18 de Outubro de 2014

As regras do Verão. Shaun Tan (Kalandraka)

Agora que o breve Verão é apenas uma pequena memória enterrada em dias cinzentos, de poucas abertas, regressar a um livro que o acompanhou de forma discreta e tranquila mas decisiva é necessário. Shaun Tan regressa, no nosso círculo de traduções, com um novo livro que explora os espaços não-ditos mas compreendidos epidermicamente na pele. (Mais) 

17 de Outubro de 2014

O espelho de Mogli. Olivier Schrauwen (Mmmnnnrrrg).

Quando mencionámos o novo projecto deste artista, Arsène Schrauwen, conhecíamos já a versão original deste livro, Le miroir de Mowgli, mas foi com surpresa agradável que descobrimos ter sido produzida esta nova versão, publicada em Portugal. Ela difere da primeira em termos de formato, ligeiramente maior agora (ver nota final), pela técnica de impressão (aqui risografia, com um excelente trabalho de acerto dos registos) e, consequentemente, pela cor (onde no original duas cores se complementavam – um amarelo mais torrado e um azul mais claro, dando origem a pontos de encontro de um vívido verde – aqui usa-se antes um laranja e um azul mais comedidos, levando a um ambiente mais sóbrio). (Mais) 

16 de Outubro de 2014

A pior banda do mundo (2 vols.). José Carlos Fernandes (Devir)

Num panorama de produção e distribuição de jornais a nível nacional, com vários diários e semanários de referência, e jornalismo da especialidade (futebol, entretenimento, etc.), não deixa de ser surpreendente que ainda sobrevivam determinados jornais de interesse absolutamente local, associados a uma mão-cheia de freguesias e que se dedicam a notícias que se circunscrevem a um espaço reduzido. Exemplos são o Ecos de Cacia ou o Jornal Torrejano. Focando em interesses culturais, gastronómicos, desportivos e políticos, ou outros, de um interesse comunitário, poderá parecer aos forasteiros matéria de indiferença, mas a sua leitura – sobretudo se fora de quaisquer elos - traz-nos sempre uma ideia de estranheza quase insuperável. O que não deixa de ser um estímulo para o pensamento sobre mundos paralelos, cujos ecos em relação ao nosso nos regressam distorcidos, mas ainda assim possibilitados de iluminar algum aspecto que se nos torna subitamente familiar onde era apenas estranheza ou desconhecimento, ou pelo contrário, que torna estranho aquilo que nos era quase natural. (Mais) 

15 de Outubro de 2014

Snow. Dieter Vdo (Bries)

De quando em vez surgem livros que aparentam em todos os aspectos serem livros infantis, não o sendo, ou enveredam por pequenos caminhos que parecem afastar-se desse território mais ou menos normalizado. Todavia, isso não impede que ele não seja sequestrado para esse tipo e leitura. (Mais) 

14 de Outubro de 2014

Terminal Tower. Manuel João Neto e André Coelho (Chili Com Carne)

Uma das preocupações dos autores e dos editores foi deixar claro o processo de fabricação deste livro, o qual, em vez de seguir uma mais costumeira organização, e até mesmo hierarquia, de papéis criativos, entre um texto primário seguido por imagens que a consolidem concretamente, houve antes uma tecedura a par e passo entre ambos os autores. Séries de imagens mais ou menos narrativas criadas pelo artista, articuladas com citações de vários autores que compõem uma constelação cultural mais ou menos coerente pela sua aparente anarquia de referências – escritores como Thomas Pynchon e William Blake, filósofos como Peter Sloterdijk, filósofos-escritores como Maurice Blanchot, estrategas como Giulio Douhet, e homens de uma ciência mortífera como Robert Oppenheimer – e diálogos densos (tudo em inglês), se não mesmo obtusos, como se não tivéssemos sido convidados para escutar as conversas em curso, compõem os quadros (ou capítulos) desarticulados de um mundo marcado por limites que jamais identificaremos de modo decidido e final. (Mais) 

12 de Outubro de 2014

Next Testament. Clive Barker, Mark Miller e Haemi Jang (Boom Studios)

Se bem que esta não seja a primeira experiência da escrita de Cliver Barker na banda desenhada, e ele próprio tenha-a criado já directamente, em tempos recentes com a continuação oficial das personagens originais de Hellraiser/The Hellbound Heart, este é o primeiro título em que apresenta material original e exclusivo para este meio expressivo. Next Testament não se baseia em nenhum livro ou esboço para filme, tendo nascido exclusivamente para a banda desenhada (no quadro dos desejos do editor da Boom). Na verdade, Barker conta com a ajuda de Mark Miller, um veterano da criação de cinema mas também de banda desenhada, e que já havia trabalhado nas versões de banda desenhada de Hellraiser. Neste caso particular, a personagem principal nasceu da imaginação de Barker mas com uma ajuda preciosa de Miller, e a escrita em si, o desenvolvimento da intriga e dos pormenores diegéticos foram lavrados por ambos. (Mais) 

9 de Outubro de 2014

Colaboração na Image and Narrative. Resenha a Comics and the Senses.

Tendo já falado alargadamente deste livro, e providenciado uma entrevista no seu texto respectivo, serve o present post para simplesmente indicar a publicação de uma review do mesmo livro, mas numa versão algo menor e em inglês na revista académica Image and Narrative.

Pour prende date.

Poderão aceder a esse texto directamente aqui.

7 de Outubro de 2014

Prémio Oficina do Cego.

Saberão alguns leitores que temos funções na Associação Oficina do Cego.

Recentemente lançámos um concurso para edições independentes, de toda a espécie, mas que poderá incluir a banda desenhada, a ilustração e outros territórios gráficos, e que visa a atribuição de 300 Euros.

Participem! Todas as informações aqui.

3 de Outubro de 2014

El Deafo. Cece Bell (Amulet Books)

Já noutras ocasiões falámos sobre a possibilidade de pensar a banda desenhada não tanto enquanto arte, uma disciplina expressiva passível de ser empregue para a criação de objectos estéticos, ora mais ora menos controlados por limites genéricos e experiências tradicionais, ou informados pelas mais díspares noções advindas de todo o campo cultural, mas como linguagem. Isto é, um conjunto mais ou menos expectável de elementos formais que pode ser empregue para outros fins, tais como os comunicacionais. É isso o que nos leva a compreender, por exemplo, certos usos de um estilo “industrial” ou “simples” menos numa ideia de reescrever a própria disciplina do que para fazer passar uma vontade (propaganda, publicidade, informação institucional). El Deafo viverá num território entre essas duas atitudes, que de resto jamais são estanques ou absolutas. (Mais) 

28 de Setembro de 2014

Comics. A Global History, 1968 to the Present. Dan Mazur e Alexander Danner (Thames & Hudson)

Permitam-nos uma história enlatada das transformações da memória da banda desenhada.

O facto da banda desenhada se ter desenvolvido, numa larga fatia da sua história, associada à imprensa, levou à noção de que ela mesma seria uma forma de arte necessariamente efémera, ou essencialmente constituída nessa sua efemeridade. À margem dos luxuosos álbuns publicados na Europa do século XIX que marcaram a sua primeira presença, e depois as acções de coleccionadores de tiras ou páginas de jornais durante a primeira metade do século XX, e algumas antologias em capas cartonadas, a esmagadora maioria da produção era votada à leitura de um só dia, e não propriamente a serem recompensadas pela possibilidade da releitura. Isso levou a que durante muito tempo a banda desenhada fosse sofrendo de uma espécie de amnésia, como escreveu Groensteen num seu livro, em que apenas fãs especializados conhecessem algo para além da produção da sua própria geração ou a anterior, muitas vezes até de modo diferente dos autores. Com as transformações editoriais, económicas e sobretudo estéticas que viriam a moldar uma nova vida da banda desenhada sob os formatos de livro, essa existência passou a ter outros contornos, mas a relação com o passado ainda se mantinha algo complexa, desagregada, isolada. Apenas mais recentemente é que uma tendência mais certeira tem assegurado uma recuperaçãoda memória, sobretudo através do acesso a edições integrais de determinadas séries, títulos ou autores. Mas a acessibilidade crescente aos textos que compõem essa história também implica a obrigatoriedade de um mapa. Comics, a Global History, é um desses mapas possíveis, e promete uma navegação suave e lata. (Mais)