29 de maio de 2005

Les dossiers noirs de l'Histoire. Fredox (Le Dernier Cri).


É-me muito difícil falar deste livro. Já o tenho comigo há mais de três ou quatro meses e não consigo folheá-lo na totalidade ou por mais de quatro ou cinco imagens a cada espreitadela.
Não se trata propriamente de um livro de banda desenhada, mas dizer que é uma mera colecção de ilustrações é também um pouco pobre. Talvez seja um desses livros que se encontra num limiar acima (ou abaixo) do qual é difícil dizer que começa (ou acaba) a banda desenhada, mas sobre os quais os mecanismos de análise e leitura propostos por essa arte são utilizáveis. Falo de alguns livros de Hokusai e de Frans Masereel, dos romances-colagem de Max Ernst (La Femme à 100 Têtes e Une Semaine de Bonté), da colecção Poor Richard de Phillip Guston, do Peregrino Blindado de Batarda, a obra de Vicent Fortemps, ou Um mês e um dia de Ruth Rosengarten...
Fredox é designer, trabalha em várias publicações, sendo director da Stronx e participante dos ateliers da Le Dernier Cri, e auto-intitula-se de “manipulateur d’images”. A partir de um imenso banco de imagens montado, estruturado, utilizado e explorado durante anos – um pouco à imagem de outros artistas, sobretudo Gerhard Richter e o seu Atlas – Fredox elabora colagens e montagens que são esmagadoras na sua apresentação. Misturando cenas de cirurgia, campos de concentração, acidentes rodoviários, monstruosidades biológicas verdadeiras ou inventadas, surgem sempre cenas dignas dos piores imaginários infernais de qualquer cultura, sejam eles ocidentais ou orientais, cristológicos e salvíficos ou condenatórios eternamente...
Permitam-me um desvio ultra-conceptual. Antonin Artaud elaborou um conceito que foi readaptado pela dupla de filósofos Gilles Deleuze e Felix Guattari, que se intitula de “corpo sem órgãos”. É um conceito extremamente complexo e não serei eu a pessoa mais indicada em o explicitar ou sequer dar conta das implicações dessa ideia, e sou capaz de estar a exercer uma violência extrema ao aplicá-lo aqui. Esta ideia aponta uma certa atitude contrária à “organização”, isto é, o contrário de um “corpo sem órgãos” não são corpos “com órgãos”, nem sequer os “órgãos do corpo”, mas sim a sua “organização em corpo”. Trata-se de uma certa crítica à psicanálise pelos autores citados, e um aventar de um material conceptual que permite uma nova clínica na observação da esquizofrenia, não como desvios patológicos mas antes como formas de permitir a expressão do desejo, sobretudo nos limites, limites explorados pelo uso das drogas, do masoquismo, etc. Há também implícito um deixar para trás uma vontade em moralizar...
Uma outra associação permitida pelo “corpo sem órgãos”, neste seu movimento que “achata” todas e quaisquer hierarquias num só plano, é o do dos tempos num mesmo tempo. Todos nós organizamos o nosso tempo de vida em tempos: tempo de trabalho e tempo de lazer, tempo de cura, de excessos, de sexo, de dores, de apatia, etc. e todos eles separados por interstícios, pequenos mas marcados intervalos, tempo de locomoção tempo de preparação, tempo de aquecimento, tempo de preliminares, etc.
O que se passa neste livro de Fredox é a busca desenfreada por levar esse tempo de excesso a único tempo possível. A minha associação à ideia de “corpo sem órgãos” passa, em primeiríssimo lugar, por uma ordem extremamente superficial, já que se retratam corpos mutantes retalhados, órgãos e membros sem corpos, corpos com órgãos e membros a menos ou a mais, ou fora do sítio habitual. Mas, em segundo lugar, porque estes corpos se batalham entre si desfazendo os intervalos possíveis entre os tempos organizados. Uma imagem mostra dois corpos mutilados e um deles em estado de decomposição avançado tendo relações sexuais em cima de uma mesa de cirurgia enquanto são operados. Estoutra o que parece ser uma criança divertindo-se com uma guloseima feita de dejectos inenarráveis numa fila em direcção a uma câmara de gás. Aqui vemos um médico a preparar vários enforcados, de pénis erecto, para uma qualquer indústria de carnes. Não existindo propriamente personagens, nem um espaço uno, ou um fio condutor, poderemos coser as imagens (como nas obras de Frans Masereel, com as quais se esposam também conceptualmente, como “crítica à História”, se bem que a estratégia seja muito, muito diferente) com um fio vermelho, de sangue e pingando: Os Dossiers Negros da História não se referem a nenhum momento particular da História, talvez porque se refiram a quase toda a História, sobretudo a do século XX, que não foi necessariamente menos ou mais violenta que qualquer dos outros (passados ou vindouros), mas foi o nosso, e é nosso trauma. Todas as pulsões, por mais abjectas que elas nos sejam, e por mais próximas que elas nos assustem ser, estão aqui apresentadas, quase de uma forma amoral, ou para além dessas divisões. Esta é uma ópera na qual Eros e Thanatos estão claramente presentes, mas não se percebe se se amando, se combatendo, se jogando juntos, se tudo ao mesmo tempo... precisamente porque, simplesmente, existem a toda a hora.
Olivier Deprez, numa entrevista dada à Satélite Internacional (#4), falou de uma oposição conceptual-imagética-conceptual entre a Frémok e a Le Dernier Cri. Sem entrar em detalhes, o que importa é que Deprez fala que ambas as editoras preconizam um “excesso do olhar”, a primeira diminuindo o olhar – as largas e espaçadas vinhetas de Fortemps, o bucólico unheimlich de Alex Barbier – a segunda aumentando-o, pela catadupa de informação (pense-se nos filmes apresentados no último Salão Lisboa, ou nos livros de Pakito Bolino ou Caroline Sury, os mentores...). Essa teoria parece manter-se com Fredox. Há de facto um excessivo detalhismo que leva à aceleração do olhar, mas parece-me que não é pela razão simples da “demasiada informação”, do “frenesim” que nos leva a essa aceleração, mas sim antes porque não somos capazes de parar os olhos em lugar nenhum, do horror que nos apresenta. Num tempo em que ver cadáveres expostos ou pessoas sofrendo sob cataclismos naturais, guerras ou outros desastres já pouco nos toca, talvez estas experiências limite que nos levam à abjecção total e ao repúdio de um livro passe por uma espécie de terapia profunda...Posted by Hello

1 comentário:

ena disse...

Para ler opinião sobre um livro de Frans Masereel: Passionate Journey