24 de abril de 2026

Final Cut. Charles Burns (Asa)

Este livro é tecido em torno da perspectiva e voz narrativa de duas personagens, que se conhecem no início do livro e depois se relacionam entre si, em torno de um filme amador, que mescla ficção científica, body horror e weird fiction. Brian, o introvertido artista de desenhos estranhos e co-autor dos filmes, e Laurie, a jovem beldade ruiva que se tornará a actriz principal. Mais uma vez, Charles Burns coloca no centro da atenção o desenvolvimento de uma história de amor adolescente, e as metáforas em torno das metamorfoses físicas e psíquicas que isso implica. Mais, a ideia do cinema não é apenas uma actividade superficial para as personagens, é mesmo a estrutura que explica a lógica das memórias, da montagem e da possibilidade de reescrita da realidade filmada. 

Estamos longe do impacto que Black Hole teve, em que essas mesmas metáforas foram muito mais impactantes e buriladas pela intriga dessa outra saga. Há neste livro mesmo uma espécie de maior “suavidade” na relação dos protagonistas, ou até mais “sêca” [o acento é propositado, para ser claro], isto é, menos passional, mais ébria com o ennui da época retratada, e a quase indiferente alienação auto-imposta das personagens, não surgisse o filme de Peter Bogdanovich como uma referência temática, oblíqua, mas central. É esse, de resto, o propósito. Em alguns momentos, existem certos clichés que são hoje em dia dolorosos ler, mas Burns é de uma geração que os terá vivido na flor da pele. Aliás, a nota melancólica e dolorosa que atravessa o livro é, de forma quase segura, autobiográfica, não fosse a dedicatória à sua falecida mulher uma confirmação dessa leitura.

Podemos também dizer não estarmos no território visualmente audaz e mais propriamente surrealista da trilogia X’ed Out ou outros títulos recentes. De certa forma, até nos perguntamos se não é precisamente a dimensão mais “domesticada” de Burns, neste livro, que o tornou apropriado a ser, por fim e pela primeira vez, traduzido para português. É um momento de celebração, por esse motivo, mas não deixa de ser sintomático que seja numa prestação de menor eficácia.


Podemos dizer que Final Cut nos apresenta um Charles Burns menos “histérico-hilariante” do que nas suas primeiras obras, e onde o seu conhecido estilo visual, de linhas sólidas e texturizações que fizeram escola, se apresentam num registo mais elegante, maduro e mais tranquilo, fruto da sua prova de fogo pela “linha clara” de obras anteriores. Apesar da dupla perspetiva subjectiva estruturando o livro, que se vai alternando, este não é um livro de novas aberturas, mas de confirmações das suas assinaturas, estilísticas e temáticas, ainda que haja uma muito maior variabilidade de cor, a par e passo adequada a cada um dos seus níveis de representação (“realidade”, “filme no cinema”, “filme amador”, “desenhos”, as dimensões “oníricas”, etc.).  Todavia, mesmo com estas interrupções surreais, elas acabam por estar subsumidas a um entendimento mais claro e normativo das vidas dos adolescentes, e não ganha uma autonomia à Burroughs ou Lynch, como em obras anteriores. Ainda associado a esses autores, estaria envolvido os conceitos siameses de "cut-up" e "montagem", pertinente na cena final do livro, em que Brian - na mesa de montagem, na sua imaginação, e no interior da sua deteriorada saúde mental - "remonta" todas as cenas, escrevendo/desenhando aquilo que ele deseja como verdade... Nós "lemos" essa realidade, e com ela encerramos o livro, sobrepondo-se, na nossa própria mente e emoções, aquilo que será a "verdade". O "corte final" assume assim todos os seus potentes sentidos. 

Uma última palavra vai para a dimensão textual do livro em português. Se bem que é verdade que no melhor pano cai a nódoa, esta edição deixa algo a desejar no que diz respeito à revisão de texto, tendo ficado um bom número de gralhas ou problemas de tradução, sobretudo no que diz respeito à de vários títulos dos filmes citados – verdadeiros, existentes – e que não respeitam a sua tradição, mesmo alguns deles estando disponíveis no mercado de edição videográfica. O que não é um aspecto de somenos importância, já que essas mesmas referências vão servir de leit-motiv ou de ecos intertextuais com os elementos da intriga principal. Além do mais, a opção da letra de legendagem (com serifas excessivas), e a sua disposição nos cartuchos e balões, apesar de estar próxima do original, não tem de forma alguma a mesma elegância, e sabemos como isso altera a recepção visual de uma banda desenhada. Ditia ainda que a falta de tradução do título é uma daquelas opções típicas de muitas editoras de banda desenhada, que pretensamente não querem arriscar aquele trabalho que é de facto necessário na tradução. Qual a razão?

Nota final: agradecimentos à editora, pela oferta do livro.

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