27 de fevereiro de 2010

Popman Mix. Te-te (Kultura Gniew)

Popman é uma personagem que vive num mundo realista, em quase nada diverso do nosso. No entanto, ele mesmo é composto de uma pilha de jornais, amassados sob forma humana, de rosto estilizado e olhos quadrados. Como o entender? Há duas hipóteses, contraditórias. Podemo-lo ver de um ponto de vista negativo, entendo esta personagem como o que resta de um homem da sociedade ocidental mega-mediatizada, reduzido a uma frágil estrutura de sound bites, parangonas, vídeos de dez minutos no youtube, troços, não, destroços de informação, referências pop misturadas num caldo a-histórico e a-referencial, uma capacidade mitigada de reagir e viver no mundo real das pessoas que se cruzam com seres humanos completos todos os dias, vendo-as apenas como esterótipos de uma ou outra categoria, procurando formas de arrumar todas as experiências da vida a top 10s e assumindo que toda as circunstâncias da vida são eventualmente concursáveis. Há também um ponto de vista positivo, mas que atravessa os mesmíssimos factores, mas substituir-se-ia a ideia de “redução” pela de “sublimação”. (Mais)

Este livro reúne as histórias curtas desta personagem, criada pelo autor polaco Tomasz Tomaszewski, e que foram sendo publicadas em vários locais desde 2000, parece-nos. O autor está presente em antologias internacionais como a Stripburek e a Comix 2000, mas é ainda um autor que por razões previsíveis, não penetra naquele circuito mais internacional que está aberto a um número menor de autores, confirmando as dificuldades inerentes de se viver num país tão periférico para a Europa como a Polónia, como Portugal, de resto.

As catorze histórias que aqui se reunem são relativamente lineares, colocando Popman em situações que têm tanto de banal – comprar uns hambúrgueres à loja da esquina, ver televisão, visitar uma exposição do Warhol, encomendar uma pizza, ver televisão, ler uma banda desenhada – como de onírico – ser atacado por um pitbull hamburguérmano, construir uma praia de Verão na casa de banho, tornar-se uma nova peça warholiana, cair no interior de uma banda desenhada (sem jamais se aperceber, a personagem, de ser desde logo uma personagem de banda desenhada, i.e., o nível metalinguístico não lhe é acessível, apenas ao leitor).
Essas pequenas aventuras são, portanto, todas completadas dentro de um universo de referências mais ou menos partilháveis por todos aqueles habitantes do domínio hipercapizalizado da cultura pop, de rápida e momentânea satisfação e cuja única capacidade de construção no domínio histórico não é tanto a fundação de ícones (os quais ainda se revestiriam de uma aura de culto, logo de um aglomerado de qualidades que vogassem em seu torno) mas de trademarks permeáveis a qualquer novo uso, abuso e permutáveis na sua economia própria. O próprio Popman surge assim como um sinal de mediatização, um simulacro de nós mesmos, os consumidores incansáveis desses produtos. É curioso que o autor nos mostre alguns episódios cobertos de sonhos, alucinações ou meras fantasias pensadas pelo protagonista, como se realmente fosse possível destrinçar essa camada da sua vivência das restantes, que são pautadas igualmente por elementos fantasiosos. Mas essa fantasia “interna” é demonstrada através de um desenho composto por linhas mais límpidas, apenas de contorno breve, como se quisesse mostrar a diferença de grau, de completude, de volume, entre uma e outra.

Todo este exercício reveste-se, obviamente, de uma carga suficiente de crítica, quer ao próprio consumo, quer à forma como vivemos as fantasias e olhamos os outros seres humanos de acordo com essas mesmas fantasias, quer ainda os vários modos de controlo dos supostos centros de decisão e poder que desenham este mundo que habitamos. Nesse sentido, a aparente candura e até mesmo imbecilidade inepta do protagonista face aos acontecimentos em seu torno, com a única excepção do medo, da inércia, e da juvenil atracção pela aventura segura na ficção (dentro da ficção), é também um acertado retrato do que se vive. Talvez aquilo que Nietzsche chamou o “gosto efeminado de um século democrático” (sem qualquer tipo de irreverência ou desrespeito quer para as mulheres quer para as conquistas da democracia, mas entendendo essa frase e princípio no interior da crítico do filósofo à, enfim, “moleza”).
Nota: agradecimentos a Jakub Jankowski pela oferta do livro; este investigador de banda desenhada, com especial destaque para a portuguesa, tem um ensaio que encerra esta antologia. Daquilo que é perceptível para quem não lê polaco (uma palavra em cada quinze, sem quaisquer ligações sintáticas possíveis), parece ser um texto em torno precisamente das linhas de força que unem esta personagem ao seu quadro flutuante de referências, e que papel é que jogam para despertar interpretações filosóficas deste conjunto de trabalhos.

2 comentários:

Teixeira disse...

Olá,
Muito interessante este blog!
Gostava de saber onde posso encontrar este livro, que me pareceu uma história fantástica e muito interessante.
Não existe em português? não percebi se tem texto ou é só narrativa de imagem.
Obrigada,
mafalda

Pedro Moura disse...

Olá, Mafalda,
O livro tem algum texto em polaco nas histórias, mas é mínimo e não interfere na apreciação e compreensão das mesmas (ficamos é sem "acesso" aos textos do ensaio final e ao texto das badanas, mas não é grave).
A editora tem site (www.kultura.com.pl), mas não sei se aceitam encomendas directas. Se precisar, posso tentar obter uma cópia, através de vários contactos polacos (ainda que possa demorar algum tempo).
Até breve e obrigado,
Pedro