4 de fevereiro de 2026

Lerbd - Living Will. André Oliveira, Joana Afonso, Pedro Serpa (Polvo)


Falámos deste livro quando foi lançado o primeiro fascículo ou comic book, numa auto-edição em inglês. Também demos conta depois no 3º volume, a propósito do seu lançamento, mas nessa primeira abordagem apontávamos desde logo a forma rara com que tínhamos nas mãos uma série com um protagonista idoso tratado como um ser humano completo, e não como uma mera caricatura da velhice, ou enclausurado numa figura cuja maior acção estaria enterrada no passado. Ao longo da série, algumas dessas expectivas alteraram-se, em relação à trama narrativa, mas não ao seu propósito. Agora que os materiais foram recolhidos num só volume, aumentado, e em português, é bem possível que muitos leitores o abordem como um novo texto. E assim pode ser lido, claro. (Mais)



A decisão de não traduzir o título para português é relativamente surpreendente. Há claramente um trocadilho que se perde do original inglês, uma vez que não conseguimos conciliar o sentido do “Will que vive” e o “Testamento em vida” a que ele se lança. Não deixa de haver, porém, um pequeno grão de afastamento de uma reconciliação com o nosso idioma. Os dois sentidos, porém, constituem o coração de tudo: há um homem, Will, que sabe estar nos últimos momentos da sua vida, e decide ocupá-los num testamento que se traduz em acções: pedir desculpas, corrigir erros, buscar redenção. Consegui-lo-á?

Os episódios – mantidos na estrutura do livro – não seguem apenas a vida de Will. Uma outra candidata a protagonista, ou segunda personagem principal, pelo menos, é a apresentadora de televisão Betty, mas cuja existência não parece ter qualquer ligação directa a Will. Existiram laços, mas é preciso um jogo de “seis graus de separação”. Esta é uma das inquirições curiosas de toda a obra no seu conjunto: a forma como nos apresenta múltiplas vidas de várias personagens (para além de Will e Betty), que depois procuram pontos de entrelaçamento entre si.

Não se pode dizer que a narrativa procure entrelaçar essas vidas para criar, digamos, à Paul Auster, uma camada metatextual, de desagregar do meganarrador/autor, mas há uma pequena tentativa de criar esse tipo de caminhos cruzados não tanto para criar uma densa rede de polifonia, ao modo clássico literário, mas antes numa imbricação de como um gesto na vida de uma pessoa (cuja perspectiva é a de um “protagonista”) pode ter implicações nas de outra (cuja perspectiva não será menos centrada em si mesma). O que resta no fim, então, é essa rede de relações, que podem ser vistos como círculos não-concêntricos, em que as pequenas vagas agem umas com, sobre, ou por causa das outras.

O mecanismo “fora” dessas narrativas do eu, isto é, todos os episódios, o livro inteiro, acaba por nos providenciar uma maneira de seguir uma espécie de ziguezague, que teremos de cerzir nós mesmos para depois cerrar os seus sentidos completos. O capítulo extra desta colecção, que nos apresenta um episódio na vida de uma personagem que estaria num terceiro grau de atenção na história principal, age precisamente como mise en abîme: não é tanto a intriga que se reforça (por hipótese, “a missão” de Will, se bem que é ela que encabeça todo o projecto, mas o assunto mais profundo da obra, que são as formas como nos desiludimos e enganamos aqueles que nos são mais próximos, como somos rápidos a magoar aqueles que deveríamos mais amar, e como nem sempre ou sequer!) é possível a redenção do “final feliz” que tanta ficção nos promete ser real… Assim, respondo à pergunta anterior.

A flutuação do estilo, ou as prestações de desenho, entre Joana Afonso e Pedro Serpa, mas também entre cada um desses artistas em fases diferentes – repare-se no contraste entre a “limpeza” dos contornos e fundos do 1º capítulo e a imbricada textura mais achatada do 7º, em Afonso, ou a esquematização do 4º com a maior suavidade do 6º, em Serpa –, nem sempre criam a mais coesa das continuidades visuais, é verdade. Todavia, se perdoamos que a esmagadora maioria das séries comerciais da Marvel ou DC nos fisguem com um artista maior e depois descabam as séries com escolhas de segunda categoria, creio que as circunstâncias materiais e financeiras de uma série em Portugal não a obrigam a obedecer a critérios impossíveis de cumprir. Mais, o facto dessas “variações” internas, digamos assim, servirem uma história com várias facetas, como discutiremos a seguir, fortalece a escolha, mesmo que tenha sido circunstancial.

Tanto Afonso como Serpa seguem soluções de composição bastante clássicas, forçosamente nascendo do argumento de Oliveira. Joana Afonso, mais activa em contínuo em tantas disciplinas do desenho, demonstra aqui ora um claríssimo domínio das suas figurações, emoções e expressões, e um burilar do espaço muito sólido como arrisca, de vez em quando, a “rasgar” a cadência das transições e composição, adicionando camadas de emocionalidade e significado para além da “intriga”. Pedro Serpa, menos presente na criação da banda desenhada, demonstra uma plena consciência quando joga com menos instrumentos, mas nos devolve páginas de um dinamismo fluido ou de uma intensidade emotiva de grande eficácia, sobretudo nas escolhas do 6º capítulo. Cada capítulo tinha uma segunda cor, aplicada ora em gradientes ou lavagens que reforçam as texturas e ambientes, e foi uma solução feliz que esta edição as tenha mantido tal qual.

A inclusão de um prefácio muito informativo dos contextos de produção e vida do argumentista, as pequenas notas inter-capitulares, e a entrevista conduzida por Gabriel Martins (podemos dizer que este meu texto vem boucler la boucle em relação aos “Três Graus de Carequice”) torna o objecto particularmente rico no que diz respeito aos “processos de criação”, e a inclusão de toda uma série de desenhos ou “pinups” de uma bateria de artistas excelentes do campo da ilustração e banda desenhada portuguesas torna-o ainda mais belo.

Nota final: agradecimentos ao autor, pela oferta do livro.


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