O apocalipse, já o dissemos bastas vezes neste espaço, não é uma data única e irrepetível, algures numa compreensão linear, teleológica e hierarquizada da história humana (melhor dizendo, “histórias”), mas um objecto comum, um permanente estado civilizacional, que apenas uma visão mais crítica captura. No famoso dictum que não se sabe se se atribuir a Žižek ou se a Jameson, é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo (leia-se, a nossa sociedade presente, que partilhamos neste momento). E a fantasia (negra?, ou no fundo parte intrínseca da ilusão de que precisamos para vivermos a nossa realidade quotidiana; de novo, Žižek, cf. The Plague of Fantasies) de que nos espera uma hecatombe apenas vem sublinhar a visão tipicamente liberal do individualismo, enquanto varremos os apocalipses que decorrem, entretanto, em Gaza, no Sudão, um pouco por todo o mundo, em escalas diferentes, inclusive as de “interesse”.
Daí que o exercício de mesclar o Dilúvio do épico acádico que empresta o nome a este livro a uma socie/cidade com suficientes traços comuns ao nosso não seja particularmente difícil. O que é único é o escavar de David Soares e o moldar de Sónia Oliveira. (Mais)
Não deixa de ser notável como o livro abre com uma cena de
chuva sobre uma planície onde vemos, ao fundo, uma cidade concentrada, com prédios
modernos. Chuva, isto é, água. E, depois, mergulhamos numa poça que nos dá
acesso a uma outra paisagem, mais árida, igualmente com casas, mas desta feita
segundo a arquitectura neolítica de Çatalhöyük. Daí seguir-se-ão as matérias da
terra, barro, adobe, carne, ossos, sangue, fogo. Mas todos os desenhos têm o
seu próprio material inerente. Sónia Oliveira tem tido uma prestação na banda
desenhada menos regular do que outros artistas que a elas se dedicam com outra
intensidade no que diz respeito à “presença”, mas não menos na da pesquisa
material e visual que propõe a cada novo projecto.
Dificilmente será esta uma artista a satisfazer-se em fórmulas repetíveis de figuração, composição ou abordagens, mesmo que haja previsões nos argumentos com que trabalha. Para Atrahasis, Oliveira foi ainda mais longe do que em experiências passadas em deixar transparecer, por entre a superfície da representação gráfica, o fundo permanente da materialidade do seu trabalho. Sobre um papel de gramagem texturada claramente de aguarela, que deixa ver aqui e ali sua colmeia subjacente, os desenhos são moldados a partir de uma base de tinta permanente, aqui mais líquida, ali mais pastosa, com intervenções de carvão, ora em lápis ora em barra, para aceder a espessuras diferentes de linha, por vezes aguarelável, e ainda tinta branca.
Há, portanto, uma clara escolha judiciosa na flutuação dos
valores lumínicos, na presença das linhas, na forma como a luz e a sombra
ganham maior protagonismo entre si, ou se digladiam em mesclas específicas,
espelhando um encontro, material e processual, nas capacidades moldáveis entre
os materiais riscadores e as representações debuxadas pelos mesmos: a mesma
friabilidade, a mesma humidade, a mesma perdição no isolamento ou o abandono
orgiástico nas multidões guiadas pelo desejo cego (da crença, da segurança, do
conforto no conhecimento, etc.), o mesmo sofrimento. A matéria plástica –
presente igualmente na forma plástica, diversa, precisa, irrepetida, e por isso
tão frágil e momentânea como a sociedade que vislumbramos no livro, com que o
legendador, Mário Freitas, esculpiu cada balão e letras – atinge o seu paroxismo
na cena final, com um Dilúvio totalmente negro. Negro de quê? A fuligem do
carvão ou da base da tinta-da-China? Do petróleo, sangue da indústria e fonte
de outros sangues em sua perseguição da nossa era? Água negra do Estige ou do
Cócito? O que interessa é que assegura o apagamento total. Não apenas dos
eventos da civilização, mas da própria possibilidade de memória dessa
civilização.
A sociedade que vislumbramos neste livro é antiga? Seguem-se
muitos dos indícios, conhecidos pela antropologia e arqueologia mais recentes,
das formas rituais e societais neolíticas. Mas não poderemos também imaginar
que possam ser uma possibilidade de um futuro (do nosso imediato presente,
entenda-se)? Não somos testemunhas, hoje, de um debelar da empatia que nos
pode, sem grande esforço, fazer chegar a um tal estado de barbárie que
percorramos estes mesmos caminhos de violência, crueldade e indiferença? E, por
isso, merecedores de um novo varrimento? Como se escreve no livro, vive-se num
“tempo anfíbio”, “idade de ouro e fim do mundo” (nosso
sublinhado).
A recepção de Atrahasis, tais como outros livros levados a cabo por David Soares (com todo o respeito para com os artistas bem diversos, entre o próprio David, André Coelho, Sónia Oliveira, Pedro Nora, Osvaldo Medina, Pedro Serpa, etc., mas há uma “escrita” que se mantém sob todas essas roupagens gráficas) adivinha-se manca, problemática. Ocorre aquilo a que poderíamos chamar a “maldição da erudição”. Esta manifesta‑se sempre que uma obra exige do leitor mais do que uma mera disponibilidade de atravessar a leitura: exige repertório, hábitos de leitura, e a disposição para aceitar que a linguagem pode ser um território de fricção. No caso de David Soares, essa fricção é deliberada. A sua escrita convoca conhecimentos, tradições, mitos, sistemas de pensamento e léxicos que não se oferecem de imediato. A maioria dos leitores, e sobretudo os de banda desenhada, desabituada de lidar – sobretudo dentro deste território, mas quem sabe fora dele também – com densidade verbal e conceptual, dá logo com os dentes na superfície: tropeça no vocabulário (apregoando em público o drama que é empregar um dicionário), e, perante a intriga que não se deixa resumir a um arco aristotélico, refugia‑se no diagnóstico mais pobre: “não percebi a história”. Ai de livro que não traga o conforto do que se conhece à partida.
Mas essa é a beleza (e terror cruel) oculta de Atrahasis.
Ele é mais real na devolução que faz da humanidade do que outras fantasias
coloridas de mais fácil digestão.




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