20 de janeiro de 2017

Colaboração no du9. My Ogre Book, Shadow Theater, Midnight, de Marcel Broodthaers.

Como tem sido hábito, transmito aqui a indicação de que está disponível um artigo, na du9.org, sobre uma belíssima edição da Siglio que reúne três obras distintas de Marcel Broodthaers em tradução inglesa: dois livros de poesia e uma colecção de imagens, matérias transformadas num novo projecto que sendo antigo, nunca existira nesta forma. 

Broodthaers é uma referência fulcral da cultura belga moderna, e as suas pesquisas multímodas, acima de todas aquelas que auscultam as fronteiras porosas entre as imagens e a literatura, deveriam ser (e são-no) um modelo para aqueles que trilham o mesmo caminho.

A questão central que nos ocupa é menos a crítica da poesia ou dos projectos artísticos do artista, o que nos escaparia, do que este novo "agenciamento" proporcionado por um novo objecto-livro, que reapresenta um novo fôlego e vida a essas mesmas produções.

Como sempre, a tradução para francês esteve a cargo de Benoît Crucifix, a quem queremos deixar os mais vivos agradecimentos. Merci bien pour ta patience et ton amitié! 0

Link directo, aqui.

13 de janeiro de 2017

Pandora # 2. AAVV (Casterman)


Se em Portugal estamos a seco há décadas em relação a títulos regulares de banda desenhada cujas narrativas sejam publicadas em capítulos, ou que mesmo antologias de histórias curtas saiam somente de quando em vez e usualmente como gestos únicos ou limitados, o mesmo não pode ser dito de outros mercados mais consistentes financeiramente. Esta é apenas uma constatação de factos, não um juízo de valor, já que se tentam várias vezes reatar essas chamas por cá, com fortunas díspares mas quase sempre sol de pouca dura (mas trabalhos em si de qualidade). Em França, por exemplo, ainda há vários títulos que garantem a chamada “pré-publicação”, um pouco para todos os gostos, desde o mais mainstream (a Bodoï, depois transformada em webmag, a Lanfeust) às mais clássicas (Spirou) até mesmo às que servem o círculo independente (a Lapin, agora transformada em jornal). Mesmo assim, no panorama actual mais empobrecido na abordagem convencional – já que em termos de “reportagem em bd” a existência da Révue XXI e La Révue Dessinée apenas nos fará sonhar num mundo mais perfeito -, o surgimento de um título como Pandora encaixa-se num contexto de maior diversidade, mas terá certamente o seu papel. (Mais) 

8 de janeiro de 2017

O testamento de William S. Yves Sente e André Juillard (Asa)

Quando falámos de Sous le soleil du minuit, aventámos a toda essa prática contemporânea no interior do contexto específico da banda desenhada europeia, pautada sobretudo pela criação de “autor”, ou pelo menos de “personagens de um autor”), a que a crítica Jessie Bi havia chamado de profaçon, que a autora, especularmente, descreve recorrendo a outro conceito por ela assinado, a de uma plagionomia legítima. Quer dizer, de uma forma simples, a maneira como o “mercado”, de forma legítima, autoriza que uma obra, um estilo, uma voz, procure ser continuada por outros autores que não o original. Para nos atermos à história da arte ocidental, uma vez que outras estruturas civilizacionais e culturais poderão seguir outros passos bem distintos, e até ao longo da história práticas houve que sustentavam a “imitação do mestre”, aquilo que seria considerado um mero plágio, imitação, derivação, pálida sombra, etc. de um ponto originário na literatura, cinema, ou artes visuais, na banda desenhada é vista como uma “nova vida” para as “queridas personagens”. Nem sequer estamos a falar de pastiches, que são exercícios legítimos e sempre de uma distanciação crítica em relação ao original, provocando sempre uma noção de comparação automática. Mas de uma verdadeira “continuidade”, em que, apesar de tudo, se particulariza a “biografia ficcional” das personagens como se fosse verdadeira. (Mais)

6 de janeiro de 2017

Repeteco. Bryan Lee O'Malley (Companhia das Letras)

Depois do sucesso estrondoso, a nível comercial mas também crítico, de Scott Pilgrim (para o qual terá contribuído sobremaneira a adaptação cinematográfica exemplar de Edgar Wright, tendo nós falado de ambos anteriormente), O'Malley parece ter querido trabalhar temas um pouco mais graves, sem abdicar porém do seu registo visual de “mangá-via-Ocidente”, numa espécie de linha clara, aqui ainda mais sublinhada pelo uso de cores planas para a maior parte das superfícies, gradientes nos momentos certos, linhas coloridas para cenas específicas, e um equilíbrio exímio entre a abordagem estilizada, os momentos chibi, e os pormenores realistas e pormenorizados. Seconds, ou na tradução aqui lida, Repeteco, reitera um tema recorrente do autor – a personagem ligeiramente deslocada de uma certa ideia de “normalidade”, mesmo que dentro de um contexto onde todos afirmam diferenças dessa suposta “norma”, a qual acaba muito diluída. No caso, trata-se de uma jovem chefe de cozinha, Katie, embrulhada numa complexa encruzilhada da abertura do seu novo restaurante, as suas relações profissionais e amorosas e, o que perfaz o cerne da intriga, o seu encontro com uma dimensão fantástica. Nesse “crescimento”, quase faria pensar em Jeff Smith, mas onde Bone é uma obra quase perfeita e RASL menos conseguida, por ser um salto que se move entre géneros mas não entre concentração dos instrumentos, a relação entre Scott Pilgrim e Seconds é a de um desabrochar de uma linguagem interna. (Mais) 

5 de janeiro de 2017

28 de Janeiro: Seminário Banda Desenhada e Pensamento Político: Sessão 3

Na continuidade do Seminário que antes enunciáramos, temos o gosto de vos convidar a aparecer e participar na próxima (3ª) sessão, desta vez dedicada à banda desenhada de super-heróis e o modo como elas respondem à questão das utopias, distopias e eutopias, assim como os contornos éticos pelos quais, historicamente, se balizaram, ultrapassaram, desrespeitaram ou tentaram suportar. 

Desta forma, o convidado é José Hartvig de Freitas, sobretudo na sua qualidade de editor (mas também promotor, tradutor, etc.) de alguns dos títulos de super-heróis de maior peso que têm sido publicados entre nós recentemente, como são os casos da "trilogia desconstrutiva" de Alan Moore et al., Miracleman, V for Vendetta e Watchmen. Participa ainda o investigador e coordenador do Seminário, Helder Mendes e este vosso criado como moderador.

Apareçam!

29 de dezembro de 2016

Oupus 6. AAVV/Oubapo (L’Association)

Este livro vem assinalar, de certa forma, um aniversário “redondo”, uma vez que os primeiros passos do movimento Oubapo, ou Ouvroir de la Bande Dessinée Potencielle, ou “Ateliers da Banda Desenhada Potencial”, foram dados há um quarto de século, tendo dado a uma colecção de volumes por esta editora, colectivos e projectos individuais, mas igualmente workshops um pouco por todo o mundo, com ou sem os seus agentes originais, discussões académicas, estratégias integradas na produção “normal”, etc. Influenciados pelo mais famoso movimento literário da Oulipo, a Oubapo tenta criar formas de trabalho que partem não tanto de uma “ideia diegética” ou “representacional”, mas antes de uma qualquer formulação estrutural, formal, que deve ser resolvida depois. Um jogo de regras pré-estabelecidas que depois se deve solucionar. Um labirinto construído pelos próprios ratos que devem escapar (Queneau). Tudo palavras dos intervenientes… Em larga medida exercício de salão, não deixa ainda assim de provocar um pensamento reflexivo sobre esta arte em particular, acto de extrema importância quando esta linguagem corre o risco de parecer “demasiado familiar”. (Mais)

26 de dezembro de 2016

Espero chegar em breve. Philip K. Dick e Nunsky (Mmmnnnrrrg)

O isolamento criativo dos autores, mesmo numa cena incipiente como a portuguesa, poderá dar francos frutos. Num curto período, o elusivo Nunsky, que havia apresentado uma fulgurante mas fugaz novela com “88”, que ocupara todo um número do fanzine mutante Mesinha de Cabeceira, há 20 anos, regressou para apresentar toda uma bateria de trabalhos acabados, coesos, densos, inteligentes e graficamente vincados, cada qual com a sua própria personalidade de humor, género, tradição, e exigência de leitura. “Espero chegar em breve” é o terceiro desses gestos, compaginando-se igualmente como totalidade do último número da mesma série de fanzines indicada cima (o 28º número, cujo formato e capa texturada o torna como se fosse uma brochura dos serviços intergalácticos no interior). Desta feita, trata-se de, numa descrição simples, como reza na própria capa, uma “adaptação do conto de Philip K. Dick”, cujo título original é “I hope I shall arrive soon”, apesar da sua versão primeira ter tido um nome mais prosaico, “Frozen Journey”. (Mais)

23 de dezembro de 2016

Si Lewen’s Parade, An Artist’s Odyssey (Abrams)

Si Lewen, que viria a falecer algum tempo depois da produção deste livro, foi um pintor norte-americano que é muitas vezes agregado a essa imensa família do “expressionismo abstracto” desse país, se bem que não conste da primeira linha de artistas que usualmente se citam. Não tendo o mesmo papel no palco internacional que outros nomes mais sonantes, a sua presença não é de forma alguma displicente nesse contexto, e algumas das suas obras ocupam um espaço interpelante, vincado, significativo, e até original, mesmo que esta palavra tenha hoje um valor diluído. Oscilando entre a figuração e a abstracção, herdando dos cubistas muitas vezes a presença dupla dessas forças num só plano de composição, os jogos de referencialidade com o mundo, e jamais abdicando do “sentido”, transmitido quer pela figura, quer pelo título (se bem que muitas telas sejam baptizadas com “Sem título”) quer pela coordenação de séries, Lewen é um autor que, descoberto de atacado, faz-nos ponderar até que ponto a História da Arte, tal como é estruturada e transmitida pelos seus canais mais usuais, não é ainda um projecto de uma incompletude estrondosa, quiçá mesmo impossível. Acresce a isto a produção de objectos ou obras que possam ser re-agregadas pela História da Banda Desenhada, e ainda se torna mais complicada a sua integração… (Mais) 

21 de dezembro de 2016

Como viaja a água. Juan Díaz Canales (Arte de Autor)

Este projecto a solo do argumentista da famosa série Blacksad é, a um só tempo, talvez estranhamente sem paradoxo, uma obra niilista e uma esperança positiva. Apesar de podermos falar de um protagonista, o velho Aniceto, de 83 anos, a verdade é que as acções estão concertadas numa geometria de afectos muito particular, numa primeira escala entre os compinchas de Aniceto, e em segundo lugar, em círculos complexos de distância e proximidade, o seu filho e o seu neto, e a mulher grávida deste. Com efeito, a uma primeira visão, a acção dirá respeito às acções levadas a cabo por Aniceto, Longinos, Urbano, Godofredo e Teodoro (nomes que numa pincelada quererão revelar um outro momento da história de Espanha) e que os colocará numa senda algo perigosa. Noutra escala, tratar-se-á das relações que Aniceto estabelece com os seus familiares, alimentadas de tensões, incompreensão, boa vontade, pequenos erros e todos aqueles pequenos desastres que alimentam a vida de todas as famílias. Mas é o coração de Aniceto que informa toda a trama, no fundo. (Mais) 

19 de dezembro de 2016

Rose Profond. Jean-Paul Dionnet e Pirus (Casterman)

Há algo de profundamente desconcertante ao sermos confrontados com mundos demasiado perfeitos, em que não há espaços para sombras ou as próprias sombras são inócuas logo à partida. Talvez tenha a ver com o facto de que a esmagadora maioria das histórias tradicionais sempre tiveram um substrato de violência e horror, depois higienizado ao longo do século XIX e para mais no século XX ao passarem pelos filtros moralistas e materiais de meios como a banda desenhada e a animação, mormente aqueles exclusivamente dedicados aos leitores e espectadores mais novos. Se houve caso de estudo para “o regresso do reprimido”, ei-lo. A emergência dos universos Disney, sobretudo, levariam a esse desejo de o conspurcar o mais rapidamente possível. Senão, veja-se a rapidez com que estas personagens encontraram espaço nas Tijuana Bibles. (Mais)