23 de maio de 2017

Mazzeru. Jules Stromboni (Casterman)

De acordo com uma crença da cultura autóctone da Córsega, os mazzeri (pl., singular mazzeru) são pessoas que têm um dom profético da morte de alguém da sua comunidade, por via de sonhos, o que remete desde logo a práticas provavelmente muito antigas e irmanáveis com algumas das estruturações experienciais dos (vários tipos de) xamanismos. Nesses sonhos, as pessoas imaginam-se caçando animais da natureza circundante – javalis, raposas, coelhos, cabras, etc. -, acto que revelaria o rosto daquele que depois morrerá. Como se poderá imaginar, crendo nestas possibilidades, a pessoa a quem cabe esta tarefa é tão integrada quando apartada da “normalidade” da sua sociedade. (Mais) 

22 de maio de 2017

Aurora. Felipe Folgosi et al. (Instituto dos Quadradinhos)

É provável que estejamos a observar um novo fôlego nas relações entre a banda desenhada brasileira e portuguesa nos tempos correntes. Se durante algumas décadas essa relação passava tão somente pela distribuição comercial de publicações made in Brasil (de produções locais ou norte-americanas, sobretudo), neste momento as acções desdobram-se em exposições, autores publicados em Portugal ou títulos brasileiros com uma recepção particular por cá. Não se poderá falar ainda de um equilíbrio mútuo, mas essas relações estão com efeito fortalecidas. Aurora parece ser mais um dos elementos que contribui para esse cruzamento, dada a forma como a editora tem procurado estabelecer contacto com agentes nacionais, inclusive este mesmo espaço. (Mais) 

19 de maio de 2017

Três Histórias Desenhadas. José de Almada Negreiros (Assírio & Alvim)

Este pequeno livro de bolso reúne as três mais longas histórias de banda desenhada que Almada criou para o jornal O Sempre Fixe, todas elas datando do ano de 1926, também as maiores que ele alguma vez criou (se bem que não as esgotam). São os seus títulos “Era uma vez...”, “O sonho de Pechalim” e “A menina serpente”. A edição em causa é criada a partir dos desenhos originais “que sobreviveram presentes no espólio do artista”, nas palavras de Mariana Pinto dos Santos, na nota final, e descritos por Sara Afonso Ferreira, na introdução, como estando num “caderno composto pelo autor que colou, em cada folha, um desenho numerado”. São essas circunstâncias físicas e apartadas do seu contexto original que permitem às editoras publicar as histórias com um desenho por página, o que reformula, de certa maneira, estas narrativas. Publicado no quadro da magnífica exposição patente na Fundação Calouste Gulbenkian ao escrever estas linhas, com curadoria de Mariana Pinto dos Santos e Ana Vasconcelos, a sua circulação pode ser vista, até certo ponto, como uma maneira de dar corpo às extensões polivalentes e multidisciplinares desta “revisitação” da obra de Almada, assim como a uma concretização física das especificidades desta obra em particular. Ela emergiu para existir como objecto reproduzido, dado à estampa. (Mais)

17 de maio de 2017

20/MAIO: 17h: "Da Iconofagia", encontro com Hervé Di Rosa, na NLF.

Car@s amig@s, no próximo Sábado, dia 20 de Maio, na Nouvelle Librairie Française, em Lisboa, decorrerá uma conversa entre o artista Hervé Di Rosa, figura fundamental de um certo "regresso à figuração" nos anos 1980 em França, e cultor da mais diversa produção de imagens, e este vosso criado. 
Estará patente uma pequena mas importante mostra bibliográfica e gráfica do autor, e a conversa rondará sobretudo as fronteiras diluídas pela sua arte entre territórios que muitos ainda forçam a estar separados.
Apareçam.



15 de maio de 2017

Martha & Alan. Emmanuel Guibert (L’Association).

Esta autobiografia tecida por um outro é um projecto notável. Uma vez que havíamos dedicado algum tempo ao debate do que significa em termos culturais este gesto de Guibert, o de criar vários livros “d'aprés les souvenirs d'Alan Ingram Cope”, em que a voz está na primeira pessoa mas toda a sua estruturação e mediação é feita por um “terceiro” (uma das palavras associadas à ideia de “testemunha” em termos etimológicos), remetemos às notas sobre o último volume de La guerre d'Alan e L'enfance d'Alan para compreender o pasto de onde emerge este novo livro. Todavia, Martha & Alan é uma criatura bem distinta, por questões formais, textuais e estilísticas. (Mais) 

13 de maio de 2017

Sticks Angelica, Folk Hero. Michael DeForge (Koyama)

Pensamos que este é o projecto narrativo mais longo do autor, se bem que ele não se apresente com uma estrutura tipificada de livro. Afinal de contas, trata-se de uma tira semanal (irregular, porém) publicada online ao longo de quase um ano (e ainda disponível aqui). E se existe uma história central unificada e quase-coerente, ao mesmo tempo existem consideráveis desvios, ”excreções” ou alterações do ponto de vista que permitem expandir a perspectiva sobre as situações graças a outras personagens que não a protagonista, Sticks Angelica, ou desarrumar a organização temporal. Seja como for, a forma como a “história” é fechada, com uma prolepse já depois da morte da personagem, torna todo o material numa unidade fechada e coesa. (Mais)

12 de maio de 2017

Les têtards. Pascal Matthey (L’employé du moi)

Ao olharmos agora para o conjunto de alguns dos seus livros, compreendemos que Pascal Matthey tem na autobiografia uma das suas preocupações centrais. Este pequeno volume vem na sequência de Le verre de lait, Pascal est enfoncé, do qual falámos largamente aqui, de Du shimmy dans la vision, e de outras pequenas peças espalhadas pelas mais diversas antologias. Conforme o que já havíamos discutido a propósito desse livro anterior, a equação entre autobiografia, auto-ficção, desvio autobiográfico, versão, etc. é algo elástica, e é tão necessária na sua categorização ou análise quanto supérflua na sua leitura. Depende, portanto, da escala de atenção. (Mais) 

3 de maio de 2017

Heavy Metal, l'autre Métal Hurlant. Nicolas Labarre (Presses Universitaires de Bordeaux) & entrevista no The Comics Alternative.

Por ocasião da leitura deste livro, entrevistámos o seu autor, na nossa colaboração com The Comics Alternative. A entrevista está disponível aqui. Uma vez que nesse outro texto tecemos outras considerações e a própria entrevista sublinha aspectos do livro de Labarre, ficam aqui apenas alguns outros apontamentos complementares. O foco deste livro são os primeiros anos da revista norte-americana Heavy Metal (HM), no quadro da sua relação directa com a influente publicação francesa Métal Hurlant (MH). Com efeito, a HM nasceu como um projecto editorial afecto à plataforma que publicava a National Lampoon, até certo ponto uma herdeira mas igualmente desvio da Mad magazine, e que tinha como objectivo a divulgação desse material europeu nos Estados Unidos. Todavia, até hoje a HM é vista como uma versão deslavada, necessariamente inferior, da Métal Hurlant: menos experimental, menos influente, mais atreita a géneros de pouca intensidade criativa (ficção científica e high fantasy “clássicas”) e um claríssimo propósito machista, com as suas capas de pinups. Não é que essa imagem seja totalmente injusta, mas o grande objectivo de Labarre neste volume é corrigir a exatidão histórica das relações entre as revistas e uma mediascape mais alargada e, de certa forma, matizar o juízo sobre a revista americana, a qual criou “uma forma inédita nos Estados Unidos de negociar a articulação entre o underground e a banda desenhada de grande público” (207). (Mais)