18 de maio de 2016

Disaster Drawn. Hillary Chute (Belknap/Harvard)

O novo livro de Hillary Chute é dedicado à banda desenhada não-ficcional, e mais especificamente a formas da banda desenhada que criam narrativas associadas ao acto de testemunhar atrocidades, de forma a não deixar que elas desapareçam não apenas dos anais da história como da experiência imediata das comunidades. Autobiografias, biografias dos outros, modos documentais, reportagens, o escopo de Chute é tão alargado quanto concentrado, como veremos, para demonstrar como a banda desenhada é um meio particularmente apto, ou apto de maneiras particulares, para a “devolução de vozes” das vítimas de processos históricos. (Mais)

15 de maio de 2016

Will Eisner. Champion of the Grahic Novel. Paul Levitz (Abrams Comicart)

Independentemente de se querer atribuir quase poderes sobrenaturais de invenção e paternidade de uma forma de arte, ou o/um modo de a cumprir, a uma só pessoa (o que ocorre com nomes tais como Töpffer, Hergé, Bordalo, Tezuka, etc.), de se querer arvorar quase de modo absoluto e descontextualizado uma determinada obra em todo um complexo campo de produção, de se querer mesmo apreciar essa mesma obra de forma acrítica e ahistórica, tem de haver um momento em que se ponderará com atenção o significado dessa mesma herança. Todavia, mesmo que se queira diminuir esse mesmo valor em nome de uma maior diversidade actual, não se pode negar que os trilhos são abertos por vezes por percursores que não terão necessariamente de ser amados na sua completude. Will Eisner é um desses nomes, uma dessas obras, um dos percursores. Este livro é cuidadoso no seu título a não se abandonar em ideias de paternidades e absolutos, mas é claro quanto ao papel que deseja sublinhar do autor norte-americano.

13 de maio de 2016

Chiisakobé. Minetarô Mochizuki (Le lézard noir)

O filósofo alemão Walter Benjamin distinguia duas formas de experiência, que não apenas eram expressas por duas palavras alemãs diferentes – a saber, Erfahrung e Erlebnis - como se associavam a quadros diferenciados que se dividiam num momento pré-moderno e moderno. Em variadíssimos dos seus escritos, desde os ensaios publicados em vida ao seu grande e inacabado projecto das Arcadas, a um só tempo Benjamin lamentava o desaparecimento da Erfahrung como celebrava também a modernidade. De maneira forçosamente sumária, expliquemos que a Erfahrung está associada a uma profunda relação entre a memória e comunidade, o que permitia que ela mesmo fosse narrada como um fluido (o seu ensaio sobre “O contador de histórias” é fundamental para entender isso); pelo contrário, a Erlebnis expressaria uma experiência mais fragmentada e imediata, cuja forma de expressão se encontra no “choque” das notícias curtas, rápidas e sucessivas, as quais na era da internet ganham uma velocidade, mas igualmente uma volatilidade, exponencial. É esse estímulo exagerado que leva à, nas suas palavras, “atrofia” da Erfahrung, abrindo espaço para aquele torpor cujo nome medieval é a acédia. Uma espécie de passividade, apatia, derrotismo até, que impede a pessoa de reagir de modo mais acabado à situação em que se encontrará. Um aborrecimento derrotador, em vez de um aborrecimento entendido como oportunidade de contemplação da vida e compreensão profunda da condição humana.  (Mais) 

10 de maio de 2016

Vários títulos. André Oliveira et al. (Kingpin/Polvo)

De certa forma, não será alheia a co-organização de uma pequena exposição dedicada a André Oliveira na Bedeteca da Amadora ao lavramento do presente texto. Se é certo que essa exposição, produzida pelo Festival da Amadora, não teve o nosso contributo, a sua re-integração num expectável ciclo dedicado a argumentistas – uma noção que foi tentada várias vezes junto a instituições, sempre incumpridas – deve-se a um entendimento que, sem querer de forma alguma colocar o trabalho e contributo absolutamente fulcral dos artistas em detrimento, a concentração no escritor poderá revelar características específicas não apenas ao trabalho da banda desenhada como à personalidade criativa destes autores, e à sua mundividência “completa” (contra a ideia de “autores completos” e “incompletos”). Ao abordarmos toda uma série de títulos que, até agora, ficaram sem leitura neste nosso espaço, não deixaremos de repetir o mesmo gesto. (Mais) 

8 de maio de 2016

Dois livros do Mickey Mouse. Cosey/Trondheim-Keramidas (Glénat)

Os dois álbuns de que falaremos pertencem a uma outra série, de que se prevêem para já quatro títulos (sendo estes os dois primeiros, mas existindo já material de Loisel acessível na internet, promissor), nas quais autores centrais ou importantes da tradição “franco-belga” da banda desenhada têm carta-branca para criarem histórias com as personagens mais famosas da Disney. Este gesto tem de ser entendido de modo bem diverso daquele que faz parte da prática comercial da Disney nas suas produções internacionais, nomeadamente no Brasil, Itália e Dinamarca, na qual se procura instituir um “estilo da casa” que é seguido pelos autores contratados. O que se procura nesta série, tal como no caso de Le Spirou de…, Une aventure de Chlorophylle par...‏, Lucky Luke vu par… ou até mesmo a colecção Graphic MSP, é que os autores convidados tragam a “sua” assinatura (o estilo do desenho, as abordagens narrativas, as estratégias mais típicas, etc.) para o campo das personagens, criando como que uma inflexão autoral no território mainstream. (Mais)

7 de maio de 2016

L’homme qui tua Lucky Luke. Matthieu Bonhomme (Dargaud)

Em conjunto com Benoît Crucifix, temos desenvolvido um projecto académico em torno do conceito do “arquivo” em relação à banda desenhada. Trata-se de uma noção complexa e multifacetada, podendo ser descrita de várias formas, tendo em conta as práticas englobadas por essa ideia. Uma dessas dimensões foi alvo de um estudo nosso (no prelo) em torno da figura de Spirou, que nos parece estar a ser repetida, de modos diferentes, não apenas no título alvo deste post como do próximo, dedicado ao Mickey Mouse desenhado por autores centrais da banda desenhada dita franco-belga. O arquivo é uma noção que foi debatida de forma estimulante por autores tais como Foucault e Derrida, e tem encontrado uma fortuna particular nos estudos literários e culturais, cuja influência na leitura interpretante da banda desenhada é consabida: é nesse sentido particular que arquivo não vale apenas pela instituição com esse nome como todas e quaisquer práticas de transmissão do passado, com tudo o que implica no que diz respeito aos processos de inclusão, exclusão e reinvenção do passado. O reaproveitamento de uma personagem como o Lucky Luke, de Morris, não deixará decerto de revelar uma qualquer forma de colocar à disposição e transmitir o passado, e como o articular enquanto discurso. (Mais)

30 de abril de 2016

As aventuras de Fernando Pessoa, escritor universal... Miguel Moreira e Catarina Verdier (Parceria A- M. Pereira)

Não é a primeira vez que Fernando Pessoa se vê a si mesmo ou aos seus poemas transmutados em matéria passível de uma vida gráfica, seja ela em banda desenhada, ilustração ou outras disciplinas que partilham fronteiras com campos considerados, as mais das vezes, como populares. Todavia, a sua presença é usualmente a de uma personagem em passagem, um fantasma que traz algum peso de referência a uma história que não lhe dirá respeito de forma directa (nós próprios o fizemos numa história curta, lavrada há uns meses). É possível que uma das mais marcantes presenças neste território tenha sido quando interrompeu o fluxo dos Piratas do Tietê, de Larte, num dos episódios mais memoráveis de quem os lia à época. E mais recentemente, foi alvo de uma fantasia genérica no projecto A vida oculta de Fernando Pessoa, de André Morgado e Alexandre Leoni, sobre o qual esperamos alguma vez escrever. Para além disso, e para não entrarmos no campo do cinema, recordemo-nos como não apenas David Soares teceu uma teia alternativa e mistérica com o romance A conspiração dos antepassados, mas já antes Pessoa se havia digladiado com um inimigo portentoso num livro que fez algum furor num pequeno círculo literário no final dos anos 1980: Fernando Pessoa contra o Homem-Aranha e outras istórias, de Rui de Souza Coelho. A pessoa fictícia do Pessoa real, seja ele qual for, não é alheia a estas dimensões. (Mais)

29 de abril de 2016

Feira Morta/ZDB: Quireward & outros zines.

Serve o presente post para pura publicidade. 

Apesar de já termos posto a circular numa anterior Feira Morta a publicação Quireward (graças ao apoio do Clube do Inferno), é amanhã que será feito o seu lançamento oficial (e aqui, virtual). A nova Feira Morta decorrerá Sábado 30 de Abril e Domingo 1 de Maio, entre as 15h e as 20h, na galeria ZDB, ao Bairro Alto, Lisboa.

A Quireward é uma publicação da nossa lavra, publicada pela Montesinos. Um fanzine risografado (impresso a azul) de 24 páginas de banda desenhada, em inglês, o primeiro número conta com uma história curta completa escrita por nós e desenhada por Mao, o primeiro capítulo de três de uma outra também escrita por este vosso criado e desenhada pelo Sérgio Sequeira, e ainda a primeira parte de duas de uma adaptação da lenda da Dama de Pé-de-Cabra por Ricardo Santo. A capa "wraparound" é do André Pereira, e o design dos Playground. 

Para além da Quireward, a Montesinos lançará uma pequena colecção de contos ilustrados, e terá à venda outras publiações. Estaremos na mesa da Oficina do Cego. 

Será também a estreia mundial de várias publicações de Juno Moura, entre bandas desenhadas narrativas (A princesa Sara e o passarinho bebé), um livro de etiqueta (capa aqui ao lado) e um livro-jogo. Fanzines fotocopiados a cores, foram produzidos totalmente de forma autónoma. A própria estará presente na Feira no Sábado.


27 de abril de 2016

La république du catch. Nicolas de Crécy (Casterman)

Este é mais um desses projectos que poderá ser entendido como de crossover, no sentido em que não é apenas um projecto de produção transnacional como onde duas linguagens supostamente distintas se nutrem uma da outra para criar um espaço de encontro. Com efeito, se se acreditar que existe uma divisão clara entre a banda desenhada ocidental, mormente francófona, e japonesa (não existe), poder-se-iam arrolar características antagónicas ou diversas para depois nos surpreendermos com a sua passagem. Todavia, essa seria uma visão redutora e não de continuidade e de cruzamentos recorrentes. Ainda assim, aceitar-se-á que os modos de produção e circulação da banda desenhada, em termos gerais, é algo diferente entre esses dois países, o que influencia algumas das práticas, mesmo ao nível do desenho, mas seguramente que na forma de comunicação com o público. (Mais) 

23 de abril de 2016

Os figos são para quem passa. João Gomes de Abreu e Bernardo P. Carvalho (Planeta Tangerina)

Num tempo em que perigosamente a distribuição e acesso a todas as facetas da vida na Terra é compartimentada por direitos de propriedade estanques, sopesar alternativas de relacionamento não é apenas importante como compulsório. A patenteação de produtos agrícolas, até hoje “livres” e “naturais”, a privatização da água, a re-confirmação de fronteiras intransponíveis, a hierarquização de importâncias conforme o poder (económico, militar, social), e a relativização cultural de valores éticos que, sendo esgrimíveis, devem ser claros, são apenas alguns dos escolhos lançados na tempestade dos tempos contemporâneos. Uma pequena distância crítica e mecanismos ficcionais, mesmo que simples (mas não simplistas), é de uma utilidade extrema. (Mais)