1 de janeiro de 2007

Moving Plastic Castles e Stand Alone and Smile. Tommi Musturi (Boing Being)

É possível que alguns dos leitores se recordem, de uma forma menos ou mais viva, das revistas de banda desenhada infanto-juvenil de edição brasileira que se compravam na década de 70 (“os livrinhos aos quadradinhos”). Gostava que se recordassem de uma família muito específica de produção, de algumas personagens mais memoráveis que outras, mas todas pertencendo a uma “escola” internacional que se pautava pela máxima simplicidade das informações visuais nas vinhetas, sem linhas no interior das figuras, cores primárias em aplats sobre cada superfície sem quaisquer tipos de sombreado ou tons (e na qual, estou em crer, a baixa qualidade e até os erros de impressão acabavam por ter um papel preponderante em as “cunhar” com um ambiente muito próprio), e um ritmo muito regular das pranchas. Uma das características era, por exemplo, a cada nova vinheta, o céu mudar de amarelo para azul carregado, depois verde, depois laranja, etc., sem qualquer lógica racional, mas que criava nos seus leitores (pelo menos neste) uma possibilidade de liberdade mental inaudita. Estou a falar de um uso paradoxalmente não-expressivo da cor (pois nunca o pode deixar de ser), quase de aleatoriedade mecânica, em que apenas se respeitam as cores das personagens por razões de continuidade icónica e referencial, e tudo o resto é abandonado ao acaso; nos antípodas, portanto, de autores como Diniz Conefrey, Mattotti, Breccia, em que a cor assume um protagonismo pouco comum.
Se precisamos de exemplos, estou a falar de revistas como a “Super Gato Félix” ou “Fix e Fox” da Bloch Infanto-Juvenil (a primeira publicando histórias de Felix the Cat da sua fase da Harvey Comics; a segunda a obra do alemão Rolf Kauka), mas também as da Disney (“Almanaque Disney”, por exemplo), sobretudo as histórias com os desenhos de Roy Williams, que trouxe ângulos e um sentido de design apurado para os traços de Gotfredson, ou de Jack Manning, com a expressividade confusa que dava às personagens. Uma coisa que me fascinava (e ainda fascina, talvez) nesses trabalhos em particular era o modo claríssimo em como se apresentavam como suportes de uma linguagem superficial, em que as formas plásticas surgiam na página sem qualquer profundidade, sem qualquer ilusão de imitação da realidade, e por isso mesmo mais aptas à plasticidade da imaginação, aquando da própria leitura ou com a posterior memória agindo sobre nós para a criação de variações sobre essas aventuras... É óbvio que não verbalizava as coisas desta maneira, mas é o que se passava na minha mente.
Se nos libertarmos dos propósitos claramente narrativos dessas histórias e trabalhos, quase que podemos olhar para cada uma das zonas de cor, encerradas nos grossos contornos a negro, numa espécie de combinatória de unidades plásticas. Ora, é isso tipo de experimentação gráfica que me dá a sensação que Tommi Musturi, um autor finlandês, quer de banda desenhada alternativa (e editor da Glömp, onde já publicaram Isabel Carvalho e Pedro Nora) quer de artes plásticas, tenta neste seu pequeno livrinho intitulado Moving Plastic Castles, quase como se este título me ajudasse a sublinhar essa leitura do seu aspecto formal. Este livrinho é um quadrado que não apresenta nenhuma narrativa clara, mas o que aparenta ser uma sucessão de páginas ilustradas com cores fortíssimas e formas de contornos negros e grossos em situações sem qualquer relação entre si. As mais das vezes, encontram-se ao centro personagens, animais antropomorfizados, que nos são familiares (o Pica-Pau, o Pateta, um homem-canídeo da Dinsey) mas sem nome... são “estranhamente familiares” e numa situação também ela estranha, perigosa mas sem que seja distinta a origem do “perigo”: uma casa em ruínas, a dentadura aberta de um imenso monstro, uma chuva que leva a uma cheia, um avião despenhando-se, uma cidade em chamas. É como se Musturi tivesse elegido essas unidades plásticas de que falei e as tivesse remisturado, mas ao invés de recriar uma variação desses universos narrativos de aventuras para crianças, tenha feito com elas um mundo onde há algo de errado, de perturbador, de profundamente maléfico em relação às expectativas criadas nessas leituras de infância. Em termos de profusão de cores e o aspecto líquido de todos os elementos, recordará essa escola psicadélica que conta com Heinz Edelmann, Milton Glaser e Pater Max, mas sem a patina de brilho e a luz ubíqua: Musturi cultiva, pelo menos livrinho, uma luz mais diminuída.
Stand Alone and Smile é muito diferente. É também um livro pequeno, curto, de desenhos “soltos” (é o seu segundo “sketchbook”), mas estes são feitos a linhas muito finas, azuis sobre fundo branco ou brancas sobre fundo azul. Se bem que as figuras não encontrem categorias imediatas no mundo real, aproximam-se e atravessam diagonalmente as de “flores”, “plantas”, “secreções”, “pequenos répteis”, chegando por vezes mesmos a construir uma “personagem” e, espreitando por entre a profusão dos traços, alguns dos elementos indicados atrás e que remetem mais uma vez para essas personagens divertidas dos “gibis” de antanho... Se a aceleração do olhar o poderá associar a um Keith Jones, a maior simplicidade dos meios e a construção de detalhes com pequenas variações plásticas estarão mais próximas de um trabalho de um Pecoraro ou de um Broquard. Como muitos dos zines mais experimentais e verdadeiramente artísticos de que já aqui falámos, estes dois pequenos livros de Musturi, não apresentando uma narrativa do modo mais clássico (aristotélico) como o entendemos, não deixa ainda assim de, pela força permitida na contemplação das formas sugestivas criadas e nas ligações que elas permitem entre si, se construir uma “perspectiva sobre o mundo”, que se abre por sua vez a histórias por contar, aquelas que são contadas pelos gestos de um verdadeiro criador.
Nota: agradecimentos a Marko Turunen, pela oferta dos livros. Posted by Picasa

3 comentários:

Anónimo disse...

Olá Pedro,

É um prazer imenso poder ler-te.

Fico a pensar nos teus textos e todos os dias recordo mais uma banda desenhada, mais um traço , uma personagem, um livro, um estilo, enfim, até momentos da minha vida como apreciador desta arte.

abraço

Zé Marmeleira

Flashfinger disse...

gawsh!

Anónimo disse...

hoje por exemplo fiquei com isto

"Uma das características era, por exemplo, a cada nova vinheta, o céu mudar de amarelo para azul carregado, depois verde, depois laranja, etc., sem qualquer lógica racional, mas que criava nos seus leitores (pelo menos neste) uma possibilidade de liberdade mental inaudita."

lembro-me perfeitamente dessas pranchas. dessas cores.