De certa forma, como havia acontecido com a minha recepção de Nonnonba, que havia lido numa versão francesa cerca de 10 anos antes da edição portuguesa, também havia feito uma primeira leitura da série Showa, do mesmo autor, numa versão em inglês, há cerca de dez anos desta lavra da Devir. É mais que salutar a edição de obras que agora podem ser vistas como “clássicos” (modernos ou contemporâneos, pois o tempo poderá alterar as ordens), mas não deixa de haver uma nota mais melancólica por não acompanharmos outras séries ou títulos, de banda desenhada japonesa, mais recentes de uma forma mais imediata… Por essa razão, retomo alguns desses apontamentos de uma forma mais sumária. (Mais)
Comecemos pelo vocábulo que dá título a esta série. Showa é uma palavra que designa a era do imperador Hirohito (1926–1989). Simples. Mas nas mãos de Shigeru Mizuki, é também um dos mais ambiciosos projectos da banda desenhada mundial. Uma história pessoal do Japão que é simultaneamente uma acusação, uma elegia e um exercício de cidadania. Nos dois primeiros volumes agora publicados em português (volume 1, Showa: 1926–1939 e volume 2, Showa: 1939–1944 ) vemos consolidar-se uma busca vital e central do autor: a desmontagem da mitologia nacionalista que ainda hoje molda uma certa auto‑imagem japonesa (exacerbada recentemente por novas forças políticas em vigor), e que não deixa de estar presente, de uma forma ou outra, presente em meios populares como a mangá e o anime. A história recente pode até ser frequentemente suavizada, estetizada ou convertida em fantasia moralizante, mas Mizuki insiste numa leitura frontal, humanizada e politicamente incisiva.
Nascido em 1922, veterano da Guerra do Pacífico, Mizuki
escreve a partir de uma ferida literal: perdeu o braço esquerdo, sofreu
malária, e carregou para sempre as marcas físicas e psicológicas do conflito.
Essa inscrição autobiográfica não serve para glorificar a experiência militar mas
para delir a lógica que levou o país ao desastre. Showa é, desde o
início, uma crítica musculada ao imperialismo japonês, à sua fantasia de
excepcionalismo e à desresponsabilização histórica que ainda hoje contamina
discursos políticos e culturais.
É uma chamada à responsabilidade, de certa forma.
Estes dois primeiros volumes atravessam o seu estilo consabido, e já comentada várias vezes. A saber, uma negociação permanente entre o fotorealismo e a ultra-estilização. Mizuki alterna fundos obsessivamente detalhados — batalhas, mapas, paisagens destruídas — com personagens desenhadas com meia dúzia de linhas, quase diagramáticas. Mas esta oscilação não pode ser vista como um mero artifício gráfico O realismo “pesado”, se assim o podemos dizer, quase barroco, aproxima-se da morte, da destruição, daquilo que não pode ser representado senão através de uma “falha” deliberada. Estamos perante uma estratégia ética, afinal. E por isso as figuras simplificadas, herdeiras da gramática da mangá moderna que o próprio Mizuki ajudou a definir, devolvem humanidade, humor, e fragilidade. É na fricção entre o realismo traumático da guerra e a leveza do espírito humano que o livro respira.
Ao narrar a infância, a juventude e o alistamento militar,
Mizuki constrói uma contra‑história do Japão. Colocados de lado o heroísmo, desmontam-se
melhor as armadilhas em que nós próprios podemos cair. As armadilhas da
propaganda, da violência institucional, da pressão social que transforma
cidadãos em instrumentos de uma máquina belicista. Através de episódios
familiares, diálogos ficcionais com Nezumi‑Otoko (abrindo assim ligações com as
obras mais famosas, “infanto-juvenis”, do autor), notas históricas, retratos de
cenas precisas, esquemas militares, que criam uma faixa da seriedade, depois
contrastadas com episódios de humor quase de slapstick (do lavatório à
caserna), o grande mestre dos yokai cria uma textura narrativa que
recusa a separação entre o íntimo e o colectivo. A história do Japão é a
história de um corpo ferido.
Estes dois volumes de Showa são essenciais. Logo à
partida, são documentos históricos (não digo “livros que abordam a história”,
atenção, mas sim como testemunhos históricos eles mesmos). Mas, repito, são
também antídotos contra a romantização do Japão que tantas vezes domina a
cultura popular. Mizuki oferece-nos uma visão mais dura, mais honesta e mais
humana. Por isso mesmo, infinitamente mais necessária.
Nota final: agradecimentos à Devir, pela oferta de ambos os volumes.




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