A recepção crítica do romance de Isabela Figueiredo, desde o seu lançamento em 2015, tem-no assinalado enquanto parte de todo um processo literário e social em curso nas letras portuguesas (e para além delas ou mesmo das letras em si) mas ao mesmo tempo sublinhando as suas características singulares.
Tem havido, sob a forma de literatura, mas não apenas (estudos académicos, reportagens investigativas, considerações políticas até), uma re-emergência da voz dos ditos “retornados” – palavra contestada, controversa, muitas vezes pejorativa (muitos de nós reconhecerão algum caso de família), mas que contém em si toda a história sofrida que lhe pertence -, isto é, o repatriamento/migração forçada (a escolha das palavras sublinha de imediato um posicionamento, muitas vezes ideológico) de cerca de meio milhão de portugueses com o colapso do Império Colonial Português em 1974, e que veio criar processos de fricção na identidade própria não apenas dessas mesmas pessoas, mas de toda a ideia de “portugalidade”, revista desde então e ainda não resolvida hoje. (Mais)
Assim sendo, Caderno
de Memórias Coloniais faz parte de um território de “novas narrativas”
dessa memória, em que se exploram de maneira mais directa, revista, vincada, as
noções do retorno, do trauma e do silêncio, das violências estruturais da
história, etc. É um livro que ocupou, de imediato, um lugar incontornável nesse
debate, inclusive em novas leituras pós-coloniais internacionais. Uma das
comparações constantes, até mesmo por razões sexistas, tem sido feita entre
Isabela Figueiredo e Dulce Cardoso (pela dimensão de uma voz autobiografante),
mas onde esta segunda autora parece criar uma teia textual mais “literária” e
“ficcionalizada”, a escrita de Figueiredo é algo mais crua, frontal e por isso mais
desconfortável. Demolidos estão os estereótipos luso-tropicalistas, tentativas
de saneamento ou de relativização com outros processos do colonialismo europeu
de África, desculpas ou confissões bem-pensantes. E a presença e materialidade
do corpo ganha primazia.
Desta forma, não é
de todo surpreendente que a artista Júlia Barata, que tem feito precisamente de
uma abordagem crua, directa, sem pejos e real dos fenómenos do corpo, sobretudo
o feminino – sempre mutante, ou mais mutante, que o do homem – a sua lavra
principal, tenha encontrado tais afinidades com Figueiredo, e se tenha lançado
a uma adaptação do romance. Primeiro, de maneira informal, amadora (no sentido
de “amar”). Essa versão, incluída neste volume (uma tira de quatro vinhetas),
seduziu a romancista a um trabalho de colaboração, de reescrita e de
reimaginação com Barata, de forma que este livro é, na verdade, um novo livro.
Não é uma adaptação somente, e muito menos um projecto de “ilustrar o romance”.
É mesmo um processo de colaboração e refactura. Tudo isto é explícito dos
posfácios de ambas as autoras.
Algo que poderá estar entre o trabalho de reordenação de João Sequeira sobre os contos de RuiCardoso Martins e a co-criação de Ondjaki com António Jorge Gonçalves. E, no que diz respeito ao trabalho da banda desenhada sobre este território da memória colonial, ainda agora falámos de Francisco Sousa Lobo.
Não foi apenas um
trabalho de corte e costura das frases já existentes no romance, não é uma
redução para abrir espaço a um punhado de imagens, mas uma remolduração. As dinâmicas
das personagens, o fluxo das palavras e do pensamento interior da
narradora-protagonista, as políticas de visibilidade, tudo isso muda.
Uma das dimensões que me surpreendeu foi a transformação da dimensão da carnalidade. A sexualidade é um tema central no romance, uma espécie de basso contínuo. Exploram-se os erotismos próprios dos corpos, racializados e nas divisões de género. As repressões e proibições distribuídas, entre a sexualidade amansada e apenas matrimonial e maternal das mulheres brancas e a hipersexualização das mulheres negras, não apenas pelos homens – isto é muito importante – como pelas mulheres também, as patroas ou as esposas. Consequentemente, há uma diminuição dos “filhos” feitos às pretas. Isto está presente neste livro, mas apenas como cenas-chave, quando sinto que no romance a sua presença é mais marcada a ferros.
Também o despertar
da consciência corporal da protagonista é claríssima no romance – algo que nos
pode lembrar Beauvoir e, com Beauvoir, Satrapi, mas no Caderno muito
pouco intelectualizado, pois é à flor da pele, no calor africano, na proximidade
de todos estes corpos e papéis distintos, que tudo desperta. Mais uma vez, está
presente na banda desenhada, mas de uma forma mais concisa. Admirando tanto a
forma como Barata enfrenta as questões da materialidade do corpo e a liberdade
da sexualidade (feminina), surpreende-me um certo recato.
Júlia Barata domina
a pintura a aguarela, optando por uma figuração mais elegante aqui, muito menos
nervosa e nevrótica do que em Gravidez e Família, pois aí era
necessário. A esmagadora maioria das páginas apresenta-se como uma splash
page, com a contínua legenda narradora em cima e os balões para diálogo,
mas por vezes quebra as acções em pequenos momentos de polimorfia, como nas
estratégias de Gianni de Luca. O uso da cor não é contínuo, e há uma dança
subtil entre o desenho a linha preta sobre branco, e o surgimento de cor, cada
matiz escolhido com cuidado, e as suas relações pensadas e significativas. Isto
leva a uma estrutura com uma cadência própria, um ritmo, que vai quebrando os
episódios de toda a história.
Uma outra transformação de rigor, e brilhante, é o surgimento, em “carne e papel”, de um coro, que age tal como os coros das tragédias gregas. Esta é uma invenção de Barata, aceite e burilada por Figueiredo. Um grupo de personagens mescladas, de doutorandas da FSCH a figuras tradicionais africanas, de afro-descendentes contemporâneos a desempoeirados de outras gerações. Todos eles comentam as acções, policiam a linguagem – “preto”, “negro”, “afro-descendente”? -, gozam com os belos pensamentos e justificam os deslizes, recordam o “próprio do seu tempo” e logo pontapeiam os tomates dessa mesma ideia.
Caderno de
Memórias Coloniais passa a
ser um título partilhado por duas obras. Um romance e uma banda desenhada. A
sua relação é óbvia, mas a autonomia deste livro agora lido deve ser
assegurada. Há uma outra urgência, uma concentração, que espero não seja vista
como “pedagógica”, e muito menos “didáctica”, mas que esteja presente como um
punho na mesa, mal-educado, a bater com força e sem paciência. Um punho que
refoca as reflexões a que nos devemos entregar em relação aos tabus coloniais,
às mentiras (brancas, apetece dizer) da história. Um punho que também se pode
tornar em bofetada quer em relação aos “paninhos quentes” de um certo discurso
das ciências sociais contemporâneas e aos desculpadores de que isso “era de
outro tempo”.
Não, é de agora.
Nota final: agradecimentos à editora, pela oferta do livro.





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