12 de julho de 2005

Mente Perversa/Dirty Mind. Tim Morris/T.M. (Campo das Letras)


Sendo este volume o quarto volume desta colecção da Campo das Letras, leio-o como "a seguir" a O Escapista. (leiam-no primeiro, por favor).
Este não segue sequer uma ténue linha narrativa, mas organiza-se em cinco "capítulos", que mais serão entendidas como "séries" (temáticas, técnicas, de uma ideia, etc.). É quase como se de um catálogo se tratasse (na verdade, recorda-me o livro sobre os Chindogu, o termo japonês para objectos de design ridículo e sem verdadeiro uso prático, publicado pela W. W. Norton & Company).
Esta falsa não-organização faz-me associar este livro não propriamente a uma linha de criação do género da banda desenhada, mas a criadores que procuraram, dentro da sua área artística, tocar ao de leve num fora dessa mesma área. Em primeiro lugar, por razões que serão óbvias para quem o conhece - desculpem lá o fechamento a uma elite -, lembra-me Martin Vaughn-James, sobretudo todos aqueles detalhes nos seus livros que colocam os objectos como personagens viventes, como instigadores da acção, como vestígios de um certo nível de existência dos supostos protagonistas de cada livro. Um autor que trabalha nos verdadeiros limites da banda desenhada (e que leva aos puritanos negá-los como tal).
Os objectos propriamente ditos, dedicados aos "políticos" e "consumidores compulsivos" parecem-se como que uma versão em ilustração textuada dos Poemas com Endereço de Alexandre O'Neill, o qual tem um livro (prosa) cujo título é Uma Coisa em Forma de Assim, remetendo do seu universo literário mais uma vez para as potencialidades gráficas que o autor explora aqui. Seguramente que todos conhecerão a ideia das "figuras impossíveis" (cujos cultores maiores se apontam sempre como sendo Piranesi e Escher), e T.M. coloca uns novos aqui nas páginas do seu livro, mas confirmando o baldada que é essa expressão, umas vez que essas figuras e esses objectos existem mesmo, no papel. Não são impossíveis, são reais na existência desse livro.
Finalmente, a série "aparências" parece ser devedora - e se não o é, os pontos de toque são assombrosos - de uma série de pinturas do final dos anos 90 de Eduardo Batarda (pintor que editara num momento da sua vida uma obra de banda desenhada experimental-artística, O Peregrino Blindado/The Blind Penguin, que também parece aqui ecoar-se no duplo uso do português e inglês) intituladas Hispania Romana, em que se mostravam cenas obscenas aparentemente emergindo de um vórtice de linhas e sombras e curvas.
Se o trago à cena neste espaço, não o nego fazê-lo de certa forma por arrastamento do livro anterior, mas isso não me impede de o ler enquanto texto a par da linguagem da bd, que dela sai e a ela retorna as suas linhas de força. Ou será a minha própria mente perversa imiscuindo-se nessas leituras e interpretações?
O único senão é a tradução ser demasiado literal. Ou não?Posted by Picasa

5 comentários:

ena disse...

Folheei. Ficou na loja...

ena disse...

Folheei. Ficou na loja...

Flashfinger disse...

Folheaste duas vezes e deixaste na loja? É uma confirmação do gosto? As máquinas publicitárias funcionam sempre na mesma direcção... é bom, por vezes, arriscar onde nada se espera. Se bem que com o T.M. espera-se sempre algo estranho, diferente, surpreendente, e intrigante.

Joana disse...

folheei e trouxe; tenho os dois do Tim Morris; já os outros dois da colecção ficaram na loja; "dirty mind" é melhor que "o escapista"; "o escapista" é melhor que os outros dois da colecção;
gostos vale o que valem.

Flashfinger disse...

Sim, concordo com o facto de que os volumes de "Tim Morris" são "melhores" que os outros da colecção, mas essa comparação é falha, já que mesmo existindo numa mesma colecção, são objectos de fins e ambientes muito diferentes... Quanto ao facto de que gostos valem o que valem, não percebi bem. É outra vez o chavão de que "não se discutem"? Se sim, estou nos antípodas dessa atitude, como não poderia deixar de ser, já que acredito na capacidade de explicitar as razões que constroem as afinidades, por um lado, e na aproximação-com-distância da (por mais pequena) análise possível destas bandas desenhadas. E outras...