1 de setembro de 2018

Pescadores de medianoche. Yoshihiro Tatsumi (Gallo Nero)


Entre 1972 e 1973, Tatsumi criou cem histórias curtas, oscilando entre as 15 e as 20 e poucas páginas para uma panóplia de revistas diferentes, cada qual com o seu espectro de géneros, atitudes sociais, e níveis de maturidade. Logo à partida, essa mera informação aponta para o tipo de entrega assombrosa à sua arte, impulsionada sem dúvida por uma ética e desejo artístico, mas igualmente por necessidade, como os leitores de A Drifting Life poderão facilmente contextualizar. Todavia, mais importante é parecer-nos que o autor se mantinha numa mesma veia nessas mesmas diferentes histórias, que o tornara afinal o pai da gekiga, ou uma tendência de empregar a banda desenhada num tom mais atento à realidade do Japão seu contemporâneo. Mesmo que não abandonasse algumas estruturas de géneros – o policial, a ficção científica, a narrativa histórica, o conto tradicional (estes últimos agregados num volume me inglês, Fallen Words) –, elas seriam empregues não para a titilação mais comum desse mesmo género, mas para desvendarem um desses cantos obscuros que o país, na sua senda de desenvolvimento material do pós-guerra, quereria esquecer ou pelo menos não revelar à luz do dia. (Mais) 

Seguir essa produção não tem sido tarefa fácil para o leitor não-japonês, uma vez que apenas depois dos anos 2000 se começou a fazer uma recepção mais consistente destes autores menos comerciais, mas sem uma substancial e dirigida política editorial. Por outro lado, talvez este desejo seja mais informado por uma quase tipificada doença de “coleccionador” que se pode, em última análise, tornar-se contra-producente. Seja como for, para ler Tatsumi, temos oscilado entre edições francesas, espanholas, inglesas e norte-americanas/canadianas para poder, jamais completar provavelmente, mas pelo menos aproximarmo-nos de uma leitura mais substancial desse corpo de trabalho. A presente edição é a tradução espanhola de um volume que havia sido lançado em 2016 em língua inglesa, fruto de uma selecção do próprio Tatsumi, reunindo nove histórias curtas, quase todas daquele período.

A ideia destas histórias arrastarem para a luz do dia algo que estava obscurecido pelas regras sociais é algo que parece presidir a todas as histórias. Longe da sociedade burguesa e feliz, democrática e equilibrada, confortável e culta a que tantas vezes o Japão é reduzido nas suas versões mais populares, comuns e de postal, os protagonistas de Tatsumi são sempre marginais, ora por razões económicas ora por razões “morais” (cujas raízes são, naturalmente, económicas também). Párias que vivem de esquemas, da prostituição (inclusive a masculina, menos vezes alvo de atenção), artistas de espectáculos eróticos, pobres pescadores, funcionários de limpeza municipal. Dissemos “longe”, mas a verdade é que a relação desta sociedade com aquela outra mais respeitosa é antes feita num eixo vertical. Existe uma clara tematização entre o “cimo” e o “baixo”, que também se traduz pela oposição entre “noite” e “dia”. É claríssima a existência de uma fronteira social que estas personagens atravessam, por vezes em busca da felicidade, por outras na ilusão dessa mesma felicidade. Quase sempre há um regresso ao ponto de partida, quebrados pela realidade.

Existem excepções nessa metáfora espacial, como são os casos de “Expreso de medianoche”, em que um jovem homem quer visitar o terreno que acaba de comprar e onde poderá vir a construir a casa do seus sonhos, ou “El palacio de la mujer”, um conto de ficção futurista mas que acaba por também explorar a relação directa entre as pessoas e a sua terra ou moradia como sinal de uma genuinidade ou sobrevivência face aos princípios impostos de fora. No fundo, estas duas histórias quase que são uma versão invertida uma da outra.


Muitas destas histórias seguem personagens de uma forma quase documental, desapaixonada, ainda que nos dêem acesso a momentos de focalização interna: sonhos, relampejos das suas fantasias ou medos, jogos complexos de percepção. Nada disso nos ajuda, todavia, a nutrir simpatia para com estas personagens, já que todas elas, ou quase todas, parecem ser uma prova da banalidade do mal, da crueldade, ou pelo menos da indiferença para com o sofrimentos dos outros. Os “pescadores da meia-noite”, metáfora que nascida de um título de uma das histórias maus urbanas, será como que um baixo contínuo de quase todas elas, buscam presas e tesouros. Mas o que arrancam sobretudo, afinal, mesmo que não o desejem, são as trevas que ascendem ao coração dos humanos. Não é preciso viajar até ao fim da noite, ou pelas selvas indómitas. Elas brotam no nosso interior.

Tatsumi é um mestre do conto. Todas as qualidades maiores deste modo se encontram: a velocidade e economia da intriga, a concentração de informação que permite inferências sólidas, o magistral equilíbrio entre as transições de tempo e a montagem de momentos distintos, as pinceladas certeiras e suficientes. A situação é estabelecida rapidamente, as relações entre as partes é clara, e depois o âmago da acção emocionalmente desgastante é desferida. Não existem fins chocantes e surpreendentes. A maior parte deles são até mesmo anti-climáticos. Não se criam expectativas, dúvidas ou questões que construam uma espécie de “futuro imaginário” a essas narrativas. Não há enigmas lavrados que os leitores fantasiariam. Não há, muito menos, “lições morais” a tirar das breves intrigas. Há um só um necessário término da atenção sobre a vida destas personagens, quase sempre entaladas entre a resignação, a apatia ou uma incongruente distracção.


Não há, também, comédia propriamente dita, mas haverá sorrisos arrancados aos leitores, se prestarem atenção ora à loucura que move estas personagens a abusar da sua sorte, ou de um alívio delas terem escapado um fim terrível ou, mais raramente, um comovido sentimento de que haverá ali algo de esperançoso.

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