13 de janeiro de 2026

O progresso da humanidade. Rui Cardoso Martins e João Sequeira (Polvo)

Mascarado de inquérito policial, levado a cabo por um inspector sem nome, o foco de atenção narrativo-visual de O progresso da humanidade não se fica preso somente pelos “eventos” das entrevistas e encontros com quem conhecia o jovem morto no Gerês, em estado atroz e causas por determinar, coração do caso em curso. O acesso ao diário desse morto, Oliveira, metamorfoseado de páginas escritas em cenas visuais, torna o livro num objecto distinto do do conto original.

Algumas cenas deambulam pelas paisagens áridas onde o corpo terá sido encontrado, outras vislumbram o desmantelamento de um corpo de mosca por uma aranha precisa. Mesmo nas imagens de analepses visuais, em que temos acesso à vida de Oliveira, a perspectiva é rasa, dando-nos acesso, literalmente, à merda abandonada no chão. Serão representações da “realidade narrativa”, ou antes metáforas das deambulações e reconstruções do inspector com os seus dados? De texto literário a banda desenhada, os dispositivos de emolduramento e travessias de níveis são vários, mas resultam numa intensa rede de compreensões. (Mais)

O livro tem duas metades, mas são metades que se infectam (não há melhor vocábulo) uma à outra. A do envolvimento de Oliveira com um imaginário fascista, e a da obsessão em matar lobos, que estavam a ser reintroduzidos em Portugal. Na visão errada de Oliveira, claro, influenciado que ficou por um artigo dos tempos do Estado Novo que declaravam a existência de lobos nas serras portuguesas como um sinal de atavismo necessário de erradicar, se se desejava que fôssemos uma nação europeia, moderna, civilizada.

Numa das nossas citações preferidas, e já repetidas bastas vezes, Walter Benjamin escreveu, “Nunca houve um monumento da cultura que não fosse também um monumento da barbárie”. Crítico que o filósofo alemão era do cego conceito eurocêntrico de que o avanço das sociedades era marcado por um crescente e linear “progresso”, não deixa de ser esse o âmago da pesquisa deste livro. A forma como Oliveira atravessava ideologias funestas e comportamentos embebidos em fúrias deslocadas leva a que seja um cidadão perdido num mito falso, fraco e votado ao falhanço. Caça ao lobo, caça ao homem, na cabeça de Oliveira não haverá distinção, e isso ditar-lhe-á não apenas um fito, mas um fim: ele considera-se “um soldado na trincheira da civilização”. De trincheira a cova, não é preciso muito.

Rui Cardoso Martins – na sua escrita “policial”, mas esse adjectivo é tão superficial como quando o aplicando a Simenon – parece interessado, acima de tudo, menos no rocambolesco da intriga, ou até nas “motivações” dos crimes, do que na revelação do quão patéticos podemos ser enquanto seres humanos. Podemos enganar-nos uns aos outros por vezes, mas a nós mesmos enganamo-nos sempre.


Desde O espelho da água que João Sequeira tem perseguido esta colaboração “em diferido” com Cardoso Martins. Não se trata tão-somente de uma adaptação, num sentido de um texto “morto” e transformado a bel-prazer pelo artista, mas um re-burilar das suas matérias, com discussões com o escritor, de forma a devolver outra voz, insuflar um novo compreender, propor uma direcção distinta. Nesse outro livro, assim como em Estômago Animal, Sequeira procurava formas de criar composições de página mais arriscadas e ponderadas do que outros trabalhos anteriores com argumentistas com quem colaborou, como André Oliveira ou eu mesmo. Com a manipulação dos contos de Martins, Sequeira encontra formas de mergulhar num diferente tipo de investigação visual, processual. Não é que a expressividade dos seus traços desapareça, ou a capacidade de improviso se domestique, mas há claramente um outro tipo de controlo, de construção.

A título de exemplo, veja-se como Sequeira lança aqui muito mais linhas finais do que em trabalhos anteriores. Ainda existem grandes praias de tinta negra, mas em vez de vermos trabalho de pincel, meio-seco ou outro, são finos riscos de aparo ou caneta que constroem o edifício visual.

É particularmente curioso ver como ele esculpe zonas de sombra e luz, e também distância, perspectiva e volume, não através de um aturado jogo de espessuras, mas quase num estocástico lançamento de uma versão de abordagens chinesas. De acordo com os princípios clássicos da pintura chinesa, pode mostrar-se o espaço empregando algo chamado de “três distâncias”, combinando distintos posicionamentos do ponto de vista em relação aos objectos observados/representados, e mesclá-los num só plano de composição. Veja-se como temos algumas vinhetas que começam, por baixo, com uma perspectiva rente ao solo, deixando ver todos os seus pormenores, e depois vamos levantando o olhar. Ou ângulos dramaticamente picados e contra-picados, deixando isolados cada um dos intervenientes. Ou como as paisagens em splash pages se erguem de baixo para cima, confundindo-nos em relação à escala humana, da qual não está presente qualquer referente.

Se olharem somente para as páginas com essas paisagens sem referente humano ou animal (a saber, 5, 7, 11, 21, 26-27, 37, 61 ), não parece haver uma progressiva transmutação em formas mais orgânicas, vivas, de um fantasma de um corpo humano? Como se as formas do terreno prometessem logo a dilaceração e receção final do corpo de Oliveira. Uma percepção que pode ser do inspector, do leitor ou da própria narração visual do livro proposto por João Sequeira. Nada disso está previsto no texto literário “original”. É assim que se forma um novo livro.

Eis a única certeza: espera-nos a terra, nem que sejamos somente dejecto.

Nota: agradecimentos ao autor, pela oferta do livro.

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