3 de novembro de 2019

Selva! Filipe Abranches (Umbra Livros)


O regresso de Filipe Abranches à banda desenhada é feito com um fulgor que faz colidir a nostalgia, a homenagem, a memória da banda desenhada e outros lazeres da infância (o modelismo, o radioamadorismo, os soldados de plástico, as leituras de aventura, os jogos paramilitares, as brincadeiras com bonecos e a mimetização de um certo discurso infantil, que por sua vez mimava o que se imaginava ser o linguajar dos adultos em filmes de guerra). Até certo ponto, Selva! é um livro para os miúdos que fomos. Todavia, é um livro para os miúdos que fomos enclausurados nos adultos que somos agora, e é possível observar, como a um tronco cortado, todos os anéis das camadas marcadas, e encontrarmos os nódulos que estiveram um dia no centro, e agora se perdem na polpa, deixando apenas a forma mais expansiva à sua volta. (Mais)

2 de novembro de 2019

O colecionador de tijolos. Pedro Burgos (Chili Com Carne)


Uma vez que havíamos escrito sobre este livro quando da sua edição original em francês, remetemos para esse texto, mas celebramos a sua publicação no seu idioma de partida. Agora que aparentemente a crise económica foi ultrapassada, mas as maleitas sobre o mercado imobiliário parece ter ganho estaleca para continuar a servir todos os interesses excepto o da habitação, o surgimento deste livro entre nós não podia ser mais ominoso. Ficam os votos para que crie alguma discussão, sobre o livro, claro, mas igualmente sobre o tema, tão bem explorado noutros círculos, como a Buraco, de que falaremos a seguir. 



9 de outubro de 2019

Cortázar. Marc Torices e Jesús Marchamalo (Presque Lune/Nórdica)



É naturalmente discutível quando se utilizam hipérboles a declarar este ou aquele escritor, esta ou aquela obra, como “uma das maiores de sempre”, quando não existem qualificativos, contextos ou pelo menos uma qualquer inflexão que explicite a emergência dessa hierarquização imediata. Se se utiliza esse termo comparativo, quais os outros termos contra os quais ele mesmo se estabelece? As mais das vezes, e é esse um movimento perigoso, a ideia está em que essas declarações, desprovidas desse mesmo contexto, apontam a uma espécie de consenso cultural, em relação aos quais aqueles que não o partilham são vistos como desmerecedores sequer de consideração. (Mais) 

29 de setembro de 2019

O leite da via láctea. Manuel Zimbro (Sistema Solar)

Por ocasião da exposição história secreta da aviação e alguns meteoritos, na galeria Quadruma maior retrospectiva alguma vez feita da obra de desenho, pintura, esculturas e instalações de Manuel Zimbro (1944-2003), a editora Sistema Solar - continuação da “verdadeira” Assírio & Alvim após a sua absorção pela Porto, e que havia mantido uma relação íntima com o artista enquanto divulgadora dos seus trabalhos quer enquanto espaço expositivo quer enquanto plataforma editorial incontornável - publicou este volume. Le lait de la voie lactée é um fac-símile, “warts and all”, de um projecto de álbum de banda desenhada que o autor terá criado “no início dos anos 80, quando Manuel Zimbro habitava em Paris”, lemos numa nota no final.  (Mais)

30 de agosto de 2019

fêmea. Uma história ilustrada das mulheres. Inês Brasão e Ana Biscaia (Santillana)


Não se tratando propriamente de um dicionário, ou enciclopédia organizada, fêmea está organizado de uma maneira que permitirá usos idênticos ao desses objectos livrescos: uma consulta, em vez da leitura linear, e uma descoberta, abrindo a maior pesquisa pontual. As secções são claras e reveladoras: a primeira é dedicada a “artefactos”, ou objectos e invenções que, de uma maneira ou outra, vieram, alterar as possibilidades dos movimentos sociais da mulher, para bem ou para mal, e as mais das vezes, para ambos; a segunda reúne “manifestos”, no sentido do que é manifestado, encarnado, que ganha corpo, por entre personagens histórias ou papéis colectivos que poderão servir de modelo maximal ao esforço feminino na História, ainda muitas vezes escrita no masculino; a última focando “territórios”, isto é, campos profissionais que vieram a ser ocupadas de uma maneira especial por mulheres, ou por pressões sociais que as confinavam a esses papéis, ou por pressões sociais que as impediam de ocupar esses papéis e que acabaram por ocupar de modo especial. (Mais) 

Três zines da Sapata Press.



Serão hoje mesmo lançados três novos títulos pela Sapata Press, cujo papel não é tão somente criar a possibilidade de publicar fanzines de novos “autorxs” (que me perdoem, mas não domino ainda esta novilinguagem), como a de proporcionar um importante espaço público para todo um debate complexo em torno das questões da identidade, que não se reduz de forma alguma apenas ao sexo, sexualidade, género ou outras categoriais sociais. (Mais) 

27 de agosto de 2019

Bande dessinée et Abstraction. AAVV (La Cinquième Couche/Presses Universitaires de Liège)


Serve o presente post para indicar tão-somente que já se encontra à venda a antologia artística-académica Bande Dessinée et Abstraction/Abstraction and Comics. Trata-se de um livro em dois volumes que faz parte do colectivo académico ACME, da Universidade de Liège, tendo sido este projecto coordenado sobretudo por Aarnoud Rommens. Reúne dezenas de bandas desenhadas, inéditas ou não, completas e em excertos, de trabalhos que, de uma forma ou outra, se podem inscrever na promessa do título. A variedade de autores, em termos de nacionalidades, é assombrosa, e é salutar que uma produção de um centro desta disciplina esteja aberto a participações de todo o mundo. (Mais) 

26 de agosto de 2019

Pêra Verde & Manuel inútil. Patrícia Guimarães (C. M. Beja & fanzines e martelos)



Um é um pequeno apontamento, talvez autobiográfico, sobre pêras verdes comidas e deixadas na infância. O outro uma pequena ficção, um fado, sobre uma personagem patética e trágica. Em termos de género, de tom e humor, não haveria nada em comum. O desenho tem afinidades, claro, mas Patrícia Guimarães lança mãos de várias técnicas na forma como constrói o desenho, persegue as linhas, fecha os contornos e preenche o espaço com aguadas mínimas, quase ríspidas. (Mais)

25 de agosto de 2019

A Piscina. JyHyeon Lee (Orfeu Negro)


Porque é tão fascinante quando mergulhamos na água? Trata-se de uma memória da espécie, ou do nosso desenvolvimento ontogenético, ou uma mera sugestividade devida a tantos mitos? Dever-se-á à alteração das percepções e capacidades físicas, do incrível equilíbrio entre os limites impostos e as novas liberdades? Em A Piscina, de JiHyon Lee, encontraremos esses encontros, descobertas e possibilidades. (Mais) 

23 de agosto de 2019

Ilustrações de João Maio Pinto para «Confissões de um travesti». Anónimo (Orfeu Negro)


Esta nota breve serve para falar de um livro que foi, originalmente, publicado pela casa Le Terrain Vague, parte do projecto editorial de Eric Losfeld, que nos daria também Emmanuelle, as obras de Sacher Masoch e De Sade, no campo da literatura dita “erótica” (que vocábulo mal empregue e confuso nestes três casos), e todo um rol de bandas desenhadas de expressão francesa dos anos 1960 que introduziriam, para nunca mais se alterar, o erotismo e um certo grau de sofisticação intelectual e visual.

Todavia, estamos longe de uma obra com o peso literário de um Mishima, Bataille, ou Renault na sua capacidade de descrever as forças subcutâneas e tectónicas do desejo e as esplendorosas formas como explodem cintilantes no momento da libertação expressiva a que acedem. Tampouco estamos perante os malabarismos frásicos de um Ubaldo Ribeiro ou até à desfaçatez, sarcasmo genuíno de um Luiz Pacheco. Apesar de se titular uma “confissão”, não há aqui espaço para a intimidade e proximidade desse género, mas tão somente um tom quase documental, jornalístico e, passe o paradoxo, seco. Todavia, a promessa desse percurso permite, digamos assim, um acesso directo às questões principais. (Mais)