9 de janeiro de 2026

Rain in Tears. Mao (Kuš!)

Os interesses e campo de experiência de Hugo Almeida, a.k.a. “Mao”, continuam a incidir numa densa e intrincada rede de cruzamento das consequências das possibilidades que a técnica tem trazido de forma cada vez mais dramática nas determinações biológicas. Isto é, não tanto simplesmente a intervenção externa sobre o biológico da parte da técnica via a soteriologia (através de ferramentas, fármacos, cirurgia, prostética), mas algo que reconfigura a própria ontologia da vida. 

À primeira vista (que na verdade nunca o é, pois o autor não está interessado em ilusões simples), o livro parece ter uma intriga de fc. Só que a travessia pelas páginas coloca-nos num mundo laboratorial e de ciências “duras” que conseguem manipular o ADN como os poetas DADA brincaram com o alfabeto. Estão aqui presentes os ecos de campos contemporâneos como os da engenharia epigenética, a edição CRISPR, o uso do sistema de IA AlphaFold, e outras nano- e macro-coisas de que nem sei a missa a metade. Mao “disfarça” tudo isto com uma pequena intriga tirada de um thriller de ficção científica, como se tivéssemos chegado a meio de um filme. Um laboratório que parece querer contornar certas regras deixa que um polvo, geneticamente alterado, escape para o mundo natural e isso poderá vir a ter consequências desastrosas. Fanfiction de uma “lab leak theory”, portanto, as coisas são relativamente simples e céleres em termos de acções. Todavia, a força de Mao está em todas as camadas que actuam, a um só tempo, como textuais e metatextuais – as pop-up Windows, o acesso a emails e mensagens que temos, os chats(mais)

 

Pois o central nem será tanto essa mesma “intriga central”, mas o drama humano em torno das condições de trabalho: financiamento, crises de comunicação, liderança das equipas, interesses cruzados entre empresas, governos, medicina e outros campos, etc. Em uma pequena dezena de páginas, Mao cria um torvelinho com todos esses ingredientes. E a própria linguagem que emprega – note-se nos nomes das embarcações (“Phorcys”), dos programas (“Medusa”), até mesmo algumas palavras empregues pelas personagens (“Kraken”, “lovecraftian”), e perceberão a, perdoem-me, “salada de moluscos”.

Uma outra dimensão, paradoxal, é a exploração daquele género conhecido por tentacle porn (aconselho vivamente a NÃO pesquisarem o termo), isto é, a de cenas titilantes envolvendo alguma criatura provida desses membros flexíveis. O mais famoso exemplo histórico (sem ser “o primeiro”) é de Hokusai, mas a sua explosão nas mentes ocorreu em 1987, com a versão anime de Urotsukidōji. Digo “paradoxal” em relação ao livro de Mao pois nunca surgem cenas explícitas dessa sexualidade, mas ela é claramente exposta, e ficará reservada à nossa imaginação. Tal qual o título parece implicar, e é ainda mais exposto numa espécie de introdução, há uma clara referência ao discurso do replicante Roy Batty, em que se fala de “ter visto coisas que vocês [humanos] não acreditariam”. Portanto, de certa forma, ao jogar com essa ausência, Mao demonstra como haverá sempre uma outra dimensão, além-do-humano, inalcançável, de possibilidades visíveis.

Se até à recente, o conceito de Foucault da biopolítica operava através de instrumentos como estatísticas, políticas de saúde pública, sistemas de educação e redes de vigilância, estamos na linha de passagem (ou já passámos? Campo difícil de destrinçar entre a conspiração e o conhecimento científico) para um nível interior à vida (bio): a nível dos sistemas imunitários, células e genes, microbiomas e processos moleculares…

No fundo, é a invasão do design na evolução, em que as “condições de possibilidade” se libertam dos imperativos e determinações biológicas, o “natural” pode ser engineered, o vivo programável a “nosso” bel-prazer.

E com essas potencialidades, o livro termina com uma cena possível, um apocalipse diluvial. Que fazer? O que o protagonista faz? Cantar como Nero num karaoke bar, uma canção dos Pulp.

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