27 de março de 2017

Mensur. Rafael Coutinho (Companhia das Letras)

Depois de Cachalote, em colaboração com o escritor Daniel Galera, e O beijo adolescente, a solo, Rafael Coutinho traz um novo livro, num desses fôlegos que usualmente na circulação social da banda desenhada é um garante de uma conquista particular junto à atenção mediática mais normalizada. Para os seus leitores contínuos, não haverá necessidade de recorrer a esse tipo de musculatura e presença para demonstrar as suas capacidades expressivas, mas sempre se cria uma impressão. (Mais) 

25 de março de 2017

Bruma. Amanda Baeza (Chili Com Carne)

Quando falámos atempadamente do trabalho de Amanda Baeza, ainda no interior de uma lógica de pequenos fanzines ou edições independentes de uma circulação limitada, tínhamos perfeita noção de que mais tarde ou mais cedo a acumulação desses trabalhos emergiria num corpo maior. Se ainda não é o momento, talvez, de uma obra maior em si mesma, pelo menos a sua colação permitirá chegar a um público mais alargado e, de resto, tem sido essa a missão da colecção Mercantologia, da Chili Com Carne, nos últimos anos: a de re-oferecer alguns dos melhores gestos da comunidade zinesca a uma circulação mais lata.  (Mais)

24 de março de 2017

Colaboração no The Comics Alternative: Stardust Nation, de Deborah Levy e Andrzej Klimowski

O que acontece quando os nossos sistemas de empatia ultrapassam as fronteiras do ego para começarmos a identificar-nos perigosamente com o outro, derrubando as fronteiras, abrindo a nossa experiência própria à alheia? E o que ocorre se essas passagens se elaboram no centro de vários triângulos de dramas psico-familiares?

Uma colaboração entre a dramaturga britânica Deborah Levy num pequeno e simples conto que recorda alguma da programação clássica do Channel 4, e com os desenhos, desta feita coloridos e algo domados, de Andrezj Klimowski, de quem havíamos falado antes, explora essa mesma intriga.

O texto em que o lemos está no The Comics Alternative, aqui.

23 de março de 2017

Science Comics, vários títulos. AAVV (First Second)

A ideia de usar a banda desenhada como um meio de transmissão de informação, como meio de educação, não é de todo nova. Se englobarmos as imagens Quentin nessa equação, ancoramo-nos mesmo nas origens populares e na infantilização desta disciplina no século XIX. Mas poderíamos recuar ainda mais, se se pensasse em questões dos livros ilustrados medievais, das enciclopédias aos Musterbuchen, e a inúmeras práticas. Usualmente, esta utilização é vista com alguma desconfiança quando se parte de um ponto de vista estritamente estético, uma vez que os instrumentos empregues por estes exemplos não serão aqueles que mais preocupados estarão com a pesquisa da expressão, com a individualidade autoral, mas antes subsumem-se a noções tais como as da legibilidade, da inteligibilidade, da clareza de argumentação, etc. E muitas vezes acompanham-se de um qualquer enquadramento moralista que é bem distinto da visão mais progressiva. Não se pode, porém, negar que esse “uso”, não sendo artístico ou literário ou politicamente relevante, ainda assim conseguirá conquistar de quando em vez um qualquer grau de competência que a faz escapar de uma oferta desapaixonada. (Mais)

19 de março de 2017

Cadernos de Viagem. Anotações e experiências do Psiconauta. Laudo Ferreira (Devir Brasil)

Este livro é um gesto bem distinto no percurso do seu autor. Não se podendo assumir totalmente como um gesto autobiográfico, existem suficientes informações extratextuais – o prefácio de André Diniz, as notas de agradecimento do autor, a sua própria foto, etc. – que apontam para a sua construção enquanto bebendo dessa mesma experiência, lançando-a, portanto, naquilo que Serge Doubrovsky definiu como “autoficção”. Um jogo de tensões e espelhos que permite, a um só tempo, aproximar o que lemos de uma ideia, mesmo que vaga, de que corresponderão à experiência real do seu autor, mas ao mesmo tempo erguendo um intervalo suficientemente sólido para permitir alguma distância e segurança. Se a própria autobiografia não nos dá a nós direito de atravessar a linha que deve separar a arte do seu autor, a categoria da “autoficção” redobra esses esforço. (Mais) 

13 de março de 2017

Unfinished Mandarin. Gonçalo Pena (Mousse)

Segundo volume de recolha de desenhos avulsos de Gonçalo Pena, seguem-se aqui as mesmas aporias do anterior, em que a aparente ausência de um princípio organizativo ou classificativo dos desenhos obrigará os leitores a criarem eles mesmos as formas de associação interna. Pela sua existência somente, todavia, o volume convida desde logo à consideração da indisciplina do desenho como passível de ser repensada enquanto modo de estabelecer um modo prático do pensamento. Franqueando talvez de forma perigosa algumas questões da filosofia da arte, com as quais seguramente Pena se digladia, é possível que estejamos a incorrer numa interpretação vulgar de Hegel, ao crer na arte como ideia demonstrável, mesmo que apenas enquanto aparência. Nesse caso então, o “mandarim inacabado”, rosto pincelado com uma dezena de traços, à la René Gruau, aponta de imediato às ideias apresentadas ao longo destas centenas de páginas, todas elas sempre com uma sombra de ilusão: “inacabado” porquê, afinal? Isto permitir-nos-ia encetar uma discussão sobre a incompletude como forma moderna do desenho (sob os auspícios de um estudo sobre os "interrupted sketches" de Joeph Pennell), mas ficaremos por uma abordagem mais superficial. (Mais)

6 de março de 2017

Le rapport de Brodeck. Manu Larcenet.

Nas suas Teses sobre a Filosofia da História, Walter Benjamin escreveu “Nunca houve um documento da civilização que não o fosse simultaneamente da barbárie”. Esta ideia complexa associa-se à ideia materialista do filósofo alemão e mesmo ao trabalho da sua crítica, que implicava jamais perder o rasto ao valor que as coisas tinham pela passagem táctil, tangível, sofrível do ser humano, e não olhá-las somente pelo seu suposto valor “eterno”, “universal”, “estético”. Le rapport de Brodeck é todo ele tecido em torno do que o título indica, um documento escrito que quer dar conta de um evento mas, na sua tessitura, desvela em si mesmo a barbárie que subjaz a cada gesto humano. (Mais) 

23 de fevereiro de 2017

Sutrama. Daniel Lima (kuš!)

Uma das formas de respondermos a este livro seria analisar quais são os pontos de desenvolvimento aproveitados por Daniel Lima no seu próprio diálogo com o filme de Robert Bresson, Le diable probablement (1977), do qual aproveitou algumas cenas para a construção deste diálogo entre duas personagens que preenchem as páginas. Uma pesquisa que superficialmente parece ser a de um suicido ou assassinato banal (?) desemboca numa análise lenta, dura e pesada sobre o estado de espírito de uma sociedade desencantada, o que poderia servir de, talvez, descrição de toda a cinematografia (ou será antes a de uma pesquisa que tenta descobrir ainda os últimos laivos de encantamento que nela sobrevivem?) do autor. Lima, todavia, transforma essa ocasião para reconstruir uma espécie de ambiente artificial e mágico no qual a distância entre os corpos (dos “modelos” e não “actores”, para seguir a nomenclatura de Bresson) dos protagonistas e as metamorfoses dos objectos e espaços em torno tem de ser compreendida menos como momentos para criar redes simbólicas, passíveis de uma ulterior apresentação de significados do que uma plataforma para sensações ambivalentes e ainda mais distanciadoras da própria matéria de expressão. (Mais)

21 de fevereiro de 2017

Três títulos da colecção Écritures (Casterman)


Como manda a lei das editoras comerciais, chegará um momento em que se faz não apenas uma reestruturação gráfica e formal das suas colecções, como um balanço interno da sua produção. A colecção Écritures foi alvo precisamente de um redesign, em que as capas passam a ser tratadas a preto com uma segunda cor e os títulos a dourado, criando uma coerência gráfica distinta daquela verificada até agora. Não só foram relançados alguns títulos antigos neste packaging como os novos seguem agora esta linha. Além disso, há um lançamento e abertura de vários novos gestos criativos que estendem os supostos objectivos originais da colecção. Não é que não houvesse colaborações anteriormente, mas o lançamento de La cire moderne, colaboração entre o escritor Vincent Cuvellier e o artista Max Radiguès, e Je viens de m'échapper du ciel, adaptação das novelas policiais coordenadas de Carlos Salem por Laureline Mattiussi parecem confirmar a insistência desse tipo de possibilidades “literárias”. Adicionalmente, o lançamento de Salles d'attente, de Charles Masson, que recupera Soupe Froide e outros relatos, mostra a possibilidade dos tais balanços internos. (Mais)

9 de fevereiro de 2017

15 de Fevereiro: Seminário Banda Desenhada e Pensamento Político: Sessão 4

O Seminário indicado antes continua. 

Estão convidados a aparecer e participar na próxima (4ª) sessão, desta vez sob a forma de um pequeno debate com dois artistas de banda desenhada contemporânea portuguesa, Marco Mendes (Diário rasgado) e Tiago Baptista (Fábricas, baldios, etc.). 

O tema-chave é o "desencanto" e tentaremos falar em torno de questões sobre a representação social que emerge das obras destes dois artistas, o alcance da leitura política que elas permitem, e em que medida é que funcionam os afectos na banda desenhada como espelho da situação actual. 

Apareçam!