1 de setembro de 2005

Modern Arf. Craig Yoe (Fantagraphics)


Já falei de outras antologias aqui e noutros sítios, por isso dispenso-me de tecer comentários sobre antologias em geral. Gostaria de dizer que esta Modern Arf, que é por demais visível ser a teima de uma só pessoa – o seu editor Craig Yoe – marca a diferença, que levanta a fasquia, mas tenho demasiadas desconfianças a trabalhar para o fazer sem pestanejar.
Não me entendam mal. Esta publicação é clara nos seus princípios. Cada número será dedicado a um tema em particular (neste caso trata-se da relação entre os artistas e os modelos) mas sempre relacionando a “arte” da banda desenhada e as “artes” visuais. Apresentará sempre trabalhos de banda desenhada inéditos, ou reedições, sejam estas de trabalhos históricos, difíceis de encontrar, já esquecidos, ou mais recentes mas sob uma óptica diferente e exemplos de “artes maiores” (sobretudo pintura). Gostei muito de Milt Gross, deste Jack Kirby, de desvendar Patrick McDonnell, de descobrir este trecho de Dali, de me ser apresentado Hy Mayer, de se me tornar acessível estas pranchas de Antonio Rubino. Outras escolhas entusiasmam-me menos.
Mas a desconfiança que mencionei não se relaciona com a escolha em si. Trata-se antes da sua contextualização, apresentação, problematização que é... nula. Craig Yoe parece-me mais um excêntrico com dinheiro e uma vasta colecção privada mas sem uma verdadeira formação de gosto ampla para fazer um trabalho interessante. A antologia sofre demasiado de um design sui generis, mas que se torna pesado, pretensioso e até de mau gosto (em “americano”, diríamos “loud”). Pertence também àquela geração que adora comics porque são... cool. E que colecciona objectos “americana pop”, falando com desprezo de outros patamares mais ou menos instituídos de produção de cultura, divulgação e criação artísticas e mesmo de juízos de gosto, relativizando com “I know what I like”. Nem vou recomeçar essa discussão.
A verdade é que o cotejamento directo de vários exemplos de cartoons, gags, curtas histórias e obras de arte em que apenas existem traços superficiais comuns em nada abonam a nenhum pensamento crítico, tampouco às artes que supostamente se estão elogiando. Surge apenas como uma saladinha “clever”, um “achado” interessante, para mostrar aos amigos no meio de um ou dois cocktails...
Os textos que introduzem os trabalhos não são mais do que encómios informados, mas adiantarão pouco a uma redescoberta balizada dos trabalhos apresentados. Usam e abusam de adjectivos como “brilhante” e “genial” (para todos os artistas incluídos, afectando assim o trabalho do próprio Yoe que se inclui na sua antologia – uns horrorosos pastiches de meia-dúzia de famosíssimos artistas desta arte), e empregam quase sempre a palavra “surreal” para se referirem a trabalhos cuja plasticidade ultrapassa a dos modelos do mundo. Eis aqui uma outra discussão possível: a não existência de surrealismo na banda desenhada pela sua própria materialidade e obrigatoriedade de estratégia visual, repetição de referências em geral obrigatória pela sequencialidade, etc., mas isto levar-nos-ia a outras discussões em termos de montagem, paginação, desenhos, experiências-limite da banda desenhada (ou outras linguagens mais ou menos análogas), relações mundo-desenho isto é, referencialidade/realidade), entre outras linhas temáticas inevitáveis. Também nõ é o momento certo. Pensando agora nisso, se esta antologia permitir estabelecer um princípio para estas discussões, a sua estratégia manca não é de todo desprezível. Posted by Picasa

2 comentários:

ena disse...

A capa do teu exemplar também apresenta deficiente adererência do plástico ao papel?

Flashfinger disse...

Sim, como se tivesse "pele quebrada". Para o preço e o designete que apresenta, é uma "bergonha"!!