2 de julho de 2008

Maria y Yo. Miguel e María Gallardo (Astiberri)

Quando falara de Tres Viajes, havia indicado o estilo de Gallardo como sendo um “pop” cândido, calmo, e de uma aproximação serenamente icónica aos elementos que desejava transmitir. Com este livro, igualmente pessoal, de um sinal autobiográfico, mas mais íntimo – por envolver uma terceira pessoa, a sua filha (a segunda pessoa destas equações é sempre o leitor, ou o narratário, se preferirem) -, a apreciação desse estilo simples ganha uma valorização e uma especificação diferente.
Trata este livro da sua relação com a filha María, que é autista. O que se conta resume-se a uma temporada de férias: as observações, os episódios diários, as reacções dos demais, as impressões dos guiris (turistas) alemães, os pequenos prazeres da piscina e da praia e, uma das fortalezas construídas por María e que a acompanham sempre, a memória dela, de nomes, de relações, de quem disse o quê e do que este ou aquele fez, e quando. O livro tem um texto final, de um médico, que reelabora de um outro modo as observações certeiras e pessoalíssimas do pai Gallardo em torno da vida da filha, da “doença”, e da intransmissibilidade dessa mesma realidade e, logo, da sua unicidade. Cada um desses termos reporta-se numa relação que não se constitui como paradoxal: é possível transmitir o carácter único – não queremos dizer “transfigurado pelo amor”, mas acreditar que sim, há um carácter único a descobrir em cada pessoa, independentemente daquilo que pode ser visto como limitação à sociabilidade “normal” – de María. O pai, o autor, fá-lo através destes apontamentos simples, cada linha numa cor, ora preto ora vermelho, criando-se uma pequena ilusão de dimensões e volumes onde apenas as linhas se cruzam. O esquematismo revela mais da clareza, da imediatez e concisão, necessárias, à comunicação verbal e icónica entre pai e filha, do que de opção estética, mas nela incorre também.

Há momentos de uma observação quase maravilhosa, como a imaginação do pai Miguel em torno das percepções internas que a filha María terá quando observa e manipula, como todo o rigor que a repetição tem, quase com a aura de um ritual, os grãos de areia da praia. Quase que nos leva a pensar se não será uma transposição para a vida real, que imita a arte, dos versos de Blake de ver um mundo no grão de areia, e “a heaven in a wild flower”, sendo essa “flor selvagem”, o papel e a figura, preenchida pela protagonista. O ciclo dos poemas de Blake onde se encontra esse verso são os Augúrios da Inocência. A aproximação dele com este livro não é, por seu lado, nada inocente. É certo.
Gallardo é um desses autores que, através da sua obra, por mais simples que ela seja ou por mais inócua que ela pareça ser em contraste com outras experiências mais vincadas ou em um qualquer limiar (ou precisamente por essas razões), demonstra o quão indecidíveis são as facetas da interpretação e da crítica na banda desenhada (enfim, em quaisquer produções estéticas). O modo como diz o que diz é uno. E talvez seja isso mesmo o que o título quer dar conta, uma distância mínima entre um termo e o outro, que só serve para os aproximar até ao paroxismo.

2 comentários:

Alisson Santana disse...

Que Blog ótimo!
Procurava por informação sobre Preto e Branco -do Tayo matsumuto- e sem querer me deparei com tudo isso que vc põe no blog!

Sou fã de histórias em quadrinhos, e sempre acreditei profundamente que existia alguém no mundo publicando arte nos quadrinhos, agora tenho certeza! Existem várias pessoas pensando assim.

Que grande descoberta o seu Blog! Parabéns!

Pedro Moura disse...

Olá, Alisson, obrigado pelas palavras. Sobre o "Preto e Branco" não escrevi (apesar de ter lido), mas tenho um pequeno texto sobre outro título dele (em japonês, nunca foi traduzido, existindo uma versão em teatro - a original - e fílmica). Procure por "Hanao. Taiyo Matsumoto" no meu blog.
Até breve!
pedro