2 de fevereiro de 2011

Dragon Ball. Toriyama Akira (Asa)

Tal como no caso de Astro Boy, esta edição da Asa vem colmatar uma falha ou superar um desfasamento entre a procura efectiva e a oferta possível. No entanto, se no primeiro caso as razões se prendem com uma contextualização histórica a mais largo prazo, este desfasamento de Dragon Ball é, por assim dizer, mais marcado, tendo em conta que a exposição a esta série sob a sua forma de animação e agora à banda desenhada provoca um desencontro comercial mais sentido: os fãs da série televisiva (estreada em Portugal em 1995, mas já com dez anos de atraso em relação à produção original) são neste momento adultos e talvez sejam em número mais reduzido aqueles cujo interesse tenha sobrevivido para que o factor nostalgia funcione como facilitador da compra. Por outro lado, o público mais imediato, isto é, crianças e jovens, estarão a seguir outras séries televisivas (Death Note, Naruto, Escaflowne, Detective Conan?) que demorarão certamente a encontrarem as versões traduzidas em português das mangas respectivas.
A série de televisão foi o veículo que melhor divulgou a série em Portugal, sem dúvida, e será inevitável, pelo menos para nós isso verificou-se, que a leitura destes volumes (até à data, já saíram 5) seja pautada pela sua constante memória e comparação. Os episódios dessa série de banda desenhada não correspondem a par e passo aos da banda desenhada (houve um desfasamento de produção de dois anos, tendo a mangá começado em 1984 na Shonen Jump como uma espécie de reboot de uma peça menor anterior, Dragon Boy), empregando os seus elementos numa distribuição e ritmos diferentes, retirando um trecho aqui, adiantando parte do enredo ali, o que faz com que, por exemplo, o primeiro volume da Asa corresponda a 7 episódios da série de televisão, se não estamos em erro.
A história, é sabido, baseia-se de uma forma muito superficial num dos maiores clássicos da literatura chinesa, A Viagem ao Ocidente, que influenciaria muita da literatura asiática (sobretudo japonesa e coreana, se bem que seja possível que a figura do Rei Macaco tenha paralelos com o Hanuman da Índia, Tailândia e outros países). Como já havíamos sumariado noutra ocasião, trata-se da jornada de um monge budista em busca de escritos búdicos para os introduzir na China, e é acompanhado, para além do Rei Macaco, por um homem-porco, um monge pouco inteligente e um príncipe dos dragões sob a forma de um cavalo branco. Seguramente que os leitores encontrarão de imediato os modos como esses elementos estão transpostos para a série Dragon Ball, na qual se mantêm aspectos estruturais e episódicos idênticos ao clássico. O que é curioso é que parte do que moveu Toriyama a criar Dragon Ball foi o seu cansaço em relação à matéria “ocidental” de Dr. Slump, encontrando em A Viagem ao Ocidente uma desculpa para “regressar às origens”. A negociação entre estes supostos modelos não é de todo paradoxal, mas o normal funcionamento do diálogo intercultural.
Mas para além dessas necessárias e superficiais transformações narrativas e funcionais (o próprio título original é a corruptela do inglês e não uma palavra sino-japonesa), o mais importante é o facto de que Toriyama mantém Songoku como personagem principal mas torna-a uma criança inocente e ingénua (ao princípio, se bem que isso mude pouco ao longo da série), alterando as características pelas quais o Rei Macaco Sun Wu Kong era conhecido e ainda hoje é representado nos filmes, na ópera chinesa, etc. Essa adaptação não apenas se relaciona com os trabalhos anteriores de Toriyama, isto é, à natureza dos géneros e faixa etária para a qual trabalhava, sendo Dr. Slump a sua segunda mais conhecida série, como com a tradição na qual se deseja inscrever, que encontra em Astro Boy o seu natural antepassado e em Naruto um dos seus descendentes.
Mas a grande força de Dragon Ball reside no seu humor… Este baseia-se sobretudo numa quantidade de comentários do inocente Son Goku, em relação ao mundo que vai descobrindo. As comédias de enganos que se seguem são um fruto dessa inocência, mesmo que ela jogue com o saber dos leitores, sobretudo no que diz respeito à sexualidade – que os leitores ideais desta série, adolescentes, começam a descobrir: essa é uma das importantes âncoras de aproximação e sedução de leitores, a correspondência entre o que os leitores começam a aprender, sentir e desejar, e a forma e o que é explorado na série, mesmo que subsumido ao humor (o que difere em muito das relações assépticas e assexuais da esmagadora maioria das séries televisivas norte-americanas da índole das da Disney e Hanna-Barbera). Essa diferença é ainda mais acentuada com a entrada dessa magnífica personagem que é o Tartaruga Genial, hoje quase sinónimo de uma classe de pessoas e/ou de comportamentos.
São as diferenças morais e/ou de humor entre o original japonês e as subsequentes - depois de um crivo de censura na própria adaptação/produção local - versões norte-americana e europeias que desenham a linha de distância, não apenas no que diz respeito à da ideia de violência, que tantas discussões despertou na altura, inclusive em Portugal, mas em torno dos innuendos sexuais, da temática de inspiração religiosa mas que fazia fronteira com a paródia (e, logo, com a blasfémia), das noções de morte e família, etc. A violência dos desenhos animados com as personagens Tom & Jerry, Bugs Bunny, Daffy Duck ou os variadíssimos super-heróis é mais naturalizada (pela cultura), logo, neutralizada, ao contrário da desta série que não se coíbe de mostrar todos os fluidos existentes no corpo humano. Enfim, é precisamente a maior atenção para a naturalidade do corpo e das emoções humanas que torna a mangá mais apelativa a um novo público que não está interessado em abordagens assépticas na sua dieta de divertimento popular, mas é essa mesma dimensão que as torna anátema aos olhos dos educadores e “protectores”…
O que é curioso também, como tudo no que diz respeito às movimentações da cultura e das moralidades, é que a série Dragon Ball, em comparação a Death Note ou Gantz, por exemplo, é totalmente inócua, sobretudo em termos ideológicos, o que não se pode dizer em relação a essas outras séries (não sejamos totalmente ingénuos ao pensar que não existe ideologia em Dragon Ball, claro, simplesmente os contornos dela não têm arestas tão proeminentes e matéria que nos leve a um posicionamento tão radical como nos outros casos).
A recorrência que faremos à versão em animação não é de todo despropositada em relação a este título em particular, uma vez que em 9 casos de 10, é a série de animé que abre caminho à entrada da mangá (salvo nos casos daquela banda desenhada que nada tem a ver com os circuitos comerciais e convencionais). Apesar do sucesso nos Estados Unidos não ter sido idêntico àquele verificado na Europa, Dragon Ball foi ainda assim uma das maiores embaixadas mundiais em relação à animé, o que permitiria à nova geração da animação japonesa comercial (Naruto, etc.) a sua sólida entrada (tal como discutido por Pellitteri, no seu livro). Isso ocorreu com Astro Boy, com Dragon Ball, ocorrerá no futuro… Esta série de animação teve o privilégio de ser uma de continuidade absoluta, isto é, cada episódio não se fechava numa pequena história auto-conclusiva, mas de facto espraiava-se numa longa novela, cujos passos contribuíam sobremaneira para o sentido global. Se na banda desenhada isso não levantava grandes problemas, era mesmo conta-corrente na sua criação há anos, na animação era menos comum, e esta série forçaria as produtoras e importadores a aceitarem essa regra, até à data algo que não era líquido.
Isso não significa que não existissem escolhas estranhas em relação à construção narrativa dos desenhos animados, que muitas vezes são menos naturalistas - por ter uma exposição e tempo que não é controlada pelo leitor, mas aceite pelo espectador - do que a obra de banda desenhada. Um animador, Takao Koyama, chegou mesmo a confessar que muitas vezes transformava uma só vinheta (usualmente de acção) num episódio inteiro da série de animação (de 25 minutos), o que explica porque é que os episódios às vezes pareciam uma cena prolongadíssima (in The Anime Encyclopedia): recordar-se-ão os fãs dos “4 segundos que faltam para explodir o planeta Namec”… que levaram quatro episódios a ser contados! Outra dimensão ainda, divertida mesmo, é o facto de que a longa metragem de animação, por exemplo, levou a uma experiência, julgamos nós, sem precedentes em Portugal, em que a maior parte do público eram jovens adultos e não crianças. Mais, os comportamentos eram análogos àquelas sessões de filmes de culto como The Rocky Horror Picture Show, uma vez que as frases-fórmulas eram ditas em coro pelo público (a canção do genérico, o grito de combate “Kamé-amé”, o “bada-bada” do Cell, e até mesmo os risos específicos de várias personagens).
A arte de Toriyama em si nada encerra de particularmente original. Não estamos num domínio de experimentalismo ou sequer de grande variedade na composição das páginas (ao contrário de Tezuka, por exemplo), utilizando-se construções relativamente convencionais, salvo em momentos de maior acção, mas que raramente “explodem” a prancha em formas novas. E o traço procura menos valências que têm a ver com a expressão do que com uma comunicabilidade serena e redonda. Porém, também poderemos ver isto por um outro prisma. Tendo em consideração tratar-se de uma obra dos anos 1980, é ela uma das que lançou na ribalta um determinado traço e abordagem gráfica da mangá moderna que está no centro das suas prestações mais conhecidas. Por outras palavras, tal como Tintin pode (não sem concessões e provocando problemas de críticas histórica) ser visto como o “grau zero” da banda desenhada europeia (ou “franco-belga“, ou somente belga, etc.), ou a obra de Maurício de Sousa como o epítome da banda desenhada infantil, também as formas de Toriyama atingem esse grau de perfeita harmonia e simplicidade dos grandes autores deste território específico (Disney, Gottfredson, Barks, Jeff Smith, José Abrantes, Stuart, Franquin). Ele é um dos centros nevrálgicos da shonen mangá (se bem que se possa cotejar com nomes tais como os de Mitsuru Adachi, Fujiko F. Fujio, Yoshihiro Togashi, Masashi Kishimoto, entre outros).
Só no primeiro volume introduz-se um grande número de personagens (Bulma, Tartaruga Genial, Oolong, Yamcha) mas as formas como elas se vão complicar no enredo da procura das sete bolas do dragão demorarão a arrancar. Essa é, aliás, outras das colunas de interesse da mangá contemporânea: permitindo-se, de quando em vez, criar histórias com centenas de páginas - e a saga de Dragon Ball atingi-las-á - mesmo que o objectivo primeiro possa ser simples (encontrar as bolas), há sempre a possibilidade de ir desdobrando novos contornos e pormenores ao longo do caminho, mesmo preparando desenvolvimentos mais tardios, como o crescimento e maturidade de Son Goku, a descoberta da sua origem, etc.
As versões sucessivas, filmes e produtos relacionados são demasiado complexos para expor aqui (e até para os conhecer a todos, diga-se de passagem) e, seja como for, o que nos importa é o facto de termos agora nas mãos os pequenos tankobon onde parte dessa moderna revolução cultural começou.
E já sabem: não percam os próximos volumes, porque…
Nota: agradecimentos à editora, pela oferta do 1º volume.

2 comentários:

Anónimo disse...

Estava a ver que tinha alguma alergia em escrever sobre editoras comerciais portuguesas. Parabéns!

Pedro Moura disse...

Olá, Sr. Anónimo. Em primeiro lugar, devo dizer que não deve seguir com atenção o blog, pois já falei, bastas vezes, de livros editados por editoras comerciais portuguesas. Poderia ser controverso e dizer que se não o faço mais é porque se edita pouca coisa de interesse em discutir, mas isso nem seria totalmente verdade, pois há títulos que discuti mas mal saíram na edição original, e há outras coisas que acabo por não ter tempo de falar. Além do mais, de quantas editoras estamos a falar? Duas, três? O que acontece é que há coisas que não vale mesmo a pena mencionar, como Bilal ou Titeuf ou Zits ou coisas quejandas... isto é, não vale para o que eu quero fazer. Nada mais.
Obrigado.
Pedro