4 de fevereiro de 2010

O livro negro das cores. Menena Cotín e Rosana Faría (Bruaá)



A tarefa da crítica depara-se, de quando em vez, com os seus próprios limites, no sentido em que o discurso que cria, e que deseja, se opera no interior de um saber levado até às consequências da sua própria limitação, pois só aí é que nascem as questões, mesmo que jamais sejam respondidas, em vez de uma aproximação segura, incontroversa, de apresentação informativa – deixando de ser crítica, portanto. Mas por vezes ela depara-se com um território qualquer que ultrapassa esses limites, e passa a estender-se uma outra área, de ignorância, de escolhos conceptuais, de não-compreensão, até mesmo de impossibilidade de aproximação, por menor que esta pudesse ser. [nota pessoal: já tinha este livro, numa sua versão espanhola e francesa, há dois anos, mas não me era possível escrever sobre ele; a sua tradução, mas também o cruzamento com uma investigadora, levou a este texto, assinado a dois.]
O livro negro das cores é um desses objectos cuja leitura lança a tarefa crítica directamente aos escolhos. São tamanhos os riscos que se tomam ao abordar um livro destes. Para mais, por não sermos (e não o desejarmos ser) os seus leitores ideais. Ler este livro é lê-lo com medo, desconhecimento e apenas uma tentativa votada ao insucesso. É à luz desse perigo que o texto que se segue deve ser lido.
Muitos artistas que trabalham o desenho, desde aqueles que se expressam através do desenho quotidiano dos diários gráficos aos que constituem inúmeras séries como Robert Longo, expressam muitas vezes a entrega dos cinco sentidos em toda a criação do desenho. Querem eles com isto dizer, para além de um certa poeticidade da língua, de uma retórica assaz constante, que o acto de criação apenas é possível com uma total concentração, e que tal concentração apenas é possível de atingir se real. Uma forma de entender essa entrega é a capacidade que os autores têm de, a cada vez que revisitam com o olhar o desenho feito, possam recuperar todo o ambiente e sensações do momento da sua criação, como se todo o corpo passasse a tornar-se parte intrínseca, através de ligações subtis, da marca deixada na superfície (a que nós, meros espectadores, apenas temos acesso).
Ao deparamo-nos com um livro para cegos, e mormente, um livro ilustrado para cegos, por mais paradoxal que isso nos pareça, essa imagem é destruída, e somos confrontados com uma realidade mais prosaica, por um lado – há mesmo a ausência de um dos sentidos –, e, por outro, mais mais verdadeira – exploram-se os sentidos de um modo mais holístico, usualmente preterido. No caso presente, trata-se de assumir a necessidade de ler pelo toque.
Esta dimensão do toque traz à tona uma complexa rede de sensações e percepções que baralha novamente a relação entre intimidade e distância do acto de leitura, de fruição de uma ilustração. Convenhamos, sem titubeações, que não leremos jamais este livro como os cegos (assim o esperamos, sem com isso desejar diminuir o valor humano dos cegos). Por não sabermos ler Braille, por não termos a sensibilidade e aprendizagem suficientes para diferenciar e interpretar e ler as inscrições em volume (quer a escrita quer as imagens), por não podermos compreender o jogo que o livro promete, implica, e cumpre. Temos sempre o atalho mais fácil: vemos.
A questão da leitura dos cegos é um território complexíssimo sobre o qual não temos qualquer formação que nos permita ir além de breves e superficiais leituras da matéria. Como é que poderemos compreender a emergência de imagens sem imagens? O reconhecimento das imagens apenas nasce num caso de categorização delas mesmas. Quando lemos, antes de ler, vemos a forma das letras e apreendemo-las a partir de um fundo, de uma biblioteca de formas análogas. O que sucederá quando essa biblioteca não existe? Mesmo a capacidade de ler através do toque, a “leitura de relevos” (a escrita Braille, as formas) se diferencia, drasticamente por vezes, no caso de cego congénitos, no caso de pessoas que tenham cegado na infância (antes mesmo da aprendizagem verbal e das categorias que isso acarreta), naquelas que cegaram em adultos, tal como em relação ao nível sócio-cultural dessa pessoa… e tantos outros factores que ditam a capacidade e o grau de aprendizagem necessários à “leitura”. Um aviso à ausência da universalidade de método ou de leitores, o que é bem diferente do que sucede em relação às imagens junto aos que vêem (apesar de ser necessário alertar para a parte que cabe aos condicionamentos sociais e culturais da própria apreensão das imagens, feitas pelo homem ou “naturais”).
Walter Benjamin, no seu influente “A obra de arte na época da sua possibilidade de reprodução técnica” (cito a 3ª versão escolhida por João Barrento na sua tradução, em A Modernidade, Assírio & Alvim), capítulo XV, diferencia a concentração da distracção, aproximando a primeira da contemplação, um grau superno de atenção visual, e a segunda ao mergulho típico das massas em determinadas obras de arte tais como as do cinema ou da arquitectura. Falando destas últimas, diz o seguinte: “são objecto de uma recepção dupla: pelo seu uso e pela sua percepção; ou melhor, táctil e opticamente”. Apesar de não o citar e empregar palavras mais usuais, faz recordar a oposição que Alois Riegl havia proposto entre o óptico e o háptico, isto é, uma aproximação que tem a ver com o distanciamento necessário para a instauração da percepção visual e a aproximação do toque, a que a compreensão e apreciação da escultura, por exemplo, obriga (não se trata de tocar literalmente na estátua, mas em abordá-la enquanto forma moldada, de lhe compreender a tridimensionalidade, inclusive com a deslocação que o corpo faz em seu torno; é por isso que cineastas que trabalhem profundamente a forma moldável, como Jan Svankmajer, fazem derrubar estas barreiras). O háptico, portanto, permite um grau de conhecimento menos mediado, logo mais íntimo, material e próximo da propriopercepção. Dois investigadores do campo dos cegos, Loomis e Lederman, em Tactual perception, falam mesmo de percepções “proximais” (o toque) e “distais” (visão e audição). Mais adiante, Benjamin acrescenta: “Porque do lado táctil não existe qualquer espécie de contrapartida para a contemplação na percepção óptica. A recepção táctil efectua-se menos pela via da atenção que pela do hábito”. O filósofo falava do reequilíbrio entre as auras cultual e de exposição que era operado pelo advento de determinadas formas da arte, tecnologicamente determinadas (o cinema, sobretudo, mas também a banda desenhada?), logo não se pode admitir um qualquer abuso de estar a negar uma possível correspondência contemplação não-visual tal como aquela que pretendemos entender junto aos cegos.
Todavia, a verdade é que apesar de parecer ser possível identificar uma mesma estrutura e paridade de conceitos entre estes binómios (óptico-háptico e distal-proximal), alguns estudos revelam que as consequências perceptivas e, logo, conceptualizadoras, entre o tacto e a visão são bem mais comuns do que imaginaríamos, informados somente pelo senso comum, ou melhor, uma abordagem primária. Num artigo por John M. Kennedy (“How the Blind Draw”, publicado na Scientific American, Janeiro 1997), o autor aponta precisamente nesse sentido. O investigador dá-nos conta das suas conclusões a partir de toda uma série de diversos testes e experiências, sendo elas a de que quer os cegos quer os que vêem partilham, em larga medida, princípios de representação do próximo-afastado, perspectiva, contorno, distância, etc.
Tudo isto para dizer que, quer numa apreciação que tome em conta o abismo intransponível da nossa experiência de seres capazes de ver daqueles que não vêem, quer numa abordagem que procure os pontos em comum, a existência de livros ilustrados para cegos desperta desde logo uma ideia paradoxal. Existem alguns livros desta categoria, ou espécie. As mais das vezes tratam-se de livros de histórias relativamente simples (no que diz respeito às narrativas, à elaboração estética, aos princípios de inventabilidade) em que as formas são traduzidas em linhas impressas em relevo e que permite ao leitor (usualmente crianças) seguirem o percurso. É o caso de Goin’ on a bear hunt, de Suzette Wright, por exemplo. Seria ridículo criticar esses livros por empregar imagens simplificadas (à la Dick Bruna) ou histórias lineares, já que o seu propósito é diferente da esmagadora maioria dos livros ilustrados que pertencem à nossa esfera de textos. Não é já tanto desejar que procurassem cumprir um trabalho tão elaborado em termos poéticos como “os outros”.
O livro negro das cores é, sem dúvida, um livro belo. E que cumpre essa função poética a que nos referimos. Acompanhando um protagonista ausente, que imaginamos como um jovem cego que descreve a sua percepção multi-sensorial (mas não pan-sensorial, já que a esfera da visão está ausente) das cores, tecem-se páginas em que é a linguagem, despertando o olfacto, o toque e o sabor, que nos dá acesso às cores que conhecemos do espectro humano. Vivacidade, sinestesia, vibração, entrega de todo o corpo são os elementos despertados pela leitura, degustação, auscultação, manuseamento deste objecto. As imagens não se afastam em demasia do que o texto cumpre, elaborando-se complexas texturas que quererão transmitir-nos as sensações anexas às cores respectivas. A impressão a dois pretos, ou melhor, a um tratamento diferenciado nas linhas que compõem o relevo, leva a que nos obrigue, aos leitores que vêem, a balançar o livro para ver o brilho e o contraste. Os leitores cegos passearão os dedos para as interpretar.
Todavia, permitam-nos que desconfiemos que este livro, sem dúvida, belo, se trata mais rapidamente de um livro de sensibilização destas questões para nós, do que um livro verdadeiramente construído para os cegos. Este livro devolve-nos, parcialmente, ou abre-nos a perspectiva, à compreensão da situação dos cegos, mas nunca, jamais, essa mesma experiência.
Uma aluna e investigadora do Mestrado da ESAP-Guimarães, Raquel Leitão, encontra-se actualmente a desenvolver um projecto de desenvolvimento de livros ilustrados para cegos, trabalhando com eles.
Desafiando-a a ler este livro com as pessoas com quem desenvolve o seu trabalho, apenas um grupo de sete pessoas nesse momento particular, fez-me gentilmente saber que a apreciação do livro levantou alguns problemas. Cito: “Todos se queixaram do Braille estar muito apagado, preferindo quase todos que lhes lesse o texto. Três deles (um adulto e dois adolescentes) viram as primeiras páginas e como não perceberam o que lá estava desistiram e não gostaram. Os outros quatro (um adulto e três adolescente) viram até ao fim, mostraram muito interesse (embora tenham falhado na identificação da maioria das imagens) e disseram que gostaram.
“Na minha opinião, o texto está excelente, com um sentido estético muito particular, conseguindo falar de uma questão tão difícil para os cegos como é a questão da cor. Mas ao nível das ilustrações, há páginas que resultam muitíssimo bem, como é o caso das que fazem alusão à água, à chuva, à relva e aos cabelos. Os cegos sentem as texturas e com a ajuda do texto identificam facilmente as imagens. No entanto, sendo a minha principal preocupação neste momento a eficácia da comunicação, verifiquei que outras são demasiado complexas, com muitas formas, com muito detalhe, fazendo com que os cegos confundam com muitos outros elementos que não os pretendidos. Em alguns casos, para além da complexidade, considero que as imagens deviam ter uma ligação mais directa com o texto para que não surjam dúvidas, como é o caso da página referente ao azul, em que se fala sobre o céu e o sol mas a representação é de um papagaio de papel. Costuma dizer-se que uma imagem vale mil palavras, mas no caso das ilustrações em relevo não se pode aplicar. Uma ilustração táctil sem palavras torna-se quase sempre ambígua ou mesmo vazia.
“É preciso também compreender um problema extremamente difícil de contornar: é a questão da técnica utilizada para produzir relevos. Existem técnicas artesanais óptimas para leitores cegos [papel rugoso, texturas diferentes, relevo proeminente]. [Parece ter bons resultados], dizem que se “vê” muito bem o relevo. Mas as técnicas disponíveis para editar um livro com relevos em massa são poucas e com muitas limitações ao nível da percepção. Assim, o livro deve ser pensado tendo sempre presentes essas limitações. Por outras palavras, ao desenvolver ilustrações para cegos, a técnica deve ter um papel importante na definição das próprias imagens”.
Convenhamos: um grupo de sete leitores é muito pouco para uma verdadeira apreciação global, para qualquer tipo de conclusão. Quer a minha leitura quer a de Raquel Leitão não se atreve a passar, por agora, de uma ideia primeira das questões a levantar e explorar (e que a investigadora explorará), e não põe em questão o valor e conquista de beleza que o livro tem, sobretudo para nós. Colocado, porém, nessoutro território sobre o qual obriga a pensar, O livro negro das cores parece carecer de uma apreciação mais específica, de um trabalho mais aturado que permita uma leitura mais exacta e justa.
Contudo, e finalmente, o livro das duas autoras venezuelanas é um livro superno, que serve para ampliar os nossos horizontes de experiência e a nossa compreensão, quer do mundo quer d[a questão d]o Outro. Haverá maior galardão num livro?
Nota: agradecimentos à editora, pelo envio da edição portuguesa; e a Raquel Leitão, pela partilha do seu saber, do seu trabalho e do seu projecto, sobre o qual esperamos dar notícia neste espaço no momento certo. Este texto não teria sido escrito sem o seu apoio.

3 comentários:

mmmnnnrrrg disse...

etá músiquinha 'nasca... e do Tommi não se fala?
abraços

Pedro Moura disse...

Tens razão, uma concessãozinha à pop dos tempos modernos... Queria usar uma música similar dos Three Silver Mountain, mais não a consigo arranjar. Quanto ao Musturi, algo virá, e em grande.
PM

mmmnnnrrrg disse...

b.s.o. para Musturi poderá ser Avarus! please don't use those poppy tunes!
abraços