homérico da Ilíada como um “poema da força”, nas palavras de uma sua outra leitura favorita, Simone Weil. Que força é essa?, apetece perguntar, para que nasça a capacidade de entender a que verdadeira força não reside na sua potência de uso, em permanente desequilíbrio, mas na compreensão de que ela pode ser equalitária e, nisso, nos deveria fazer pugnar pelo equilíbrio da igualdade.
Nota final: agradecimentos à editora, pela oferta do volume.





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