15 de agosto de 2007

Aya de Yopougon. Marguerite Abouet e Clément Oubrerie (Gallimard)


Uma vez que o mercado francês de banda desenhada é imenso (são publicados dois livros de banda desenhada por dia; NOTA: ver comentário em baixo), a sua compartimentação em nichos de mercado não é surpreendente, e a instauração de “horizontes de expectativas” específicos associados a determinadas casas editoriais, colecções, etc., também não. Já antes havíamos aqui falado de dois outros títulos da colecção Bayou, da Gallimard, a saber, Klezmer de Joann Sfar (o director da colecção) e Orage et Désespoir de Lucie Durbiano. Também Aya de Yopougon procura perseguir o mesmo fantasma ou princípio organizativo: histórias claras, de um propósito narrativo simples e límpido, com uma arte descomprometida, de linhas claras, onde a simplicidade e a legibilidade terão muito maior peso que a experimentação ou os riscos de uma paginação menos comum. Narrativas as quais se dirigem sobretudo a um público que deverá rondar os onze, doze e os dezasseis anos, citadinos e com uma cultura acima da média. Afinal, quase todos estes títulos exibem personagens principais que têm a mesma idade, que invariavelmente se apoda de “idade dos porquês” ou “idade do armário”; em suma, um momento intervalar na vida de um jovem em que este se começa a aperceber que o invólucro que os protegia até então não é assim tão sólido e se mistura um terror em saber que poderão ser dele expulsos com o desejo de se livrarem dele e procurarem traçar um caminho individual. O momento em que se descobre que as afinidades com os membros da família se começam a dissipar para dar lugar a elos mais fortes com os amigos. Uma crise, enfim, pela qual muitas pessoas atravessam em graus diferenciados, mas cujas linhas gerais são idênticas. Aya de Yopougon não é excepção. Assistimos precisamente aos momentos em que Aya começa a ganhar os contornos psicológicos e individuais de uma mulher, e emancipada, o que a contrasta com as restantes amigas, mais preocupas com soluções fáceis e imediatas de resolução de vida.
Parece-me que o leitorado destes livros se presume acima da média cultural uma vez que os bastidores, as circunstâncias, os ambientes onde estas personagens relativamente tipificadas nesta categoria se movem procuram retratar um mundo maior do que aquele que se fechará na experiência mediata desse leitorado médio. Se Klezmer recupera um imaginário dos judeus russos, Aya mergulha directamente na experiência da escritora, Marguerite Abouet, dilatando-se sobre o que seria a vida das adolescentes na Costa do Marfim na passagem dos anos 70 a 80. A preocupação aqui não é tanto reconstruir as ligações de uma vida individual com as de um país, estruturando assim um retrato cultural ou um posicionamento político mais “engajado”, como sucedera com Marjane Satrapi em Persepolis, mas pura, simples e, mais uma vez, descomprometidamente, mostrar essa vida individual, através das acções de um quotidiano que é banal: sair à noite, fazer planos da vida académica, dar uma mãozinha aos amigos, namorar, procurar um equilíbrio feliz entre “portar-se bem” e “portar-se” mal, e tentar resolver os graves problemas quando a segunda opção descarrila. Enfim, ir vivendo a vida sem que ela se tenha que tornar um constrangimento ou um símbolo de algo para além da sua imanência. As comparações são necessariamente falhas, como já antes repetira, e esta aproximação a Satrapi não serve como elemento de diminuição de Aya. Os propósitos não são os mesmos. Estamos perante uma obra leve, mas que mesmo assim serve de porta de apresentação de uma cultura que, à partida, nos é alheia. Por isso não entendo a insistência nos textos de apresentação, afirmando que Abouet “conta uma África bem viva, longe dos clichés, da guerra e da fome”. Porquê ir buscar esses elementos, precisamente “clichés” para depois apontar, negativamente, estarem ausentes de Aya? Essa ausência não é em si positiva. Não é espaço para esses temas em Aya. O seu território é outro. Mais, o facto desses textos apontarem para a existência de uma África que possa ser composta de “clichés, guerra e fome”, e até o próprio facto de mencionarem, a propósito de uma colaboração entre uma escritora da Costa do Marfim e um desenhador de Paris, uma ligação a “África”, parece sublinhar a existência de um preconceito à partida.
Abouet não me parece ser uma “voz” da Costa do Marfim, muito menos de África, tal como Sfar não o é da França ou da Europa ou de um judaísmo aberto ao mundo. Abouet é uma voz individual, que reconta aqui pela fórmula da “auto-ficção” (as primeiras páginas do primeiro volume de Aya de Yopougon informa-nos que estamos perante uma longa digressão analéptica) a vida de três jovens mulheres do bairro de Yopougon (da cidade de Abidjan), cada qual formando-se como uma personagem de pleno direito, e em nada redutíveis a símbolos ou metáforas. É óbvio que não existe em qualquer tipo de discurso inocência política ou de poder, e é possível através da leitura de Aya apercebermo-nos do posicionamento moral de Abouet em relação ao papel que se espera(va) que as mulheres assumissem numa cultural tradicional, os jogos de poder sexual exercidos por todas as camadas sociais, a estratificação e limitações da mobilidade social, a importância dos pequenos prazeres num país em que a prosperidade económica foi real e visível durante um pequeno momento, mas a sua população – e estas personagens mostram em vários momentos essa razão – adivinharia que mais valia aproveitar o dia presente.
Um outro ponto ou aspecto que revela a consciência de que a estruturação deste livro é feita como plataforma de apresentação de um Outro, isto é, de que este livro se apresenta não como um discurso onde as experiências se plasmam de imediato com as dos seus leitores mas atravessará algumas camadas de estranheza e distância, está presente na inclusão de um glossário de calão costa-marfinense e uma espécie de dossier nas quais as personagens dos livros desvendam receitas, conselhos, truques e “segredos” (“entre outros”, como não deixam de sublinhar). Esse gesto de aproximação revela ao mesmo tempo a distância que é preciso transpor. Mas sempre com leveza e humor, de uma forma natural.
Os desenhos de Oubrerie estão em plena consonância com um estilo muito em voga estes dias pelo mundo francófono (mas também para além dele), e onde Sfar tem precedência, mas onde se juntam Sapin, Durbiano, Micol.... Um desenho simples, leve, em que parece ser a facilidade do primeiro traço a que é eleita como elemento constituinte do desenho final. Oubrerie emprega pequenos truques, como a distorção ou caricaturização extrema das suas personagens estilizadas ou a hiperbolização da expressão, para conseguir melhor transmitir as emoções em causa. As variações das cores são também competentes sem cair na estranheza, e tanto servem para sublinhar momentos-chave das reacções das personagens (em que apenas uma vinheta muda subitamente de paleta) como para criar o ambiente certo dentro dão naturalismo possível, salientando-se particularmente os cinzentos e azuis dos momentos nocturnos, os vermelhíssimos pores-do-sol, os iniciais ocres e sépias para introduzir toda a narrativa, que se estenderá por outros volume seguramente.

2 comentários:

Rui Cartaxo disse...

Dois livros por dia? Estás a brincar Pedro, são mais de 10 por dia! Confere os dados de Giles Ratier, da ACBD (http://www.acbd.fr/bilan-2006.html#1): 4130 livros francófonos europeus publicados em 2006, dos quais 3195 são novidades absolutas. Ah, e já agora, o 3º vol. de Aya sai no ínício de Outubro. Um abrço do Rui Cartaxo

Flashfinger disse...

Obrigado pela correcção, estava a citar de cor "conversa de café". O meu comentário a esse número, e que deveria ser coro nacional, é "Pôssaras!".
Pedro