Esta leitura estava adiada há algum tempo, mas a recente
publicação, pela Sendai, de Espírito de Aventura tornou possível o
regresso a Kenji Tsuruta.
Espírito é uma colecção de quase 400 páginas que reúne
todas as histórias curtas publicadas entre 1986 e 1994 numa série de revistas,
todas num tom mais lúdico e divertido. Podendo ser vistas como sendo de ficção
científica, é fascinante observar os subgéneros e ambientes que atravessa. Todavia,
a leitura de uma assentada torna evidente a repetição, os tropos, e o humor por
vezes menos subtil. A linha algo pesada, os cenários muito detalhados e
escurecidos, aparecem algo compactados na edição portuguesa, irrepreensível em
si mesma (tal como os outros livros do autor), e que contribui em muito para o
acesso directo a autores influentes, papel que a editora faz com menos meios
que maiores plataformas comerciais, mas com uma poética, sensibilidade e inteligência
próprias.
Mas é a saga de Emanon (2008–2018, aqui em 4
volumes/títulos), adaptada das histórias de Shinji Kajio, que nos dá um território
mais poético e sofisticado. Continuamos na ficção científica, mas longe de
qualquer vertente “hard”. Há antes um fundo fantástico que serve sobretudo para
pensar memória e identidade, errância e pertença, liberdade e laços familiares.
A protagonista, que herda uma memória celular contínua desde o surgimento da
vida unicelular, poderia abrir caminho a leituras mais radicais ou ecológicas (Haraway!),
mas Tsuruta mantém-se num registo intimista, centrado na modernidade japonesa e
nos encontros fugazes que moldam a experiência humana. A edição portuguesa, que
inclui também textos de Kajio, destaca-se pela clareza e amplitude das
composições, pelos silêncios, pelas paisagens naturais e pequenas lojas de
província desenhadas com enorme delicadeza. Mesmo a sexualização da
protagonista, tão típica do autor, ganha aqui um tom menos titilante e mais
ligado à ideia de liberdade corporal. Há sugestões de uma narrativa mais vasta,
nunca plenamente desenvolvida, mas talvez seja essa abertura — esse convite ao
que poderia vir a ser — que torna Emanon tão duradoura na memória do
leitor.
[texto escrito para o Instagram]


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