14 de agosto de 2018

Cicatriz. Sofia Neto (Polvo)


Ao acompanhar os trabalhos de Sofia Neto por um punhado de fanzines, não nos surpreende encontrarmos aqui e agora toda uma série de características comuns em termos de interesses temáticos, de tratamento das personagens, de lançamento das circunstâncias espácio-temporais para as suas ficções. Confessemos desde logo que esperávamos ver desenvolvidas de uma maneira mais coerente e musculada num trabalho de maior fôlego esses mesmos traços, como estaria prometido neste livro de 60 e tal páginas. Quer dizer, algo que satisfizesse o mecanismo mental que exige uma narrativa completa, satisfatória em todos os seus pormenores actanciais, e apresenta um desenlace claro, que nos liberta do próprio texto... Todavia, se Cicatriz confirma essas mesmas preocupações, interesses e inquirições, o seu desenvolvimento é algo comedido e limitador dessas expectativas, para nos obrigar a uma travessia e caça mais solitárias. (Mais)

13 de agosto de 2018

Comer/Beber. Filipe Melo e Juan Cavia (Tinta da China)


As origens deste pequeno livro são explicadas no seu prefácio, pelas palavras de Carlos Vaz Marques, na sua qualidade de editor da revista literária, também ela publicada pela Tinta da China, a Granta. Até certo ponto decalcada do seu modelo inglês, a Granta portuguesa acaba por ser um pouco mais confinada à “coisa” literária, ainda que inclua imagens por alguns dos mais conceituados ilustradores portugueses. Dito isto, porém, e apesar do prémio atribuído a João Fazenda, mesmo uma rápida consulta demonstrará que as mais das vezes essas mesmas imagens acabam por estar subsumidas aos princípios temáticos da publicação, e menos propensas a ganhar uma dimensão autónoma e conceptual como poderiam ter. Daí que o “direito à cidadania” da banda desenhada seja algo limitada e se tenha pautado pela força de circunstâncias e proximidade editorial dos autores, e não propriamente por uma abertura genuína e procura editorial por um diálogo, por exemplo, entre as pesquisas da literatura e da banda desenhada pelos temas propostos a cada número. (Mais)

10 de agosto de 2018

O espião Acácio. Fernando Relvas (Turbina/Mundo Fantasma)


Pelo que se entende publicamente, a organização desta antologia estava a ser preparada ainda em vida do artista, num momento em que Fernando Relvas se apercebia de duas coisas: por um lado, que não seria provável, devido à doença que o afligia, que voltasse a conseguir desenhar e dar vazão aos muitos projectos que estariam interrompidos, por outro lado, por estar consciente do interesse de vários quadrantes editoriais em “recuperar a memória” da sua própria obra (como gostamos de repetir aqui neste espaço esse trabalho de olhar para trás na história da banda desenhada de forma a consolidar uma tradição a partir da qual novos textos podem emergir). Demos conta aqui de Sangue Violeta, pela El Pep, e Rosa Delta Sem Saída, pela Polvo, que farão parte dessa tendência, a que se vem juntar este novo livro mas que apenas é o corolário da amizade e interesse contínuos e ininterruptos que os editores portuenses nutriram pelo autor e de um gesto que foi por eles fundado, na verdade, quando da edição, já em 1998, pelo SIBDP, do peregrino L123 + Cevadilha Speed. Poder-se-á dizer que é o atempado repescar de um projecto de longa data, num momento em que talvez haja uma melhor recepção e circulação destes objectos. Além disso, as duas exposições relativamente recentes de que foi alvo na cidade da Amadora [uma das quais organizadas por este vosso criado] serviram igualmente como mostra dilatada da sua imensa e variada produção, alguma da qual inédita ou por recuperar nestes moldes. (Mais) 

6 de agosto de 2018

Artigo em «Comics Memory. Archives and Styles»

Serve este post para informar que foi publicado um artigo nosso, intitulado "The Ever-Shifting Wall: Edmond Baudoin and the “Continuous Poem” of Autobiography", num volume acabado de editar, a saber, Comics Memory. Archives and Styles.

Este volume pertence à série Palgrave Studies in Comics and Graphic Novels, que se tem tornado uma das mais prestigiadas plataformas académicas especializadas de livros em torno de Estudos de Banda Desenhada, juntamente com as "presses" das universidades do Mississippi, Rutgers, Leuven, entre outras, pelo que é uma tremenda honra estar na companhia destes nomes e trabalhos.

27 de julho de 2018

Madoka Machina # 6. André Pereira (Polvo)


O projecto de maior fôlego, até à data, de André Pereira, chega ao fim. A sua leitura
não foi propriamente suave, uma vez que o autor apresentou uma narrativa não apenas densa na sua tessitura diegética como estruturalmente complexa, com laivos de experimentalismo na composição de páginas que obrigava a mudar de regime visual e e leitura a cada capítulo. Estamos em crer que a sua leitura de uma assentada, num putativo “livro” de quase 100 pranchas, revelará ser talvez mais compensador e a sua eficácia mais coesa. Todavia, essa coesão pela completude será ao mesmo tempo um convite a reler cada um dos números, e compreender quais as estratégias certeiras que levaram a essa opção, inclusive aquelas que têm a ver com a materialidade do projecto (isto é, não somente o que tem a ver com um ritmo de trabalho e exposição, recompensa financeira e de circulação, etc.). (Mais) 

26 de julho de 2018

Malditos Amigos/Que Deus te Abandone. André Diniz, com Tainan Rocha (Polvo)



Por razões de vária ordem, tentaremos experimentar notas mais breves de leituras de alguns títulos, já que se têm acumulado demasiados títulos nos últimos meses, e poucas oportunidades de nos sentarmos para escrever de forma consequente. Comecemos com dois livros da autoria do autor André Diniz, agora radicado em Lisboa, entre nós, pela Polvo. (Mais) 

18 de julho de 2018

Lá fora com os fofinhos. Mariana Pita (Chili Com Carne/O Panda Gordo)


Na lógica da colecção da Mercantologia (aqui com apoio d'O Panda Gordo), como havíamos aventado a propósito de Bruma, este volume reúne toda uma série de materiais que a autora havia publicado em formatos variados, de fanzines individuais a publicações antológicas e outros objectos, transformando essa oferta num conjunto coerente e coeso que poderá iluminar a assinatura de Mariana Pita, não apenas no que diz respeito à sua abordagem gráfica mas às suas preocupações de representação e temáticas. (Mais) 

13 de julho de 2018

Colaboração com a "Mundo Crítico".

Serve o presente post para anunciar que foi lançada oficialmente ontem o segundo número da revista Mundo Crítico, uma publicação da Associação para a Cooperação entre os Povos, que reúne uma série de entrevistas, ensaios e artigos em torno das questões da cooperação, colocando esta edição sob a égide do tema da "inovação".

Ora, deve-se este anúncio ao facto de que, a partir deste número, passamos a participar nesta publicação num papel duplo. Em primeiro lugar, contribuiremos com um ensaio que tanto procurará responder à temática proposta como possibilitando uma ligação, por mais ténue que seja, com a segunda parte, adiante explicada. A resposta ao tema, naturalmente, criará ligações com as matérias que mais nos ocupam o tempo. É por essa razão que nos focámos aqui no filme Black Panther, de Ryan Cooger, para auscultar uma das dimensões mais interessantes desse filme: a sua capacidade de re-imaginar um pais africano detentor de uma autonomia tecnológica total, permitindo, por sua vez, resgatar um poder identitário de uma imaginação africana não-subsumida a sistemas imaginados "de fora". Assim, escrevemos "Black Panther: deitar abaixo os obstáculos de imaginar outra coisa". 

Em segundo lugar, asseguraremos um papel de curadoria de uma nova secção de banda desenhada, intitulada "Ecos Gráficos", nas quais convidar-se-ão e coordenar-se-ão trabalhos inéditos de autores portugueses ou a viver em Portugal que respondam, de alguma forma, às mesmas preocupações temáticas. Nesta primeira aventura, Darsy Fernandes apresenta-nos a história de duas páginas "P.A.L.O.P."

Ficam aqui os agradecimentos ao Alain Corbel, pela possibilidade de contacto, e à Dra. Fátima Proença e a toda a equipa da ACEP responsável pela publicação.

1 de julho de 2018

Introdução à Filosofia em Banda Desenhada. Michael F. Patton e Kevin Cannon (Gradiva)


Na esteira de toda uma produção de livros de banda desenhada que procuram popularizar, sobretudo junto a um público mais jovem, ou alargado, ou apressado, etc., temas de alguma complexidade através de discursos mais simples mas não menos sistematizados e sempre com humor e a facilitação permitida pela camada visual, este livro é uma espécie de súmula da história da filosofia ocidental. De certa forma, Larry Gonick é o percursor imediato deste projecto, com os seus variadíssimos guias disciplinares e a sua História Universal, igualmente publicada pela Gradiva, a qual também lançou recentemente os primeiros volumes da colecção Pequena Bedeteca do Saber. Mas poderíamos citar ainda projectos tão distintos tais como Dinosaur Empire! ou os Science Comics para um público infantil, ou o projecto mais ensaístico de Jens Harder... (Mais) 

27 de junho de 2018

Ler BD: Curso de banda desenhada na Nextart.

Serve o presente post, tal como ocorreu nos dois anos anteriores, para informar todos os interessados que estão abertas as inscrições para os cursos de Verão na Nextart, entre os quais se encontra um curso breve de introdução à linguagem, estruturas e criação de banda desenhada, ministrado por este vosso criado. A primeira fornada ainda tem algumas vagas.

Caso estejam interessados, as portas estão abertas. Ou passem palavra.  

Mais informações directas aqui.
Nota: imagem de Sérgio Sequeira (estudos para projecto em curso)