25 de fevereiro de 2020

Filhos do Rato. Luís Zhang e Fábio Veras (Comic Heart/G. Floy)


À medida que o tempo avançar e a esmagadora maioria dos protagonistas da guerra colonial começarem a deixar este mundo, o processo da sua memória vai dando cada vez mais frutos, e poderá mesmo chegar ao espaço público. É algo que se tem verificado, como um padrão, noutras circunstâncias históricas. Se quase se pode falar de um “pacto de silêncio” feito por essa geração em relação àquela que imediatamente gerou, o tempo aproxima-se em que também os objectos da cultura popular – no caso, a banda desenhada -, começará a responder. Não vamos fazer aqui o enésimo exercício de listar os trabalhos desta disciplina que versaram este conflito. Nos últimos anos, OsVampiros teve algum impacto, se bem que escolheu um caminho da narrativa de género; Filhos do Rato afasta-se dessa abordagem mais espectacularizante, validando porém elementos fantásticos. (Mais) 

3 de fevereiro de 2020

Maximum Troll On. Benjamin Bergman (Mmmnnnrrrg)


A convergência da cada vez mais forte da capitalização de tudo, inclusive as culturas populares, que inclui as sub-cultura infanto-juvenil, geek, e high fantasy, e os modos como criam zonas de intersecção, levam a que seja sempre particularmente complicado conseguir escapar a certas fórmulas e tropos associados a géneros determinados. Este minúsculo livro, que junta quatro aventuras de dois aparentes cavaleiros de ar medieval, e cuja continuidade entre si é discutível mas uma clara possibilidade, cria elos mais o que óbvios com sagas como O Senhor dos anéis, e todos os textos derivados, da obra de R. E. Howard (Conan e Kull) e, mais recente, A Guerra dos Tronos

Porém, o autor está menos interessado em criar uma variação sobre esses temas, ainda assim contribuindo para esse edifício, no típico exercício de “resposta literária” que constitui os próprios campos temáticos, do que transformá-lo num quase independente exercício de retórica livre, experimental e alucinada. (Mais)

20 de janeiro de 2020

Toutinegra. André Oliveira e Bernardo Majer (Polvo)

A noção da é profundamente distinta da do conhecimento. A oposição pistis e gnosis é um pilar histórico no crescimento da filosofia da igreja cristã, e se ambos os conceitos indicam uma aceitação de ua lição como verdadeira, os modos de aceder a essa verdade são diferentes, distinguindo-se uma dimensão emotiva de uma outra racional. 


A razão pela qual arrolamos essa discussão filosófica, ainda que não a aprofundemos, é porque nos parece estar subjacente, de forma inconsciente, na matéria debatida pela intriga de Toutinegra, o mais recente livro escrito por André Oliveira, desenhado por Bernado Majer. Penso que não será ofensivo para com o artista assumir que este é um volume que à continuidade a muitas das preocupações e assinaturas temáticas de Oliveira, mas que queiramos acreditar que existirá aqui frutos de discussões entre os dois autores e contrintuso equilibrados. Um dos recorrentes temas do argumentista é a importância da dinâmica familiar, seja esta composta por que elementos forem. E é quando essa unidade social se rompe, está à beira da ruptura ou numa tensão significativa, que as suas narrativas se tecem. Oliveira encontra aqui uma maneira naturalista de escrever os diálogos, que com pouco caracterizam de forma magistral as relações entre as personagens e as suas inscrições sociais. (Mais)

17 de janeiro de 2020

Parícutin. Gonçalo Duarte (Chili Com Carne)


Pequena obra de estreia do jovem autor para além da sua produção fanzinística, Parícutin é um objecto invulgar e que dificilmente se poderá categorizar. Depois dos vários trabalhos curtos pela Lobijovem, Dor de Cotovelo e vários títulos colectivos da Chili Com Carne, Gonçalo Duarte aventura-se numa narrativa mais alargada, cuja coesão se encontrará mais numa veia poética e impressionista do que propriamente pela organização de elementos concretos e cartografáveis. (Mais)

5 de janeiro de 2020

Blake & Mortimer: Le Dernier Pharaon. François Schuiten, Thomas Gunzig, Jaco Van Dormael e Laurent Durieux (Blake et Mortimer)


Confessemos que não somos alheios a todo um complexo de nostalgia, que muitas vezes suspende a razão, a aprendizagem e o desenvolvimento dos conhecimentos, e se prende tão-somente a memórias de um tempo diverso, protegido, de regressão infantil, no qual apenas os prazeres epidérmicos e imediatos contavam. A banda desenhada, sendo uma linguagem ou forma artística cuja presença era garantida desde um primeiro momento, teve um papel absoluta e naturalmente fundamental. Ora, dessas leituras primárias, existirão muitos textos que foram sendo abandonados, esquecidos ou apagados precisamente pela maturação cultural e intelectual, mas outros deixaram os seus fantasmas. E a série Blake & Mortimer faz parte do pequeno grupo de fantasmas que sobrevivem. (Mais) 

13 de dezembro de 2019

Encantados e arruinados ante os restos do banquete. José Feitor (Imprensa Canalha)


É hoje lançado o volume que reúne a trilogia de José Feitor de livros com imagens e textos que perfazem um contundente "Fia-te na Virgem e não corras" a toda a humanidade. São esses livros dois que foram publicados anteriormente e de que demos conta, a saber, Uma perna maior que a outra e Pimenta no cu dos outros para mim é refresco. e um inédito, intitulado Ainda que fosses capaz, não o farias (Notas esparsas e incoerentes sobre aquilo que tem corrido mal), . Juntos, ganham título-mor: Encantados e arruinados ante os restos do banquete. Muitos dos desenhos originais destes livros, serigrafias associadas e fontes estiveram expostas na Tinta nos Nervos, entre 19 de Setembro e 16 de Novembro: A Mercadoria é Medonha, vai vender que nem ginjas. Nessa altura, produziu-se um texto para a folha de sala, que poderá servir igualmente de resenha ao novo capítulo e à obra em geral. Aqui o recuperamos e publicamos para toda a gente. O lançamento é hoje, às 18h30, na livraria-galeria Tinta nos Nervos.

28 de novembro de 2019

Comics Memory a 9,99

Serve o presente para informar que a Palgrave está a fazer uma enorme promoção dos seus volumes, inclusive monografias e antologias académicas sobre banda desenhada, entre os quais encontrarão Comics Memory. Archives and Styles, no qual colaborei e dei conta anteriormente. Mas há muitos outros volumes que poderão ser do interesse de outros leitores, desde aspectos económicos a temas específicos, tradições internacionais e abordagens formais. Mais informações aqui.

24 de novembro de 2019

Tequila shots. Claudio Yuge e Juan Burgos (Comic Heart)


Em muitos aspectos, este pequeno livro é, a um só tempo, um acto de nostalgia e de expiação para poder lançar um passo futuro. Através das várias informações (com algum excesso, talvez) veiculadas extratextualmente na publicação, as origens deste projecto remontam ao final dos anos 1990 quando os seus autores conviviam, na partilha da vida de estudantes universitários. Aliás, a própria história tematiza essa experiência, talvez mesmo enquanto exercício de auto-ficção, e integra em si mesma o mecanismo da sua origem. (Mais)

3 de novembro de 2019

Selva! Filipe Abranches (Umbra Livros)


O regresso de Filipe Abranches à banda desenhada é feito com um fulgor que faz colidir a nostalgia, a homenagem, a memória da banda desenhada e outros lazeres da infância (o modelismo, o radioamadorismo, os soldados de plástico, as leituras de aventura, os jogos paramilitares, as brincadeiras com bonecos e a mimetização de um certo discurso infantil, que por sua vez mimava o que se imaginava ser o linguajar dos adultos em filmes de guerra). Até certo ponto, Selva! é um livro para os miúdos que fomos. Todavia, é um livro para os miúdos que fomos enclausurados nos adultos que somos agora, e é possível observar, como a um tronco cortado, todos os anéis das camadas marcadas, e encontrarmos os nódulos que estiveram um dia no centro, e agora se perdem na polpa, deixando apenas a forma mais expansiva à sua volta. (Mais)

2 de novembro de 2019

O colecionador de tijolos. Pedro Burgos (Chili Com Carne)


Uma vez que havíamos escrito sobre este livro quando da sua edição original em francês, remetemos para esse texto, mas celebramos a sua publicação no seu idioma de partida. Agora que aparentemente a crise económica foi ultrapassada, mas as maleitas sobre o mercado imobiliário parece ter ganho estaleca para continuar a servir todos os interesses excepto o da habitação, o surgimento deste livro entre nós não podia ser mais ominoso. Ficam os votos para que crie alguma discussão, sobre o livro, claro, mas igualmente sobre o tema, tão bem explorado noutros círculos, como a Buraco, de que falaremos a seguir.