26 de setembro de 2010

Nietzsche. Se créer liberé. Michel Onfray e Maximilien Le Roy (Lombard)

A “carreira” da obra de Nietzsche é conturbada, tendo atravessado um bloco de incompreensão e más interpretações e abusos que o lançaram num limbo de ilegibilidade, e seriam necessários novos filósofos modernos (europeus, na sua maioria, de Foucault a Deleuze, Derrida a Lyotard) para recuperar a total força e liberdade do seu pensamento. Ainda estavam os germes da II Guerra Mundial a medrar, em 1936, e já a publicação surrealista Acéphale tinha no seu primeiro número um dossier intitulado “Nietzsche et les Fascistes. Une réparation”, assinado por Bataille, Klossowski e cúmplices. Mas esse artigo não impediria o limbo a vir. Nietzsche é muitas vezes citado, quase sempre reduzindo as suas frases a meras fórmulas descontextualizadas do que realmente significam, e das suas implicações, fazendo delas meros pés-de-cabra vazios em discussões inconsequentes.
Quase todo o pensamento ocidental sempre se desenvolveu ao longo de um eixo duplo, um binómio, que oporia o Ser à Substância, o que se reflectiria em muitas outras instâncias de separações, desde a linguística (sujeito e predicado), à dualidade do cartesianismo (corpo e mente), a partir das quais se instituiriam as noções – aparente e retrospectivamente “naturais” - de uma ordem e simplicidade originais. Isto é, essa Lei surgiria a explicar pelos seus próprios mecanissmos que era natural que essa Lei existisse (só tendo acesso a esse “natural” através dessa mesma Lei instituída). Michel Harr, num ensaio sobre o filósofo de língua alemã, demonstra como a crítica nietzschiana à metafísica, o seu escavar na genealogia (que é um método, de integração do olhar histórico, ao contrário dos processos críticos kantianos) da lógica, é também um contributo decisivo ao delir da substantividade do sujeito psicológico, que passa necessariamente pelo demolir das certezas da própria língua ou gramática (a qual aponta a aparentes verdades transcendentais, universais e unívocas, a tal Lei): “no fundo, a fé na gramática transmite simplesmente a ideia de que a vontade é a 'causa' do nosso pensamento. O sujeito, o si, o indivíduo, são apenas conceitos falsos adicionais, uma vez que transformam unidades fictícias em substâncias, as quais tinham na sua origem somente uma realidade linguística” (“Nietzsche and Metaphysical Language”). Deleuze, no seu livrinho dedicado a Nietzsche (mas também “adaptado” ao próprio programa de Deleuze em torno da diferença), explicita: “A genealogia significa ao mesmo tempo o valor da origem e a origem dos valores. A genealogia opõem-se tanto a valores absolutos como a valores relativos e utilitários. A genealogia significa o elemento diferencial dos valores de que deriva o seu próprio valor. A genealogia significa, portanto, origem ou nascimento, mas também diferença e distância na origem”.
Como reduzir o mundo que a ponta destas ideias pouco revela num só livro, de banda desenhada, em que a imagem tomará tanto espaço das páginas que ao desenvolvimento das ideias seria necessário? Provavelmente optando por uma drástica escolha. Essa escolha foi feita pelo autor das imagens, Maximilien Le Roy, que já encontráramos em Faire le Mur. Essa escolha havia-lhe sido ditada pela leitura de Nietzcshe, e o que procurava era uma forma de com ele dialogar, permitindo que esse diálogo levasse a um livro. Uma segunda parte dessa escolha seria o encontro com um argumento do (também) filósofo Michel Onfray, que desejava ser filme, mas encontra nestoutro território a sua vida de imagens (presumimos, porém, sem os elos da colaboração directa, sendo a adaptação feita por Le Roy de L'Innocence du Devenir).
Nietzsche. Se créer liberé é, de uma forma descomplexada, uma biografia do filósofo. Não é uma introdução ao seu pensamento, muito menos uma súmula à la Como Compreender x ou x para Principiantes, mas uma visita pelas etapas da sua vida que surgem também como etapas do percurso do seu pensamento. Para os possuidores da colecção da Relógio d'Água das suas obras, a procissão de rostos alterados das suas capas é uma visão já comum. Esses rostos correspondem, de certa forma, não apenas ao amadurecimento físico e cronológico, natural, do autor, mas a um progressivo moldar do seu pensamento, uma correcção cada vez mais exacta da sua pesquisa, mas também, mais importantemente, um afastamento da calma “natural” e sistemática da filosofia até à sua data, e um mergulho no tumulto, tumulto que se faria ressentir no próprio Nietzsche, na pele e na mente. Onfray combate um certo grau de “revisionismo estético”, isto é, os sacrifícios que se fazem à verdade biográfica ou mesmo a outras verdades em nome de efeitos de superfície do espectáculo (o cinema, a banda desenhada). Nessa senda, o livro de Maximilien Le Roy tenta explorar da forma menos melodramática possível (com algumas limitações, como veremos) essa vida, abrindo-se, em momentos-chave, quer na relação com outras personagens quer em momentos solitários de Nietzsche, e usando trechos da sua escrita, à filosofia. Alguns desses momentos diurnos são do mais comezinho possível – Nietzsche a comprar tomates e a preparar uma refeição, deitado na relva a olhar para o céu –, todavia, é exactamente essa construção diária que o permite tornar humano (mas não “demasiado humano”) e ancorar-lhe, se tal for possível, o intempestivo pensamento.
A vontade de poder, outros dos conceitos-chave de Nietzsche, procura derrubar a ideia monolítica, singular, e herdada do Antigo Testamento (“a mentalidade do escravo”), da Lei, a qual se reveste de um papel repressivo, pejado de proibições. De acordo com Judith Butler (Gender Trouble), der Wille zur Macht aponta para as possibilidades produtivas e múltiplas da lei, revelando a ficcionalidade da anterior. Se Deus morre através deste processo, mais não será por Ele ter sido criado, em primeira instância, como uma espécie auto-limitação da própria vontade, a qual, se abraçar toda a sua liberdade, se libertará dessa noção espartilhadora. Nada tem este conceito (estes conceitos, pois enrolam-se noutros, deste a ultrapassagem da moral, a criação de um novo homem, uma nova vontade férrea perante conceitos cansados) a ver com um seu aproveitamento tardio, graças às corruptelas intelectuais levadas a cabo pela sua irmã e os piores aproveitamentos propagandísticos da máquina nazi. Aliás, Nietzsche era extremamente crítico da Alemanha, e das ideias de “espírito nacional” (Geist).
Até certo ponto, houve uma corrupção da sua ideia através das divulgações populares e incompletas, um pouco como aconteceu com o repetido verso de Fernando Pessoa, “a minha pátria é a língua portuguesa”, o qual... nem é de Fernando Pessoa (é de Bernardo Soares), nem é um verso (é do Livro do Desassossego), nem cria a ideia bacoca que parece criar de orgulho nacional. Bem pelo contrário, é uma divertida diatribe contra o “sujeito” Portugal, fazendo-o dissolver na sua língua. Não nos caberá a nós, incompetência oblige, encontrar os elos entre Pessoa e Nietzsche, mas neste ponto unem-se: a crítica à noção monótona, invariável, eterna e natural de sujeito, o arrancar do véu de ficção dessa ideia, o procurar um sentido que se encontra na película maleável e construída da língua (mas depois notar-se-ão diferenças, claro está).
O que essa pesquisa sobre a língua reflecte na tessitura do livro de banda desenhada está presente nas suas estratégias visuais. Existem vários livros que trazem a coisa filosófica ao campo da banda desenhada, mas a esmagadora maioria são meras biografias ou aplicações de sebenta das lições principais dos filósofos, transformadas em pastilhas de consumo rápido (e, por isso mesmo, falhas, uma vez que a filosofia apenas com a aturada intimidade nos pode despertar; não funciona jamais como fórmula de acção rápida).
Se outra experiência há que se possa irmanar com esta, é a de Salut, Deleuze!, de Jens Balzer e Martin Tom Diek, mas onde esse livro era uma quase parábola e paródia conceptual, em que Deleuze se cruza com Foucault, Barthes e Lacan nas margens do rio Letes, a abordagem de Nietzsche. Se créer liberé é relativamente mais clássica, arrumada, mas, por isso mesmo, efectiva de um modo diferente. Trata-se de uma biografia descomplicada, trabalhando por secções e elipses, visitando curtos episódios da vida do filósofo, desde a sua infância à sua morte. A composição de páginas não procura explorações radicais, nem o texto que se imiscui procura criar momentos de tensão maior ou melodrama. Com um único senão... as terríveis dores de cabeça que o cindiam do mundo, e que levariam à demência final surgem como intervalos nas acções, são um ímpeto que o furtam ao plano de representação “normal” do resto do livro. O autor opta por isolar essas crises em vinhetas pintadas de vermelhos, de pretos, uma prancha que vai perdendo as cores, outra por onde irrompe a guerra, outra em que amarelos solares e cruéis invadem um espaço que aprisiona o filósofo, outras ainda que ele toca piano à sombra de um vulcão e sob o olhar de Zaratrusta, o desenho perdendo a qualidade realista para tombar no rápido e inacabado esboço... É precisamente por o resto da linguagem ser de uma aparentemente simplicidade, de uma abordagem clássica, que essas presenças cruéis e violentas ganham uma eficácia temível. Esse é também um escavar da linguagem da banda desenhada, atento às suas especificidades, e sem procurar mimar outras experiências nem procurar explorar afastamentos radicais dos instrumentos mais nítidos e consensuais da sua história. Se bem que o autor utilize em demasia algumas poses melodramáticas nos momentos de diálogo entre as personagens, a respiração é sempre mais calma do que excitada, deixando o tumulto para as tais crises ou para o efeito que as lições de Nietzsche devem criar nas nossas mentes. Sirva este livro como primeiro passo a esse conhecimento e relação, se o puder.

3 comentários:

teresa disse...

desculpa:näo é nada a propósito da obra nem da critica;
só para dizer que o meu e-mail escafodeukaputnickou-se
comunica através do site

Bigatrice disse...

fantástico o teu texto, parabéns!

Pedro Moura disse...

obrigado, Bigatrice...
p