30 de abril de 2016

As aventuras de Fernando Pessoa, escritor universal... Miguel Moreira e Catarina Verdier (Parceria A- M. Pereira)

Não é a primeira vez que Fernando Pessoa se vê a si mesmo ou aos seus poemas transmutados em matéria passível de uma vida gráfica, seja ela em banda desenhada, ilustração ou outras disciplinas que partilham fronteiras com campos considerados, as mais das vezes, como populares. Todavia, a sua presença é usualmente a de uma personagem em passagem, um fantasma que traz algum peso de referência a uma história que não lhe dirá respeito de forma directa (nós próprios o fizemos numa história curta, lavrada há uns meses). É possível que uma das mais marcantes presenças neste território tenha sido quando interrompeu o fluxo dos Piratas do Tietê, de Larte, num dos episódios mais memoráveis de quem os lia à época. E mais recentemente, foi alvo de uma fantasia genérica no projecto A vida oculta de Fernando Pessoa, de André Morgado e Alexandre Leoni, sobre o qual esperamos alguma vez escrever. Para além disso, e para não entrarmos no campo do cinema, recordemo-nos como não apenas David Soares teceu uma teia alternativa e mistérica com o romance A conspiração dos antepassados, mas já antes Pessoa se havia digladiado com um inimigo portentoso num livro que fez algum furor num pequeno círculo literário no final dos anos 1980: Fernando Pessoa contra o Homem-Aranha e outras istórias, de Rui de Souza Coelho. A pessoa fictícia do Pessoa real, seja ele qual for, não é alheia a estas dimensões. (Mais)

29 de abril de 2016

Feira Morta/ZDB: Quireward & outros zines.

Serve o presente post para pura publicidade. 

Apesar de já termos posto a circular numa anterior Feira Morta a publicação Quireward (graças ao apoio do Clube do Inferno), é amanhã que será feito o seu lançamento oficial (e aqui, virtual). A nova Feira Morta decorrerá Sábado 30 de Abril e Domingo 1 de Maio, entre as 15h e as 20h, na galeria ZDB, ao Bairro Alto, Lisboa.

A Quireward é uma publicação da nossa lavra, publicada pela Montesinos. Um fanzine risografado (impresso a azul) de 24 páginas de banda desenhada, em inglês, o primeiro número conta com uma história curta completa escrita por nós e desenhada por Mao, o primeiro capítulo de três de uma outra também escrita por este vosso criado e desenhada pelo Sérgio Sequeira, e ainda a primeira parte de duas de uma adaptação da lenda da Dama de Pé-de-Cabra por Ricardo Santo. A capa "wraparound" é do André Pereira, e o design dos Playground. 

Para além da Quireward, a Montesinos lançará uma pequena colecção de contos ilustrados, e terá à venda outras publiações. Estaremos na mesa da Oficina do Cego. 

Será também a estreia mundial de várias publicações de Juno Moura, entre bandas desenhadas narrativas (A princesa Sara e o passarinho bebé), um livro de etiqueta (capa aqui ao lado) e um livro-jogo. Fanzines fotocopiados a cores, foram produzidos totalmente de forma autónoma. A própria estará presente na Feira no Sábado.


27 de abril de 2016

La république du catch. Nicolas de Crécy (Casterman)

Este é mais um desses projectos que poderá ser entendido como de crossover, no sentido em que não é apenas um projecto de produção transnacional como onde duas linguagens supostamente distintas se nutrem uma da outra para criar um espaço de encontro. Com efeito, se se acreditar que existe uma divisão clara entre a banda desenhada ocidental, mormente francófona, e japonesa (não existe), poder-se-iam arrolar características antagónicas ou diversas para depois nos surpreendermos com a sua passagem. Todavia, essa seria uma visão redutora e não de continuidade e de cruzamentos recorrentes. Ainda assim, aceitar-se-á que os modos de produção e circulação da banda desenhada, em termos gerais, é algo diferente entre esses dois países, o que influencia algumas das práticas, mesmo ao nível do desenho, mas seguramente que na forma de comunicação com o público. (Mais) 

23 de abril de 2016

Os figos são para quem passa. João Gomes de Abreu e Bernardo P. Carvalho (Planeta Tangerina)

Num tempo em que perigosamente a distribuição e acesso a todas as facetas da vida na Terra é compartimentada por direitos de propriedade estanques, sopesar alternativas de relacionamento não é apenas importante como compulsório. A patenteação de produtos agrícolas, até hoje “livres” e “naturais”, a privatização da água, a re-confirmação de fronteiras intransponíveis, a hierarquização de importâncias conforme o poder (económico, militar, social), e a relativização cultural de valores éticos que, sendo esgrimíveis, devem ser claros, são apenas alguns dos escolhos lançados na tempestade dos tempos contemporâneos. Uma pequena distância crítica e mecanismos ficcionais, mesmo que simples (mas não simplistas), é de uma utilidade extrema. (Mais) 

18 de abril de 2016

Comic Invention. Laurence Grove e Peter Black (BHP Comics)

Esta caixa é um projecto-companheiro de uma exposição patente no museu Hunterian, da Universidade de Glasgow, co-organizada por um dos curadores do museu, Peter Black, e por Laurence Grove, um investigador académico da Universidade de Glasgow que tem estudado as relações entre texto e imagem, com uma especialização na emblemática e na banda desenhada (mormente de expressão francesa, em torno da qual tem livros e artigos importantes). A caixa possui cinco publicações fisicamente separadas, mas que pretendem dar conta das várias dimensões tentadas nessa exposição, ao mesmo tempo que alertam para dois princípios: por um lado, o de que a relação da banda desenhada com o leitor é directa, material, física, exigindo um contributo activo de construção do significado (qual das publicações ler primeiro?, que relações construir entre elas?), por outro, a de qualquer narrativa desejada é sempre composta por linhas diferentes que podem ter desenvolvimentos distintos conforme a perspectiva de aproximação. (Mais) 

16 de abril de 2016

6 livros para a infância ilustrados (várias editoras)

É possível que seja apenas uma coincidência, em que a força das circunstâncias nos empurra para querer ver uma tendência em que ela pode não se verificar, mas pensamos que poderão existir, de futuro, outros factores que confirmem esta ideia. Se temos notado que no campo da ilustração para a infância tem havido uma maior insistência, quer na produção nacional quer na escolha editorial, num campo da ilustração que se pauta por princípios de design simplificado, de linhas geometrizantes, cores planas, etc. (falámos alargadamente desse tema a propósito das Cerejas), é necessário não tornar a visão vendada a outras possibilidades de criação. Sobretudo quando uma certa atenção mediática, expositiva e de crítica (e até de ensino) parece querer confirmar aquele princípio em detrimento a outras abordagens. (Mais) 

12 de abril de 2016

La Crypte Tonique no 12. Les patrons de la bande dessinée.

La Crypte Tonique é uma das mais estimulantes revistas sobre banda desenhada de que temos conhecimento no momento, à margem da produção académica propriamente dita. Órgão oficial da alfarrabista-galeria homónima de Bruxelas, dirigida por Philippe Cappart, cada número pode mudar drasticamente de formato, tamanho, tema e forma de trabalho. Se houve números dedicados a autores e/ou obras (François Walthéry e Felix the Cat), a maior parte deles dedica-se a dimensões mais alargadas, estruturais da banda desenhada: o seu comércio em Bruxelas, a questão da legendagem, a representação da Idade Média ou dos negros, e até a “retranscrição gráfica do movimento”... (Mais) 

9 de abril de 2016

Industrial Revolution and World War. Shintaro Kago (UDWFG)

Este será um brevíssimo texto sobre este pequeno álbum do autor japonês, que tem a particularidade de ser um nome conhecido e admirado entre os leitores de scanlations (isto é, edições “piratas” acessíveis na internet, com traduções e edições amadoras, o que não significa necessariamente com qualidade menor), mas cuja circulação por edições comercialmente acessíveis é bem menor. Na verdade, esta edição, da italiana Hollow Press/UDWFG, que se dedica a uma linha negra da criação de banda desenhada (horror, críptico, gótico, monstruoso, etc., e a que regressaremos em breve quando falarmos da revista homónima), é a primeira em língua inglesa a solo (história curtas haviam sido publicadas, como “Punctures”, em Secret Comics Japan, da Viz, em 2000) após alguns títulos de Kago em francês. (Mais)

8 de abril de 2016

Alpha... Directions. Jens Harder (Carlsen/Actes Sud/Knockabout Comics)

À medida que a banda desenhada vai conquistando cada vez mais territórios em termos de topicalidade, circulação e até mesmo ontologia, vão surgindo igualmente projectos que se apresentam com um grau particularmente alto de ambição. Jens Harder, o autor de Leviathan, o livro cujo pequeno texto estreou este mesmo espaço, pretende nada mais nada menos do que criar uma série de livros que encerram a história de tudo. Neste momento, os dois primeiros volumes estão disponíveis em várias línguas, mas aqui apenas abordaremos com precisão o primeiro, que lemos com mais atenção. (Mais) 

4 de abril de 2016

La colère de Fantômas, 3 vols. Olivier Bocquet e Julie Rocheleau (Dargaud)



É bem possível que tenha sido em relação a Fantômas que Freud se referia, no seu ensaio “Sobre o narcisismo: uma introdução”, quando escreveu a seguinte passagem: “…mesmo os grandes criminosos e os humoristas, conforme representados na literatura, atraem nosso interesse pela coerência narcisista com que conseguem afastar do ego qualquer coisa que o diminua. É como se os invejássemos por manterem um bem-aventurado estado de espírito - uma posição libidinal inatacável que nós próprios já abandonamos”. Ora, será precisamente esse “bem-aventurado estado de espírito” que informaria, antes e depois, as personalidades de todos os heróis (no seu sentido literário, não moral) que alimentariam os ribeiros da cultura popular? Encontramos neles algum tipo de prazer (“posição libidinal”) que não poderíamos nutrir, enquanto cidadãos de uma civilização imbuída dos seus valores simbólicos (“já abandonamos…”)? (Mais)