27 de agosto de 2012

Vários títulos. AAVV (Bags of Books)

Nos últimos anos, Portugal tem visto os gestos editoriais, de apreciação, discussão, criação, circulação e divulgação relacionados com a ilustração “infantil” multiplicados, mas acima de tudo temos visto uma tendência geral para a melhoria desta área em termos artísticos. Nem sempre vemos as melhores alianças entre os textos e as imagens, nem sempre vemos verdadeiras colaborações, nem as melhores “traduções” pela parte dos ilustradores, ou escolhas de integração gráfica dos projectos, mas em termos gerais o balanço é positivo, como se poderá entender, em parte, com a publicação Como as cerejas, sobre a participação de Portugal em Bolonha. O surgimento de novos agentes editoriais é sempre um dos factores mais significativos. (Mais)

Não faz parte das nossas competências tecer comentários (pois jamais seriam mais do que isso) sobre as opções editoriais da casa Bags of Books, mas um pequeno olhar distante sobre este conjunto de publicações leva-nos desde logo a ver três sub-grupos que não apenas emergem pelas razões óbvias (autores, colecções, séries) mas pelas linhas de força que pretendem criar no seu interior. Isto é, cada um destes pequenos conjuntos parece responder a uma tendência ou a uma possibilidade do espaço que os livros ilustrados infantis podem ocupar, assim como de resposta comercial à procura, e a tentativa de criar uma nova oferta (e entretanto, com Tomi Ungerer, também já penetraram na tendência da recuperação - ou primeira edição em Portugal - de clássicos internacionais).

O mundo no chão/Saudade. Nuno Casimiro/Claudio Hochman e João Vaz de Carvalho.
Dos três núcleos, estes serão aqueles que se encontrarão numa fasquia “intermédia”, entre os mais contemporâneos de Alemagna e os mais convencionais de Rodriguez. Não deixam estes dois livros de estar numa categoria “clássica”, pelo menos em termos “de mercado”, tratando-se de gestos que nascem em primeiro lugar nos textos dos seus autores, que depois ganham uma dimensão comercial de livro a circular pelas imagens dos ilustradores convidados, neste caso o mesmo, João Vaz de Carvalho, detentor de um estilo e figuração muito próprios, e já reconhecíveis. No entanto, é o espaço que é aberto a autores portugueses (um espanhol, que reside em Portugal, e que usa um tema “português”), mostrando como a recente editora deseja criar um catálogo diversificado (mais vasto do que aqui mostramos).

Ambos os livros apresentam o texto em blocos colocados em páginas isoladas das imagens, não se procurando um entrosamento maior (como ocorre nos livros de Alemagna), sublinhando dessa forma – habitual, em livros desta natureza – a fórmula contrapontística entre texto e imagem, entre territórios que partilham fronteiras, mas não as desejam confundir. Logo, a de texto fundador e imagem que lhe (cor)responde.
As figuras de João Vaz de Carvalho seguem a sua natureza expectável, todas elas de olhos quase vidrados, reduzindo a expressão facial a um intervalo extremamente conciso, e que desvia as potencialidades interpretativas para outros sectores da imagem. No caso de O mundo no chão, escrito por Nuno Casimiro, podemos vê-las como parte do seu programa narrativo, a de que construir uma experiência praticamente desaparecida do mundo rural português (o cinema itinerante), logo as faz surgir como personagens a um só tempo deslumbradas e fantasmáticas, e cuja transformação final, inesperada, incute uma camada, retrospectivamente, ainda mais mágica, de passagens.

Todas as imagens apresentam as personagens (o gato protagonista, o senhor Antunes, a população da aldeia) viradas para a direita, estejam em movimento ou não, como se se procurassem unir noções de homogeneização dos olhares, de passagens entre mundos, de abertura do espaço da página para algo de maior que lhe escapasse. E que se vê corroborado pela ideias dos buracos no soalho (que o ilustrador traduz sempre de forma fluida, e também emprega nas guardas sempre sublinhando a ideia de estarmos face uma máquina de passagens). Todavia, e de uma maneira diferente dos livros de Rodriguez (v. adiante), que subsume essas direcções numa programa fixo, não deixa de se sentir uma certa monotonia de composição. A opção deste artista em usar cores sombrias, para não dizer sorumbáticas, mas sem com elas criar um ambiente vago, nebuloso e onírico (como, por exemplo, uma Anne Brouillard ou Hélène Riff), apenas reforça essa impressão geral.

Tendo já falado de Saudade quando da sua primeira edição (e cuja ausência de menção sequer numa nota é surpreendente), importar-nos-á aqui apenas debater a forma como o ilustrador responde ao mesmo desafio. Se bem que a versão anterior, por vários artistas amadores (maioritariamente mulheres), era algo heterogéneo, não será apenas uma questão de coerência pelas imagens terem a mesma assinatura que teremos soluções mais acabadas. Na verdade, o facto do texto ser estruturado já em si de forma tão esquemática, ganha mais com uma heterogeneidade gráfica do que com a opção, aqui presente, de uma outra repetição de esquemas visuais, num enfraquecido contraponto entre as imagens dos planetas e das cenas do rei e do “seu” Pessoa…

Depois do Natal, A gigante pequena coisa e O meu amor. Beatrice Alemagna.
No caso desta artista, estamos perante um território totalmente diferente, a que chamámos contemporâneo acima, palavra que, como já repetimos noutras ocasiões, não se prenderá somente com a data de produção, claro, mas com a capacidade de responder às capacidades expressivas que se vão abrindo, ou que se estreiam mesmo, a uma área criativa. Outra inflexão desse gesto encontra-se no facto, acumulado, de que a escrita e as imagens são lavradas pela artista, e de que essa escrita e essas imagens não procuram seguir caminhos mais ou menos já formulados.

Em termos visuais, encontramos aqui uma panóplia texturada e variada – colagens de materiais já impressos, fotografias ou papéis decorados, fragmentos trabalhados pela autora, com lápis de cor ou de cera, intervenções de grafite, rápidos apontamentos esquemáticos, e no caso de O meu amor, bordados, costuras e pedaços de tecido e botões em pano-cru -, em que as qualidades materiais do que é usado não se subsumem de forma alguma, antes criando uma tessitura coesa e, se não inconsútil, decisivamente unificada. Poderá ser reminiscente da técnica de Eric Carle, mas onde este emprega um naipe controlado e à partida homogéneo de elementos variados, Alemagna parece dispor de uma técnica mais improvisada. A sua empregabilidade num vasto repertório de enquadramentos, perspectivas, proximidades das personagens (nos dois primeiros livros não existem mesmo protagonistas, mas antes um diluimento das sensações partilhadas por um grupo delas, que tendem a representar a humanidade em geral), de eixos de direcção das linhas de força, da composição das massas e das cores, reforça ainda mais essa ideia dupla de variedade versus singularidade. O próprio formato dos livros é ainda outro aspecto a ter em conta, se bem que o A gigantesca pequena coisa, pela sua enormidade, pode levar a uma performatividade – uma dimensão lúdica quase obrigatória de ter em conta na leitura destes livros - muito particular.

Uma vez que é a própria autora a procurar as relações que bem entende entre as palavras que lavra e as imagens que tece nos seus livros (fazendo imaginar até uma produção “invertida”, com as imagens na dianteira), há uma possibilidade total de não precisar de “respeitar a letra da lei” do texto original, por assim dizer. Ou seja, evitar-se-á qualquer elo de subordinação ou de disrupção (já que ambos demonstrarão desde logo uma ligação directa), permitindo antes que possa emergir uma relação complementar que é (re)construída pelo próprio leitor. Porém, uma vez que o próprio texto é menos narrativo do que descritivo de sensações – Depois do Natal parece uma colecção de afirmações de várias vozes, em torno da angústia ou nostalgia instantânea que vem depois dessa quadra (para quem a partilha e a aprecia, claro está), O meu amor começa como uma tentativa de auto-identificação pela parte do protagonista e a sua resposta encontrada na outra criatura, e …coisa é um exercício oblíquo que tenta detectar, mas sempre um momento tarde demais, a localização das pequenas coisas que compõem o que é a felicidade – algumas das imagens podem ser claras representações do que se prevê no texto, ao passo que outras podem fazer-se valer de valores diferentes (a relação entre a felicidade e o que vento leva, o pinheiro sempre tombado, deitado fora, de Natal). No caso d’O meu amor, por exemplo, as alterações radicais nos elementos que compõem gráfica e fisicamente as personagens repetidas não são factor de estranheza, mas antes da própria flutuação de humores e de auto-percepção que temos de nós mesmos, mostrando a eventual interdependência que existe nos seres humanos (o que pode ser entendido também como a lição de todos os livros de Alemagna).

O ladrão de galinhas, A vingança do galo e A pesca. Béatrice Rodriguez.
Destes três blocos aqui discutidos, talvez esta colecção seja a mais convencional segundo toda uma série de parâmetros. Afinal de contas, esta série de livros com as mesmas personagens apresenta histórias simples, lineares e sobretudo despretensiosas, que exploram os seus temas de uma forma mais singela, sem moldar as emoções de uma forma poética como os projectos anteriores. Todas tiram partido de dois elementos principais, que são mesmo os seus princípios estruturantes narrativos (e clássicos): o movimento linear e o mal-entendido. Em relação a este segundo elemento, são as comédias de erros típicas, que levam desde ver o “ladrão de galinhas” a revelar-se uma raposa apaixonada pela galinha a um tesouro que é mais valioso do que se esperaria ao início, e uma aventura bem-sucedida.

Mas é sobretudo a exploração do movimento linear (no primeiro livro causado pela fuga da raposa e a sua perseguição pelos outros animais, no segundo a captura de um ovo misterioso e a fuga do galo, no terceiro a semi-captura de uma serpente marinha) que torna a forma e o conteúdo destes livros de Rodriguez numa unidade coesa. O dinamismo permitido pelo formato dos livros é explorado sistemática e completamente: cada duas páginas abertas (que medem assim aproximadamente 16 por 52 cm) criam um panorama ou uma paisagem que constituem uma só unidade espacial, que ora é entendida como um momento específico na acção, e onde a distribuição das personagens ajuda a compreender as relações entre uns e outros (seja em momentos de grande dinamismo e dramatismo, seja nos momentos mais calmos), ora é vista como uma paisagem onde o movimento das mesmas personagens é estratificado em micro-acções, reiterando de uma forma diferente a ideia dinâmica que subjaz a toda a acção. A figuração de Rodriguez é muito simples, procurando acima de tudo a clareza de identificação das personagens, tornando este livro apto aos primeiros leitores, que começam a tomar decisões de como associar e coligir o significado narrativo do que observam. Isto não quer dizer que não haja uma dimensão material sensível, como se nota desde logo pela textura do papel de aguarela usado a emergir, por assim dizer, de sob as cores aplicadas. E algumas das soluções são “mágicas” (os cogumelos-candeeiro, o cardume em forma de peixe, as salamandras que se colam, etc.). As estratégias de composição de página, quase sempre “sangrando”, mas em alguns momentos utilizando enquadramentos internos significativos, e aliados a uma linguagem corporal dramática nas personagens, tornam a trama sempre de fácil e clara apreensão, que são aqui vantagem.

A ausência de texto (a colecção chama-se “Histórias sem palavras”, seguindo o gesto editorial original da Autrement, de que provêm estes livros, e os de Alemagna) traz ainda uma outra dimensão importante, sobretudo nos casos em que o livro é “lido” por um adulto, que é a obrigação em procurar uma performatividade na base do improviso, em vez de fechar o leitor num roteiro programado desde logo. Isto é, a velocidade de leitura não se verá somente pautada pela leitura do texto (isto é, a redução ao que há a ler somente à matéria verbal) mas permite ou exige a passagem atenta a todas as informações visuais das imagens, e que têm elementos suficientes para pequenas subtilezas, piadas, constâncias e variações.

Dito isto, a verdade é que esta série pode ser interpretada como uma fábula sobre temas de uma contemporaneidade extrema, tocando temas prementes, actuais e até mesmo controversos de uma forma simplificada, mas não simplista, demonstrando como o uso de animais antropomorfizados pode ajudar a criar instrumentos de exposição de uma nova cultura. Afinal, que temas são esses? Em termos gerais, o das famílias alargadas e alternativas. A liberdade de união – de facto ou outra - entre pessoas onde não haveria essa expectativa social, a adopção, a união “interracial” (palavra terrível, mas que explica muito, e remete de novo a O meu amor), a distribuição de papéis económicos pelos sexos, e outras coisas.  Nada há de simples nesses temas, porém é tudo uma coisa tão simples… Aliás, numa brevíssima comparação a títulos como O segredo do bosque (Javier Sobrino e Elena Odriozola, Oqo) e O livro do Pedro (Manuela Bacelar, Afrontamento), vemos que os livros infantis podem muitas vezes revelar-se instrumentos de uma inteligência rara, e descontração, na abordagem destes assuntos.
Nota final: agradecimentos à editora pela generosa oferta do “saco de livros”, e desculpas pela demora na nossa leitura.

5 comentários:

gambuzina disse...

Pedro, se puderes faz-me um favor; define contemporäneo..
säo tiques da moda que aparecem aqui e ali?
säo alunos das belas artes que acabam o seu curso formatadamente a cumprir uma determinada época?
näo passam de manias gráficas datáveis; como formas redondas nos anos 70?, angulosas nos anos 80? garatujas nos 90? um certo classicismo de regresso nos anos 00?
confesso que tenho algumas dificuldades em entender o conceito, ou a necessidade de o referir como sendo algo bom ou necessário, até porque a clonagem é inimiga da criatividade
e até pk esse contemporaneo é desfasado quando se saltita de um país para o outro..

Tendo como medida que a maioria das pessoas que ficam para a história teem sempre o seu estilo próprio, e frequeentemente säo seminais ( imitadadas) ...

Pedro Moura disse...

O texto em que melhor expus o meu uso particular da palavra "contemporâneo" (no seguimento de autores teóricos) é aquele que serviu de apoio à pequena exposição de autores portugueses que fiz para o FIBDA de 2009, e que se encontra no catálogo respectivo ("XX Anos"). A discussão passa por vários factores, que não são - não podem ser - somente o momento da sua criação, mas antes (entre outras coisas) "Estrutura-se pela experimentação no seio da linguagem, isto é, numa procura incessantes dos limites da linguagem, abordando-os de um modo duplo, numa primeira fase desconstrutivo e numa segunda reintegrativo, levando à expansão, e não destruição, da própria linguagem". Não tem nada a ver, portanto, com utilizar um estilo em particular, ou respeitar tendências locais, internacionais ou globais. São uma amálgama de experiências que fazem entender alguma vontade em procurar novos caminhos, sem negar os que estão para trás. No que diz respeito aos livros ilustrados infantis, e numa generalização algo redutora, diremos que é escrever textos que vão além do "contar uma bela história" e criar imagens que passem "para lá da representação", criando blocos de sensações novos, no sentido não de novas sensações (que são humanas), mas de estratégias criativas que as permitem surgir. Para mais num campo em que há usualmente um leque reduzido de temas e estratégias narrativas, gráficas e estilísticas.
Pedro

gambuzina disse...

meta-tempo?
meta-linguagem?

contemporaneo=experimental?
contemporaneo= vanguarda?
continuamos com um problema ...linguístico
gosto de palavras com sentido exacto
(accuracy ) daquelas que näo dá para estrebuchar teorias...
o especulativo é relativo e por isso eternamente discutível

com-tempo....
falaremos disto
näo estou convencida desses limites teóricos da dita, mas mui agradecida pela resposta, pelo menos elucida-me sobre o teu ponto de vista

gambuzina disse...

contemporaneo significa apenas do mesmo tempo
,tenho visto essa palavra ser usada frequenetemente na bd por pessoas que a acham necessa´ria para definir a bd " que interessa" neste caso aplicast-a na ilustracäo..a palavra contemporaneo tem sido usado como acessório de muita coisa que näo quer dizer realemente nada..
a experimentacäo é uma coisa, a vanguarda outra...
tu és o homem das letras, mas näo aplicas as palavras no contexto certo
e de cada vez que ficas sem resposta,
metes outro texto, acho bom, assim se dá gás a um blog
a palavra contemporaneo näo está sujeita a discussäo, vai ao dicionário e deixa as especulacöes para as questöes subjectivas, como o gosto ou a percepcäo
bjecas

Pedro Moura disse...

Todas as palavras estão abertas à discussão, e essa é uma das coisas que aprendi, se bem que possa falhar na sua aplicação. Eu não fujo a discussões, mas sustento-as quando elas existem. A única coisa que me estás a dizer é que uso mal as palavras. Seja.
Pedro