19 de janeiro de 2026

5 títulos de Kenji Tsuruta (Sendai)

Esta leitura estava adiada há algum tempo, mas a recente publicação, pela Sendai, de Espírito de Aventura tornou possível o regresso a Kenji Tsuruta.

Espírito é uma colecção de quase 400 páginas que reúne todas as histórias curtas publicadas entre 1986 e 1994 numa série de revistas, todas num tom mais lúdico e divertido. Podendo ser vistas como sendo de ficção científica, é fascinante observar os subgéneros e ambientes que atravessa. Todavia, a leitura de uma assentada torna evidente a repetição, os tropos, e o humor por vezes menos subtil. A linha algo pesada, os cenários muito detalhados e escurecidos, aparecem algo compactados na edição portuguesa, irrepreensível em si mesma (tal como os outros livros do autor), e que contribui em muito para o acesso directo a autores influentes, papel que a editora faz com menos meios que maiores plataformas comerciais, mas com uma poética, sensibilidade e inteligência próprias.

Mas é a saga de Emanon (2008–2018, aqui em 4 volumes/títulos), adaptada das histórias de Shinji Kajio, que nos dá um território mais poético e sofisticado. Continuamos na ficção científica, mas longe de qualquer vertente “hard”. Há antes um fundo fantástico que serve sobretudo para pensar memória e identidade, errância e pertença, liberdade e laços familiares. A protagonista, que herda uma memória celular contínua desde o surgimento da vida unicelular, poderia abrir caminho a leituras mais radicais ou ecológicas (Haraway!), mas Tsuruta mantém-se num registo intimista, centrado na modernidade japonesa e nos encontros fugazes que moldam a experiência humana. A edição portuguesa, que inclui também textos de Kajio, destaca-se pela clareza e amplitude das composições, pelos silêncios, pelas paisagens naturais e pequenas lojas de província desenhadas com enorme delicadeza. Mesmo a sexualização da protagonista, tão típica do autor, ganha aqui um tom menos titilante e mais ligado à ideia de liberdade corporal. Há sugestões de uma narrativa mais vasta, nunca plenamente desenvolvida, mas talvez seja essa abertura — esse convite ao que poderia vir a ser — que torna Emanon tão duradoura na memória do leitor.

[texto escrito para o Instagram]


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