29 de novembro de 2007

Evereste. Ricardo Cabral (Asa)


Evereste é um daqueles livros que vive numa imediata relação com algo que se encontra no seu exterior, a saber, os “factos reais” em que se baseará para a sua construção; e para mais, são “factos” sobejamente conhecidos, porque publicitados sobremaneira nos media aquando do seu evento: a morte do alpinista belga Pascal Debrouwer, companheiro de uma das escaladas de João Garcia, o famoso alpinista português. Ricardo Cabral aproveita uma mera circunstância de familiaridade com João Garcia (serem ambos dos Olivais), talvez alguma admiração pelo atleta, e as circunstâncias desse trágico acontecimento para construir um livro singelo, isto é, despretensioso e que cumpre cabalmente aquilo que promete: uma história envolvendo o desejo de um homem, que se vê cumprido, mas com um pesado revés. Porém, enquanto livro autónomo, pouco importa para uma sua leitura desapaixonada (que não é de menosprezar, simplesmente não cultivada aqui) essa sua relação com os “factos”; tal é antes matéria de um comentário de natureza jornalística ou biográfica. A relação que uma obra estabelece com a realidade deixa de fazer peso no momento em que ela existe como obra. Não se apresentando como testemunho tout court, i.e., documento, e instando-nos à sua interpretação através da inclusão de estratégias de apresentação e representação – a obra dá-nos de novo o que nos quer dar – abre-se para fora. Evereste é assim um acto independente de Ricardo Cabral.
Por ocasião do Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, foi-nos possível ver a chamada arte original deste álbum (arte que se anula no momento em que se transforma no texto a ser revelado enquanto banda desenhada): desenhos a preto e branco, onde as figuras humanas devem algo da estilização de uma influência pela tradição mais visível da mangá mas em que os cenários ganham um direito de cidadania francamente significativos, o que faz todo o sentido, já que é próprio dos textos em torno dos Himalaias dar conta do esmagamento sublime (em todo o sentido desta palavra) a que obriga. O seu posterior tratamento gráfico a cor acaba por esbater algum desse trabalho, apagando os pormenores que seriam visíveis nesses primeiros traços, mas compreende-se que tal aconteça, tendo em conta os jogos de luz que o autor pretende dar em relação às flutuações provocadas por noites sem nuvens e onde a luz difusa das estrelas se esboroa por todos os cumes, a multiplicação dos reflexos da luz diurna nos mantos de neve, as súbitas sombras brancas provocadas pelo vento, o negro onde se cai pelas portas do pesadelo.


Onde O Relógio Insano é centrífugo, Evereste é centrípeto. O intervalo do tempo diegético e o espaço em que a acção se desenvolve é diminuto, se se exceptuarem as pranchas introdutórias, as quais poderão ser entendidas como uma analepse da personagem principal. A acção é concentradíssima, em metros e em horas, o que nos provoca a sensação da lentidão esmagadora que serão esses últimos metros, essas últimas sensações... Mas é precisamente nessa “mais alta solidão” (para citar o título de um livro de João Garcia) que as memórias do que esse desejo de conquista de um cume representa, do que a intimidade com o sublime “tecto do mundo” permite. O autor prefere concentrar-se numa mostra das acções, e não tanto entregar-se a desvios dessa atenção, mas o uso constante e espaçado das legendas da voz interior do protagonista (quiçá baseados em textos reais de João Garcia?) – com algumas excepções em que serve para transmitir os diálogos via rádio – leva-nos a pensar que haveria uma vontade de nos abrir caminho a essa mesma interioridade. No entanto, ela cinge-se sobretudo à acção, com a excepção do início retrospectivo e o final funéreo.
Evereste não me parece querer recriar a linguagem da banda desenhada, e nem tem de o fazer. Basta-lhe (à obra, entenda-se) que cumpra aquilo a que se promete, e como se afirmou, esse objectivo, que é simples e de uma subtil calma, é atingido. Apesar do grande dramatismo a que os eventos poderiam dar azo em termos narrativos (mais ou menos ficcionais, mais ou menos fantasiados), Ricardo Cabral (com João Garcia?) opta por abraçar-se a um possível realismo, sem comoções, respeitando as velocidades e a gravidade que as altitudes frias do Evereste permitem, e isso por sua vez inflecte outro tipo de gravidade às acções representadas no livro. É como se fosse uma espécie de ilustração ao paradoxo de Zenão – ainda que com uma consciência momentânea e depois do facto - de que por mais passos à frente que possamos dar, por mais providenciados que possamos estar, a Morte chegará sempre mais célere do que se esperava.

2 comentários:

antonio coelho disse...

Olá!
Como Alpinista amigo e companheiro de expedições de João Garcia(ver expedições Portuguesas), é com orgulho que vejo mais tributo á sua pessoa, desta vez sob a forma de BD.
Quanto ao trabalho plástico do artista, ficou um pouco àquem das minhas espectativas que sabia desde o ínicio do desenvolvimento deste projecto. Desta forma penso que foi assumida a representação gráfica e real baseada nas imensas fotografias do João, nos seus diários e relatos pessoais que manteve com o autor.
Com base no meu percuros académico e profissional ligado ás artes e ao design, considero este livro uma obra gráfica(tipo graphic novel), com um bom desenho na sua essência , em que autor visou representar o real, tal como lhe foi transmitido e não representar de uma forma plástica as emoções que esta expedição lhe poderiam provocar.

Flashfinger disse...

Olá, Tó Zé,
Obrigado pelo comentário, mas deixa-me apenas sublinhar o facto de que o Ricardo Cabral "representou de uma forma plástica" as emoções ou, pelo menos, a leitura, que ele próprio fez dos eventos "reais". Se coloco estes entre aspas, não é para os diminuir, mas simplsmente para alertar o facto de que mesmo quando as obras de arte - no seu sentido mais amplo, obras feitas pela mão humana - se baseiam em factos reais, informaçõs do mundo em que vivemos, há sempre vários graus de transformação qu atravessam. Este "Evereste" não é excepção. O livro é muito simples, não se pode dizer estar perante um livro de banda desenhada - deixa lá isso das graphic novels - espantoso ou inovador, mas não me parece ser esse o seu campeonato; é um livro competente, e digo isto com toda a consciência do valor dessa palavra, de um modo positivo; além do mais, o que me agrada é não ser histriónico: seria muito fácil dar a vender uma estruturação dos acontecimentos empolgante, emotiva demais, lamechas, etc., mas Cabral - quiçá baseado em conversas com o João Garcia, não sei e pouco me interessa, na verdade, pois não sou jornalista - preferiu dar uma versão calma, quase como que de um profundo entendimento da realidade de que os jogos de vida e de morte, como tu próprio me ensinaste ao explicar-me as circunstâncias de uma escalada deste nível, são mesmo assim, há que acolhê-los como parte das suas próprias regras.
Obrigado,
Pedro