26 de julho de 2008

Brian Cronin. 25 anos de desenho (Ar.Co/Casa da Cerca)

Este post centrar-se-á nas duas exposições apresentadas em conjunto na Casa da Cerca, Almada, numa co-produção com a escola Ar.Co, nomeadamente o seu Departamento de Banda Desenhada e Ilustração. Essas exposições são uma retrospectiva dos cerca de 25 anos do ilustrador irlandês, mas radicado nos E.U.A., Brian Cronin, e uma colectiva de quinze autores portugueses, em torno de um tema ou matéria central. As oportunidades de encontrar gestos desta natureza fora dos grandes certames é rara, por isso, logo desde a partida, são não só produtivos como merecedores da nossa atenção. Não significa isso, porém, que sejam depositários de todo o nosso entusiasmo ou entrega.
Vejamos primeiro Brian Cronin. Este ilustrador tem uma carreira consolidada e erguida nas mais prestigiantes plataformas da ilustração editorial dos Estados Unidos, começando pela Rolling Stone, passando pela Time, a Reader’s Digest, e muitas outras publicações, ora generalistas ora especializadas, terminando no acme dos ilustradores (pelo menos na metade do mundo anglófila), a New Yorker, a qual, de quando em quando volta às bocas do mundo graças às suas controversas – política e humanamente – capas.
Cronin é um daqueles artistas que cai na categoria dos “ilustrador dos ilustradores”, isto é, um artista mais imediatamente apreciado e discutido pelos seus colegas do que por um público mais geral e mais inclinado a trabalhos de uma maior espectacularidade, seja esta do domínio do virtuosismo técnico ou dos grandes efeitos especiais do político e do social. No entanto, a força de Cronin, a meu ver, não é assim tão poderosa que o coloque num qualquer domínio único ou de singularidade fulgurante. Se alguém ocupa esses limiares, falemos de Steinberg, de Saul Bass, de Al Hirschfeld, para ficarmos sensivelmente num intervalo de tempo que parece estar na mira do trabalho de Cronin em termos de fonte estilística de inspiração. Pois o que se sente é que todo o trabalho de Cronin escapa um pouco da maior parte da produção dos seus colegas dos mesmos anos - cada vez mais apaixonados pelo computador mais enquanto ferramenta de efeitos, decoração e filtros do que de auxílio de descoberta e pensamento – para ser devedor de um design retro que mergulha as suas raízes no design inglês moderno, com artistas como Tom Eckersley, por exemplo, se bem que com mais “ruído”, intervenções de elementos visuais não-representativos sobre o espaço de representação, e a figuração vogue num figurativismo (passe o pleonasmo) quase icónico, estilizado. Algumas das suas opções e estratégias visuais podem tanto remeter ao design de propaganda militar das duas grandes guerras mundiais, como às capas da New Yorker de Sempé, como à publicidade oriental, etc. Há uma coadunação, natural, de cada um dos trabalhos à imagística empregue, sem nunca de se deixar de reconhecer as características comuns. A qualidade artesanal e conservadora a que nos referíamos é visível nas informações encontradas no catálogo e na visita à exposição, notando-se que a esmagadora maioria dos trabalhos expostos, para além de serem desenhos em aguarela, acrílico e a tinta-da-china sobre papel, parecem fazer parte de trabalhos em serigrafia, ou em outras técnicas mistas de impressão, com intervenção de instrumentos vários, colagens (alguns desenhos parecem feitos por módulos), papéis rasgados, puzzles de papéis de várias cores marchetados numa figura, posteriores ingerência com lápis ou outros materiais, etc. Mas há algo que fica aquém no trabalho de Cronin...
O catálogo em si tem alguns problemas, mas pode ser que sejam apenas uma impressão superficial minha. Inclui-se uma entrevista ao autor, mas mergulha tanto em pormenores íntimos, diria mesmo obscenos da sua vida, que a torna incómoda de ler, se não mesmo enfadonha e impertinente no que respeita à possível apreciação do seu trabalho. É pouca a matéria que revela um pensamento profundo sobre o trabalho de ilustração, como o que se descobre em Ben Shahn ou num director como Steven Heller. Enfim, uma escolha péssima. Das imagens incluídas, em uma mão-cheia delas surge uma intervenção de texto, em português e inglês, com palavras tais como “sentimento” e “naufrago” (sem acento) colocadas por sobre a imagem original (que se pode consultar, assim como o seu ano, origem, material e até o texto com que se relaciona, se for caso disso). Estamos em crer que esta opção foi tomada em consonância com o próprio artista, mas mesmo assim paira a pergunta de qual sua a mais-valia, uma vez que impede uma apreciação global e límpida da imagem em si, e o domínio que adivinhamos poético não é sobejamente vincado. Finalmente, uma vez que o catálogo não apresenta na totalidade as imagens que compõem a retrospectiva exibida, existe uma mão-cheia de trabalhos que constituiriam não apenas uma outra escolha (todas as opções têm a sua validade) como um desenho diferente, uma perspectiva diversa do trabalho de Cronin... Por exemplo, porquê a integração das ilustrações dos rostos humanos sem grandes características icónicas, informativas ou estruturais diferenciadoras, para deixar de fora a máquina de escrever/cemitério, a bandeira-caveira, a cruel mas real injunção ao voto...? Algumas destas imagens podem ser encontradas nas fotografias (de péssima qualidade) encontradas no fim deste artigo.
No seu texto de introdução, Manuel Castro Caldas indica como uma das características do trabalho de Cronin o uso, ou melhor, a instauração, de “poderosas metáforas visuais”. Este é um tema complexo, termo que já atravessou discussões variadas e mesmo direcções opostas nas decisões de como definir, pensar, aplicar essa figura da metáfora visual. Por via de várias razões, seguimos a lição de Noël Carroll (Beyond Aesthetics) para entender aquilo que uma dessas figuras possa ser. Carroll indica que a característica necessária para a existência de uma metáfora visual é a homoespacialidade, “a qual incorpora visualmente elementos díspares (relembrando categorias díspares) numa só entidade espacialmente homogénea”, representando “um estado das coisas fisicamente compossível”. Ou seja, os dedos dobrados de uma mão podem ser também os cubículos de um empregado, o braço do corruptor pode ser o mesmo braço do corrupto, o capacete do soldado de “paz” pode ser o traseiro de quem “baixou as calças”. Estas características, meramente formais, ocorrem no trabalho de Cronin, e são empregues de facto para os fins alegóricos (de cariz sobretudo político, económico, social) dos artigos que ilustravam. Para mais, as metáforas nunca são proposicionais, logo não são susceptíveis de falsidade ou de verdade, logo tudo pode ocorrer, sendo elas apenas apreciáveis por serem mais exactas ou mais profundas. Não obstante, se as metáforas têm como fito a explicitação de um elemento a partir do seu cruzamento com um outro, isso não significa que possa ser esse fito cumprido por uma infiltração do estranho na esfera do habitual. Mais: quanto mais surpreendente e inesperado for esse grau de estranhamento, mesmo que leve a um intervalo de tempo maior no seu desvendamento (mais do que de descodificação, pois se por um lado não há código, a chegada ao sentido global não é analítica e cumulativa, mas súbita – só retrospectivamente é que se reconstrói a sua assunção), maior é a sua eficácia e força. Ora o grau desta operação em Cronin é fraco, tal qual o da sua ordem de autonomia dos seus trabalhos. Se existem alguns rostos e retratos que têm uma valência própria, e alguns dos trabalhos que apresentam estas metáforas, como se costuma dizer, “falam por si”, a esmagadora maioria dos trabalhos não parece poder sobreviver em autonomia dos textos com os quais se relacionam. Basta ver a quantidade de imagens cuja leitura do título do artigo que acompanhavam ilumina e explicita o sentido da imagem, arrancando-a de uma pouco clara nébula de significado. Podem ser belas e até virtuosas, mas não possuem, muitas vezes, a sua própria língua (neste sentido, os rostos criados nas colagens de Hanoch Piven são bem mais eficazes e eloquentes).
Não obstante, há de facto a criação daquilo que se chama em inglês, “body of work”, no sentido de facto de “corpo”, algo que é organizado e reconhecível enquanto tal. Um grau de diversidade considerável mas que é elaborado no interior de um espaço autoral que lhe é próprio. Competência, sim. Mas não génio.
Nota: as duas imagens que se seguem, tal como a capa, são do catálogo. As restantes são fotografias da exposição. Perdão pela falta de qualidade das mesmas. Agradecimentos ao Ar.Co pela oferta do catálogo.

1 comentário:

diário rasgado disse...

Estas ilustrações dificilmente poderiam ser mais irritantes. Forma sem conteúdo, para consumo da geração MTV.