4 de março de 2007

Schizo #4. Ivan Brunetti (Fantagraphics)

Por várias ocasiões se repetiu aqui esta ideia: a de que os géneros são raramente estanques e é quando eles se polinizam que se ultrapassa uma inércia desinteressada (em si mesma, para começar) e se atinge uma capacidade libertária de se expressarem para além dos limites previstos. Na história da banda desenhada, a fundação dos géneros e a sua subsequente crise foram imediatos, a sua cristalização tardia. No entanto, apesar de ser apenas com o cruzamento entre o material ficcional pulp e a banda desenhada ou uma produção exclusiva de banda desenhada infantil que se poderá falar de géneros “fechados” neste campo, essa ideia parece ter rendido mais atenção e parece mais natural que qualquer outra. Mas mesmo numa época em que a produção de banda desenhada mergulhava profundíssimamente num contexto de géneros, isto é, um contexto forte e maioritariamente “genérico”, não quer isso significar que não existissem exemplos que escapassem mais ou menos brilhantemente da força gravítica desses géneros... Que bastem os exemplos de Rick Random (de Harry Harrisson e cujo melhor desenhador foi, sem dúvida, Ron Turner) ou Matt Marriot (de Jim Edgar e Tony Weare; série sobre a qual Domingos Isabelinho apresentará um estudo/ensaio no próximo IJOCA). Outra segunda ideia, que com esta primeira se entronca, é a da falta de rigor mas estratégia de fácil resolução de recorrer a uma divisão entre uma “forma” e um “conteúdo”.
O quarto número da revista Schizo, de Ivan Brunetti, vem despoletar mais uma vez estas questões. Não se trata apenas – mas há aqui um papel fundamental na recepção destes trabalhos – da radical mudança de formato, de revista “normal” para um tablóide com melhor papel e a quatro cores. Tem a ver também com um apuramento do seu desenho, em direcção a uma “forma” cada vez mais infantilizada, que vai tornando o seu campo temático mais vincado. As suas personagens têm corpos minúsculos e as cabeças tornam-se cada vez mais redondas e os elementos que compõem os rostos seguindo as regras do “cute” (olhos enormes contrastando com bocas pequenas, um só traço para o nariz, repetição de padrões indicativos da roupa, etc.). Nesse aspecto, apercebemo-nos da contínua e textualmente citada figura tutelar de Schulz, mas Brunetti vai mais além com essa busca pelo “giro”, atingindo territórios análogos como os dos “funny animals”, aqui mais próximo de Richard Scarry ou de Aaron Renier do que da Disney, por um lado, e de Walt Kelly, por outro (figurações idênticas para empregos, mesmo políticos, opostos). Estas histórias (cinco) com animais versam sempre um tema recorrente, são variações de um mesmo tema: o do artista incompreendido (não necessariamente genial) pelos seus pares e público imediato, e a entrega ora à criação ora à exploração material da sua obra; as mais das vezes alia-se a essa primeira incompreensão a não-correspondência amorosa.
Estas piadas em torno do mundo das artes não deixam de ser um chavão insuportável e que Brunetti nem refresca nem explicita; trata-se de uma longa continuidade dos autores de banda desenhada fazerem pouco do círculo das artes visuais, o qual não é livre nem de crítica nem de ridículo, mas em que as baterias dessas piadas são as mais das vezes apontadas para os aspectos mais circenses, superficiais e até mesmo hoje inócuos, passadas que vão décadas desde os gestos de um Duchamp, de um Klein, de um Pollock, aqui mimados em versões requentadas de anedotas que os colocam ao centro. Aventar os exemplos de Van Gogh, de Mondrian, de todos os Expressionismos Americanos e até de Guston (tudo isto presente em elementos perfeitamente identificáveis) não faz mais do que reforçar essa perspectiva romântica sobre o assunto.
A escatologia e cólera que pautavam os números anteriores dos trabalhos de Brunetti estão também mais apaziguados, ainda que os temas de um certo derrotismo existencial continuem presentes. Pergunto-me se estará relacionado de alguma forma com a sua entrega a um trabalho editorial que o terá confrontado de um modo mais íntimo com obras que fazem uma pequena história de afectos e o desviam para outras questões, mais intimistas, calmas e que parecem pretender comunicar de um modo diverso. Todavia, a entrega a algum grau de auto-comiseração continua a vergar o ambiente geral para um tom menos feliz. Quer as histórias com animais atrás referidas quer as biografias de outras figuras famosas (Erik Satie, Louise Brooks, Françoise Hardy, Kierkegaard) – publicadas anteriormente em diversas publicações - apenas servem para se associarem à autobiografia do próprio Brunetti, protagonista da maioria das histórias, todas elas de uma prancha apenas, aqui presentes, e para repisar essa ideia: o criador possui uma sensibilidade extrema, superior à dos “comuns mortais”, mas essa sensibilidade extrema não o torna mais apelativo a um amor mais imediato, físico, passional, e bem pelo contrário acaba por se erguer como uma barreira intransponível que o faz sofrer ainda mais. Isso não é, naturalmente, nem uma verdade absoluta (nunca nenhuma o é), nem se torna material de imediata criatividade e força. Brunetti tem um sentido apurado de reduzir as coisas a um mínimo essencial de informação, visual e verbal, e de as transpor em banda desenhada com ritmos acertadíssimos (a primeira página/capa, aqui mostrada, é um exemplo maior, que serve de homenagem ao criador de Peanuts), mas uma vez que trabalha no extremo oposto a Kochalka (o qual prefere discorrer sobre um amor delicodoce pelas coisas banais do mundo), torna o potencial rigor filosófico das suas ideias numa mera e leviana cobertura a um amor-próprio disfarçado de apatia e desamor.

2 comentários:

faceless disse...

Deixo aqui os meus parabéns pelo blog. não vi o blog todo mas parece-me estar cheio de análises pertinentes, muito bem fundamentadas e informadas sobre a 9ª arte. um acto de muito apreço e carinho pela BD ou pela literatura gráfica como lhe chamou Rui Zink. Gostei bastante do comentário a "Sloth" do Hernandez. Estou neste momento a ler "Salazar" e depois retornarei ao teu blog para ler o teu comentário. Abraço

Flashfinger disse...

Caro faceless, mas nada friendless,
Primo, obrigado pelas palavras, sempre bem-vindas.
Secundo, bem-vindo seja também (quem vier por bem, como reza um post de algum tempo), esta é uma casa aberta.
Tertio, apenas para bom rigor, e com todo o respeito para com o Sr. Professor Rui Zink, essa denominação não nasceu com ele, mas é importação lá de fora (como todas as outras, enfim).
Também não sou fã da expressão, bacoca, se mo é permitido dizer, e em nada atacando os leitores que a usem descontraidamente, por razões que exponho num outro blog (Moult Belle Conjointure: www.kaleidociclo.blogspot.com) mais "escolar". Prefiro, para o bem ou para o mal, chamar este(s) objecto(s) de "banda desenhada", por extenso, salvo o nome do blog, por razões eufónicas.
Finalmente, desejo a melhor leitura possível de "Salazar", cujas repercussões apenas se fazem sentir em leitores inteligentes e atentos, e nos restantes os encolheres de ombro da costumada ignorância perante a beleza e o engenho.
Abraços,
pedro