A pequena editora espanhola Fujur começou com uma oferta
associada à mangá BL, que tem desde logo um público interessado e fiel, mas
confessemos que, falta alguns clássicos incontornáveis ou títulos avulsos, é um
género menos conhecido por nós. Dito isto, estes dois pequenos tomos, de duas
autoras com vozes muito próprias e com algum grau de reconhecimento, funcionam
como um desejo ou intenção de que se descubram novos modos de explorar, na
banda desenhada, sensibilidades subtis e tranquilas.
Ambos os livros se apresentam como uma série de pequenos capítulos, mais ou menos autónomos entre si e que criam uma temática cumulativa. Present for you (ambos os títulos são em inglês no original, em katakana), da autora Shino Shinomiya, apresenta-nos uma colecção de pequenas histórias em que as suas personagens, sem qualquer relação entre si, recebem um presente. Este pode revestir-se das mais variadas formas, e pode mesmo ser banal e inesperado, e nem sequer estando associada a um aniversário ou coisa assim (as bananas trazidas regularmente pelo avô, a toupeira morta trazida pelo gato, uma lapiseira oferecida por um colega de escola como talismã, etc.), mas acabando por se transformar num poderoso “objecto afectivo”. São as memórias que lhe ficam associadas, os afectos que implicam, os gestos silenciosos que os acompanham que vão transformar o quotidiano da personagem que os recebe: sem dramas, apenas o lançamento de elos de ternura.
Present for you pode ser visto claramente como
pertencendo aos géneros conhecidos por “slice of life” ou “costumbrismo”. Não
nos apresenta tumultos emocionais, mas sim modos de atenção para com pequenos
gestos que podem ocorrer várias vezes e criar um ambiente reconfortante e ternurento
entre as pessoas envolvidas. A arte de Shinomiya, de linhas sólidas, delicadas,
pouco espectaculares e com composições ortogonais muito clássicas, são o
veículo perfeito para essas explorações, dando particular atenção às expressões
de emoção pelos rostos. Dito isto, não deixa de se sentir um certo grau de “re-encantamento”
da realidade pela parte da autora.
Kaori Tsurutani é uma autora mais bem estabelecida, mas Don’t Like This não escapa à pertença de um campo muito similar ao título anterior. Mais concentrado em termos diegéticos, aqui temos uma protagonista em todo o livro, a designer de jogos Megumi Yoshida, a qual, descobrindo os prazeres da pesca, ganha acesso a um outro modo e ritmo de vida. Como uma espécie de lista, cada episódio é algo que Megumi “não gosta” – uma certa pergunta, o frio, este dentista, esta chumbada de pesca em particular, etc. No entanto, também essas coisas são “objectos afectivos” que reconfiguram ou expandem o repertório de experiências da personagem, ajudando-a a ultrapassar questões de ansiedade social, isolamento, ou outros assuntos mais profundos, demonstrando que mesmo expondo a vulnerabilidade humana se conseguem conquistar forças.
Através de capítulos muito curtos, tranquilos (e que reflectem, auto-ficcionalmente, experiências da autora), com um humor discreto e sobretudo sublinhando empatias diárias, a vida corre num fluxo pouco dramático, mas não com uma interioridade menos complexa ou rica. Com um desenho mais “abonecado”, quase “de esboço”, humilde, e também técnicas e ritmos de storytelling visual bastante arrumadas, mais uma vez se sustenta o programa narrativo da forma adequada. No entanto, atente-se como ela tece as histórias em torno quer de entendimentos espaciais, da protagonista integrada em paisagens naturais muito alargadas, transformando-a em apenas um elemento que lhe pertence, e não tanto a primeira como algo “usado” pelo ser humano, ou os momentos de observação e gentileza para com os animais capturados, mesmo que sejam comidos depois.
Poderíamos talvez argumentar que se trata de formas de
resistência às tais lógicas do excesso, afinal. Uma procura pela lentidão,
contra a economia do clímax como resolução de grandes acontecimentos, uma busca
de menos melodrama ou até de malícia em nome da valorização do banal comum e da
sensibilidade que nos é acessível de imediato através dos mais pequenos, mas
importantes, gestos. O Papa Leão XIV, no seu encontro com cineastas, pareceu
falar daquilo que academicamente se chama de “slow cinema” (Tarkovsky, Tarr, Ceylan,
Zhangke, Pedro Costa), quando defendeu “a lentidão quando serve um propósito, o
silêncio quando fala, e a diferença quando evocativa”.
Ainda que estes livrinhos de Tsuturani e Sinomiya não sejam, claro está, propriamente as maiores revoluções artísticas ou de sofisticação literária no campo da banda desenhada, explorando esse tipo de lentidão (há outros autores aí – Ana Margarida Matos, Tsuge, Baudoin, Seth), e se encontram num caminho de perfeito conforto burguês em que as fricções emocionais não são tumultuosas, como dissemos acima, funcionam perfeitamente como um bálsamo, um antídoto, a certos graus de procura febril pela “obra prima” que explodiria os seus supostos limites. De resto, estes livros parecem pertencer a uma tendência sustentada por outros títulos japoneses contemporâneos, sendo passos de afastamento das expectativas dos géneros mais usuais.
Menos livros buscando catarses
do que percursos íntimos e resolúveis com ternura, e ambos com uma estrutura
episódica que quase funciona de forma ensaística – apresentando “variações” nas
soluções em torno dos temas –, estes são dois “one shots” (outra vantagem nos
compromissos de longa data que por vezes alguma mangá implica) que nos oferecem
descobertas, laços emotivos e temporais, contemplações em sensibilidades
contidas, mais que bem-vindas a leitores com interesses cada vez mais diversos.






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